. "Virei sobre ti como um ladrão". Que isto signifique num tempo inesperado, quando serão tirados todas as cognições adquiridas da Palavra que não foram aplicadas à vida espiritual vê-se pela significação de 'vir como um ladrão', quando se trata daqueles que não vigiam, isto é, que não adquirem para a si a vida espiritual, ou seja, que lhes serão tiradas todas as cognições adquiridas da Palavra que não foram aplicadas à vida espiritual. Que por essas mesmas palavras seja também significado o tempo inesperado da morte é porque a morte vem inesperadamente, e após a morte o homem permanece eternamente no estado da vida que adquiriu para si no mundo; por isso deve vigiar. Como poucos sabem que todas as cognições adquiridas da Palavra que não foram aplicadas à vida espiritual serão tiradas, importa, por isso, dizer de que maneira isto acontece. Todas as coisas que estão no espírito do homem permanecem nele na eternidade, mas as que não estão no espírito do homem são dissipadas após a morte, quando o homem se torna espírito. Permanecem no espírito do homem as coisas que vêm de si, por conseguinte, aquelas em que pensou por seu amor quando estava consigo mesmo, pois então o espírito pensa por si e não pelas coisas que, na memória de seu corpo, não fazem um com o seu amor. Há dois estados do homem: um quando ele pensa por seu espírito e outro quando pensa pela memória de seu corpo; esses dois estados, se não fazem um, o homem pode pensar consigo de um modo e pensar e falar diferentemente com os outros. [2] Seja, por exemplo, um pregador que ama a si e ao mundo acima de todas as coisas e considera o Divino como nada a ponto de negá-Lo de coração e, conseqüentemente, maquina todo gênero de males em companhia dos astutos e maliciosos do mundo. Esse, todavia, quando fala com os outros, principalmente quando prega, pode falar como se fosse pelo zelo Divino e pelos Divinos veros e, mesmo, nessas horas pensar assim. Mas esse estado é o estado do seu pensamento pela memória do corpo. Que seja um estado separado do estado do pensamento pelo espírito, é evidente, pois quando entregue a si mesmo pensa contra as coisas [do espírito]. Este estado é aquele em que o homem permanece após a morte, mas o outro não permanece, por ser o estado de seu corpo e não de seu espírito. Por causa disso, quando ele se torna espírito, o que acontece quando morre, rejeita de si todas as cognições que adquiriu para si da Palavra que não concordam com a vida do amor de seu espírito. Mas acontece diferentemente com aqueles que, quando entregues a si mesmos, pensam justamente a respeito do Divino, da Palavra e dos veros da igreja daí, e amam esses veros para a vida, isto é, querem viver de acordo com eles. Os pensamentos desses no espírito fazem um com seus pensamentos pela memória do corpo, portanto, um com as cognições do vero e do bem que eles têm da Palavra. E quanto mais fazem um, mais são adquiridas as cognições dessa vida espiritual, pois são elevadas, pelo Senhor, do homem externo ou natural para o interno ou espiritual e fazem a sua vida, assim, a vida de seu entendimento e sua vontade. Os veros, ali, são vivos, pois são Divinos e, daí, por eles o homem vive. (Que a coisa se passe assim, foi-me concedido saber por muitas experiências que, se eu fosse citar todas, encheriam páginas, como se disse. Vê-se alguma coisa a respeito na obra O Céu e o Inferno, nºs 491-498, 499-511, e acima, nº 114). [3] Por estas explicações pode-se ver agora o que se entende no sentido espiritual por 'virei sobre ti como um ladrão', ou seja, que após a morte são tiradas todas as cognições adquiridas da Palavra que não foram aplicadas à vida espiritual. O mesmo se entende, também, por estas palavras no Apocalipse: "Eis que venho como um ladrão; bem-aventurado aquele que vigia e guarda suas vestes, para que não ande