AE 365

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. “E ao que estava sentado sobre ele foi dado tirar a paz da terra.” Que isto signifique a Palavra daí não entendida, donde surgem as dissensões na igreja, vê-se pela significação de ‘sentado sobre o cavalo vermelho’, que é a Palavra não entendida quanto ao bem; (porque ‘sentado sobre o cavalo’ significa a Palavra, como se disse acima, n° 355 e 356; o ‘cavalo’ significa o seu entendimento (n° 355); o ‘cavalo vermelho’ o entendimento destruído quanto ao bem (n° 364); por isso, ‘sentado sobre o cavalo vermelho’ significa a Palavra daí não entendida); pela significação de ‘tirar a paz’, que é haver daí dissensões (de que se tratará a seguir), e pela significação de ‘terra’, que é a igreja (que ‘terra’ signifique a igreja, vê-se acima, n. 29 e 304).
[2] Antes de se explicar o que significa ‘paz’, dir-se-á alguma coisa a respeito do seguinte: quando o entendimento da Palavra é destruído, nascem dissensões na igreja. Pelo bem se entende o bem do amor ao Senhor e o bem do amor para com o próximo, porquanto todo bem é do amor. Quando não existem esses bens no homem da igreja, então a Palavra não é entendida, porque a conjunção do Senhor e a conjunção do céu com o homem da igreja é pelo bem; por isso, se não existe o bem nele, não pode haver iluminação alguma, porque toda iluminação quando se lê Palavra vem do céu desde o Senhor; e quando não há iluminação, então os veros que estão na Palavra estão na obscuridade, donde vêm as dissensões. Que a Palavra não seja entendida se o homem não estiver no bem, pode-se ver também pelo fato de que em cada coisa da Palavra existe um casamento celeste, isto é, a conjunção do bem e do vero; por isso, se o bem não está presente no homem que lê a Palavra, o vero não aparece, pois o vero aparece pelo bem e o bem pelo vero. (Que em cada coisa da Palavra existe uma conjunção do bem e do vero, vê-se acima, n° 238, no fim, e 288).
[3] A coisa se passa assim: quanto mais o homem estiver no bem, mais o Senhor influi e lhe dá afeição do vero e, daí, entendimento, pois a mente humana interior foi formada inteiramente à imagem do céu, e todo o céu é formado segundo as afeições do bem e do vero proveniente do bem. Por isso, a menos que o bem esteja no homem, essa mente não pode ser aberta e ainda menos pode ser formada para o céu; ela é formada pela conjunção do bem e do vero. Daí também se pode ver que a menos que o homem esteja no bem, os veros não têm o húmus no qual sejam recebidos, nem calor pelo qual cresçam, porque os veros no homem que está no bem são como a semente no húmus na estação da primavera, enquanto os veros no homem que não está no bem são como no húmus coberto de gelo na estação do inverno, quando não há grama, nem flor, nem árvore e muito menos fruto.
