AE 146

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. "Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer do maná escondido". Que isto signifique que aqueles que vencem nas tentações terão o prazer do amor celeste vindo do Divino Humano do Senhor vê-se pela significação de 'o que vencer', que é aqueles que vencem nas tentações, pois são estes de quem se trata nos escritos ao anjo dessa Igreja (vê-se acima, nº 130); pela significação de 'dar a comer' que é ser apropriado e conjunto pelo amor e pela caridade (de que se trata nos nºs 2187, 2343, 3168, 3513 e 5643); e por se dizer 'do maná escondido', pelo qual se entende o Senhor quanto ao Divino Humano; por 'comer' dele é significado aqui o prazer do amor celeste, pois este é apropriado pelo Divino Humano do Senhor àqueles que recebem Seu amor e fé; e pela significação de 'maná escondido', que é o Senhor quanto ao Divino Humano; que Ele seja o 'Maná' vê-se por Suas palavras em João:
"Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: Do céu deu-lhes pão para que comessem. O Pão de Deus é o que desceu do céu e dá vida ao mundo; (...) Eu sou o Pão da vida; vossos pais comeram o maná no deserto e morreram. Este é o Pão que desceu do céu, e quem comer dele não morrerá. Eu sou o Pão vivo que desci do céu; se alguém comer desse Pão viverá eternamente. O Pão que Eu darei é a Minha carne" (Jo. 6:31-58).
Que seja o Senhor mesmo que se entende pelo 'Maná' e pelo 'Pão', Ele ensina abertamente, pois diz: 'Eu sou o Pão da vida... que desci do céu'. Que seja o Senhor quanto ao Divino Humano, Ele também ensina, dizendo: 'O Pão que Eu darei é a Minha carne'.
[2] A mesma coisa o Senhor ensinou quanto instituiu a Santa Ceia:
"Jesus, tomando o pão e abençoando, deu-o aos discípulos e disse: Tomai, comei, este é o Meu corpo" (Mt. 26:26; Mc.14:22; Lc. 22:19);
comer desse pão é ser conjunto a Ele pelo amor, pois 'comer' significa apropriar-se e ser conjunto, como se disse acima, e o amor é a conjunção espiritual. O mesmo é significado por 'comer no reino de Deus', em Lucas:
"Bem-aventurado aquele que come pão no reino de Deus" (Lc. 14:15);
no mesmo:
"Comereis e bebereis na Minha mesa no reino" de Deus (Lc. 22:30);
em Mateus:
"Muitos virão do oriente e do ocidente, e reclinar-se-ão com Abrahão, Isaque e Jacob no reino" de Deus (Mt. 8:11),
(Que por 'Abrahão, Isaque e Jacob' se entenda o Senhor, vê-se nos nºs 1893, 4615, 6095, 6185, 6276, 6804 e 6847). E em João:
"Trabalhai não pela comida que perece, mas pela comida que permanece (...) a qual o Filho do homem vos dará" (Jo. 6:27);
que o 'Filho do homem' seja o Senhor quanto Divino Humano, vide acima (nº 63).
[3] Que seja dito 'maná escondido' é porque o prazer do amor celeste, que recebem aqueles que são conjuntos ao Senhor pelo amor, é inteiramente desconhecido para aqueles que não estão no amor celeste, e ninguém pode receber esse prazer se não reconhece o Divino Humano do Senhor, pois esse prazer procede d'Ele. Como esse prazer foi desconhecido pelos filhos de Israel no deserto, por isso chamaram-no 'maná', como se vê em Moisés:
"Disse JEHOVAH a Moisés: Eis que Eu vos farei chover pão do céu mesmo; (...) e houve de manhã uma camada de orvalho à volta do acampamento, e quando essa camada de orvalho se elevou, eis na superfície do deserto algo pequeno, redondo, que os que o viam diziam: 'Man' isto?" (Que é isto?) (...) "Disse-lhes Moisés: Este é o pão que JEHOVAH vos dá a comer (...) E a casa de Israel chamou o seu nome 'man'" (Êx. 16:3 ao fim);
e, no mesmo:
JEHOVAH te alimentou com o 'maná, que não conhecias, nem teus pais conheceram, para te ensinar que nem só de pão vive o homem, mas de todo enunciado da boca de JEHOVAH vive o homem" (Dt. 8:3).
