. [Vers. 9] “E cantavam um cântico novo”. Que isto signifique o reconhecimento e a confissão pelo regozijo de coração, vê-se pela significação de ‘cântico’, que é o reconhecimento e a confissão pelo regozijo de coração; aqui o reconhecimento e a confissão de que o Senhor quanto ao Divino Humano tem todo o poder nos céus e nas terras. Que a confissão seja a esse respeito é porque é disso que se trata. Que ‘cantar um cântico’ signifique a confissão pelo regozijo de coração é porque o regozijo do coração se manifesta pelo cântico quando ela está em sua plenitude e daí também no pensamento e então se espalha pelo cântico; o regozijo mesmo de coração pelo som do cântico, e o regozijo do pensamento daí pelo cântico. A qualidade do regozijo do pensamento se expressa pelas palavras do cântico que sejam conformes e convenientes ao objeto que está no pensamento e é proveniente do coração; a qualidade do regozijo do coração se expressa na harmonia; e a intensidade do seu regozijo se expressa na elevação do som e aí nas palavras. Todas essas coisas fluem como que espontaneamente do regozijo mesmo, e isto pelo fato de que todo o céu é formado segundo as afeições do bem e do vero; o céu supremo segundo as afeições do bem e o céu médio segundo as afeições do vero; assim, é formado também para o regozijo, pois todo o regozijo vem da afeição ou do amor. Assim é que em toda linguagem angélica há uma espécie de concordância. (Mas estas coisas podem ser conhecidas e concluídas melhor pelo que foi dito e mostrado na obra O Céu e o Inferno, a saber, que os pensamentos e as afeições dos anjos se propagam segundo a forma do céu, n° 200 a 212 e 265 a 275; e que, assim, há uma espécie de concordância na linguagem deles, n. 242; depois, que o som da linguagem dos anjos corresponde às suas afeições, e as articulações do som, que são as palavras, correspondem ás ideias do pensamento, as quais procedem da afeição, n. 236 e 241; e, além disso nos Arcanos Celestes, n° 1648, 1649, 2595, 2596, 3350, 5182 e 8115). Daí é evidente que o fato de um cântico harmônico e a arte da música poderem exprimir afeições de vários gêneros e serem aplicados ao assunto é coisa que vem do mundo espiritual e não do natural, como se acredita (sobre esse assunto vide também a obra O Céu e o Inferno, n. 241). [2] Por este motivo é que na nação judaica e israelita muitos gêneros de instrumentos musicais foram empregados no culto santo, cada um dos quais sendo aplicado às afeições do bem celeste e às afeições do bem espiritual, e daí dos regozijos a cujo respeito se proclamava ***. Os instrumentos de corda eram aplicados ás afeições do bem espiritual, e os instrumentos de sopro às afeições do bem celeste, aos quais também se ajuntava o canto com os cânticos, pelos quais se formavam as concordâncias dos assuntos com o som das afeições. Todos os salmos de David eram assim, pelo que se chamam “salmos”, que vem do verbo “psallere”10, e também “cântico”. Por aí também se pode ver de onde vem que se diz que os quatro animais e os vinte e quatro anciãos tinham cítaras e também cantavam esse cântico. [3] Que ‘canto’ e ‘cantar um cântico’ signifiquem o reconhecimento e a confissão pelo regozijo de coração, vê-se pelas passagens a seguir. Em Isaías: “Dirás naquele dia: Confessarei JEHOVAH... Deus de minha salvação; confiarei, não temerei, porque [é] a minha força, e cântico; Jah JEHOVAH tornou-Se salvação para mim; então tirareis águas das fontes de salvação; e direis naquele dia: Confessai JEHOVAH, invocai o Seu nome... cantai a JEHOVAH... exulta e jubila, ó moradora de Sião, porque grande é o Santo de Israel no meio de ti” (Is. 12:1-6); aí se descreve a confissão pelo regozijo de coração por causa do advento do Senhor, e Seu poder Divino para salvar o gênero humano. Que seja confissão, é evidente, pois primeiro se diz: ‘confessar-Te-ei, JEHOVAH’, e também, depois, ‘confessemos JEHOVAH’. A confissão de que o Senhor pelo Divino poder deve salvar o gênero humano é descrita por: ‘Deus de minha salvação; confiarei, não