. "E abrir a porta." Que isto signifique a recepção de coração ou vida vê-se pela significação de 'abrir a porta', que é admitir, pois pela 'porta' é significada a admissão (vê-se acima, nº 208). Aqui, porém, por 'abrir a porta' é significada a recepção de coração ou vida, pois se segue 'e entrarei a ele'. Diz-se 'se abrir a porta', como se o homem abrisse, quando, todavia, o Senhor mesmo é que abre, segundo as coisas ditas e mostradas há pouco, acima (nº 248); mas se diz assim porque assim parece ao homem pelo livre que lhe é dado pelo Senhor. E, além disso, no sentido da letra da Palavra muitas coisas foram ditas segundo as aparências, mas essas aparências são deixadas de lado no céu, onde há o sentido interno ou espiritual da Palavra. O sentido da letra da Palavra é segundo as aparências em muitas passagens, a fim de servir como base ao sentido espiritual, de outro modo não haveria base ou fundação para esse sentido. Que muitas coisas na Palavra tenham sido ditas segundo as aparências pode-se ver somente pelo fato de que na Palavra se diz que o mal é proveniente de Deus, ou seja, que em Deus há inflamação, ira, vingança e outras coisas semelhantes, quando, todavia, Deus a ninguém faz o mal, nem n'Ele há ira alguma ou vingança, pois é o Bem mesmo e o Amor mesmo. Mas, como assim parece ao homem quando ele faz o mal e é castigado, por isso é dito assim no sentido da letra, mas entendido de outro modo no sentido espiritual da Palavra. Dá-se de modo semelhante com 'se o homem abrir a porta'.
[2] Ademais, dir-se-á o que se entende por 'abrir a porta', quando se diz que isto é feito pelo homem, como aqui, ou seja, o Senhor está sempre presente com o bem e o vero no homem e Se esforça para abrir sua mente espiritual, que é a porta que o Senhor quer abrir, e dotá-lo de amor e fé celestes, pois diz: 'estou à porta e bato'. Mas esse esforço ou essa perpétua vontade do Senhor não é percebido pelo homem, pois o homem pensa que faz o bem por si e que esse esforço ou essa vontade está nele. Então, basta que reconheça pela doutrina da igreja que todo bem é proveniente do Senhor e nada do homem. Que isto não seja percebido pelo homem é, também, a fim de que haja recepção pelo homem e, pela recepção, apropriação. De outro modo o homem não pode ser reformado.
[3] É evidente, pois, o quanto erram aqueles que estão na doutrina da fé só, ao dizerem e crêem que a fé salva e não o bem da vida, ou que o homem é justificado pela fé só, excluindo assim a aplicação para receber. Sabem que o homem deve se examinar, ver e reconhecer seus males, não somente das obras, mas também os males dos pensamentos e das intenções, e, em seguida, deve se abster e fugir deles, e viver uma nova vida, que deve ser a vida do bem; e, a menos que faça isto, não terá remissão, mas danação. Isto os doutores e líderes pregam quando o fazem pela Palavra, e isto ensinam a cada um que se aproxima da Santa Ceia. Então, ensinam assim como se fosse pela fé, mas tão logo retornam e consideram sua doutrina da justificação pela fé só, então não mais crêem, dizendo que todos são conduzidos pelo Senhor do mal para o bem após terem recebido a fé. E alguns, a fim de ligarem os princípios do falso com os veros, dizem que, após serem justificados pela fé, são também conduzidos por Deus a se examinarem, a confessarem seus pecados diante de Deus e a absterem-se deles, e assim por diante. Isto, porém, não acontece a ninguém que crê na justificação pela fé, mas acontece àqueles que vivem a vida da caridade. Por esta vida cada um é conjunto ao céu, mas, por aquela, ninguém. Quem é conjunto ao céu pela vida da caridade é conduzido pelo Senhor a ver os seus males, tanto os males do pensamento quanto os da vontade; pelo bem o homem vê os males, porque os males são opostos aos bens. Mas quem crê na salvação pela fé, só, diz em seu coração: "Tenho a fé porque nas coisas que são ditas nada me condena, estou justificado"; e quem crê assim não pode de modo algum ser conduzido pelo Senhor a se examinar e se arrepender dos males. Assim, eles ensinam os veros diante do povo que, daí, crê que viver bem e crer bem é ser justificado pela fé, sem examinar mais interiormente a doutrina deles. Estes são os que se salvam, enquanto aqueles são os que se condenam. Que sejam condenados, eles mesmos podem ver, se o quiserem, pois crêem pela doutrina que o bem da vida, que são as obras, nada faz para a salvação, mas a fé só, quando, todavia as obras são abster-se dos males e viver uma vida nova, pois, senão, há danação.
