. "Isto diz o Santo verdadeiro". Que isto signifique de Quem procede essa fé vê-se pela significação de 'Santo Verdadeiro' quando se trata do Senhor, que é Aquele de quem procedem a caridade e a fé. Diz-se 'Santo' porque d'Ele vem a caridade, e 'Verdadeiro' porque d'Ele vem a fé. Que o Senhor seja chamado 'Santo' porque d'Ele vem a caridade e que, portanto, o adjetivo 'santo', na Palavra, se atribui à caridade e, daí, à fé, é o que se verá logo adiante. Que, porém, o Senhor seja chamado 'Verdadeiro' porque d'Ele vem a fé, e que, portanto, o adjetivo 'verdadeiro', na Palavra, se atribui à fé, é porque tudo o que é verdadeiro pertence à fé, pois se chama 'verdadeiro' aquilo em que se crê; as outras coisas não pertencem à fé porque não se crê nelas. Mas, visto que aqui se trata da fé que pertence à caridade, dir-se-á primeiro alguma coisa a respeito da fé e de sua qualidade. [2] Existe a fé espiritual e existe a fé meramente natural. A fé espiritual é tudo o que vem da caridade, e é a caridade, em sua essência. A caridade ou amor para com o próximo é amar o que é verdadeiro, sincero e justo, e, pelo querer, fazê-los. Porque o próximo, no sentido espiritual, não é um homem qualquer, mas é aquilo que está no homem; se isto é verdadeiro, sincero e justo, e o homem é amado por causa disso, então o próximo é amado. Que isto se entenda pela caridade no sentido espiritual, qualquer um pode saber se tão somente refletir. Cada um ama a outrem não por causa da pessoa, mas por causa daquilo que está nela; daí vem toda amizade, todo favor e toda honra. Disso se segue que amar os homens pelo que houver neles de verdadeiro, sincero e justo é o amor espiritual, pois o verdadeiro, o sincero e o justo são coisas espirituais, porque vêm do céu desde o Senhor. Com efeito, ninguém pensa, quer e faz o bem que seja bem em si, mas tudo vem do Senhor. E o verdadeiro, o sincero e o justo são bens que em si são bens quando vêm do Senhor. Estas coisas são, portanto, o próximo, no sentido espiritual. Daí se vê o que se entende nesse sentido por amar o próximo ou a caridade. A fé espiritual vem daí, pois tudo o que é amado se chama verdadeiro quando se pensa nisso. Que seja assim, qualquer um também pode ver, se refletir, porque cada um confirma aquilo que ama por meio de muitas coisas no pensamento, e todas as coisas pelas quais confirma são chamadas veros. Ninguém tem vero algum de outra origem. Segue-se daí que a qualidade dos veros que o homem tem é conforme a qualidade do amor em que está. Por conseguinte, se há nele o amor espiritual, também os veros são espirituais, pois estes agem em comum com o seu amor. Todos os veros em conjunto se chamam fé, porque se crê neles. Assim se torna evidente que a fé espiritual em sua essência é a caridade. Estas coisas se dizem a respeito da fé espiritual. [3] A fé meramente natural, porém, ainda que seja chamada fé, não é a fé da igreja, mas somente uma ciência. A razão pela qual não é a fé da igreja é porque não procede do amor para com o próximo ou caridade, que é o espiritual mesmo de que a fé procede, mas de uma espécie de amor natural que se refere ou ao amor de si ou ao amor do mundo, e tudo o que procede desses amores é natural. O amor forma o espírito do homem, pois o homem, quanto ao seu espírito, é inteiramente conforme o seu amor; daí ele pensa, quer e faz. Por esse motivo, não apropria vero algum à sua vida senão o vero que é de seu amor, e o vero que é do amor de si e do mundo é meramente natural, porque vem do homem e do mundo, e não do Senhor e do céu. De fato, ele ama o vero não pelo amor do vero, mas pelo amor da honra, do ganho e da reputação, amor ao qual ele serve. E como o vero é assim, também a fé é assim. Daí vem que essa fé não é a fé do vero da igreja, ou a fé no sentido espiritual, mas num sentido natural, que é uma ciência. Por isso, também, visto que nada disso está no espírito do homem, mas somente em sua memória, junto com as outras coisas do mundo, também é dissipado após a morte, pois só permanece no homem após a morte o que é de seu amor, porque, como se disse, o amor forma o espírito do homem, e o homem, quanto ao espírito, é inteiramente tal qual é o seu amor. (Outras coisas a respeito da caridade e, assim, da fé, vêem-se na Doutrina da Nova Jerusalém, nºs 84-106, 108-122, e no opúsculo