temerei, porque [és] a minha força... tornou-Se salvação para mim; então tirareis águas das fontes de salvação... naquele dia... grande no meio de Ti é o Santo de Israel’. ‘Naquele dia’ é quando o Senhor viria; o ‘Santo de Israel’ é o Senhor; o regozijo daí, que é o regozijo da confissão, é descrito por ‘Cantai a JEHOVAH, exulta e jubila, ó moradora de Sião’; ‘moradora’ e ‘filha de Sião’ é a igreja onde o se cultua o Senhor; ‘cântico Jah’ aí significa a celebração e a glorificação do Senhor. [4] No mesmo: “Cantai a JEHOVAH um cântico novo, o Seu louvor, ó extremidades da terra;... Levantem a voz o deserto e suas cidades... cantem os habitantes da rocha, clamem dos cumes dos montes” (Is. 42:10, 11); aí também se trata do advento do Senhor e da instauração da igreja com aqueles que estavam foram da igreja, ou com os quais não havia a Palavra e o Senhor não era antes conhecido; ‘cantar um cântico novo’ significa a confissão pelo regozijo de coração; as ‘extremidades da terra cantarem o louvor’ significa a confissão daqueles que estão distante da igreja (a ‘extremidade da terra’ é onde termina o que pertence à igreja, pois ‘terra’ é a igreja); o ‘deserto e suas cidades’ que levantam a voz significa aqueles com os quais não há bem, por não haver vero, o qual, todavia, eles desejam; ‘habitantes da rocha’ significam o bem da fé neles; o ‘cume dos montes’ significa o bem do amor neles; ‘cantar’ e ‘clamar’ significa, daí, a confissão pelo regozijo da mente e do coração. [5] No mesmo: “JEHOVAH consolará Sião; consolará todas as suas assolações, e fará o seu deserto como o Éden, sua solidão como o jardim de JEHOVAH; alegria e regozijo se acharão nela, confissão e voz de canto” (Isa. 51:3, 51:8, 9); estas palavras também são a respeito do advento do Senhor e da instauração da igreja que estava então devastada ou destruída. Por ‘Sião’ é significada a igreja onde se adora o Senhor; por ‘suas assolações’ é significada a falta do vero e do bem pela ausência de cognições; ‘fazer o seu deserto como o Éden, e [sua] solidão como o jardim de JEHOVAH’ significa que eles terão o vero e o bem em abundância; (diz-se ‘deserto’ a respeito de onde não há bem, e ‘solidão’ a respeito de onde não há vero; ‘Éden’ significa o bem em abundancia, e ‘jardim de JEHOVAH’ significa o vero em abundancia). Como o ‘canto’ e o ‘cântico’ significam a confissão pelo regozijo de coração, por isso se diz ‘alegria e regozijo [se acharão] nela, confissão e voz de canto’ (‘voz de canto’ é o cântico). [6] Nas Lamentações: “Cessaram da porta os velhos, do cântico os jovens; cessou o regozijo de nosso coração” (Lm. 5:14, 15); ‘cessaram da porta os velhos’ significa que não existem mais aqueles que estão nos veros procedentes do bem, ou, abstratamente, os veros do bem pelos quais se faz a introdução na igreja; ‘os jovens cessaram do cântico’ significa que os próprios veros foram privados de sua afeição espiritual e, assim, de seu regozijo; e como este é o significado, por isso se diz: ‘cessou o regozijo de nosso coração’. [7] Em Ezequiel: “Farei cessar o estrépito dos teus cânticos, e a voz das cítaras não será mais ouvida” (Ez. 26:13); ‘estrépito dos cânticos’ significa os regozijos das confissões; ‘voz das cítaras’ significa as alegrias decorrentes dos veros e bens espirituais. [8] Em David: “JEHOVAH, minha força… e ajudador; meu coração exulta, e com meu cântico confessá-Lo-ei” (Sl. 28:7); como o cântico significa a confissão pelo regozijo de coração, por isso se diz: “meu coração exulta, e com meu cântico confessá-Lo-ei”. [9] No mesmo: “Cantai, ó justos, em JEHOVAH... confessai JEHOVAH na cítara, no saltério de dez cordas salmodiai-Lhe; cantai a Ele um cântico novo, fazei soar bem, com clangor” (Sl. 33:1-3); porquanto o regozijo de coração procede do amor celeste e do amor espiritual, por isso se diz: ‘cantai, ó justos, em JEHOVAH... confessai JEHOVAH na cítara, no saltério de dez cordas salmodiai-Lhe’; ‘cantai, ó justos’ se diz dos que estão no amor celeste; ‘confessai na cítara e salmodiai no saltério’ se diz dos que estão no amor espiritual. (Que sejam chamados ‘justos’ os que estão no amor celeste, vê-se acima, n. 204; e que ‘cítara’ e ‘saltério’ sejam atribuídos aos que estão no bem espiritual, vê-se também acima, n. 323). E como o cântico é a confissão pelo regozijo oriundo desses amores, por isso se diz: ‘confessai JEHOVAH, cantai a Ele um cântico novo’. A exaltação do regozijo pela plenitude é significada por ‘fazei soar bem, com clangor’. [10] No mesmo: “Louvarei o nome de Deus com cântico, e engrandecê-lo-ei com confissão” (Sl. 69:30); no mesmo: “Quando eu tinha ido com eles à casa de Deus, com voz de cântico e de confissão, a multidão festejando” (Sl. 42:4); no mesmo: “Confessai JEHOVAH, invocai o Seu nome... cantai-Lhe, salmodiai-Lhe” (Sl. 105:1,2; 149:1); no mesmo: “Confessarei JEHOVAH segundo a Sua justiça, e cantarei ao nome de JEHOVAH altíssimo” (Sl. 7:17); no mesmo: “Preparado está o meu coração, [ó Deus]; cantarei e salmodiarei. Desperta-te, minha glória; desperta-te, cítara e saltério... Confessar-Te-ei entre as nações, ó Senhor, salmodiar-Te-ei entre os povos” (Sl. 57:7-9). Uma vez que ‘cantar um cântico’ significa a confissão pelo regozijo de coração, por isso nessas passagens se fala de um e outro, ‘confessar e cantar’, ‘confissão e cântico’, ‘voz de canto e de confissão’. [11] Onde se trata do advento do Senhor se diz ‘cântico novo’ e se diz que ‘alegrem-se’ e ‘exultem’ a terra, o mar, o campo, a selva, as árvores, o Líbano, o deserto e outras coisas, como nas passagens que se seguem. Em David: “Cantai a JEHOVAH um cântico novo... Daí brados a JEHOVAH, toda a terra; ressoai, jubilai e cantai... com cítara e com voz de canto, com trombetas e com sons de cornetas; daí brados diante do Rei JEHOVAH. Brame o mar o [seu] estrondo e a sua plenitude, o mundo e os que nele habitam; os rios aplaudam com [suas] mãos, e à uma jubilem os montes” (Sl. 98:1, 4-8); no mesmo: “Cantai a JEHOVAH um cântico novo; cantai a JEHOVAH, toda a terra. Cantai a JEHOVAH, bendizei o Seu nome; anunciai de dia em dia a Sua salvação; ... os céus se alegrarão, e a terra regozijará; o mar e toda a sua plenitude serão abalados, o campo exultará, e tudo o que houver nele; então todas as árvores da selva cantarão” (Sl. 96:1-2, 11-12); no mesmo: “Cantai a JEHOVAH um cântico novo, o Seu louvor na congregação dos santos. Alegre-se Israel nos seus feitores, as filhas de Sião no seu Rei; louvem o Seu nome na dança, cantem-Lhe salmos com tambor e cítara” (Sl. 149:1-3); em Isaías: ‘Cantai a JEHOVAH um cântico novo, o seu louvor, ó extremidades da terra... levantam a voz o deserto e as suas cidades” (Is. 42:10, 11); no mesmo: “Cantai, ó céus, porque JEHOVAH fez [isso]; jubilai, ó inferiores da terra; ressoai com canto, ó montes, a selva e toda árvore nela, porque JEHOVAH redimiu Jacob, e em Israel mostrou-Se glorioso” (Is. 44:23; 49:13). Nestas passagens trata-se do Senhor, do Seu advento e da salvação operada por Ele; e como essas coisas estavam para acontecer, por isso se diz ‘cântico novo’. O regozijo daí é descrito não somente por ‘cantar’, ‘salmodiar’, ‘ressoar’, ‘jubilar’ e ‘aplaudir’, mas também por vários instrumentos musicais cujos sons concordavam, e ainda pelas expressões que “regozijassem-se juntamente’, ‘exultassem’, ‘jubilassem’, ‘cantassem’, ‘aplaudissem’ e ‘clamassem’ os rios, o mar, o campo, a selva, as árvores ali, o Líbano, o deserto, os montes e muitas outras coisas. Que se digam coisas semelhantes a respeito deles é porque significam coisas tais que pertencem à igreja, e, por isso, coisas tais que estão no homem da igreja; os ‘rios’ são as coisas que pertencem à inteligência; o ‘mar’, as coisas da ciência que são concordantes com os veros e bens; o ‘campo’, o bem da igreja; a ‘selva’, os veros do homem natural; as ‘árvores’, as cognições; o ‘Líbano’, o vero e o bem espiritual; o ‘deserto’, o desejo pelo vero para que possa haver o bem; os ‘montes’, os bens do amor. A respeito de todas essas coisas se diz: ‘cantar’, ‘ressoar’, ‘jubilar’, ‘clamar’ e ‘aplaudir’ quando elas provêm do céu, porque então o regozijo celeste está nelas e por elas está no homem, porquanto o homem não está no regozijo celeste a não ser que as coisas que há neles, que são os veros e bens, sejam provenientes do céu. Daí vem o regozijo de coração que é verdadeiramente regozijo, e o regozijo do amor em quem elas estão. Por aí se pode ver de onde procede dizer a respeito daquelas coisas o mesmo que se diz a respeito do homem, ou sejam porque nelas está o regozijo e por elas o regozijo está no homem. Esse regozijo está em todo bem espiritual e celeste, e, assim, está naqueles em quem há esses bens. Com efeito, o céu influi com seu regozijo, isto é, o Senhor por meio do céu, nos bens e, daí, nos veros que por Ele estão no homem, e não no homem desprovido deles ou vazio. São esses bens e os veros daí que, pelo influxo do céu, exultam, jubilam, ressoam, cantam e salmodiam, isto é, regozijam-se, e, daí, o coração do homem. [12] Como há várias afeições do bem e do vero, e cada uma delas se manifesta por um som concordante, por isso na Palavra são citados vários gêneros de instrumentos, principalmente em David, pelos quais são significadas afeições semelhantes. Quem conhece o sentido interno da Palavra e, ao mesmo tempo, os sons dos instrumentos aí nomeados, esse pode saber que afeição é ali significada e descrita. Os anjos sabem isso só pela menção deles e, ao mesmo tempo, pelo assunto de seus vocábulos ali descritos ***, quando o homem lê a Palavra. Por exemplo: “Batei palmas, todos os povos; cantai a Deus com voz de canto; …Deus subiu com clangor, JEHOVAH com o voz da corneta; cantai a Deus, cantei ao nosso Rei... porque Deus é Rei de toda a terra; cantai salmos [maskil]” (Sl. 47:1, 5-7); no mesmo: “Viram, ó Deus, as Tuas entradas, as entradas do meu Deus... foram na frente os cantores, atrás os instrumentistas, no meio as virgens com adufes” (Sl. 68:24, 25); no mesmo: “Jubilai em Deus, nossa força; aclamai o Deus de Jacob; erguei o canto, e fazei soar o tambor, a graciosa cítara com o saltério, tocai a corneta na luz nova” (Sl. 81:1-3); no mesmo: “Louvai a Deus... com clangor de corneta… com cítara e saltério... com tambor e dança... com a lira e o órgão... com címbalo sonoro... com címbalo de clangor” (Sl. 150:1, 3-50). Todos os instrumentos aí nomeados significam afeições, cada um a sua, e isto pela concordância de seus sons, pois há afeições que produzem variedades de sons nos homens, donde também são conhecidos pelos sons das afeições, como se mostrou acima neste artigo. [13] Acrescentarei este arcano: os anjos que no céu constituem o reino celeste do Senhor haurem o som do sentido interno da Palavra somente da afeição do homem que a lê a Palavra, resultante também do som das palavras na língua original. Mas os anjos que estão no reino espiritual do Senhor haurem o sentido interno dos veros que os vocábulos contêm. Assim, pelo reino celeste existe o regozijo de coração do homem que está na afeição espiritual, e pelo reino espiritual a confissão procedente desse regozijo. Os sons dos instrumentos musicais que são ali nomeados elevam a afeição e os veros a forma. Que isto seja assim, também o sabem os peritos na arte musical. Por essa razão é que os salmos de Davi se chamam ‘salmos’, de psallere11, e também ‘cânticos’, de canere12, porque eram cantados e tocados com o acompanhamento do som de vários instrumentos. Que por esse motivo os ‘salmos’ sejam assim chamados é fato conhecido, porque foram assinalados assim. Mas os que são chamados ‘cânticos’ são os seguintes: Sl. 18:1; 33:1, 3; 45:1; 46:1; 48:1; 65:1; 66:1; 67:1; 68:1; 75:1; 76:1; [83:1;] 87:1; 88:1; 92:1; 96:1; 98:1; 108:1; 120:1; 121:1; 122:1; 123:1; 124:1; 125:1; 126:1; 127:1; 128:1; 129:1; 130:1; 131:1; 132:1; 133:1; 134:1. Muitas outras passagens da Palavra a respeito do cântico poderiam ser citadas e seriam demonstrado que significam confissões pelo regozijo de coração, mas serão deixadas de lado por causa da grande quantidade. As que foram citadas são suficientes.