[4] Isto ensinam as pregações que não procedem dos arcanos de suas doutrinas, e também é aceito nas preces, na igreja, como se pode ver pelas coisas que são lidas diante de todo o povo que se aproxima do altar para fruir do sacramento da ceia, as quais são aqui citadas na língua em que foram escritas49:
"Este é o caminho e este é o meio para quem quer participar dignamente da Santa Mesa: Primeiro, que examine as ações e os relacionamentos de sua vida segundo a norma dos mandamentos de Deus; e quaisquer que sejam aquelas nas quais descobrir que transgrediu por vontade, por palavra ou por ação, deplore sua natureza viciosa e se confesse diante de Deus onipotente, com o pleno propósito de emendar a vida. E se descobre que suas ofensas são não somente contra Deus, mas também contra o próximo, então, que se reconcilie e esteja pronto a fazer-lhe restituição e dar-lhe satisfação, segundo todas as suas forças, pelas injustiças e males que lhe tiver feito; e que esteja igualmente pronto a perdoar aos outros as suas ofensas, assim como deseja que as próprias ofensas sejam remidas por Deus, de outro modo, o recebimento da Santa Comunhão não fará mais que agravar a condenação. Por conseqüência, se alguém dentre vós é blasfemador de Deus, maldizente ou escarnecedor de Sua Palavra, ou adúltero, ou estiver em malícia ou malevolência, ou em algum outro crime enorme, que faça penitência dos seus pecados, senão, que não se aproxime da Santa Mesa. De outro modo, depois de tê-la recebido, o diabo entrará em ti como entrou em Judas e te encherá de toda iniqüidade, destruindo-te tanto o corpo como a alma. (...) Julgai, pois, a vós mesmos, para que não sejais julgados pelo Senhor. Arrependei-vos verdadeiramente de vossos pecados passados; tende uma fé viva e firme em Cristo, nosso Salvador; emendai vossas vidas e vivei em perfeita caridade com todos os homens. (...) Vós, que verdadeira e decididamente vos arrependeis de vossos pecados, e estais no amor e na caridade com vossos próximos, e tendes a intenção de viver uma nova vida seguindo os mandamentos de Deus, andando doravante em Seus santos caminhos, aproximai-vos com fé, e tomai este Santo Sacramento para vosso conforto, e fazei vossa humilde confissão a Deus Onipotente".
[5] Por aí se pode ver agora que os doutores e líderes da igreja sabem e não sabem que este caminho é o caminho do céu, e não o caminho da fé sem tais coisas. Sabem quando proferem e pregam diante do público as coisas que foram citadas, mas não sabem quando ensinam por sua doutrina. Ao primeiro caminho chamam de religião prática, e ao segundo, religião cristã; mas crêem que esta é para os sábios e aquela para os simples. Posso, porém, assegurar que os que vivem segundo a doutrina da fé só e da justificação por ela não têm absolutamente fé espiritual alguma e, após a vida no mundo, entram na danação. Mas os que vivem segundo a doutrina tirada daquelas recitações citadas têm a fé espiritual e, após a vida no mundo, vão para o céu. Isto também concorda inteiramente com a fé recebida em todo o mundo cristão, que se chama Fé Atanasiana e na qual se lêem as seguintes palavras a respeito do Senhor:
"Em cuja vinda todos os homens darão conta de suas obras; e aqueles que tiverem feito o bem entrarão na vida eterna; e aqueles que tiverem feito o mal, no fogo eterno; está é a fé católica50"
[6] Que essas sentenças estejam em inteira conformidade com a Palavra, vê-se pelas seguintes passagens:
"Virá o Filho do homem na glória de Seu Pai, com os Seus anjos, e então retribuirá a cada um segundo as suas obras" (Mt. 16:27);
"Os que tiverem feito o bem sairão para a ressurreição da vida, mas os que tiverem feito o mal, para a ressurreição da condenação" (Jo. 5:28, 29);
"Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor; sim, diz o Espírito, para que descansem de seus trabalhos; suas obras os seguem" (Ap. 14:13);
"Eu darei a cada um de vós segundo as suas obras" (Ap. 2:23);
"Vi os mortos, grandes e pequenos, em pé, diante de Deus, e foram abertos os livros (...) e os mortos foram julgados conforme as coisas que foram escritas nos livros, segundo as suas obras. Deu o mar os que nele foram mortos, e a morte e o inferno deram os que nele foram [mortos], e foram julgados, cada um segundo as suas obras" (Ap. 20:12, 13).