[4] Na Palavra há todos os veros do céu e da igreja, e mesmo todos os arcanos da sabedoria que os anjos do céu possuem, mas ninguém os vê a menos que esteja no bem do amor ao Senhor e no bem da caridade para com o próximo. Os que não estão, esses veem veros aqui e ali, mas não os entendem; têm a respeito deles uma percepção completamente diversa e uma ideia completamente diversa das que são dos veros em si mesmos; daí, ainda que vejam ou ouçam os veros, os veros não são, todavia, veros com eles, mas falsos, porquanto os veros não são veros pelo seu som e pela sua elocução, mas pela ideia e pela percepção deles. É diferente quando os veros são implantados no bem; então os veros aparecem em sua forma, pois o vero é a forma do bem. A partir daí pode-se concluir como é o entendimento da Palavra naqueles que fazem da fé só o único meio de salvação, e rejeitam para trás o bem da vida ou bem da caridade. Descobriu-se que aqueles que se confirmaram nisso tanto pela doutrina quanto pela vida não têm sequer uma ideia justa do vero. Esta é também a razão pela qual não sabem o que é o bem, o que é a caridade e o amor, o que é o próximo, o que é o céu e o inferno nem que vivem após a morte como homem e mesmo o que é a regeneração, o batismo e muitas outras coisas. De fato, estão em tal cegueira a respeito do próprio Deus, que adoram três no pensamento e não um, a não ser somente de boca, e não sabem que o Pai do Senhor é o Divino n´Ele, e o Espírito Santo é o Divino proveniente d´Ele. Estas coisas foram ditas para que se saiba que não existe entendimento da Palavra onde não há o bem. Aqui se diz que àquele que estava sentado sobre o cavalo vermelho foi dado ‘tirar a paz da terra’ porque a ‘paz’ significa o estado pacífico da mente e estado tranquilo do espírito pela conjunção do bem e do vero. Daí, ‘tirar a paz’ significa o estado sem paz e intranquilo pela disjunção deles, do qual vem as dissensões interiores, porque, quando o bem é separado do vero, então, em lugar do bem sucede o mal, e este não ama o vero, mas ama o falso, porque todo falso é do mal, assim como todo vero é do bem. Por isso, quando vê um vero na palavra, ou quando ouve um vero de outrem, o mal que é de seu amor e, daí, de sua vontade, faz resistência e, então, ou rejeita o vero. ou o perverte, ou o obscurece por meio de ideias vindas do mal, até que finalmente nada vê do vero no vero, por mais que soe como vero quando o pronuncie. É daí a origem de todas as dissensões, controvérsias e heresias na igreja. Por aí se pode ver o que significa aqui ‘tirar a paz da terra’.
[5] O que é a paz em sua primeira origem foi amplamente mostrado na obra O Céu e o Inferno, onde se tratou do estado de paz no céu (n° 284 a 290), ou seja, em sua primeira origem ela vem do Senhor; n’Ele pela união de Seu Divino ao Divino Humano, e d’Ele por Sua conjunção com o céu e a igreja, em particular pela conjunção do bem e do vero em cada um. Assim é que a paz, no sentido supremo, significa o Senhor; no sentido relativo significa o céu e a igreja no geral, e também o céu e a igreja em particular em cada um.
[6] Que estas coisas significadas pela ‘paz’, na Palavra, pode-se ver por muitas passagens ali, dentre as quais quero citar as que se seguem, para confirmação. Em João:
Jesus disse: “Deixo-vos a paz, a Minha paz vos dou; não como o mundo a dá, Eu vo-la dou. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (Jo. 14:27);
aí se trata da união do Senhor com o Pai, isto é, da união de Seu Divino Humano com o Divino mesmo, que estava n’Ele pela concepção e, assim, da conjunção do Senhor com aqueles que estão nos veros do bem. Assim, pela ‘paz’ se entende a tranquilidade da mente por essa conjunção; e como por ela são protegidos dos males e falsos que vêm do inferno, pois o Senhor protege os que são conjuntos a Ele, por isso diz: ‘Não se turbe o vosso coração, nem vos atemorize’. Essa paz Divina está no homem; e como o céu está com ela, também pela ‘paz’ se entende o céu, e, no sentido supremo, o Senhor. Mas a paz do mundo vem dos sucessos ali, por conseguinte, da conjunção com o mundo. Essa, como é somente uma paz externa, e o Senhor e, por conseguinte, o céu, não estão com ela, perece com a vida do homem no mundo e se muda no que não é paz. Por isso o Senhor diz: ‘Minha paz vos dou; não como o mundo a dá, Eu vo-la dou’.
