AE 325

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. “Que são as preces dos santos”. Que isto signifique pelos quais há o culto, vê-se pela significação de ‘preces dos santos’, que são o culto pelo bem espiritual; por ‘preces´, no sentido interno, se entendem todas as coisas do culto, e por ‘santos’, as coisas espirituais. Com efeito, chamam-se ‘santos’, na Palavra, os que estão no reino espiritual do Senhor, mas ‘justos’ os que estão no Seu reino celeste (vê-se acima, n. 204). Todavia, no sentido interno da Palavra, por ‘santos’ não se entendem os santos, mas as coisas santas, pois o termo ‘santos’ envolve pessoas, e no sentido interno é removido tudo que pertence à pessoa, pois somente é constituído por coisas (a cujo respeito vê-se acima, n. 270); e acima também se vê que os anjos, por serem espirituais, pensam abstratamente das pessoas (n° 99 e 100). Nisto o sentido interno da Palavra se distingue de seu sentido externo, que é o sentido da letra. E visto que, assim, por ‘santos’ se entendem as coisas santas, e por ‘santo’, na Palavra, se entende o Divino Vero que procede do Senhor e constitui o Seu reino espiritual (vê-se acima, n. 204), por isso, por ‘santos’ se entendem coisas espirituais, e pelas ‘preces dos santos’ se entende o culto pelo bem espiritual. Que pelas ‘preces dos santos’ se entenda o culto por esse bem, vê-se pelo fato de se diz que ‘tinham taças de ouro cheias de incenso, que são as preces dos santos’, e pelo ‘incenso’ são significadas todas as coisas do culto que procedem do bem espiritual, como se mostrou no artigo imediatamente precedente. Daí se segue que pelas ‘preces dos santos’ é significada coisa semelhante.
[2] Como também em David:
“Dá ouvidos à minha voz quando clamo a Ti; sejam aceitas as minhas preces, [como] incenso diante de Ti; o erguer das mãos [como] minchah da tarde; ...guarda a porta de meus lábios, não se incline o meu coração para o mal, para praticar malefícios em impiedade, com os varões que fazem a iniquidade... porque as minhas preces ainda estão em seus males” (Sl. 141:1-5);
aqui também, ‘preces’ são chamadas ‘incenso’, e o ‘erguer das mãos’ é chamada ‘minchah’, e isto porque as ‘preces’ significa o mesmo que o ‘incenso’, e o ‘erguer das mãos’ o mesmo que o ‘minchah’. O ‘incenso’ significa o bem espiritual que é o bem da caridade para com o próximo, e o ‘minchah’ significa o bem celeste, que é o bem do amor ao Senhor; assim, um e outro significam o culto. E como as preces não são da boca, mas do coração por meio da boca, e todo culto que é do coração procede do bem do amor e da caridade, pois o coração significa isso, por isso também se diz: ‘Guarda a porta dos meus lábios, não se incline o meu coração para o mal, para praticar malefícios em impiedade’; e como David se lamenta de que os males contra ele ainda prevalecem, por isso disse: ‘porque as minhas preces ainda estão em seu males’.
[3] Que as ‘preces’ signifiquem o mesmo que o ‘incenso’, vê-se também em outra passagem, no Apocalipse:
“Veio outro anjo e, e pôs-se junto ao altar, tendo um turíbulo de ouro; e foi-lhe dado muito incenso, [para que oferecesse] com as preces de todos os santos sobre o altar de ouro... e subiu a fumaça do incenso com as preces dos santos... à vista de Deus” (Ap. 8:3, 4);
como aqui são significadas as mesmas coisas pelas ‘preces’ e pelo ‘incenso’, ou seja, o culto pelo bem espiritual, por isso se diz: ‘Foi-lhe dado muito incenso, para que oferecesse com as preces dos santos’... e depois: ‘subiu a fumaça do incenso com as preces dos santos ‘a vista de Deus’. Dir-se-á primeiramente o que se entende por culto pelo bem espiritual, em seguida que as ‘preces’ significam esse culto. O culto não consiste em preces e em devoção externa, mas na vida de caridade; as preces são apenas os seus eternos, pois procedem do homem por sua boca; por causa disso, qual é a qualidade do homem quanto à vida, tais são as suas preces. Não importa se ele procede humildemente, ajoelhe-se e suspire quando ora; essas são coisas externas, e a menos que procedam dos internos, são apenas gestos e sons sem vida. Existe afeição em cada coisa que o homem fala, e cada homem, espírito ou anjo é sua afeição, pois sua afeição é sua vida; é a afeição mesma quem fala, e não o homem sem ela; por isso, qual é a afeição, tal é a oração. A afeição espiritual é o que se chama caridade para com o próximo; nela está o verdadeiro culto; a oração é o procedente. Daí se pode ver que o essencial do culto é a vida de caridade, e seu instrumental é o gesto e a oração, ou, o primário do culto é a vida de caridade, e o seu secundário é a oração, do que se torna evidente que muito erram aqueles que põem todo o culto Divino na piedade oral e não na piedade ativa.
