. (Vers. 13) “E ouvi tudo o que foi criado, que está no céu e na terra, e debaixo da terra, e todas as que estão no mar, e todas as coisas que há neles, dizendo”. Que isto signifique o reconhecimento e, daí, a glorificação do Senhor pelos anjos que estão nos ínfimos do céu, vê-se pela significação de ‘tudo o que foi criado’, que são todos os que são reformados; que ‘ser criado’ signifique ser reformado e regenerado, vê-se acima (n° 294); daí, ‘criado’ significa o que é reformado e regenerado; mas, em relação aos anjos, a cujo respeito estas coisas foram ditas, significa aqueles que foram reformados no mundo, isto é, criados de novo, pois todos eles estão no céu. Por ‘criado’, aqui, entende-se o mesmo que por ‘criatura’ em Marcos:
Jesus disse aos discípulos: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Mc. 16:15);
por ‘toda criatura’ aí se entendem todos os que recebem o evangelho e por ele podem ser reformados. Os demais não se entendem por ‘criaturas’, porque não recebem, mas ouvem e rejeitam.
[2] Por aí se pode ver como é a Palavra no sentido da letra, isto é, ela diz ‘criatura’ e diz ‘tudo o que foi criado que está no céu e na terra, e debaixo da terra, e todas as que estão no mar, e todas as coisas que há neles’; os que não sabem que há um sentido da letra de tais palavras que se mostram aos olhos, e que por elas se entendem coisas espirituais, podem ser facilmente levados a crer que por ‘tudo o que foi criado que está no céu e na terra, e debaixo da terra, e todas as que estão no mar, e todas as coisas que há neles’ se entendem as aves que voam no céu, as bestas que caminham sobre a terra e os peixes que estão no mar, e isto ainda mais porque em várias passagens na Palavra se falam coisas semelhantes a respeito das ‘aves dos céus, das ‘bestas na terra’ e, também, de ‘baleias’ e ‘peixes’ (como Ez. 39:17; Sl. 148:7; Jó 12:7, 8; Ap. 19:17; e outras passagens). Aqueles, porém, cuja mente pode ser elevada acima do sentido da letra, logo percebem pela visão interior que por aquelas coisas se entendem anjos e espíritos que há no céu e sob o céu, e que foram eles que João ouviu quanto esteve em espírito, pois se lê: ‘Ouvi ... dizendo: Ao Que está sentado no trono e ao Cordeiro, bênção e honra e glória e força no século dos séculos’, pelo que se pode ver que são os anjos nos ínfimos do céu que se entendem por ‘tudo o que foi criado neles’. Isto se segue, também, do fato de que nos versículos que precederam tratou-se dos anjos dos céus superiores e dos anjos dos céu inferiores, que reconheceram e glorificaram o Senhor (vide acima, n° 322 e 335).
[3] Agora se dirá quem são aqueles que se entendem pelos que estão ‘no céu’, quem são os que estão ‘na terra e debaixo da terra’ e quem são os que estão ‘no mar’. Por todos eles se entendem os que estão nos últimos do céu, sendo os superiores ali entendidos pelos que estão ‘no céu’, os inferiores ali pelos que estão ‘na terra e debaixo da terra’, e os ínfimos ali pelos que estão ‘no mar’. Há três céus, e cada céu foi distinguido em três graus, do mesmo modo que os anjos que há neles; por causa disso, em cada céu há superiores, médios e inferiores. Esses três graus do último céu se entendem por aqueles que estão ‘no céu’’, ‘na terra’ e ‘ no mar’. (Sobre essa distinção dos céus e de cada céu, vide, nos Arcanos Celestes. os n° 4938, 9992, 10005, 10017 e 10068; e a respeito do último grau, n° 3293, 3294, 3793, 4570, 5118, 5126, 5497, 5649 e 9216, e na obra O Céu e o Inferno, n° 29-40). Cumpre saber que no mundo espiritual, onde estão os espíritos e os anjos, tudo tem o mesmo aspecto que no mundo natural, onde estão os homens, ou seja, há ali montes, colinas, terras e mares (vide acima, n° 304). Sobre os montes habitam os anjos que estão no terceiro céu ou íntimo; sobre as colinas ali os que estão no segundo céu ou médio, e sobre a terra, debaixo dela e nos mares os que estão primeiro céu ou mais externo. Mas os mares que habitam os do céu ínfimo não são como os males em que os males habitam; as águas são diferentes. As águas [undae] dos mares em que estão os probos que há no céu ínfimo são tênues e puras, mas as águas dos mares em que estão os males são densas e impuras; são, por conseguinte, mares completamente diferentes.
