AE 356

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. “E o que estava sentado sobre ele tendo um arco”. Que isto signifique a doutrina da caridade e da fé, pela qual há o combate contra os males e falsos, e estes são dissipados por ela, vê-se pela significação de ‘sentado sobre o cavalo branco’, que é a Palavra (de que se tratou logo acima); e pela significação de ‘arco’, que é a doutrina da caridade e da fé, pela qual se luta contra os males e falsos e estes são dissipados. Que o ‘arco’ signifique essa doutrina, ver-se-á na sequência. Aqui se dirá primeiramente alguma coisa a respeito da doutrina:
(i.) Sem a doutrina ninguém pode entender a Palavra.
(ii.) Sem a doutrina, ninguém pode lutar contra os males e falsos, e dissipá-los.
(iii.) Sem a doutrina da Palavra, ninguém se torna espiritual dentro da igreja onde há a Palavra.
(iv.) A doutrina não pode ser adquira de outra parte senão da Palavra, e não por outros senão aqueles que estão na iluminação pelo Senhor.
(v.) Todas as coisas da doutrina devem ser confirmadas pelo sentido da letra da Palavra.
No que concerne ao primeiro ponto, a saber, que sem a doutrina ninguém possa entender a Palavra, pode-se ver pelo fato de que o seu sentido da letra é composto de meras correspondências que contêm em si coisas espirituais, assim, é composto de coisas tais as que estão no mundo e na sua natureza. Daí é que o sentido da letra é natural e não espiritual, embora acomodado à compreensão dos simples, que não elevam suas ideias acima do que vêm perante os olhos. Daí é, também, que contém coisas tais que não parecem espirituais, ainda que interiormente toda a Palavra seja em si puramente espiritual, porque é Divina. Por causa disso, há muitas coisas no sentido da letra que não podem servir à igreja de hoje como alguma doutrina, e muitas que podem ser aplicados a variados e diversos princípios, donde surgem as heresias; no entanto, há muitas coisas misturadas das quais a doutrina pode ser coligida e formada, principalmente a doutrina da vida, que é a doutrina da caridade e da fé daí. Quem, porém, lê a Palavra pela doutrina, esse vê ali todas as coisas que confirmam, e também muitas que se ocultam aos olhos dos outros; também não se deixa desviar a ideias estranhas pelas coisas que ali aparentam não concordar, as quais ele não entende, pois para ele todas coisas da doutrina que vê ali estão na claridade, e as demais estão na obscuridade. Por esse motivo, para os que leem a Palavra, a doutrina, que consiste de veros genuínas, é como lâmpada; e, ao contrário, para aqueles que a leem sem a doutrina, a Palavra é como um castiçal sem o lume, posto num lugar escuro, pelo qual nada que conduz à salvação ali se pode ver, saber, buscar e encontrar, além do fato de podem ser tomados por quaisquer erros, para os quais a mente se inclina por algum amor, ou é atraído por algum princípio. Daí se pode ver que ninguém pode entender a Palavra sem doutrina.
[2] Segundo: Que sem a doutrina ninguém possa lutar contra os males e falsos, e dissipá-los, vê-se pelo seguinte: pela doutrina os veros podem ser visto em sua luz e em sua ordem, mas não pela Palavra sem a doutrina, o que é evidente pelo que se disse há pouco no que precedeu. E se os veros não podem ser vistos, tampouco podem ser vistos os falsos e males, pois estes são opostos àqueles; e, todavia, toda luta contra os males e falsos é pelos veros, isto é, pelos veros provenientes do Senhor. Por isso, quem lê a Palavra sem a doutrina pode facilmente lutar em favor do falso contra o vero e em favor do mal contra o bem, confirmando-os por errôneas interpretação e aplicação ao sentido da letra da Palavra. Segue-se daí que o homem não é reformado, pois é reformado pela dissipação dos males e dos falsos daí, pelos veros aplicados à vida. É isto, pois, o que se entende por ‘viu-se um cavalo branco, e o que estava sentado sobre ele tendo um arco’, pois pelo ‘cavalo branco’ é significado o entendimento do vero proveniente da Palavra, e pelo ‘arco’ é a significada a doutrina e da caridade e da fé daí, pela qual se luta contra os males e falso e estes são dissipados.
