AE 140

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. "Que tens ali os que guardam a doutrina de Balaão, que ensinava Balaque a lançar escândalo diante dos filhos de Israel". Que isto signifique aqueles que são iluminados quanto ao entendimento e ensinam os veros, mas amam destruir com dolo os que são da igreja vê-se pelos históricos da Palavra a respeito de Balaão e Balaque, entendidos no sentido espiritual, que devem ser relatados primeiro. Balaão de Peor, na Mesopotâmia, era encantador e, por isso, foi chamado por Balaque, rei de Moab, para amaldiçoar o povo israelita, mas JEHOVAH impediu isso e fez com que ele falasse profecias. Mesmo assim, ele depois aconselhou Balaque a destruir o povo com dolo, tirando-o do culto a JEHOVAH para o culto de Baalpeor. Assim é que por 'Balaão' se entendem aqueles que são iluminados quanto ao entendimento e ensinam os veros, mas amam, não obstante, destruir com dolo os que são da igreja. Que Balaão tenha sido um encantador, vê-se por estas passagens em Moisés:
"Vieram os anciãos de Moabe e os anciãos de Midiã a Balaão, e [o preço dos] encantamentos em suas mãos" (Nm. 22:7);
"Quando Balaão viu que era bom aos olhos de JEHOVAH bendizer Israel, não foi, como nas vezes anteriores, ao encontro dos encantamentos" (Nm. 24:1);
e em Josué:
"Balaão, filho de Beor, o encantador, os filhos de Israel mataram à espada sobre os seus traspassados" (Js. 13:22).
Que Balaão tenha sido chamado por Balaque, rei de Moabe, para amaldiçoar o povo israelita, vê-se em Nm. 22:5, 6, 16, 17; Dt. 23:3, 4. Mas que JEHOVAH tenha impedido isso e tenha feito com que falasse profecias, Nm. 22:9, 10, 12, 20; 23:5, 16. As profecias que ele falou vêem-se em Nm. 23:7-15, 18-24; 24:5-9, 16-19, 20-24, as quais eram todas verdadeiras, pois foi dito que
"JEHOVAH pôs a palavra em sua boca" (Nm. 23:5, 12, 16).
[2] Que depois Balaão tenha aconselhado a Balaque a destruir o povo israelita com dolo, tirando-o do culto a JEHOVAH para o culto a Baalpeor, vê-se por estas passagens em Moisés:
"Em Sitim o povo começou a cometer escortação com as filhas de Moabe, e chamaram o povo para os sacrifícios aos seus deuses; o povo comeu e se curvou aos deuses deles; ajuntou-se [Israel] especialmente a Baalpeor; (...) pelo que foram mortos" de Israel "vinte e quatro mil" (Nm. 25:1-3, 9, 18);
Mataram Balaão entre os midianitas; e os filhos de Israel levaram cativas todas as mulheres dos midianitas, que eram "do conselho de Balaão para levá-los a prevaricar contra JEHOVAH pelo negócio de Peor" (Nm. 31:8, 9, 16).
Que por 'Balaão' se entendam os que são iluminados quanto ao entendimento e ensinam os veros, segue-se do que agora foi mostrado, pois ele falou profecias verdadeiras sobre Israel e também sobre o Senhor. Que as profecias tenham sido também sobre o Senhor vê-se em sua profecia em Nm. 24:17. Falar profeticamente sobre Israel não é falar sobre o povo israelita, mas sobre a igreja do Senhor que é significada por 'Israel'. A iluminação de seu entendimento ele mesmo descreveu com essas palavras:
"Dito de Balaão, filho de Peor, dito do varão de olhos abertos, dito do que ouve as palavras de Deus (...) do que cai e é revelado aos olhos" (Nm. 24:3, 4, 15, 16);
'olhos abertos' e 'revelado aos olhos' é iluminado quanto ao entendimento, pois os 'olhos', na Palavra, significam o entendimento (vê-se nos nºs 2701, 4410-4421, 4523-4534, 9051 e 10569).
[3] Por 'Balaão' são também significados aqueles que amam destruir com dolo os que são da igreja, como se vê também pelo que foi mostrado acima. E, além disso, enquanto estava montado na jumenta, meditava continuamente no uso de encantamentos para destruir os filhos de Israel; e como não pode atacá-los por meio de maldiçoes, aconselhou Balaque a destruí-los chamando-os para os sacrifícios aos seus deuses e cometendo escortação com as filhas de Moabe. Pelos 'filhos de Israel' que ele quis destruir é significada a igreja, porque a igreja fora instituída entre eles (vide nos nºs 6426, 8805 e 9340).