nu" (Ap. 16:15); diz-se 'como um ladrão' porque os males e falsos daí roubam e arrebatam no homem natural as cognições do vero e do bem que ali há da Palavra, pois as coisas que não são amadas são arrebatadas. No homem há ou o amor do mal e, daí, do falso, ou o amor do bem e, daí, do vero. Esses dois amores são opostos entre si, pelo que um não pode estar onde estiver o outro, pois "ninguém pode servir a dois senhores" sem amar a um e ter ódio ao outro (Mt. 6:24). [4] Visto que os males e, daí, os falsos penetram dos interiores e minam42 a parede, por assim dizer, que existe entre o estado do pensamento do homem pelo espírito e o estado do seu pensamento pelo corpo, e arrebatam as cognições do vero e do bem que habitam exteriormente no homem, por isso são estes que se entendem pelos 'ladrões' também nas seguintes passagens. Em Mateus: "Não ajunteis tesouros na terra (...) mas no céu, onde os ladrões não minam nem roubam" (Mt. 6:19, 20); os 'tesouros' são as cognições do vero e do bem; ajuntá-los 'no céu' é no homem espiritual, pois este está no céu. (Que os 'tesouros' sejam as cognições do vero e bem vê-se nos nºs 1694, 4508 e 10227; e que o homem interno espiritual esteja no céu, na Doutrina da Nova Jerusalém, nºs 36-50). [5] No mesmo: "Vigiais, pois, porque não sabeis em que hora o vosso Senhor virá; sabei isto, se o pai de família soubesse em que hora havia de vir o ladrão, vigiaria, e não deixaria minar sua casa" (Mt. 24:42, 43); pelo que se entende que, se o homem soubesse a hora de sua morte certamente se prepararia, mas não pelo amor do vero e do bem, mas pelo temor do inferno; e tudo o que o homem faz pelo temor não permanece nele, mas, sim, o que faz pelo amor; por isso deve continuamente se preparar (vê-se na Doutrina da Nova Jerusalém, nºs 143 e 168). [6] Em Obadias: "Se a ti viessem ladrões, ou roubadores da noite - como estás cortado! - não roubariam o que lhes bastasse?" (Ob. v. 5) aqui, também, os falsos e males são chamados 'ladrões'; a eles se aplica 'roubar'; os falsos são os 'ladrões' e os males são os 'roubadores da noite'. Diz-se 'noite' porque a 'noite' significa o estado de nenhum amor nem fé. [7] Em Joel: "Percorrem a cidade, correm no muro, sobem nas casas, entram pelas janelas como o ladrão" (Jl. 2:9); aí se trata da devastação da igreja pelos falsos provenientes do mal; a 'cidade' e o 'muro' significam as coisas que são da doutrina; a 'casa' e as 'janelas' são as coisas da mente que recebe, a 'casa' a parte da mente que se chama vontade, onde há o bem, e 'janelas' a parte da mente que se chama entendimento, onde há o vero. (Que a 'cidade', na Palavra, seja a doutrina, vê-se nos nºs 402, 2449, 2712, 2943, 3216, 4492 e 4493; que o 'muro' seja o vero da doutrina que protege, nºs 6419; que a 'casa' seja a parte da mente que se chama vontade, onde há o bem nºs 2231, 2233, 2559, 3128, 5023, 6690, 7353, 7910, 7919 e 9150; e que as 'janelas' sejam a parte da mente que se chama entendimento, onde há o vero, nºs 655, 658 e 3391.) [8] Em Oséias: "Curei Israel; então foi revelada a iniqüidade de Efraim e os males de Samaria, porque fizeram uma mentira, e o veio o ladrão, e espalhou-se a horda por fora" (Os. 7:1). a 'iniqüidade de Efraim' significa os falsos do entendimento, e os 'males de Samaria' significam o mal da vontade; 'fazer mentira' é pensar e querer o falso do mal; o 'ladrão' é o falso que rouba e dissipa o vero, e a 'horda' que se espalha é o mal que arrebata o bem. (Que 'Efraim' seja o entendimento desses tais na igreja vê-se nos nºs 3969, 5354, 6222, 6234, 6238, 6267 e 6296; que a 'mentira' seja o falso do mal, nºs 8908 e 9248; que a 'horda' seja o bem que arrebata o mal e, no sentido oposto, o mal que arrebata o bem, nºs 3934, 3935, 6404 e 6405). [9] Estas coisas foram citadas para que se saiba o que é significado na Palavra pelo 