. "O que tem a chave de David". Que isto signifique o que tem o poder pelo Divino Vero vê-se pela significação de 'chave', que é o poder de abrir e de fechar, aqui, o céu e o inferno, porquanto se segue: 'o que abre e ninguém fecha, e fecha e ninguém abre'. Assim, pela 'chave', aqui, entende-se o poder de salvar (como acima, nº 86), pois abrir o céu e fechar o inferno é salvar; e pela representação de 'David', que é o Senhor quanto ao Divino Vero. Que por 'David', na Palavra, se entenda o Senhor é porque o Senhor quanto ao Divino Vero foi representado na Palavra pelos reis, e o Senhor quanto ao Divino Bem foi representado pelos sacerdotes ali. O Senhor foi representado principalmente pelo rei David porque ele teve muito cuidado com as coisas da igreja e também escreveu os Salmos. (Que pelos 'reis' na Palavra seja significado o Divino Vero e pelos 'sacerdotes' o Divino Bem vê-se acima, nº 31; além disso, que todos os nomes de pessoas e de lugares na Palavra signifiquem coisas espirituais que são da igreja e do céu, nºs 19, 50 e 102). A razão de aqui se dizer 'o que tem a chave de David' é porque David, como já foi dito, representa o Senhor quanto ao Divino Vero, e todo poder nos céus e nas terras pertencem ao Senhor, do Divino Bem por meio do Divino Vero, pois, em geral, o bem sem o vero não tem poder algum, tampouco o vero sem o bem, pois o bem age por meio do vero. Assim é que o Divino Bem e o Divino Vero procedem unidos do Senhor, e quanto mais os anjos os recebem conjuntamente, mais poder têm. Daí é, então, que se diz 'chave de David'. (Que todo poder esteja nos veros pelo bem, vê-se na obra O Céu e o Inferno, nºs 228-233, onde se trata do poder dos anjos no céu, e, também, no nº 539 ali).
[2] Que por 'David', na Palavra, se entenda o Senhor, vê-se claramente por alguns lugares onde ele é nomeado nos Profetas, como em Ezequiel:
"Eles me Serão por povo, e Eu lhes serei por Deus, e Meu servo David rei sobre eles, para que haja um só Pastor para todos eles; (...) habitarão sobre a terra (...) eles e os seus filhos, e os filhos dos seus filhos até a eternidade, e David Meu servo [será] príncipe para eles na eternidade" (Ez. 37:23-25);
em Oséias:
"Voltarão os filhos de Israel, e buscarão a JEHOVAH, seu Deus, e a David, seu rei, e com temor virão a JEHOVAH e ao Seu bem no fim dos dias" (Os. 3:5);
diz-se 'buscarão a JEHOVAH, seu Deus, e a David, seu rei' porque por 'JEHOVAH', na Palavra, se entende o Senhor quanto ao Divino Bem, que é o Divino Ser, e por 'David rei' se entende o Senhor quanto ao Divino Vero, que é o Divino Existir. (Que por 'JEHOVAH', na Palavra, se entenda o Senhor quanto ao Divino Vero, vê-se nos Arcanos Celestes, nºs 732, 2586, 2807, 2822, 3921, 4253, 4402, 7010, 9167 e 9315).
[3] Em Zacarias:
"JEHOVAH salvará primeiro as tendas de Judá, para que não se exalte a glória da casa de David e a glória dos habitantes de Jerusalém sobre Judá. Naquele dia JEHOVAH protegerá o habitante de Jerusalém (...) e a casa de David como Deus e como anjos de JEHOVAH, diante deles; (...) E derramarei espírito de graça sobre a casa de David e sobre o habitante de Jerusalém; (...) naquele dia haverá uma fonte aberta para a casa de David e para os habitantes de Jerusalém (Zac. 12-7-8, 10; 13:1).
Trata-se aí do advento do Senhor e, por conseguinte, da salvação daqueles que são de Seu reino espiritual; pelas 'tendas de Judá' se entende o reino celeste; e pela 'casa de David e pelo habitante de Jerusalém', o reino espiritual. O reino espiritual é constituído por aqueles que, no céu e na terra, estão no Divino Vero, e o reino celeste por aqueles que estão no Divino Bem (como se viu há pouco, nº 204). Por aí se pode ver o que se entende por essas palavras, a saber, que esses dois reinos agem como um, e um não se exalta sobre o outro. (A respeito desses dois reinos vê-se na obra O Céu e o Inferno os nºs 20-28). Que por 'Judá' seja significado o Senhor quanto ao amor celeste e o reino celeste do Senhor, vê-se acima, nº 119; e que por 'Jerusalém' seja significado o reino espiritual do Senhor, nos Arcanos Celestes, nºs 402, 3654 e 9166. O mesmo é significado, pois, pela 'casa de David', pelo que se diz: 'a casa de David como Deus e como o anjo de JEHOVAH'; por 'Deus' também se entende o Senhor quanto ao Divino Vero, nºs 2586, 2769, 2807, 2822, 3921, 4287, 4402, 7010 e 9167; semelhantemente, pelo 'anjo de JEHOVAH', como se vê acima, nºs 130 e 200).