[7] No mesmo:
Jesus disse: “Estas coisas vos falei para que em Mim tenhais paz; no mundo tereis aflição, mas confiai; Eu venci o mundo” (Jo. 16:33);
também aqui, por ‘paz’ se entende o prazer interno pela conjunção com o Senhor, de onde vêm o céu e o regozijo eterno. Aqui a aflição se opõe a essa paz, porque pela ‘aflição’ é significada a infestação pelos males e falsos, a qual têm os que estão na paz Divina enquanto vivem no mundo, porque a carne, que então os envolve, cobiça as coisas que são do mundo, havendo daí a aflição. Por isso o Senhor diz: ‘Para que em Mim tenhais paz; no mundo tereis aflição’; e como o Senhor quanto ao Seu Humano adquiriu para Si poder sobre os infernos, portanto, sobre os males e falsos que se levantam na carne de cada um e o infestam, por isso diz: ‘Confiai; Eu venci o mundo’.
[8] Em Lucas:
Jesus disse aos setenta aos quais enviou: “Na casa em que entrardes, dizei primeiro: Paz esteja nesta casa; e se houver ali algum filho da paz, repousará sobre ele a vossa paz; mas se não, retornará sobre vós” (Lc. 10:5, 6);
e em Mateus:
“Entrando numa casa, saudai-a; e se for mesmo uma casa digna, virá a vossa paz sobre ela; se, porém, não for digna, vossa paz retornará a vos; e quem quer que vos não receber, nem ouvir as vossas palavras, saindo daquela casa ou cidade, sacudi o pó de vossos pés” (Mt. 10:12-14).
Que dissessem ‘a paz esteja nesta casa’ significa que conhecessem se haveria ali os que receberiam o Senhor. Eles evangelizavam sobre o Senhor e, assim, sobre o céu, a alegria celeste e a vida eterna; pois todas essas coisas são significadas pela ‘paz’, e aqueles que a receberam se entendem pelos ‘filhos da paz’, sobre os quais a paz repousaria. Se, porém, não reconhecessem o Senhor e, assim, não recebessem as coisas que são do Senhor ou que são da paz, que a paz se retiraria deles, o que é significado por ‘se a casa ou cidade não for digna, vossa paz retornará a voz’. Para que não sofressem dano pelos males e falsos que houvesse naquela casa ou naquela cidade, foi-lhes mandado que ‘saindo, sacudissem o pé dos seus pés’, que significa para que a condenação não se lhes aderisse, pois o ‘pó dos pés’ significa a condenação. Com efeito, o último no homem, que é o sensual e o natural, corresponde às plantas dos pés; e como aí se adere o mal, por isso naqueles que estavam nos representativos da igreja, como a maioria naquele tempo, sacudiam o pé dos pés quando não houvesse recepção dos veros da doutrina, pois no mundo espiritual, quando algum bom espírito vem entre os maus, o mal influi desses e de algum modo perturba, embora perturbe somente os últimos que correspondem às plantas dos pés. Daí, quando se voltam e se vão, parecem como se estivessem sacudindo para três o pó dos seus pés, o que é um indício de que estão livres, e que o mal se adere àqueles que estão no mal. (Que as ‘plantas dos pés’ correspondam aos ínfimos naturais, e que signifiquem isso na Palavra, vê-se nos n° 2162, 3147, 3761, 3986, 4280 e 4938-4952; e que o ‘pós’ que deviam sacudir signifique o que é condenado, n° 249, 7418 e 7522).
[9] Em Lucas:
Jesus chorou pela cidade, dizendo: “Se conhecesses, e mesmo neste dia, as coisas para a tua paz! mas agora isso está oculto aos teus olhos” (Lc. 19:42, 43).
Os que pensam somente por essas palavras e pelas que logo se seguem no sentido da letra acredita – pois não veem outra coisa – que foram ditas pelo Senhor a respeito da destruição de Jerusalém. Mas todas as coisas que o Senhor falou, por serem do Divino, não visavam as coisas mundanas e temporais, mas as celestes e eternas. Por isso, ‘Jerusalém’, pela qual o Senhor chorou, aqui como em outras passagens, significa a igreja, que então fora completamente devastada, a ponto de não mais existir nela vero algum e, por conseguinte, bem algum. Por isso disse: ‘Se conhecesses, e mesmo neste dia, as coisas para a tua paz’, isto é, que são para a vida e a felicidade eterna e que vêm somente do Senhor, pois pela ‘paz’, como acima se disse, entende-se o céu e o prazer celeste pela conjunção com o Senhor.
