. (Vers. 20) "Eis que estou à porta e bato". Que isto signifique a perpétua presença do Senhor vê-se pela significação de 'porta' ou 'entrada' que, no sentido supremo, é o Senhor quanto à admissão no céu ou na igreja, e, no sentido interno, o vero do bem que vem d'Ele, porque por este o homem é admitido (de que se tratou acima, nº 208). Aqui, como foi dito pelo Senhor: 'Eis que estou à porta e bato', é significada a Sua perpétua presença e, ao mesmo tempo, Sua perpétua vontade de querer admitir, e também admite, a todos, e conjuntar a Si todos os que O recebem, o que se faz por meio dos veros do bem, ou da fé da caridade. Por isso se segue: 'Se alguém ouvir a Minha voz e abrir a porta, entrarei a ele, e cearei com ele e ele comigo'. Como se diz 'porta', também se diz 'bater' e por isso é significada a perpétua vontade de Se conjungir ao homem e de comunicar a ele as felicidades do céu. Que isto seja assim, pode-se ver pelo fato de que no Senhor há o Divino Amor, e o Divino Amor é querer dar tudo o que é seu aos outros e querer que O recebam. E como não se pode fazer isso senão pela recepção do bem e do vero ou do amor e da fé por parte do homem, porque estes são os Divinos que procedem d'Ele e são recebidos, e, como são Divinas, é Ele neles, por isso a conjunção do Senhor com os anjos e os homens é por meio dos veros do bem, ou da fé do amor. Querer dar ao homem estas coisas e implantá-las nele é significado em particular por 'estou à porta e bato'.
[2] Há duas coisas que estão no livre do homem pela perpétua presença do Senhor e por Sua perpétua vontade de Se conjungir ao homem. A primeira coisa que há no livre do homem é que ele tenha oportunidade e faculdade de pensar bem a respeito do Senhor e do próximo, pois cada um pode pensar bem ou mal a respeito do Senhor e do próximo; se pensa bem, abre-se a porta; se pensa mal, ela se fecha. Pensar bem a respeito do Senhor e do próximo não vem do homem e seu proprium, mas do Senhor, que está perpetuamente presente e pela perpétua presença lhe dá essa oportunidade e faculdade. Mas pensar mal a respeito do Senhor e do próximo vem do homem mesmo e de seu proprium. A outra coisa que há no livre do homem, pela perpétua presença do Senhor nele e por Sua perpétua vontade de Se conjungir ao homem, é que ele possa se abster dos males; e quanto mais se abstém dos males, mais o Senhor abre a porta e entra, pois o Senhor não pode abrir e entrar enquanto os males estão no pensamento e na vontade do homem, pois estes impedem e fecham. Também lhe é concedido pelo Senhor conhecer os males do pensamento e da vontade, e também os veros pelos quais os males são dissipados, pois foi dada a Palavra, onde essas coisas são desvendadas.
[3] Por aí se pode ver que nada falta ao homem para que possa ser reformado, se quiser, porque todos os meios de reforma foram deixados ao homem em seu livre. Mas cumpre saber muito bem que esse livre vem do Senhor, como se disse acima, e que, assim, é o Senhor que opera tais coisas, se o homem, pelo livre que lhe foi dado, as recebe. Deve haver, absolutamente, a recepção por parte do homem, o que se entende por 'se alguém ouvir a Minha voz e abrir a porta'. Não importa que o homem, no começo, não saiba que isto vem do Senhor, pois não percebe o influxo, se tão somente crer pela Palavra que todo bem do amor e todo vero da fé são provenientes do Senhor, pois o Senhor opera tais coisas ainda que o homem o ignore, e isto por Sua perpétua presença, o que é significado por 'estou à porta e bato'. Em suma, o Senhor quer que o homem se abstenha dos males por si mesmo e faça o bem, somente crendo que a faculdade de fazer isso não vem do homem, mas do Senhor, pois Ele quer que haja recepção por parte do homem, e a recepção não se dá de outro modo senão que o homem faça como por si mesmo, ainda que seja pelo Senhor. Assim, também, é dado ao homem o recíproco que é sua nova vontade.
[4] Por aí se pode ver o quanto se enganam os que dizem que o homem é justificado e salvo pela fé somente, por não poder fazer o bem por si. Que outra coisa seria isso senão pender as mãos e esperar pelo influxo imediato? Aquele que faz isso absolutamente nada recebe. Erram, também, os que crêem que podem se dispor ao influxo por meio de preces, adorações e externos do culto; essas coisas nada fazem, a menos que o homem se abstenha de pensar e de fazer os males e, pelos veros da Palavra, se conduza como por si mesmo aos bens quanto à vida. Se o homem faz isto, ele se dispõe e, então, as preces, adorações e os externos do culto têm valor diante do Senhor. (A este respeito, vêem-se mais coisas na obra O Céu e o Inferno, nºs 521-527).
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