[4] Quero aqui explicar em poucas palavras o arcano a respeito da jumenta que Balaão montava, a qual três vezes se desviou do caminho ao ver um anjo com uma espada desembainhada e falou com Balaão. Enquanto montava a jumenta, Balaão meditava continuamente nos encantamentos contra os filhos de Israel; tinha em mente o ganho com que seria honrado, o que também se vê por estas palavras:
"Não foi, como das vezes anteriores, ao encontro dos encantamentos" (Nm. 24:1).
Também era, de coração, um encantador, pois não pensava outra coisa quando estava em si. Pela 'jumenta' que ele montava é significado, no sentido espiritual da Palavra, o entendimento iluminado; por causa disso, montar numa jumenta ou numa mula era o sinal de um alto juiz e de um rei (vê-se acima, nº 31, e, nos Arcanos Celestes, nºs 2781, 5741 e 9212). O anjo com a espada desembainhada significa o Divino Vero que ilumina e combate contra o falso (vê-se também acima, nº 131). Daí vem que por 'a jumenta se desviar três vezes do caminho' é significado que o entendimento iluminado não concordava com o pensamento do encantador, o que também se entende pelo que o anjo disse a Balaão:
"Eis que eu saí como adversário, porque mau é teu caminho diante de mim" (Nm. 22:32);
pelo 'caminho', no sentido espiritual da Palavra, é significado aquilo que o homem pensa pela intenção (vê-se na obra O Céu e o Inferno, nºs 479, 534, 590, e no opúsculo Do Juízo Final, nº 48). Que ele tenha sido restringido do pensamento e da intenção de usar encantamentos pelo temor da morte, vê-se pelo lhe foi dito pelo anjo:
"Se a jumenta não se tivesse desviado perante mim, certamente agora te mataria" (Nm. 23:33).
[5] Balaão ouviu como se a jumenta tivesse falado a ele, todavia ela não falou, mas a fala foi ouvida como se viesse dela. Que isto seja assim, foi-me mostrado muitas vezes por viva experiência. Foi-me dado ouvir cavalos como se estivessem falando, quando, todavia, a fala não vinha deles, mas como se fosse deles. Com Balaão isso realmente aconteceu, a fim de que essa história fosse descrita na Palavra por causa do sentido interno em cada uma das coisas. Aí se descreve o modo pelo qual o Senhor protege os que estão nos veros e bens para que não sejam prejudicados pelos tais que falam como se fosse por iluminação e, todavia, têm o ânimo e a intenção de seduzir. Muito se engana quem crê que Balaão poderia prejudicar os filhos de Israel por meio de encantamentos, pois os encantamentos nada valeriam contra eles. Isso o próprio Balaão confessou, dizendo:
"Adivinhação nada vale contra Jacó, nem encantamento contra Israel" (Nm. 23:23).
que Balaão tenha podido seduzir o povo com dolo foi porque esse povo era assim de coração; adoravam JEHOVAH somente com a boca, mas a Baalpeor com o coração. E como eles eram assim, por isso foi permitido que assim acontecesse.
[6] Deve-se saber, além disso, que o homem pode estar na iluminação quanto ao entendimento ainda que esteja no mal quanto à vontade, porque a faculdade intelectual foi separada da faculdade voluntária em todos os que não foram regenerados, mas agem como uma só naqueles que foram regenerados. Pertence ao entendimento saber, pensar e falar os veros, mas pertence à vontade querer as coisas que entende e, pela vontade ou amor, fazê-las. A dissidência entre um e outra aparece claramente nos espíritos maus; quando eles estão voltados para os bons espíritos, também entendem os veros e até os reconhecem, quase como se fossem iluminados; mas, tão logo se desviam deles, voltam para a sua vontade ou amor, e nada vêem do vero, e mesmo negam as coisas que ouviram (vê-se, na obra O Céu e o Inferno, os nºs 153, 424 e 455).
[7] Por causa da reforma é que foi concedido ao homem que o entendimento possa estar na iluminação, pois na vontade do homem reside todo mal, tanto o mal em que ele nasce quanto aquele em que ele mesmo se introduz. E a vontade não pode ser corrigida a não ser que o homem saiba e, pelo entendimento, reconheça os veros e bens e, também, os falsos e males. De outro modo ele não pode ter aversão a estes e amar aqueles. (Muitas coisas a respeito da vontade e do entendimento se vêem na Doutrina da Nova Jerusalém, nºs 28-35).

[VERSAO IMPRESSA]

Para estudo mais confortavel, adquira esta obra em formato impresso.