[4] Foi-me concedido algumas vezes ver esses mares e também falar com os que estão neles, e foi constatado que ali se acham os que foram meramente sensuais no mundo, ainda que probos; e como eram sensuais, não puderam entender o que é o espiritual, mas somente o que é o natural, nem puderam perceber a Palavra e a doutrina da igreja derivada da Palavra, a não ser sensualmente. Todos ali aparecem como se estivessem no mar, mas os que estão ali não se veem como se estivessem no mar, mas como em uma atmosfera em que estiveram quando viveram no mundo. Somente aos que estão acima é que eles parecem estar no mar. Hoje há ali um número imenso deles, por haver hoje tantos que são sensuais. Essa última parte do céu corresponde à planta dos pés. Daí é na Palavra se nomeiam tantas vezes os ‘mares’ e também os ‘peixes’ neles, e pelos ‘mares’ aí são significados os veros gerais, que são do homem natural, e pelos ‘peixes’ os conhecimentos sensuais, que são os ínfimos do homem natural, pelo que são significados os que são tais ou os que estão nesses veros e nesses conhecimentos. (O que são as coisas sensuais e que são os sensuais, e que eles sejam tanto do bem quanto do mal, vê-se na Doutrina da Nova Jerusalém, n° 50). Por aí se pode ver agora o que se entende por ‘tudo o que foi criado que está no céu e na terra, e debaixo da terra, e todas as que estão no mar, e todas as coisas que há neles’.
[5] Coisas semelhantes são significadas pelos ‘mares’ e pelo que há neles, que se chama ‘peixes’ e ‘baleias’, nas passagens que se seguem. Em David:
“Louvem” a JEHOVAH, “o céu e a terra, os mares e tudo o que rasteja neles; porque Deus salvará Sião, e edificará as cidades de Judah” (Sl. 69:34, 35);
também se diz ‘tudo o que rasteja’ neles, e se entendem os que são sensuais; por ‘Sião’, a quem Deus salvará, e pelas ‘cidades de Judah’, as quais edificará, se entende a igreja celeste e a sua doutrina; por ‘Sião’ essa igreja, e pelas ‘cidades’ a doutrina. Coisas semelhantes são significadas por estas palavras em David:
“Louvai JEHOVAH da terra, baleias e todos os abismos” (Sl. 148:7);
o mesmo se entendem pelas ‘baleias’. Daí também é que o Egito se chama ‘baleia’ (Ez. 29:3), pois pelo Egito é significado o conhecimento que há no homem natural, e pela ‘baleia’ o conhecimento no geral.
[6] Coisas semelhantes são também significadas por elas em outra passagem no mesmo livro:
“Fizeste-O dominar sobre as obras de Tuas mãos; puseste todas as coisas sob os Seus pés, o rebanho e toda a mandada, e também as bestas do campo, a ave do céu e os peixes do mar” (Sl. 8:6-8);
aí se trata do Senhor e de Seu poder Divino sobre o céu e a terra; por ‘rebanho e manada, bestas do campo, ave do céu e peixes do mar’ se entendem os homens, espíritos e anjos quanto às suas coisa espirituais e naturais; e pelos ‘peixes do mar’ se entendem os que estão nos últimos do céu, como acima. Em Jó:
“Pergunta, peço-te, às bestas, e elas te ensinarão; ou às aves do céu, e elas te anunciarão; ou ao arbusto da terra, e ele te ensinará; e os peixes do mar te narrarão. Quem não sabe, dentro todos eles, que a mão de JEHOVAH fez isso?”