[10] No mesmo:
“Zacarias... profetizando, disse:… “A Aurora do alto aparece àqueles que estão sentados nas trevas e na sombra da morte, para dirigir nossos pais num caminho de paz” (Lc. 1:67, 78, 79);
estas palavras são a respeito do Senhor que viria ao mundo, e da iluminação daqueles que estavam fora da igreja e na ignorância a respeito do Divino Vero porque não tinham a Palavra. O Senhor é representado pela “Aurora do alto” que aparece, e os que estão fora da igreja se entendem pelos que ‘estão sentados nas trevas da morte’; e a iluminação deles nos Divinos veros pela recepção do Senhor e conjunção com Ele, donde há o céu e a felicidade eterna, entende-se pelo ‘caminho de paz’; ‘dirigir nossos pés no caminho’ é a instrução.
[11] No mesmo:
Os discípulos louvavam, dizendo: “Bendito o Rei que vem em nome do Senhor; paz no céu e glória nas maiores alturas” (Lc. 19:37, 38);
estas palavras foram ditas pelos discípulos quando o Senhor foi para Jerusalém, para que ali, pela paixão da cruz, que foi Sua última tentação, unisse plenamente o Seu Humano ao Seu Divino e também subjugasse plenamente os infernos; e como d’Ele então procederia todo Divino Bem e Vero, disseram: ‘Bendito o Rei que vem em nome do Senhor’, pelo que eram significados o reconhecimento, a glorificação e a ação de graças por d’Ele virem tais coisas (vinde acima, n° 340); ‘paz no céu’ e ‘glória nas maiores alturas’ significam que, pela conjunção com o Senhor, anjos e homens têm as coisas que são significadas pela ‘paz’ provenientes união do Divino mesmo ao Divino Humano, pois quando os infernos foram subjugados pelo Senhor, houve então a paz no céu, e os que estavam ali então tiveram o Divino Vero proveniente do Senhor, que é a ‘glória nas maiores alturas’. (Que ‘glória’ signifique o Divino Vero procedente do Senhor, vê-se acima, n° 33, 288 e 345). Visto que a ‘paz’, no sentido interno da Palavra, significa o Senhor e, daí, o céu e a vida eterna, em particular o prazer do céu oriundo da conjunção com o Senhor, por isso o Senhor, após a ressurreição, quando apareceu aos discípulos, disse-lhes:
“Paz esteja convosco” (Lc. 24:36, 37; Jo. 20:19, 21, 26).
[12] Além disso, em Moisés:
“JEHOVAH te abençoe, e te guarde; JEHOVAH faça luzir a Sua face sobre ti, e tenha misericórdia de ti; e JEHOVAH levante a Sua face sobre ti, e te dê a paz” *** (Nm. 6:24-26);
por ‘JEHOVAH faça luzir a Sua face sobre ti’ entende-se o Divino Vero, do qual procede toda inteligência e sabedoria com que o Senhor influi; e, daí, por ‘tenha misericórdia de ti’ se entende a proteção contra os falsos; por ‘JEHOVAH faça luzir a Sua face sobre ti’ entende-se o Divino Bem, do qual procede todo amor e caridade, com que o Senhor influi; e por esse meio a proteção contra os males e, daí, o céu e a felicidade eterna, entende-se por ‘ti dê a paz’, pois quando os males e falsos são removidos e não mais infestam, então o Senhor influi com a paz, na qual e pela qual está o céu e o prazer que enche de beatitude os interiores da mente, assim, o regozijo celeste. (Essa bênção se vê explicada também acima, n° 340). O mesmo é significado pela ‘paz’ em David:
“JEHOVAH abençoará o Seu povo na paz” (Sl. 29:11).
