. (Vers. 1) “E vi à direita do Que está sentado no trono”. Que isto signifique o Senhor quanto à onipotência e quanto à onisciência, vê-se pela significação de ‘direita’, quando se refere ao Senhor, que é a onipotência e também a onisciência (de que se tratará a seguir); e pela significação de ‘Que está sentado no trono’, que é o Senhor quanto ao Divino Bem no céu, pois o ‘trono’ significa em geral o céu, em particular o céu espiritual e, abstratamente, o Divino Vero procedente, do qual e pelo qual se faz o juízo (vide acima, n. 253). Que se entenda o Senhor pelo ‘Que está sentado no trono’ e também pelo ‘Cordeiro’ que recebeu o livro do Que está sentado no trono é porque pelo ‘Que está sentado no trono’ se entende o Senhor quanto ao Divino Bem, e pelo ‘Cordeiro’ o Senhor quanto ao Divino Vero. Com efeito, há duas coisas que procedem do Senhor como o Sol do céu, a saber, o Divino Bem e o Divino Vero; o Divino Bem proveniente do Senhor se chama ‘Pai nos céus, e este é o que se entende aqui pelo ‘Que está sentado no trono’. E o Divino Vero proveniente do Senhor se chama ‘Filho do homem’, mas, aqui, chama-se ‘Cordeiro’. E visto que o Divino Bem a ninguém julga, mas, sim, o Divino Vero, por isso se diz aqui que o ‘Cordeiro recebeu o livro do Que está sentado no trono’. Que o Divino Bem a ninguém julgue, mas, sim, o Divino Vero, é o que se entenda pelas palavras do Senhor em João: “O Pai a ninguém julga, mas deu todo juízo ao Filho... porque é o Filho do homem” (Jo. 5:22, 27); pelo ‘Pai’ se entende o Senhor quanto ao Divino Bem, e pelo ‘Filho do homem’ o Senhor quanto ao Divino Vero. Que o Divino Bem a ninguém julgue é porque não examina a ninguém, mas o Divino Vero julga, porque este examina cada um. Cumpre saber, porém, que o Senhor mesmo a ninguém julga pelo Divino Vero que procede d’Ele, pois este é tão unido ao Divino Bem que são um só, mas o homem espírito a si mesmo se julga, pois é o Divino Vero recebido por ele que o julga, e porque parece como se o Senhor o julgasse, por isso na Palavra se diz que todos são julgados pelo Senhor. Isto, também, o Senhor ensina em João: Jesus disse: “Se alguém ouve Minhas palavras e, todavia, não crê, Eu não o julgo, porque não vim para julgar o mundo, mas para salvar o mundo. Quem Me despreza, e não aceita as Minhas palavras, tem quem o julgue: a palavra que tenho falado, ela o julgará no último dia” (Jo. 12:47, 48). [2] Pois assim se passa em relação ao juízo: o Senhor está presente em todos, e pelo Divino Amor quer salvar a todos e também voltar a todos e trazê-los para Si. Aqueles que estão no bem e, daí, nos veros a estes seguem, pois os aplicam a si; mas aqueles que estão no mal e, daí, nos falsos, não os seguem, mas voltam as costas ao Senhor, e voltar as costas ao Senhor é voltar-se do céu para o inferno. Porque todo homem espírito é ou o seu bem e o vero daí, ou é o seu mal e o falso daí. O que é o seu bem e o vero daí, esse se deixa conduzir pelo Senhor, mas o que é o seu mal e o falso daí, esse não se deixa conduzir; esse resiste com toda força e todo esforço, pois quer ir para o seu amor; este ele aspira por ele se anima. Por isso é que deseja ir para que os que estão num semelhante amor do mal. Daí se pode ver que o Senhor a ninguém julga, mas o Divino Vero recebido julga para o céu aqueles que receberam o Divino Vero de coração, isto é, pelo amor, e para o inferno aqueles que não receberam o Divino Vero de coração e que o negaram. Por aí se pode ver de que modo se deve entender o que o Senhor disse, que ‘todo juízo pertence ao Filho, porque é o Filho do homem’, e, em outra passagem, que ‘não veio para julgar o mundo, mas