[7] Em Ezequiel:
O anjo “trouxe-me de volta à porta da casa, onde eis que saíam águas de sob o limiar da casa, para o oriente;... então me disse: Estas águas que saem para o termo oriental, e descem na planície, e vêm para o mar, são enviadas ao mar para que curem as águas, do que sucede que toda alma vivente que rasteja, e tudo o que vem ao rio, viverá; do que sucede que haverá peixes em muita quantidade, porque ali virão essas águas, e serão curadas, para que viva tudo o que vier ao rio.... O peixe será conforme a sua espécie, como os peixes do grande mar, em muita quantidade. Seus charcos e seus pântanos não são curados; no sal serão deixados” (Ez. 47:1, 8-11);
pelas ‘águas que saem de sob o limiar da casa para o oriente’ são significados os veros de origem celeste; as ‘águas’ são os veros, o ‘oriente’ é o bem do amor celeste, e a ‘casa’ é o céu e a igreja; a ‘planície’ na qual descem as águas, e o ‘mar’ aonde virão significam os últimos do céu e da igreja, por conseguinte, aqueles que estão nos últimos (dos quais se tratou acima), a saber, os que estão somente nas cognições do vero pelo sentido último da Palavra e as compreendem natural e sensualmente. Esses, como são bons simples, recebem o influxo dos céus superiores, donde resulta que também recebem o espiritual em suas cognições e, daí, alguma vida espiritual. Isto é o que se entende pelas ‘águas enviadas ao mar para que as águas sejam curadas, do que sucede que toda alma vivente que rasteja, e tudo o que vem ao rio, viverá’; e depois por estas: ‘do que sucede que haverá peixes em muita quantidade, porque ali virão essas águas, e serão curadas’. Mas os que são tais e que não são bons se entendem por estas palavras: ‘Seus charcos e seus pântanos, que não são curados, serão deixados no sal’; ‘ser deixado no sal’ significa não receber a vida espiritual, mas permanecer na vida meramente natural, que, separada da vida espiritual, é contaminada pelos falsos e males, que são os ‘charcos’ e os ‘pântanos’.
[8] Coisas semelhantes são significadas pelo ‘mar’ e pelos ‘peixes do mar’ em Isaías:
“Eis, por Minha repreensão seco o mar; faço dos rios um deserto, seu peixe apodrece por não haver água, e morre de sede” (Is. 50:2);
a ‘repreensão’ significa a desolação de todo vero; o ‘mar’ significa onde o vero está em seu último; a ‘água’ significa o vero de origem espiritual; ‘morrer de sede’ significa a desolação pela falta do vero; os ‘peixes dos mares’ significa os que estão nos últimos do vero, nos quais não vida alguma de origem espiritual.
[9] Coisas semelhantes são significadas pelos ‘peixes dos mares’ em Ezequiel:
“No Meu zelo, no fogo de Minha indignação falarei... para tremam diante de Mim os peixes do mar, e as aves dos céus, e a besta do campo, e todo réptil que rasteja sobre a terra” (Ez. 38:19-20);
em Oséias:
“Roubam e tocam *** em sangues; por isso a terra pranteará, e todo aquele que habita nela definhará; quanto à besta do campo, e quanto à ave dos céus e também quanto aos peixes do mar, serão ajuntados” (Os. 4:2, 3);
e em Sofonias:
“Consumindo consumirei todas as coisas de sobre a face da terra... consumirei o homem e a besta, consumirei a ave dos céus e os peixes do mar” (Sf. 1:2, 3);
por ‘homem e besta’ quando são referidos juntamente, são significadas as afeições do bem interiores e exteriores (vide n° 7424, 7523 e 7872); e por ‘aves dos céus e peixes do mar’ são significadas as afeições do vero e os pensamentos espirituais e naturais, mas, nas passagens citadas, que eles perecerão.