Do Juízo Final, nºs 33-39, onde se mostrou que não existe fé onde não existir caridade). [4] Que o 'santo', na Palavra, se refira ao Divino Vero e, assim, à caridade e sua fé, vê-se pelas passagens ali onde esse termo é nomeado. Há duas coisas que procedem do Senhor e são recebidas pelos anjos, o Divino Bem e o Divino Vero. Esses dois procedem unidos do Senhor, mas são recebidos diversamente pelos anjos; alguns recebem o Divino Bem mais do que o Divino Vero, e outros recebem o Divino Vero mais do que o Divino Bem. Aqueles que recebem o Divino Bem mais do que o Divino Vero constituem o reino celeste do Senhor e se chamam anjos celestes; na Palavra, são chamados 'justos'. E aqueles que recebem mais o Divino Vero do que o Divino Bem constituem o reino espiritual do Senhor e se chamam anjos espirituais; na Palavra, são chamados 'santos'. (A respeito desses dois reinos e de seus anjos, vê-se na obra O Céu e o Inferno os nºs 20-28). Assim é que pelo 'justo' e pela 'justiça', na Palavra, se entende o Divino Bem e o que daí procede, enquanto pelo 'santo' e pela 'santidade' se entende o Divino Vero e o que daí procede. Por aí se pode ver o que se entende na Palavra por 'justificar' e o que se entende por 'santificar', como no Apocalipse: "Quem é justo, justifique-se ainda; quem é santo, santifique-se ainda" (Ap. 22:11); e em Lucas: "Para servi-Lo (...) em santidade e em justiça" (Lc. 1:74, 75). [5] Como o Divino Vero procedente do Senhor se entende pelo 'santo', por isso o Senhor é chamado na Palavra 'Santo', 'Santo de Deus', 'Santo de Israel' e 'Santo de Jacob'; e também é daí que os anjos são chamados 'santos', como também os profetas e apóstolos; e ainda daí é que Jerusalém se chama 'santa'. Que o Senhor seja chamado 'Santo', 'Santo de Deus', 'Santo de Israel' e 'Santo de Jacob' vê-se em Is. 29:23; 31:1; 40:25; 41:14, 16; 43:3; 49:7; Dn. 4:13; 9:24; Mc. 1:24; Lc. 4:34. E, também, 'Rei dos santos', no Apocalipse: "Justos e verdadeiros são os Teus caminhos, ó Rei dos santos" (Ap. 15:3). Que o Senhor seja chamado 'Santo', 'Santo de Deus', 'Santo de Israel' e 'Santo de Jacob' é porque somente Ele é santo e nenhum outro, o que também se diz no Apocalipse: "Quem Te não temerá, ó Senhor, e glorificará Teu nome? Porque só [Tu] és santo" (Ap. 15:4). [6] Que os anjos, profetas e apóstolos sejam chamados 'santos' é porque por eles se entende, no sentido espiritual, o Divino Vero. E que Jerusalém seja chamada 'cidade santa' é porque por ela se entende, no sentido espiritual, a igreja quanto à doutrina do vero. Que os anjos sejam chamados 'santos' na Palavra vê-se em Mt. 25:31; Mc. 8:38; Lc. 9:26; os profetas, Mc. 6:20; Lc. 1:70; Ap. 18:20; os apóstolos, Ap. 18:20; que Jerusalém seja chamada 'cidade santa', Is. 48:2; 66:20, 22; Dn. 9:24; Mt. 27:53; Ap. 21:2, 10. (Que pelos 'anjos', na Palavra, se entenda o Divino Vero procedente do Senhor, vê-se acima, nºs 130 e 200; que o mesmo seja entendido pelas profetas, vê-se nos Arcanos Celestes, nºs 2534 e 7269; também pelos apóstolos, acima, nº 100; que por 'Jerusalém' se entenda na Palavra a igreja quanto à doutrina do vero, vê-se na Doutrina da Nova Jerusalém, nº 6). Por aí se pode ver donde vem que o Divino Vero procedente do Senhor é chamado 'Espírito da verdade' e 'Espírito Santo' (vê-se acima, nº 183) e, também, por que o céu se chama 'habitáculo de santidade' (Is. 63:15; Dt. 26:15) e a igreja se chama 'santuário' (Jr. 17:12; Lm. 2:7; Sl. 68:35). [7] Que o adjetivo 'santo' seja atribuído ao Divino Vero, vê-se pelas seguintes passagens. Em João: Jesus, orando, disse: Pai, 'santifica-os em Tua verdade; a Tua palavra é a verdade; (...) e por eles Eu Me santifico a Mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade" (Jo. 17:17-19); aqui, 'santificar' se diz claramente a respeito da verdade, e 'santificados' se dizem daqueles que recebem o Divino Vero procedente do Senhor. Em Moisés: "JEHOVAH veio de Sinai (...) das miríades de santidade, da Sua destra o fogo da lei para eles; também o Que ama o povo, na Tua mão [estão] todos os seus santos, e eles se prostrarão ao Teu pé; ele receberá de Tuas palavras" (Dt. 33:2, 3); 'Sinai' significa o céu onde está o Senhor, do qual vem o Divino Vero, ou do qual vem a Lei nos sentidos restrito e lato; 'miríades de santidade' significam o Divino Vero; 'Lei' significa, no