. "O que abre e ninguém fecha, e fecha e ninguém abre" Que isto signifique de introduzir no céu todos os que estão na fé da caridade, e de remover do céu todos os que não estão vê-se pela significação de 'abrir e ninguém fechar', quando se trata do Senhor, que é introduzir no céu (de que se tratará a seguir); e pela significação de 'fechar e ninguém abrir', que é remover do céu. Que a primeira sentença seja introduzir no céu e a segunda seja remover do céu é porque somente o Senhor abre o céu para aqueles que são ali introduzidos. O homem, o espírito e o anjo não podem por si mesmos fazer isso. Dir-se-á em poucas palavras como isso se faz. Quando o homem, após a morte, acha-se num estado em que pode ser introduzido no céu, então aparece-lhe um caminho que conduz à sociedade celeste em que ele deve estar. Antes que ele chegue a esse estado, o caminho não lhe aparece. Esse caminho lhe é aberto pelo Senhor somente. Assim é para cada um a introdução e a admissão no céu. Acontece de modo semelhante com o homem mau após a morte; quando se acha num estado em que deve ir ao inferno, aparece-lhe o caminho que conduz à sociedade infernal em que deve estar; antes que ele chegue a esse estado, o caminho não lhe aparece. A razão disso é que os caminhos no mundo espiritual aparecem a cada um segundo a intenção de seu pensamento, assim, segundo a afeição que é de seu amor. Por isso, quando o espírito é reposto em seu amor reinante, pois cada um reposto nesse amor, então aparecem os caminhos que levam à sociedade onde o seu amor reina. Daí se pode ver que é o amor mesmo que abre. E como todo amor do bem e do vero procede do Senhor, segue-se que somente o Senhor abre os caminhos àqueles que são introduzidos no céu. Mas, do contrário, como todo amor do mal e do falso procede somente do homem ou espírito, segue-se que é o espírito mesmo que abre para si o caminho do inferno. (Mas isto pode ser visto mais claramente pelo artigo, na obra O Céu e o Inferno, nºs 545-550, em que se mostrou que o Senhor a ninguém lança no inferno, mas o espírito lança a si mesmo. Que os caminhos no mundo espiritual sejam visíveis a cada um segundo a intenção de seus pensamentos, assim, segundo a afeição que é de seu amor, vê-se na mesma obra, nºs 479 e 590). [2] No que concerne aos infernos, todos eles são fechados e nunca podem ser abertos, a não ser por permissão do Senhor. São fechados por causa dos males e falsos que dali se esforçam continuamente para saírem com violência e causar dano àqueles que estão nos bens e veros provenientes do Senhor (a cujo respeito se vê, também, na obra O Céu e o Inferno, nºs 584-592). Por aí se pode ver agora de que modo se faz e de que modo se deve entender a frase: 'o que tem a chave de David, abre e ninguém fecha, e fecha e ninguém abre'. Que o céu seja aberto àqueles que estão na fé da caridade e fechado àqueles que não estão é porque aqui se trata dos primeiros (vê-se acima, nº 203); e como eles estão na fé da caridade, estão no Divino Vero pelo Senhor, e o Divino Vero do Senhor tem todo o poder (como se mostrou nos artigos que precederam há pouco). [3] Pela 'chave de David', aqui, é significada coisa semelhante à que é significada pela 'chave de Pedro', de que assim se fala em Mateus: "Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta rocha [petra] edificarei a Minha igreja; e as portas do inferno não prevalecerão sobre ela; e te darei as chaves do reino dos céus, e tudo o que ligares na terra será ligado no céu, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus" (Mt. 16:18-19); por 'Pedro', aí, do mesmo modo que por 'David' é significado, no sentido supremo, o Divino Vero procedente do Divino Bem do Senhor e, no sentido interno, todo vero do bem que procede do Senhor. A mesma coisa é também significada na Palavra pela 'rocha' [petram] que é nomeada juntamente com Pedro e pela qual Pedro é ali chamado. Os doze discípulos do Senhor representavam todos os veros e bens da igreja em conjunto: Pedro, o vero ou a fé; Tiago, a caridade; e João, as obras de caridade. Mas ali Pedro representava a fé procedente da caridade, ou o vero procedente do bem que vem do Senhor, porque então reconheceu o Senhor de coração, dizendo: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivente; respondendo Jesus, disse: Bem-aventurado, Simão Jonah, porque não te revelou estas coisas a carne e o sangue, mas Meu Pai, que está nos céus. Eu te digo: Tu és Pedro" etc. (Mt. 16: 16-18 e seqüência). (Todavia, que tu vejas este assunto ilustrado no opúsculo Do Juízo Final, nº 57). [4] O mesmo também se entende pelas palavras do Senhor aos demais discípulos, em Mateus: Jesus disse aos discípulos: "Todos quantos ligardes na terra serão ligados no céu, e todos quantos desligardes na terra serão desligados no céu" (Mt. 18:18); estas palavras foram ditas aos discípulos, porque eles representavam todos os veros e bens, em conjunto, que procedem do Senhor. (Que os doze discípulos tenham representado isso, assim como representavam também as doze tribos de Israel, vê-se nos Arcanos Celestes, nºs 2129, 3354, 3488, 3858 e 6397.) O mesmo se entende pelos discípulos onde se diz que "Assentar-se-ão sobre doze tronos, e julgarão as doze tribos de Israel" (Mt. 19:28; Lc. 22:30. Vide nos Arcanos Celestes, nºs 2129 e 6937). O mesmo também se entende por Eliaquim, que havia de suceder Sebna sobre a casa do rei, em Isaías: "Darei o domínio em suas mãos, para que seja por pai dos habitantes de Jerusalém e da casa de Judá; e porei a chave da casa de David sobre o seu ombro, para que abra e ninguém feche, e feche e ninguém abra" (Is. 22:21, 22); pela 'casa do rei' sobre a qual estaria é significada a igreja que está no vero do bem proveniente do Senhor; por 'abrir e fechar' e 'ligar e desligar' se entende, em geral, salvar (como acima, nº 86).