[10] Que o ‘mar’ e os ‘peixes’ signifiquem tais coisas, isso vem da aparência no mundo espiritual. Todas as sociedades que há ali aparecem envoltas por uma atmosfera correspondente às suas afeições e aos seus pensamentos. As sociedades que há no terceiro céu aparecem numa atmosfera pura, como se fosse etérea; as que há no segundo céu aparecem numa atmosfera menos pura, como se fosse aérea; mas as sociedades que há no último céu aparecem envoltas por uma atmosfera como se fosse aquosa, e aquelas que há nos infernos aparecem envoltas em atmosferas densas e impuras, algumas como se em negras águas e outras diferentemente. São as afeições e, daí, os pensamentos que produzem isso em volta deles, pois de todos exalam esferas e essas esferas mudam-se em tais aparências. (Sobre essas esferas, vide nos Arcanos Celestes os n° 2489, 4464, 5179, 7454 e 8630). Que, porém, os que estão na afeição espiritual e no pensamento daí sejam significados pelas ‘aves do céu’, e os que estão na afeição natural e no pensamento daí, pelos ‘peixes’, isto também vem da aparência no mundo espiritual, pois ali também aparecem tanto aves quanto peixes; as aves sobre as terras e os peixes no mar. São as afeições e, daí, os pensamentos dos que ali estão que aparecem assim; todos os que estão naquele mundo sabem disso, e também eu vi muitas vezes tanto as aves quanto os peixes. Essa aparência vem da correspondência. Por aí se pode ver de onde procede que os ‘mares’ significam os gerais do vero, e as suas ‘baleias’ e ‘peixes’ significam as afeições e os pensamentos dos que *** estão nos gerais do vero. (Que os ‘mares’ signifiquem os gerais do vero, mostrou-se acima, n° 275).
[11] Vou ilustrar com um único exemplo a natureza daqueles que habitam no mundo espiritual na atmosfera aquosa que se entende por entende por mares. Quando leem as seguintes palavras em David:
“Tudo o que o Senhor deseja Ele o faz, no céu e na terra, nos mares e em todos os abismos” (Sl. 135:6),
eles não sabem outra coisa senão que pelo ‘céu’ se entende o céu visível aos olhos, por ‘terra’ a terra habitável e por ‘mares’ e ‘abismos’ os mares e abismos; assim, que JEHOVAH faz nesses lugares tudo o que quer. Eles não podem ser levados a crer que pelo ‘céu’ se entende o céu angélico, pela ‘terra’ ali os que estão abaixo, e por ‘mares’ e pelos ‘abismos’ os que estão ali nos últimos. Como essas coisas são espirituais e acima do sentido da letra, não as querem e dificilmente as podem perceber, pelo fato de verem todas as coisas natural e sensualmente.
[12] Assim é, também, que pelas seguintes palavras no Apocalipse:
“Vi um novo céu e uma nova terra, porque o primeiro céu e a primeira terra passaram” (Ap. 21:1);
até aqui tinha sido entendido que o céu visível e a terra habitável hão de perecer e existirão um novo céu e uma nova terra; os que pensam apenas natural e sensualmente não querem [entender] e, assim, não entender que pelo ‘céu’ aí se entende o céu onde estão os anjos, e pela ‘terra’ se entende a igreja onde estão os homens, e que tais céu e terra serão feitos de novo. Essas pessoas não deixam que sua mente seja elevada da luz natural para a luz espiritual; isso é difícil para eles, a ponto de mal afirmarem que alguma outra coisa seja entendida a não ser aquilo que ela declara em seu sentido e o homem natural compreende. Esses não são diferentes das aves que veem e cantam na obscuridade, à luz do dia piscam os olhos e pouco veem; semelhantes a estes são os bons dentre eles, que são também como peixes que voam, mas os maus desse gênero são semelhantes a corujas e mochos, que fogem o máximo possível da luz do dia, e são semelhantes a peixes que não podem ser elevados ao ar sem desfalecerem. A razão disso é que nos bons desse gênero o homem interno espiritual recebe de algum modo o influxo espiritual do céu e, daí, alguma percepção de que algo é assim, ainda que não vejam, enquanto nos maus desse gênero o homem interno espiritual está completamente fechado. Com efeito, cada homem tem um interno e um externo, ou um espiritual e um natural; o homem interno ou espiritual vê pela luz do céu, mas o homem externo ou natural vê pela luz do mundo.
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