"Eis que [cedo] venho, e Minha recompensa comigo, e darei a cada um segundo as suas obras" (Ap. 22:12).
Nos escritos às sete Igrejas, diz-se a cada uma delas: 'Conheço as tuas obras', como:
"Ao anjo da Igreja em Éfeso escreve: Isto diz Aquele que tem as sete estrelas na Sua direita (...) Conheço as tuas obras" (Ap. 2:1, 2);
"Ao anjo da Igreja em Esmirna escreve: Isto diz o Primeiro e o Último (...) Conheço as tuas obras" (Ap. 2:8, 9);
"Ao anjo da Igreja em Pérgamo escreve: Isto diz o que tem a espada larga (...) Conheço as tuas obras" (Ap. 2:12, 13);
"Ao anjo da Igreja em Tiatira escreve: Isto diz o Filho de Deus (...) Conheço as tuas obras" (Ap. 2:18, 19);
"Ao anjo da Igreja em Sardes escreve: Isto diz Aquele que tem os sete espíritos de Deus (...) Conheço as tuas obras" (Ap. 3:1);
"Ao anjo da Igreja em Filadélfia escreve: Isto diz o Santo e Verdadeiro: Conheço as tuas obras" (Ap. 3:7, 8);
"Ao anjo da Igreja em Laodicéia escreve: Isto diz o Amém, a Testemunha fiel e verdadeira (...) Conheço as tuas obras" (Ap. 3:14, 15);
em Jeremias:
"Retribuir-lhes-ei conforme as suas obras, e conforme os feitos de suas mãos" (Jr. 25:14);
no mesmo:
JEHOVAH, "cujos olhos estão abertos sobre todos os caminhos dos homens, e para dar a cada um segundo os seus caminhos, e segundo o fruto de suas obras" (Jr. 32:19);
em Oséias:
"Visitarei os seus caminhos, e [conforme] suas obras lhes retribuirei" (Os. 4:9);
em Zacarias:
"JEHOVAH (...) conforme nossos caminhos, conforme nossas obras age conosco" (Zc. 1:6).
Além disso, também, nas seguintes passagens. Em João:
"Se sabeis isto, bem-aventurados sois se o fizerdes" (Jo. 13:17);
em Lucas:
"Por que Me chamais Senhor, e não fazeis o que eu digo? (Lc. 6:46);
em Mateus:
"Quem pratica e ensina será chamado grande no reino dos céus" (Mt. 5:19);
no mesmo:
"Toda árvore que não dá bom fruto será cortada e lançada no fogo; (...) nem todo o que Me diz: Senhor, [Senhor,] entrará no reino dos céus, mas o que faz a vontade de Meu Pai que está nos céus. (...) Quem ouve as Minhas palavras e as pratica, compará-lo-ei ao varão prudente; (...) mas quem ouve as Minhas palavras e não as pratica, compará-lo-ei ao varão insensato" (Mt. 7:19-27);
no mesmo:
"O que foi semeado em boa terra, este é o que ouve a Palavra e a compreende, que dá fruto e pratica" (Mt. 13:23);
[em Marcos:]
"Esses são os que foram semeados em boa terra, os que ouvem a Palavra e recebem, e dão fruto" (Mc. 4:20);
[em Lucas:]
"A semente que caiu em boa terra são os que ouvem a Palavra com um coração simples e bom, guardam, e dão fruto" (Lc. 8:15);
Quando o Senhor disse estas coisas, clamou, dizendo:
"Quem tem ouvidos para ouvir, ouça" (Mt. 13:9; Mc. 4:9; Lc. 8:8).
Em Mateus:
Amarás ao Senhor [teu] Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma; (...) este é o primeiro e grande mandamento; o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem a Lei e os Profetas" (Mt. 22:37-40);
"A Lei e os Profetas" são a Palavra em todo o conjunto.
[7] Que 'amar ao Senhor Deus' seja praticar as Suas palavras ou preceitos, Ele mesmo o ensina em João:
"Quem Me ama guarda as Minhas Palavras; e Meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada; mas quem não Me ama não guarda as Minhas palavras" (Jo. 14:21, 23, 24);
e também em Mateus:
O Senhor disse aos bodes, que estavam à esquerda, que iriam para o fogo o eterno; e às ovelhas, que estavam à direita, que iriam para a vida eterna (Mt. 25:31-46);
os 'bodes' são os que não fazem os bens da caridade, e as 'ovelhas' são os que os fazem, como se vê pelas palavras ali; ambos os grupos disseram que não sabiam que fazer bem próximo é fazê-lo ao Senhor, mas foram instruídos, se não antes, ao menos no dia do juízo, que fazer o bem é amar ao Senhor. Pelas 'cinco virgens néscias que não tinham óleo nas lâmpadas' também se entendem aqueles que estão na fé e não no bem da caridade; e pelas 'cinco virgens prudentes que tinham óleo nas lâmpadas' se entendem os que estão também no bem da caridade (pois a 'lâmpada' significa a fé, e o 'óleo' o bem da caridade).