'ladrão', ou seja, é o falso que devasta, isto é, o falso que rouba e destrói o vero. Acima se mostrou que após a morte são tiradas todas as cognições do vero e do bem provenientes da Palavra que não foram aplicadas à vida espiritual, por conseguinte, daqueles que não se tornaram espirituais pelas cognições da Palavra. Isto também é significado por muitas passagens nos históricos da Palavra que, todavia, ninguém pode ver a menos que conheça o sentido espiritual da Palavra. Isto foi significado pelo fato de os filhos de Israel tomarem dos egípcios ouro, prata e vestes, assim, por ter-lhes tirado por furto, por assim dizer, a cujo respeito assim se lê em Moisés: Foi-lhes ordenado que tomassem muito 'dos vasos de ouro e vasos de prata e vestes dos egípcios; e JEHOVAH [lhes] deu graça aos olhos dos egípcios, para que lhes dessem muito e, assim, despojassem os egípcios" (Êx. 12: 35, 36). pelos 'egípcios' foram representados os que são meramente naturais e, todavia, possuem muitas cognições; pelos 'filhos de Israel', os que são espirituais; pelos 'vasos de ouro', 'de prata' e também as 'vestes' são significadas as cognições do vero e do bem que os espirituais aplicam ao bem, mas os naturais aplicam ao mal e, assim, os destroem. Coisa semelhante foi significada pelo fato de destruírem as nações, ao mesmo tempo em que queimavam e saqueavam todas as coisas que nelas havia, a cujo respeito se lê em várias passagens no livro de Josué como também nos livros de Samuel e dos Reis, pois as nações da terra de Canaan representavam aqueles que estão nos males e nos falsos, enquanto os filhos de Israel representavam aqueles que estão nos veros e bens. [10] Que as cognições do vero e do bem que provêm da Palavra sejam tiradas daqueles que não adquiriram para si a vida espiritual, é o que se entende também, nas parábolas do Senhor a respeito dos talentos e das minas dadas aos servos para que negociassem e lucrassem, pelo servo que não negociou e não lucrou, de quem assim se diz nas parábolas: E disse o senhor ao que escondeu o seu talento na terra: "Servo mau e negligente! (...) Era preciso emprestar minha prata aos cambistas, para que, vindo eu, recebesse o que é meu com lucro; tirai pois dele [o talento] e daí ao que tem dez talentos; pois a todo o que tem será dado, para que tenha em abundância, mas ao que não tem, isso o que tem será tirado; e o servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores" (Mt. 25:14-30); e em outra passagem: Veio aquele que recebera uma mina, dizendo: "Senhor, eis a tua mina, que mantive guardava num lenço;" disse o Senhor: "Por que não deste meu dinheiro ao banco para que, vindo eu, o recebesse com lucro? E disse: Tirai-lhe a mina e daí ao que tem dez minas (...) Digo-vos: A todo que tem será dado, mas, do que não tem, até o que tem será tirado" (Lc. 19:13-26); 'talentos', 'minas' e 'dinheiro', aí, significam as cognições do vero e do bem provenientes da Palavra; 'negociar', 'lucrar', 'dá-los aos cambistas' ou 'ao banco' significa adquirir para si a vida espiritual e a inteligência por meios dessas coisas; 'guardar na terra' e 'no lenço' significa estar somente na memória do homem natural; por isso a respeito deste se diz que o que tem lhe será tirado, segundo as coisas que foram ditas no começo deste artigo. [11] Isto acontece, na outra vida, com todos os que adquiriram para si cognições da Palavra, porém não os puseram na vida, mas somente na memória. Quem tem as cognições da Palavra somente na memória, ainda que sejam aos milhares, e não as aplica à vida, permanece, todavia, natural como antes. Aplicar à vida as cognições que vêm da Palavra é pensar por elas como em si mesmo ou pensar em seu espírito, e querê-los e praticá-los, pois isto é amar os veros porque são veros. E são estes que se tornam espirituais por meio das cognições da Palavra.