. "O princípio das produções de Deus". Que isto signifique a fé que vem d'Ele, que é a primeira coisa da igreja quanto à aparência vê-se pela significação de 'princípio', que é o primeiro; e pela significação de 'produções de Deus', que é a igreja (de que se tratará a seguir). É a fé que se entende pelo 'princípio das produções de Deus', porque dela se trata nos escritos ao anjo dessa Igreja. Mas agora se dirá como a fé é o 'princípio das produções de Deus', isto é, a primeira coisa da igreja em aparência. Pela fé, aqui, entende-se a fé que vem do Senhor, pois a fé que não vem do Senhor não é a fé da igreja, e a fé que vem do Senhor é a fé da caridade. Essa fé é a primeira coisa da igreja quanto à aparência, porque aparece em primeiro lugar ao homem da igreja, mas a caridade mesma é realmente a primeira coisa da igreja, porque ela faz a igreja no homem. [2] Há duas coisas que fazem a igreja: a caridade e a fé. A caridade pertence à afeição, e a fé pertence ao pensamento daí. A essência mesma do pensamento é a afeição; ninguém pode pensar afeição. Tudo da vida que se encerra no pensamento vem das afeições, pelo que se vê que a primeira coisa da igreja é a afeição que pertence à caridade ou ao amor. Mas, se se diz que a fé é a primeira coisa da igreja é porque ela aparece primeiro, pois o que o homem crê, nisso pensa e, pelo pensamento, ele o vê; todavia, ele não pensa no que o afeta espiritualmente, nem, por conseguinte, o vê com o pensamento, mas o percebe por certo sentido que não se refere à visão, mas por outro sensitivo que se chama sensitivo do prazer. Esse prazer, por ser espiritual e estar acima do sentido do prazer natural, o homem só percebe quando se torna espiritual, isto é, quando é regenerado pelo Senhor. Daí é que se crê que as coisas que pertencem à fé, por conseguinte, as que são vistas, são as primeiras coisas da igreja, embora não sejam as primeiras senão quanto à aparência. Isto, portanto, se chama 'princípio das produções de Deus', uma vez que a Palavra na letra é segundo a aparência, pois é para os simples. Os homens espirituais, porém, assim como os anjos, se elevam acima das aparências e percebem a Palavra como ela é em seu sentido interno; conseqüentemente, percebem que a caridade é a primeira coisa da igreja e que a fé vem daí, pois, como acima se disse, a fé que não vem da caridade, e que não é da caridade, não é fé. (Sobre este assunto, vê-se também no opúsculo Do Juízo Final, nºs 33-39). [3] Desde os tempos antigos existe a controvérsia quanto ao que é a primeira coisa da igreja, se a fé ou se a caridade, e aqueles que desconheceram o que é caridade disseram ser a fé, mas os que souberam o que é a caridade disseram ser a caridade e que a fé é a caridade quanto à aparência, porquanto a afeição da caridade mostrando-se à vista no pensamento é a fé. Com efeito, o prazer da afeição se forma quando passa da vontade ao pensamento e se apresenta à vista em formas variadas. Isto os simples não souberam, pelo que tomaram como primeira coisa da igreja o que aparecia perante a vista de seu pensamento; e como a Palavra na letra é segundo as aparências, a isto se chama aqui, portanto, 'primeiro', 'princípio' e 'primogênito'. Por esta causa, Pedro, por quem foi representada a fé da igreja, foi chamado o primeiro dos apóstolos, quando, todavia, João era o primeiro, porque João representa o bem da caridade. Que seja João e não Pedro o primeiro dos apóstolos, é evidente pelo fato de João ter-se reclinado sobre o peito do Senhor, e pelo fato de ele, e não Pedro, ter seguido o Senhor (Jo. 21:20-22). (Que pelos doze discípulos do Senhor tenham sido representados todos os veros e bens da caridade, vê-se nos nºs 2129, 3354, 3488, 3858 e 6397; que Pedro tenha representado a fé, nºs 4738, 6000, 6073, 6344, 10087 e 10580; e que João tenha representado o bem da caridade, nºs 3934, 6073 e 10087). [4] Também pela mesma causa, Reuben, por ter sido o primogênito dos filhos de Jacob, representou a fé, e acreditava-se que a tribo nomeada por ele fosse a primeira, mas era a tribo de Levi, porque Levi representou o bem da caridade, pelo que, também, essa tribo tornou-se sacerdotal, e o sacerdócio é a primeira coisa da igreja. (Pelos doze filhos de Jacob ou pelas doze tribos nomeadas segundo eles foram representados todos veros e bens da igreja, como se vê nos nºs 3858, 3926, 4060, 6335, 7836, 7891 e 7996; por Reuben foi representada a fé, nºs 3861, 3866, 4605, 4731, 4734, 4761 e 6342-6345; e por Levi foi representado o bem da caridade, nºs 3875, 4497, 4502 e 4503). Ainda pela mesma causa é que no primeiro capítulo de Gênesis - onde se trata, no sentido da letra, da criação do céu e da terra, mas, no sentido interno, da nova criação ou regeneração do homem da igreja de então - diz-se que primeiro se fez a luz e, depois, o sol e a lua (vê-se ali, vers. 3-5, 14-19), quando, todavia, o sol é a primeira coisa e a luz vem dele. A luz foi citada como a primeira coisa da criação porque pela 'luz' é significado o vero da fé, e pelo 'sol' e a 'lua' o bem do amor e a caridade. (Pela criação do céu e da terra no primeiro capítulo de Gênesis, no sentido espiritual, entende-se e descreve-se a nova criação do homem da igreja celeste, ou a sua regeneração, como se vê na explicação daquele capítulo nos Arcanos Celestes e também nos nºs 8891, 9942 e 10545. Que a 'luz' signifique o vero do bem, assim, também o vero da fé, vê-se na obra O Céu e o Inferno, nºs 126-130; e que o 'sol' signifique o bem do amor, e a 'lua' o bem da caridade, ambos provenientes do Senhor, vê-se na mesma obra, nºs 116-125 e 146). Por aí se pode ver agora o que significa 'princípio das produções de Deus', a saber, a fé que vem do Senhor, a qual, quanto à aparência, é a primeira coisa da igreja.