sentido restrito, os dez preceitos do Decálogo, e, no sentido lato, toda a Palavra, que é o Divino Vero; 'povos', na Palavra, se dizem dos que estão nos veros, e, dentre eles, os que estão nos veros são chamados 'santos'; 'prostrados ao Teu pé' e 'receber de Teus veros' é receber santamente o Divino Vero nos últimos, que á a Palavra no sentido da letra, e daí ser instruído. Por aí se pode ver que cada uma das coisas nessa profecia tem significação no sentido espiritual. (Que 'Sinai', na Palavra, signifique o Senhor, de Quem procede o Divino Vero ou de Quem procede a Lei nos sentidos restrito e lato, vê-se nos nºs 8399, 8753, 8793, 8805 e 9420. Que a 'lei' signifique, no sentido restrito, os dez preceitos do Decálogo, e, no sentido lato, toda a Palavra, nºs 2606, 3382, 6752 e 7463. Que 'povos' se diz dos que estão nos veros, e 'nações' dos que estão nos bens, nºs 1259, 1260, 2928, 3295, 3581, 6451, 6465, 7207 e 10288. Que o 'pé', o 'lugar dos pés' e o 'escabelo dos pés', quando se trata do Senhor, signifiquem o Divino Vero nos últimos, assim, a Palavra na letra, nº 9406). Daí se vê que 'miríades de santidade' são os Divinos veros, e que os 'santos' ali se dizem dos que estão nos Divinos veros. [8] Em Moisés: "Fala a toda a assembléia dos filhos de Israel e dize-lhes: Santos sereis, porque Eu, JEHOVAH, [sou] santo" [o Deus] de Israel (Lv. 19:2). Nesse capítulo [do Levítico] se trata dos estatutos, juízos e preceitos que deviam ser observados; e como por eles são significados os Divinos veros, por isso se diz que eles seriam 'santos'. Também, por 'Israel' é significada a igreja espiritual, que é aquela que está nos Divinos veros; daí é que se diz: 'Eu, JEHOVAH, [sou] santo', [o Deus] de Israel. No mesmo: "Santificai-vos e sereis santos (...) e observareis os Meus estatutos, para os fazerdes" (Lv. 20:7, 8); aí também se trata dos estatutos, juízos e preceitos que deviam ser observados. No mesmo: Se cumprissem os estatutos e juízos, seriam povo santo de JEHOVAH (Dt. 26:15, 16, 19); em David: "Saciar-nos-emos com o bem de Tua casa, com o santo do Teu templo" (Sl. 65:4); diz-se 'saciar-se com o bem da casa de JEHOVAH' e com o 'santo do Seu templo' porque a 'casa de Deus', no sentido supremo, significa o Senhor quanto ao Divino Bem, e 'templo, quanto ao Divino Vero (vê-se no nº 3720). Em Zacarias: "Naquele dia haverá sobre as campainhas dos cavalos: santidade a JEHOVAH " (Zc. 14:20); trata-se aí da instauração da nova igreja, e pelas 'campainhas' são significados os conhecimentos verdadeiros do entendimento. (Que as 'campainhas' signifiquem os veros, vê-se nos nºs 9921 e 9926; e que o 'cavalo' signifique o entendimento, na obra Do Cavalo Branco, nºs 1-4). [9] Por aí se pode ver o que representava e significava Que na mitra que havia na cabeça de Aarão foi posta uma plaqueta em que se achava gravado: "Santidade a JEHOVAH " (Êx. 28:36-38; 39:30-31), pois a 'mitra' significava a sabedoria que é do Divino Vero (vê-se nos nºs 9827 e 9949). Depois, o que também representava e significava Que fossem ungidos com óleo Aarão, os filhos, suas vestes, o altar e o tabernáculo com cada uma das coisas ali e, assim, que "fossem santificados" (Êx. 29:1-36; 30:22-30; Lv. 8:1 ao fim), pois o 'óleo' significava o Divino Bem do Divino Amor, e a 'santificação' significava o Divino procedente, porque o Divino Bem é o que santifica e o Divino Vero é o que daí é santo. [10] Que o adjetivo 'santo' se refira à caridade, vê-se pelo que acima se disse a respeito dos anjos do céu, a saber, que há os que recebem o Divino Bem mais do que o Divino Vero e os que recebem o Divino Vero mais do que o Divino Bem. Os que recebem o Divino Bem mais do que o Divino Vero constituem o reino celeste do Senhor, e são os que se acham no amor ao Senhor; e, como estão no amor ao Senhor, são chamados 'justos'. Mas os que recebem o Divino Vero mais do que o Divino Bem constituem o reino espiritual do Senhor, e são os que se acham na caridade para com o próximo; esses, por estarem na caridade para com o próximo, são chamados 'santos'. (Que haja dois amores que fazem o céu, a saber, o amor ao Senhor e o amor para com o próximo ou caridade, e que, daí, os céus sejam distintos em dois reinos, isto é, o reino celeste e o reino espiritual, vê-se na obra O Céu e o Inferno, nºs 13-19 e 20-28).