Das primeiras cinco se diz que "foram admitidas", mas daquelas que diziam "Senhor, Senhor, abre-nos", que receberam em resposta: "Amém vos digo, não vos conheço" (Mt. 25:1-12).
No último tempo da igreja não haveria fé no Senhor, por não haver caridade. Isto é significado por
Pedro ter negado três vezes o Senhor, antes que o galo cantasse (Mt. 26:34, 69-74).
A mesma coisa é significada por
O Senhor ter dito a Pedro, quando Pedro viu que João seguia o Senhor: "Que te importa a ti", Pedro? "Tu, João, segue-Me", pois Pedro dissera a respeito de João: "E deste, o que será?" (Jo. 21:21, 22).
Com efeito, 'Pedro', no sentido representativo, significa a fé, e 'João', o bem da caridade; e como 'João' significava o bem da caridade,
Por isso se reclinava sobre o peito do Senhor (Jo. 21:20).
[8] Que esse bem faça a igreja é significado pelas palavras do Senhor a João desde a cruz:
"Jesus vê Sua mãe e o discípulo a quem amava, que estava ao lado, e diz à Sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho; e diz àquele discípulo: Eis a tua mãe. E desde aquela hora esse discípulo a recebeu consigo" (Jo. 19:26, 27);
por 'mãe' e por 'mulher' se entende aí a igreja, e por 'João', o bem da caridade. Assim, por essas palavras, entende-se que a igreja estará onde houver o bem da caridade. (Mas estas palavras se vêm mais explicadas nas passagens citadas na Doutrina da Nova Jerusalém, nº 122. E, além disso, que não haja fé onde não houver caridade, no opúsculo Do Juízo Final, nºs 33-39. E que o homem seja após a morte tal qual foi sua vida no mundo e não tal qual foi sua fé, na obra O Céu e o Inferno, nºs 470-484. E quanto ao que é a caridade e o que é a fé em sua essência, na Doutrina da Nova Jerusalém, nºs 84-122).
[9] Pondera, pelas passagens agora citadas, se ter fé é outra coisa se não vivê-la. E vivê-la não é somente saber e pensar, mas também querer e fazer, pois a fé não está no homem enquanto está somente em seu saber e pensar, mas quanto também está em seu querer e fazer. A fé no homem é a fé da vida, mas a fé ainda não no homem é a fé da memória e, daí, do pensamento. A fé da vida se entende por crer em Deus, mas crer nas coisas que vêm de Deus e não crer em Deus é a fé histórica, que não é salvífica. Qual é o verdadeiro sacerdote e bom pastor que não quer que os homens vivam bem, e que não sabe que a fé das cognições porque outro assim o disse não é a fé da vida, mas a fé histórica?
[10] A fé da vida é a fé da caridade, porque a caridade é a vida. Mas, ainda que seja assim, prevejo que aqueles que se confirmaram na doutrina da fé só e na justificação por ela não se afastarão dessa fé, em razão de ligarem os falsos aos veros. Pois ensinam os veros quando o fazem pela Palavra, mas ensinam os falsos quando pela doutrina, e assim os confundem, pelo fato de dizerem que os frutos da fé são os bens da vida, e que estes se seguem da fé, e, todavia, que os bens da vida nada fazem para a salvação, mas a fé somente. Assim conjuntam e assim separam; quando conjuntam, ensinam os veros, mas diante do povo que não sabe que eles invertem as coisas e que dizem essas coisas por necessidade, a fim de fazerem a sua doutrina coerente com a Palavra; mas, quando separam, ensinam os falsos, pois dizem que a fé salva e não os bens da caridade, que são as obras, não sabendo, então, que a caridade e a fé agem em comum, e que a caridade é agir bem e a fé é crer bem; e crer bem sem agir bem é impossível, por conseguinte, a fé é nula sem a caridade; e, também, que a caridade é o ser da fé e é sua alma, pelo que a fé sozinha é uma fé sem alma, portanto, uma fé morta; e como essa fé não é fé, por isso a justificação por ela é uma coisa nula.
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