[4] A piedade ativa é em toda obra e em toda função agir pelo que é sincero e reto, e pelo que é justo e equitativo, e isto por ser um preceito que vem do Senhor na Palavra, pois assim em toda a sua obra o homem visa o céu e o Senhor, com Quem assim é conjunto. Mas assim pelo que é sincero e reto, justo e equitativo somente pelo temor da lei, da perda da reputação, da honra e do lucro, e nada pensar a respeito da Lei Divina, dos preceitos da Palavra e do Senhor, e, no entanto, orar devotamente nos templos, é uma piedade externa que, por mais santa que pareça, não é, porém, piedade, mas é ou hipocrisia, ou uma espécie de invenção contraída pelo hábito, ou uma espécie de persuasivo pelo falso princípio de que o culto Divino consiste nisso somente, pois então a pessoa vida o céu e o Senhor não de coração, mas somente com os olhos. O coração visa a si mesmo e ao mundo, e a boca fala pelo hábito do corpo somente e a sua memória. Desse modo o homem se conjunge ao mundo e não ao céu, e a si e não ao Senhor. Por aí se pode ver o que é a piedade, depois o que é o culto Divino, e que a piedade ativa é esse culto. Sobre este assunto vide também o que ditou na obra O Céu e o Inferno (n° 222, 224, 358-360 e 528-530) e na Doutrina da Nova Jerusalém (n° 123 a 129), onde também se acham estas palavras:
“Piedade é pensar e falar piamente, dedicar muito tempo às preces, proceder então humildemente, frequentar os tempos e ai ouvir devotamente as pregações, participar frequentemente do Sacramento da Ceia todos os anos e igualmente as demais coisas do culto segundo os estatutos da igreja. Mas a vida de caridade é querer bem e fazer bem ao próximo, agir em toda obra pelo que é justo e equitativo, pelo bem e o vero, como também em toda função. Em suma, a vida de caridade consiste em prestar usos. O culto Divino consiste primeiramente nessa vida, mas secundariamente na outra. Por causa disso, quem separa uma da outra, a saber, quem pratica a vida de piedade e não ao mesmo tempo a vida de caridade não adora a Deus. ... Pois a vida de piedade vale tanto... quanto a ela se conjunge a vida de caridade, pois esta é a primária, e qual é esta, tal é aquela (Doutrina da Nova Jerusalém, n° 124 e 128)
[5] Foi-me confirmado por muita experiência que o céu é insinuado pelo Senhor na piedade ativa do homem, e não na piedade oral ou externa separada da ativa. Com efeito, vi muitos que puseram todo o culto na piedade oral e externa, e, além disso, em suas vidas nada pensaram a respeito dos preceitos do Senhor na Palavra, ou que se deve fazer o sincero e o reto, o justo e o equitativo pela religião, assim, por uma origem espiritual, mas fizeram-no somente pela lei civil, como também pela lei moral, para que parecessem ser sinceros e justos por causa da reputação, e esta por causa da honra e do lucro, crendo, assim, que viriam ao céu de preferência aos outros. Por causa disso, foram elevados ao céu segundo a sua fé, mas quando os anjos perceberam que eles tinham adorado a Deus somente de boca e não de coração, e que a piedade externa deles não procedera da piedade ativa, que é da vida, eles os expulsaram; foram depois associados com aqueles que tinham vida semelhante à deles, e ali foram privados de sua piedade e santidade, porque eram interiormente contaminadas pelos males da vida. Daí também tornou-se-me evidente que o culto Divino primário consiste na vida da caridade, e o secundário na piedade externa.
[6] Visto que o culto Divino primário consiste na vida e não nas preces, por isso o Senhor disse que, orando, não fossem loquazes e prolixos, nestas palavras:
“Orando, não sejais loquazes, como os gentios, que pensam que serão ouvidos por serem loquazes. Não vos torneis pois semelhantes a eles” (Mt. 6:7, 8).
Ora, visto que o culto Divino primário consiste na vida de caridade e o secundário nas preces, por isso, pelas ‘preces’ no sentido espiritual da Palavra se entende o culto pelo bem espiritual, isto é, pela vida de caridade, porque é o primário que se entende no sentido espiritual, enquanto o sentido da letra consiste de secundários, que são os efeitos e têm correspondência.