[4] Coisa semelhante é significada por 'David' e por sua 'casa' também nas seguintes passagens. Em Isaías:
"Inclinai o vosso ouvido, e vinde a Mim; ouvi, e viva a vossa alma, e farei convosco uma aliança eterna, as misericórdias firmes de David; dei-o por testemunha dos povos, por príncipe e legislador das nações" (Is. 55:3, 4);
estas palavras se referem ao Senhor, que, aqui, é 'David'. No mesmo:
"Nos céus estabelecerás a Tua verdade; firmarei uma aliança com Meu Eleito, jurei a David, Meu servo: Na eternidade estabelecerei a Tua semente, e edificarei na geração e geração o Teu trono; e os céus confessarão Tuas maravilhas, JEHOVAH, e a Tua verdade na congregação dos santos" (Sl. 89:2, 5);
palavras estas que também se dizem a respeito do Senhor e não de David, pois se diz: 'jurei a David, Meu servo: Na eternidade estabelecerei a Tua semente, e edificarei na geração e geração o Teu trono', pois não se enquadram com David, cuja semente e cujo trono não foram estabelecidos eternamente e, todavia, JEHOVAH jurou, e o juramento de JEHOVAH é uma confirmação irrevogável (vê-se no nº 2842). Pela 'semente de David', no sentido espiritual, se entendem aqueles que estão pelo Senhor nos veros provenientes do bem (vê-se nos nºs 3373, 3380, 10249 e 10445); e pelo 'trono' se entende o reino espiritual do Senhor (nºs. 5313, 5922, 6397 e 8625). Que David seja chamado 'Meu servo', (como também acima, em Ezequiel 37:23-25) é porque 'servo', na Palavra, diz respeito a todos e tudo o que serve e ministra (nºs. 3441, 7143 e 8241), e o Divino Vero procedente serve e ministra o Divino Bem do qual procede. Que seja o Senhor quanto ao Divino Vero, ou que seja o Divino Vero procedente do Senhor que se entende por 'David', é evidente, pois se diz: 'nos céus estabelecerás a Tua verdade' e 'os céus confessarão... a Tua verdade na congregação dos santos'. Que, também, os 'santos' se refiram àqueles que estão nos Divinos veros, vê-se logo acima, nº 204.
[5] No mesmo:
"Não profanarei Minha aliança, e o enunciado dos Meus lábios não mudarei. Uma vez jurei por Minha santidade, não mentirei a David; a Sua semente será na eternidade, e Seu trono será estabelecido na eternidade como o sol diante de Mim, como a lua, testemunha fiel nas nuvens" (Sl. 89:34-37);
que estas palavras sejam ditas a respeito do Senhor é evidente em todo esse salmo, pois aí se trata do Seu advento e, em seguida, de Sua rejeição por parte da nação judaica. Que aí se trate do Senhor e que Ele seja aí entendido por 'David' vê-se por estas palavras no mesmo salmo:
"Achei David, Meu servo; com o óleo de Minha santidade o ungi; (...) porei no mar a sua mão, e nos rios a sua direita. Ele Me chamará: Tu és o meu Pai, Deus meu e Rocha de minha salvação. Eu o darei por primogênito, mais excelso que os reis da terra; porei o seu trono como os dias dos céus" (Sl. 89:20, 25-27, 29).
Por 'David', pelo 'Ungido' e pelo 'Rei' se entende também o Senhor em outras passagens dos Salmos, o que pode ser visto claramente por aqueles que entendem a Palavra espiritualmente, mas obscuramente por aqueles que a entendem apenas naturalmente, de acordo com essas palavras no mesmo livro:
"Teus sacerdotes se vestirão de justiça, e Teus santos jubilarão, por causa de David, Teu servo; não desvies as faces de Teu Ungido; (...) ali farei germinar o chifre de David, porei uma lâmpada para Meu ungido (...) sobre ele florescerá sua coroa" (Sl. 132:9, 10, 17, 18);
aí, também, por 'David' e por 'Ungido' se entende o Senhor, pois d'Ele se trata neste salmo, como se vê claramente pelo que antecede ali, onde se diz:
"Jurou a JEHOVAH (...) se eu der sono aos meus olhos (...) até que eu encontre um lugar para JEHOVAH, o habitáculo forte de Jacob. Eis que ouvimos sobre Ele em Efrata (Belém) (...) entraremos em Seus habitáculos, curvar-nos-emos no escabelo de Seus pés" (Sl. 89:2, 4-7).
[6] Para que David representasse o Senhor quanto ao Divino Vero, o Senhor quis nascer da casa de David e também ser chamado 'Filho de David', 'Rebento', 'Descendente' e também 'Raiz de Jessé'. Mas, quando o Senhor despiu-Se do humano da mãe e vestiu-Se do Humano do Pai, que é o Divino Humano, então não foi mais filho dele. Isto é o que se entende por estas palavras do Senhor aos fariseus:
Jesus disse aos fariseus: "O que vedes vós a respeito do Cristo? De quem é filho? Disseram-lhe: De David. Disse-lhes: Como é que David, pelo espírito, O chama de Senhor? Dizendo: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à Minha direita até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés. Se, pois, David O chama de Senhor, como é ele o seu filho?" (Mt. 22:42-45; Lc. 20:41-44).
Que o Senhor tenha glorificado o Seu Humano, isto é, que Ele tenha-Se despido do humano da mãe e Se revestido do Humano do Pai, que é o Divino Humano, vê-se na Doutrina da Nova Jerusalém (nºs. 293-295 e 298-310). Daí é que Ele não era filho de David, assim como não era filho de Maria, a quem, por isso, não chamou de Sua mãe, mas de 'mulher' (Mt. 12:46-49; Mc. 3:31 ao fim; Lc. 8:19-21; Jo. 2:4; 19:25, 26). Que pela 'chave de David' se entenda coisa semelhante que a 'chave de Pedro', a saber, que ao Senhor pertence todo o poder, e que tenha Seu poder pelo Seu Divino Vero, ver-se-á agora, no artigo seguinte.
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