. (Vers. 19) "Eu repreendo e castigo a todos os que amo". Que isto signifique as tentações então vê-se pela significação de 'repreender e castigar' quando se trata daqueles que adquirem o bem para si e por ele recebem o vero, dos quais se tratou no versículo logo precedente, que é ser admitido nas tentações. Diz-se 'todos os que amo' e por aí se entende todos os que na doutrina da fé, só, estão no bem ou na caridade e, daí, nos veros ou na fé. Que estes sejam amados pelo Senhor é porque o Senhor está presente no bem ou na caridade, e, pelo bem ou caridade, está presente nos veros ou na fé, mas não o contrário. Agora se diz daqueles que estão na doutrina da fé que o Senhor os 'repreende e castiga', porque acima se disse: 'recomendo-te que compres de Mim ouro provado no fogo, e vestes brancas para que te vistas e não apareça a vergonha de tua nudez, e unge os olhos com colírio, para que vejas', pelo que se entende que aqueles que estão na doutrina da fé, só, adquiram para si o bem genuíno e os veros genuínos, e, daí, a inteligência, para que não apareçam os amores impuros e para que o entendimento seja de algum modo aberto. E quando se faz isso com os que estiveram na doutrina da fé só, eles não podem deixar de serem postos em tentações, porquanto os falsos princípios da fé só e da justificação por ela, que estão neles, não podem ser abolidos senão por meio de tentações. E eles devem ser inteiramente abolidos, porque não podem ser conjuntos ao bem da caridade; só com este os veros são conjuntos, razão por que esses veros devem ser adquiridos, como se disse. Os veros são realmente conjuntos pelo fato de eles dizerem que o homem, depois que recebe a fé, é conduzido pelo Senhor e, assim, é levado ao bem da caridade. Todavia, eles nada fazem disso, porque em nada contribui para a salvação, dizendo também que nada disso condena, nem o mal do pensamento e da vontade, nem o mal da vida, e que não se está sob a lei, porque o Senhor cumpriu a lei por ele, e que não se deve considerar outra coisa senão a fé; por essas idéias há disjunção. A razão por que conjuntam é que de outro modo a doutrina não tem coerência com a Palavra, onde se fala tantas vezes da caridade e dos atos. Mas essa conjunção não é conjunção naqueles que estão na vida segundo a doutrina, mas naqueles que estão na vida segundo a Palavra.
[2] Diz-se 'repreendo e castigo a todos os que amo', mas se entende não que o Senhor repreenda e castigue, mas, sim, os espíritos infernais que estão em princípios semelhantes do falso. São eles que castigam, isto é, tentam o homem, pois se sabe que Deus não tenta a ninguém e assim se deve entender, ainda que na letra se diga de Deus que Ele induz em tentação, faz o mal, lança no inferno e muitas coisas semelhantes. Daí se vê que o Divino Vero na Palavra é pouco compreendido a não ser pelo seu sentido espiritual, ou pela doutrina daqueles que estiveram na iluminação. No que concerne às tentações, o homem entra nelas quando é introduzido em seu proprium, porque então juntam-se a ele espíritos do inferno que estão nos falsos de seus princípios e nos males de seu amor, e mantêm nestes os pensamentos do homem. Mas o Senhor mantém seus pensamentos nos veros que são da fé e nos bens que são da caridade; e como então pensa continuamente na salvação e no céu, daí vem a sua ansiedade da mente interior e daí o combate, que se chama tentação. Mas aqueles que não estão nos veros e nos bens, por conseguinte, em alguma fé da caridade, não podem ser introduzidos em tentações, pois nada há neles que combata contra os falsos e males. Assim é que hoje em dia há poucos que são tentados e, daí, pouco se sabe a respeito da tentação espiritual. (Mas estas coisas foram mais plenamente expostas nos Arcanos Celestes, dos quais se vêem extratos na Doutrina da Nova Jerusalém, nºs 196-201).
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