para salvar o mundo”, e que ‘a palavra que pronunciou haverá de julgá-lo”. [3] Mas essas coisas são tais que não caem na inteligência própria do homem, pois estão entre os arcanos da sabedoria dos anjos. (Não obstante, alguma coisa a respeito deste assunto foi elucidada na obra O Céu e o Inferno, n° 545-551, onde se tratou do seguinte: O Senhor a ninguém lança no inferno, mas o espírito a si mesmo se lança). Que seja o Senhor que se entende pelo ‘Que está sentado no trono’ e não outro a quem as pessoas distinguem d’Ele e chamam de ‘Deus Pai’, qualquer um pode ver pelo fato de não ter existido nenhum outro Divino a quem o Senhor chamava de ‘Pai’ senão o Seu Divino. Com efeito, este tomou o Humano, pelo que foi o Seu Pai. E que este seja infinito, eterno, incriado, onipotente, Deus, Senhor, e em nada absolutamente diferente do Divino mesmo que as pessoas distinguem d’Ele e chamam de ‘Pai’, pode-se ver pela Fé aceita que se chama Atanasiana, na qual até se diz que nenhum d’Eles é maior ou menor, e nenhum deles primeiro ou último, mas são inteiramente iguais; e que, assim como um, também o outro é infinito, eterno, incriado, onipotente, Deus, Senhor, e, todavia, não há três infinitos, mas um só, nem três eternos, mas um só, nem três incriados, mas um só, nem três onipotentes, mas um só, nem três Deuses e Senhores, mas um só. Estas coisas foram ditas para que se saiba que não são dois que distintamente se entendem pelo ‘Que está sentado no trono’ e pelo ‘Cordeiro”, mas que por um se entende o Divino Bem e pelo outro o Divino Vero no céu, ambos procedentes do Senhor. Que pelo ‘Que está sentado no trono’ se entenda o Senhor, vê-se também por cada uma das coisas no capítulo precedente, quarto, onde se tratou do trono e d’Aquele que ali estava sentado (coisas essas que se veem explicadas do n. 258 ao 295; e, além disso, em Mateus: “Quando vier o Filho do homem em Sua glória, e todos os santos anjos com Ele, então sentará no trono de Sua glória” (Mt. 25:31; 19:28-29); E também em Ezequiel: “Sobre a expansão que havia sobre a cabeça” dos querubins “como que uma aparência da pedra safira, uma semelhança do trono, e sobre a semelhança do trono uma semelhança à aparência de um Homem sentado nele” (Ez. 1:26; 10:1). e em Isaías: “Vi o Senhor sentado num trono alto e elevado, e a orla [de Seu manto] enchendo o templo” (Is. 6:1). [4] Visto que pelo ‘trono’ é significado o céu, e pelo que estava “Sentado no trono” é significado o Senhor quanto ao Seu Divino no céu, por isso foi dito acima, no capítulo 3: “Quem vencer, dar-lhe-ei sentar comigo em Meu trono” [Ap. 3:21], o que significa que estará no céu onde está o Senhor (vide acima, n. 235b); e, por isso, abaixo neste capítulo se diz: “Vi, e eis no meio do trono estava um Cordeiro” (Ap. 3:6); e, no capítulo 22, “Mostrou-me o rio de águas vivas... que sai do trono de Deus e do Cordeiro” (Ap. 22:1); Pelo ‘trono de Deus e do Cordeiro’ se entende o céu e o Senhor ali quanto ao Divino Vero e quanto ao Divino Vero; ‘Deus’ é o Senhor quanto ao Divino Bem, e ‘Cordeiro’ quanto ao Divino Vero. Aqui se faz distinção entre um e outro porque há os que recebem mais um do que o outro. Os que recebem o Divino Vero no bem são salvos, mas os que recebem o Divino Vero, que é a Palavra, não no bem, não são salvos, porquanto todo Divino Vero está no b e não em outra parte; por isso, os que não o recebem no bem, esses o rejeitam e negam, se não abertamente, por certo tacitamente, e se não de boca, por certo de coração, porque o coração deles é mau e o mau rejeita. Receber o Divino Vero no bem é recebê-lo no bem da caridade, pois os que estão nesse bem o recebem.