. “E o número deles era miríades de miríades, e milhares de milhares”. Que isto signifique os inumeráveis que estão nos veros e os inumeráveis que estão nos bens, vê-se pela significação de ‘número’, que é a quantidade e a qualidade; quantidade no sentido natural e qualidade no sentido espiritual; o número que é aposto determina isso. Mas todos os números na Palavra significam alguma coisa, como ‘dois’, ‘três’, ‘quatro’, ‘cinco’, ‘sete’, ‘dez’ e ‘doze’, tal como se mostrou em suas passagens. É a mesma coisa com ‘miríade’ e ‘milhar’, que são nomeados aqui. Seja, por exemplo, o número ‘sete’: ele não significa sete, mas todas as coisas, o pleno e o todo (vide acima, n° 257). O que, porém, significam ‘miríade’ e ‘milhar’ é o que se dirá agora. ‘Miríades’ significa inumeráveis, assim como ‘milhares’, mas ‘miríades’ se diz dos veros, enquanto ‘milhares’ se diz dos bens. Assim é que por ‘miríades de miríades e milhares de milhares’ são significados os inumeráveis que estão nos veros e os inumeráveis que estão nos bens. [2] Os que estão nos céus inferiores - a cujo respeito se dizem essas palavras, igualmente aos que estão nos céus superiores, dos quais se tratou acima - são de dois reinos, a saber, do reino espiritual e do reino celeste; os que são do reino espiritual se entendem por aqueles que estão nos veros, mas os que estão no reino celeste se entendem pelos que estão nos bens. O inumerável destes últimos é significado por ‘milhares de milhares’, e o inumerável dos primeiros é significado por ‘miríades de miríades’. No sentido abstrato, que é o verdadeiro sentido espiritual, são significados os veros inumeráveis e o bens inumeráveis. ‘Miríades’ e ‘milhares’ significam inumeráveis porque ‘dez’ significa muito e, daí também, o ‘cem o ‘mil’ e ‘dez mil’, porque os números multiplicados por um número semelhante significam o mesmo que os números simples pelos quais foram multiplicado (vide n° 5291, 5335, 5708 e 7973). Quando, porém, devem ser expressas coisas inumeráveis, que são infinitamente muitas, dizem-se ‘miríades de miríades’ e ‘milhares de milhares’. [3] Além disso, quando se multiplicam dois números, um maior e outro menor, e que significam o mesmo, eles são referidos como um só, assim como dez e cem, ou cem e mil; então, o menor se diz dos bens, e o maior dos veros. A razão disso é porque cada um dos bens consiste de muitos veros, pois o bem é formado pelos veros e, portanto, o bem é produzido pelos veros. Daí vem que o número maior se diz dos veros e o menor, dos bens. É semelhante aqui, com ‘miríades de miríades’ e ‘milhares de milhares’. Que isto seja assim, é o que será ilustrado pelo seguinte: um prazer da afeição pode ser manifesto por meio de muitas ideias do pensamento e ser exprimido por várias coisas na linguagem; o prazer da afeição é o que se chama bem, e as ideias do pensamento e as várias coisas na linguagem, que procedem do prazer ou do bem, chamam-se veros. Ocorre de modo semelhante com uma coisa da vontade em relação a muitas do seu entendimento, e também com uma coisa do amor em relação a muitas coisas que o exprimem. Daí é, também, que ‘muito’ e ‘multidão’, na Palavra, se dizem dos veros, enquanto ‘grande’ e ‘magnitude’ se dizem do bem, pois o que é grande contem em si muitas coisas. Mas isto foi dito àqueles que podem ser esclarecidos por meio de exemplos, para que saibam de onde procede que ‘miríades’ se refere aos veros, e ‘milhares’, aos bens. [4] Que esses números significam tais coisas, pode-se ver pelas passagens que se seguem. Em Moisés: “No primogênito do boi ele terá honra, e chifres de unicórnio são os seus chifres; com eles ferirá os povos juntos até os fins da terra; e estes são as miríades de Efraim e estes são os milhares de Manassés” (Dt. 33:17); essas palavras foram ditas a respeito de José, por quem é significado, no sentido representativo, o Senhor quanto ao Divino espiritual e quanto ao Seu reino espiritual (vide n° 3969, 3971, 4669 e 6417); seus dois filhos, ‘Efraim’ e ‘Manassés’, significam as duas coisas desse reino, ou seja, o vero intelectual e bem voluntário, por ‘Efraim; o vero intelectual, e por ‘Manassés’ o bem voluntário. Daí é que se diz ‘miríades de Efraim’ e ‘milhares de Manassés’’; (que estas coisas sejam significadas por ‘Efraim’ e por ‘Manassés’, vide nos Arcanos Celestes, n° 3969, 5351, 5353, 5354, 6222, 6234, 6238, 6267 e 6296). O que é significado aí por ‘primogênito do boi’ e por ‘chifres de unicórnio, vide acima (n° 316). [5] Em David: “Os carros de Deus são duas miríades, milhares de anjos de paz; o Senhor está neles, o Sinai no santuário” (Sl. 68:17); pelos ‘carros de Deus’ são significados os veros da doutrina, e pelos ‘anjos de paz’ são significados os seus bens; por isso se diz dos primeiros ‘miríades’, e dos últimos, ‘milhares’. (Que os ‘carros’ signifiquem os veros da doutrina, vide nos n° 2762, 5321 e 8215; e que a ‘paz’ signifique o