[3] Terceiro. Que sem a doutrina da Palavra ninguém se torne espiritual dentro da igreja onde há a Palavra, pode-se ver pelo que acaba de se dizer, ou seja, que a Palavra sem a doutrina não é entendida e que sem a doutrina da Palavra não se pode lutar contra os males e falsos. Com efeito, o homem se torna espiritual por uma vida segundo os Divinos Veros – os quais ele não conhece sem a doutrina – e pela remoção dos males e dos falsos, o que ele tampouco faz sem a doutrina, como se disse acima. E sem essas duas coisas o homem não é reformado, por conseguinte, não se torna espiritual, mas permanece natural, e confirma a sua vida natural pelo sentido da letra da Palavra, que é natural, interpretando-a e aplicando erroneamente. Diz-se ‘dentro da igreja, onde há a Palavra’, porque os que estão foram da igreja não têm a Palavra e, assim, nada sabem sobre o Senhor, e ninguém se torna espiritual a não ser pelo Senhor. Não obstante, todos aqueles que reconhecem Deus e o adoram sob a forma humana, e vivem na caridade segundo uma religiosa concordante com a Palavra, são preparados pelo Senhor para receberem a vida espiritual, a qual também recebem na outra vida (sobre esse assunto, vida a obra O Céu e o Inferno, n° 318 a 328, e acima, n° 107 e 195). O homem se torna espiritual pela regeneração, e a regeneração se faz ‘pela água e pelo espírito’, isto é, pelos veros e por uma vida segundo os veros (vide, na Doutrina da Nova Jerusalém, os n° 173 a 186; e que o batismo em todo o mundo cristão seja um sinal e um memorial da regeneração, n° 202 a 209, ali).
[4] Quarto. Que a doutrina não possa ser adquira de outra parte senão da Palavra, e não por outros senão aqueles que estão na iluminação pelo Senhor, vê-se pelo fato de que a Palavra é o Divino Vero mesmo, e é tal que nela está o Senhor, pois o Senhor está em Seu Divino Vero, que procede d’Ele. Por isso, os que formam doutrina de outra parte senão a Palavra, não a formam pelo Divino Vero nem pelo Senhor. Além disso, em cada singularidade da Palavra existe um sentido espiritual, no qual estão os anjos do céu; daí é que pela Palavra existe conjunção do céu com a igreja; por isso, os que formam a doutrina de outra parte senão da Palavra, não a formam em conjunção com o céu, de onde, todavia, vem a iluminação. (Que a conjunção do céu com o homem seja pela Palavra, vê-se na obra O Céu e o Inferno, n° 303-310). Daí é evidente que a doutrina não deve ser adquirida de outra parte senão a Palavra, e não por outros senão os que estão na iluminação pelo Senhor. Na iluminação pelo Senhor estão os que amam os veros porque são veros; como esses os praticam, eles estão no Senhor e o Senhor está neles.
[5] Quinto. Que todas as coisas da doutrina devam ser confirmadas pelo sentido da letra da Palavra, vê-se pelo fato de que o Divino Vero no sentido da letra está em seu pleno, porque este é o sentido último e nele está o sentido espiritual. Por isso, quando a doutrina daí é confirmada, é doutrina da igreja e também doutrina do céu, e a conjunção é pelas correspondências. Seja isto ilustrado pelo seguinte somente: quando o homem pensa em algum vero e, pelo sentido da letra, o confirma, isto é percebido no céu, mas não é percebido se ele não o confirma, porque o sentido da letra é a base na qual terminam as ideias espirituais, que são as dos anjos, quase como as palavras são bases nas quais o pensamento do sentido cai e é comunicado a outrem. Que seja assim, pode ser confirmado por muitas experiências do mundo espiritual, mas aqui não é o lugar para referi-las.

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