[7] Na Palavra, as preces são mencionadas também em muitas passagens, mas como as precedes procedem do coração e o coração do homem é tal qual sua vida de amor e de caridade, por isso pelas ‘preces’, no sentido espiritual, se entende essa vida e o culto que procede dela, como passagens a seguir. Em Lucas:
“Vigiai em todo o tempo, orando para sejais dignos de fugir das coisas que hão de acontecer, e de estar de pé diante do Filho do homem” (Lc. 21:36; Mc. 13:33);
por ‘vigiar em todo o tempo’ é significado adquirir para si a vida espiritual (vide acima, n. 187); por isso também se diz ‘orando’, porque a oração é o efeito dessa vida, ou o seu externo, que é eficaz tanto quanto procede da vida, pois são um, como a alma e o corpo, e como o interno e o externo.
[8] Em Marcos:
Jesus disse: “Todas as coisas que, orando, pedirdes, crede que serão recebidas; então vos serão feitas. Mas quando estiverdes orando, perdoai, se tiverdes alguma coisa contra alguém” (Mc. 11:24, 25);
aqui também, por ‘orar’, ‘pedir’ e ‘suplicar’, no sentido espiritual se entende a vida do amor e da caridade, pois aos que estão na vida do amor e da caridade o Senhor dá o que pedirem, pois não pedem outra coisa senão o bem, e este se lhes faz. Visto que a fé também procede do Senhor, por isso se diz: ‘crede que serão recebidas’. E visto que as preces procedem da vida de caridade, e são segundo ela, por isso, para aconteça segundo as preces, também se diz: ‘quando estiverdes orando, perdoai, se tiverdes alguma coisa contra alguém’.
[9] Que ‘quando estiverdes orando’ signifique quando estiverem no culto Divino é evidente também pelo fato de que a mesma coisa que aí se diz a respeito dos que estão ‘orando’ também se diz a respeito dos que oferecem oferta no altar, em Mateus:
“Se ofereceres oferta no altar, e te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa tua oferta diante do altar... e antes [vai] reconciliar com teu irmão, e então vem oferecer no altar” (Mt. 5:23, 24);
‘oferecer oferta no altar’ significa todo o culto Divino, pelo fato de que o culto com aquela nação consistia principalmente em oferendas de holocaustos e sacrifícios, pelas quais eram significadas, por isso, todas as coisas do culto (vide a Doutrina da Nova Jerusalém, n° 213 e 221). Daí se pode ver que a mesma coisa é significada por ‘suplicar’ ou ‘orar’ e ‘oferecer oferta no altar’, a saber, o culto pelo bem do amor e da caridade.
[10] No mesmo:
Jesus disse: “Está escrito: A Minha casa será chamada casa de orações, mas vós a convertestes em caverna de ladrões” (Mt. 21:13; Mc. 11:17; Lc. 19:46);
pela ‘Casa do Senhor’ é significada a igreja, e pelas ‘orações’ o culto ali; e pela ‘caverna de ladrões’ a profanação da igreja e do culto. Por este oposto também é evidente que as ‘orações’ significam o culto pelo bem do amor e da caridade.

[11] Em David:
A Deus clamei com minha boca;... se eu atentasse para a iniquidade em meu coração, o Senhor não ouviria; mas Deus ouviu, atendeu a voz das minhas preces” (Sl. 66:17-19).
Visto que as preces são tais quais é o coração do homem, e por isso não há preces que sejam de algum culto se o coração for mal, por isso se diz: ‘se eu atentasse para a iniquidade em meu coração, o Senhor não ouviria’, pelo que é significado que não receberia o culto. O coração do homem é o seu amor, e o seu amor é a sua vida mesma; assim, as preces do homem são tais como é o seu amor, ou tal como é a sua vida. Segue-se daí que as ‘preces’ significam a sua vida do amor e da caridade, ou que essa vida é entendida pelas ‘preces’ no sentido espiritual.
[12] Muitas passagens podem ser citadas, mas como o homem não sabe que sua vida e suas preces fazem um, e, assim, não percebe outra coisa senão que na Palavra, onde são nomeadas, pelas preces se entendem as preces somente, tais passagens serão por isso omitidas. Além disso, quando está na vida de caridade, o homem ora continuamente, ainda que não de boca, mas de coração, pois o que é do amor está constantemente no pensamento, ainda que ele o ignore (segundo o que foi dito na Doutrina da Nova Jerusalém, n. 55 a 57). Daí também é evidente que ‘oração’, no sentido espiritual, é o culto pelo amor. Mas aqueles que põem a piedade nas preces e não na vida desconhecem essas coisas, e mesmo pensam contra eles. Esses nem sabem o que é a piedade ativa.

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