íntimo do bem, na obra O Céu e o Inferno, n° 284-290); e como o Senhor é chamado ‘Senhor’ por causa do bem, e Sinai significa o céu onde está e de onde vem o Divino Vero, por isso se diz ‘o Senhor está neles, Sinai no santuário’; ‘santuário’ é o céu e a igreja onde está o Divino Vero. (Que o Senhor seja chamado ‘Senhor’ por causa do Divino Bem, e ‘Deus’ por causa do Divino Vero, vide nos n° 4973, 9167 e 9194; e que ‘Sinai’ signifique o céu onde está o Senhor, do qual vem o Divino Vero, ou do qual vem a Lei no sentido restrito e no sentido amplo, n° 8399, 8753, 8793, 8805 e 9420). [6] No mesmo: “Não temerás o pavor da noite, a flecha que voa de dia, a peste que rasteja na escuridão, a morte que devasta no meio-dia; caiam ao teu lado mil, e dez mil à tua direita” (Sl. 91:5-7); estas palavras foram ditas a respeito dos falsos e males que não são reconhecidos como falsos e males, e a respeito dos falsos e males que são reconhecidos como falsos e males e, no entanto, irrompem no pensamento e na vontade e destroem os homens; os falsos que são reconhecidos como falsos se entendem pela ‘flecha que voa de dia’; e os males que são reconhecidos como males e ainda assim penetram se entendem pela ‘morte que devasta no meio-dia; e os falsos que não são reconhecidos como falsos se entendem pelo ‘pavor da noite’; e os males que não são reconhecidos como males, pela ‘peste que rasteja na escuridão’; a destruição desses males é significada pelos ‘mil que cai ao seu lado’; e a destruição dos falsos, por ‘miríade que cai à sua direita’; também, pelo ‘lado’ em que caem é significado o bem, e pela ‘direita’, o vero do bem. Diz-se ‘mil’ a respeito dos males e ‘miríade’ a respeito dos falsos porque os falsos são opostos aos veros, e os males são opostos aos bens, e os opostos são exprimidos por semelhantes palavras e semelhantes números na Palavra. [7] No mesmo: “Nossos celeiros cheios, provendo de comida a comida; nossos rebanhos milhares, miríades em nossas ruas” (Sl. 144:13); pelo ‘celeiro’ e pela ‘comida’ são significados os bens e veros da igreja, pois as comidas espirituais são as cognições do veros e do bem, pelos quais há a inteligência; as mesmas coisas, porém interiores, significadas pelos ‘rebanhos’; por isso os bens da igreja se entendem por ‘milhares’ e os seus veros por ‘miríades’; e como os veros se entendem por ‘miríades’, por isso se diz ‘miríades em nossas ruas’, porque pelas ‘ruas’ da cidade são significados os veros da doutrina. (Que a ‘comida’ signifique tanto o bem quanto o vero, vide nos n° 3114, 4459, 4792, 5147, 5293, 5340, 5342, 5410, 5426, 5576, 5582, 5588, 5655, 5915, 6277, 8418, 8562 e 9003; daí, também, os ‘celeiros’ que são o seu depósito. Que pelos ‘rebanhos’ sejam significados os bens e veros interiores, que se chamam espirituais, n° 1565, 2566, 3767, 3768, 3772, 3783, 3795, 5913, 6044, 6048, 8937, 10609). [8] Em Miquéias: “Acaso deleitar-se-á JEHOVAH com milhares de carneiros, de miríades de rios de óleo?” (Mq. 6:7); como pelos ‘carneiros’ são significados os bens espirituais, e pelos ‘rios de óleo’ são significados os veros procedentes do bem, por isso se diz destes ‘miríades’, e daqueles, ‘milhares’. (Que os ‘carneiros’ signifiquem os bens espirituais, vide nos n° 2380 e 4170). E como pelo ‘óleo’ é significado o bem do amo, daí pelos seu ‘rios’ são significados os procedentes dele, que são os veros. [9] Em Daniel: “Estive vendo até que tronos foram lançados, e o Antigo dos dias sentou-se... um rio de fogo que mana e sai de diante d’Ele; milhares de milhares O serviam, e miríades de miríades estavam diante d’Ele” (Is. 7:9, 10); trata-se aí do advento do Senhor, e pelos ‘tronos’ que foram lançados são significados os falsos da igreja que foi destruída; pelo ‘Antigo dos dias’ se entende o Senhor de eternidade; pelo ‘rio de fogo que emana e sai diante d’Ele’ é significado o Divino Bem do amor e, daí, o Divino Vero; pelo ‘rio de fogo’ que emana o Divino Bem do amor, e pelo mesmo ‘saindo’, o Divino Vero procedente; como são significados um e outro, por isso se diz ‘milhares de milhares O serviam, e miríades de miríades estavam diante d’Ele’; ‘mil’ se diz do Divino Bem, e ‘miríade’ do Divino Vero; ‘servir’ também se atribui ao bem (vide acima, n° 155), e ‘estar’, assim como ‘sair’, se atribui ao vero. [10] Em Moisés: Quando a arca descansava, Moisés dizia: “Volta, JEHOVAH, às miríades de milhares de Israel” (Nm. 10:36); porquanto a ‘arca’ significava o Divino celeste procedente do Senhor, por causa da Lei ou do Testemunho que havia nela, e ‘Israel’ significava a igreja quanto à recepção do Divino Bem e do Divino Vero, por isso se diz ‘miríades de milhares de Israel’, pelo que são significados os veros do bem que havia em Israel ou na igreja. O que, porém, significa ‘mil’ ou ‘milhar’, quando não se ajuntam ‘miríade’ ou ‘dez mil’, ver-se-á na sequência, em seu artigo, igualmente com relação a ‘número’.