Que esse prazer, que se entende por 'maná' tenha sido desconhecido dos filhos de Israel era porque eles estavam no prazer corpóreo mais do que as outras nações, e quem está nesse prazer não pode absolutamente saber coisa alguma do prazer celeste. (Que os filhos de Israel tenham sido tais, vê-se na Doutrina da Nova Jerusalém, nº 248. Diz-se 'prazer' e entende-se prazer do amor, pois todo prazer da vida pertence ao amor.
[4] Como é o prazer do amor celeste que é significado por 'comer do maná escondido', por isso ele se chama 'pão dos céus' em David:
"JEHOVAH ordenou os céus [aetheribus] acima, e abriu as entradas dos céus; e fez chover sobre eles o maná para comida, e o grão dos céu lhes deu" (Sl. 78:23, 24);
e em outra passagem:
"JEHOVAH os saciou com o pão dos céus" (Sl. 105:40);
diz-se 'pão dos céus' porque chovia do céu com o orvalho, mas, no sentido espiritual, diz-se 'pão dos céus' porque flui do Senhor por meio do céu angélico. Neste sentido não se entende nenhum outro céu ou nenhum outro pão senão o que nutre a alma dos homens. Que o 'pão', aqui, signifique isso nesse sentido, vê-se pelas palavras do Senhor mesmo em João:
Ele é o Maná ou Pão que desceu do céu" (Jo. 6:31-58);
e em Moisés:
Que JEHOVAH lhes deu a comer o maná, para ensinar que não só de pão vive o homem, mas de todo enunciado da boca de JEHOVAH (Dt. 8:3);
'enunciado da boca de JEHOVAH' é tudo o que procede do Senhor, e isto é especialmente o Divino Vero unido ao Divino Bem (vê-se na obra O Céu e o Inferno, nºs 13, 133, 139, 140 e 284-290).
[5] Esse prazer foi também descrito por meio de correspondências em Moisés:
O maná se parecia "com a semente branca de coentro, e o sabor como de bolos amassados com mel" (Êx. 16:31);
e em outra passagem, no mesmo:
"Fizeram disso bolos; seu saber era como do suco de oliva" (Nm. 11:7, 8).
Que o maná fosse assim quanto à aparência e ao sabor era porque a 'semente branca de coentro' significa o vero de origem celeste; os 'bolos' são o bem do amor celeste; o 'mel' é o prazer externo; a 'oliva' [oleum] é esse amor mesmo, e seu 'suco', de que vem o saber, o seu prazer interno; a 'chuva com o orvalho' em que havia o maná é o influxo do Divino vero no qual está esse prazer. (A 'semente' significa o vero de origem celeste, como se vê nos nºs 3038, 3373, 10248, e 10249; 'branco' é atribuído a esse vero, nºs 3301, 3993, 4007 e 5319; os 'bolos' significam o bem do amor celeste, nºs 7978, 9992 e 9993; a 'oliva' significa esse amor mesmo, nºs 886, 3728, 9780, 9954, 10261 e 10269; daí é que seu 'suco' significa o seu prazer, porque daí vem o sabor, e o 'sabor' é o prazer e a amenidade, nºs 3502 e 4791-4805. Mas, nos Arcanos Celestes, muitas coisas a este respeito podem vistas na explicação do capítulo 16 do Êxodo).
[6] Que o prazer do amor celeste seja significado por 'comer do maná escondido', quando, porém, pelo 'maná escondido' é significado o Senhor quanto ao Divino Humano é porque resulta no mesmo dizer Divino Humano do Senhor ou dizer Divino Amor, pois o Senhor é o Divino Amor mesmo, e o que procede d'Ele é o Divino Bem unido ao Divino Vero; um e outro são do amor e, também, são o Senhor no céu. Assim é que 'comer d'Ele' é ser conjunto a Ele, e isto por meio do amor que vem d'Ele. (Mas isto pode ser compreendido melhor que foi dito e mostrado na obra O Céu e o Inferno, nºs 13-19, 116-125 e 126-140, e também na Doutrina da Nova Jerusalém, nºs 210-222 e 307).

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