[13] E no mesmo:
“Quem nos mostrará o bem? Levanta sobre nós a luz de Tua face, ó JEHOVAH; pões alegria em meu coração mais do que no tempo em que se multiplicarão o seu grão e mosto; em paz me deito e ao mesmo tempo durmo, pois só Tu, JEHOVAH, me fazes habitar seguro” (Sl. 4:6-8);
aqui se descreve a paz que têm aqueles que estão em conjunção com o Senhor pela recepção do Divino Bem e do Divino Vero provenientes d’Ele, e que é a paz na qual e pela qual há a alegria celeste; o Divino Bem se entende por: ‘Quem nos mostrará o bem?’ e o Divino Vero por ‘Levanta sobre nós a luz de Tua face’; a ‘luz da face’ do Senhor é a luz Divina procedendo d’Ele como Sol no céu angélico, a qual em sua essência é o Divino Vero (como se vê demonstrado na obra O Céu e o Inferno, n° 126-140); a alegria celeste vinda daí se entende por ‘pões alegria no coração’; a multiplicação do bem e do vero se entende por ‘seu grão e mosto multiplicados’ (‘grão’ significa o bem, e ‘mosto’ o vero). Como a paz está nessas coisas e vem delas, por isso se diz: ‘Em paz me deito e ao mesmo tempo durmo, pois Tu, JEHOVAH, me fazes habitar seguro’; pela ‘paz’ é significado o prazer interno do céu; pela ‘segurança’, o prazer externo, e por ‘deitar e dormir’, assim como por ‘habitar’, é significado viver.
[14] Em Moisés:
“Se andardes nos Meus estatutos, e observardes os Meus preceitos, e os fizerdes... darei paz na terra, de sorte que deitareis em segurança, e não haverá o que vos amedronte; e farei cessar a fera má da terra, e a espada não passará pela terra” (Lv. 26:3, 6);
aqui se descreve de onde vem a paz, isto é, de onde procedem o céu e o a alegria celeste. A paz, considerada em si mesma, não é o céu e a alegria celeste, mas estes estão na paz e vêm da paz, pois a paz é como a aurora ou a primavera no mundo, que dispõe as mentes humanas para receber de coração os prazeres e as amenidades que vêm das coisas que aparecem diante dos olhos, pois é o que as faz prazerosas e amenas (***). E como vêm semelhantemente da paz Divina todas as coisas do céu e de sua alegria, por isso também elas se entendem pela ‘paz’. Visto que o homem tem o céu por viver segundo os preceitos, pois daí ele tem conjunção com o Senhor, por isso se diz: ‘Se andardes em Meus estatutos e observardes os Meus preceitos, e os fizerdes, darei paz na terra’; que então não deviam ser infestados pelos males e falsos entende-se por ‘deitarem-se em segurança e não haver quem os amedrontasse’, por ‘JEHOVAH fazer cessa a fera má da terra’ e por ‘a espada não passará por ela’; pela ‘fera má’ são significadas as más cobiças, e pela ‘espada’ são significadas as falsidades daí; estas e aqueles destroem o bem e o vero de que vem a paz; e pela ‘terra’ é significada a igreja. (Que a ‘fera má’ signifique as cobiças más e a destruição do bem por elas, vê-se nos n° 4729, 7102 e 9335; que a ‘espada’ signifique as falsidades e a destruição do vero por elas, vê-se acima, n° 131; e que a ‘terra’ signifique a igreja, também acima, n° 29 e 304). Que não se eleva acima do sentido da letra da Palavra não vê outra coisa senão que aquele que vive segundo os estatutos preceitos viverá em paz, isto é, que não terá adversários e inimigos e que, assim, se deitará seguramente; também, que nenhum fera má lhe causará dano, e que não perecerá pela espada. Mas isto não é o espiritual da Palavra, mas há um espiritual em cada coisa da Palavra, e esse fica latente no sentido de sua letra, que é natural; o seu espiritual é o que já foi explicado acima.
[15] Em David:
“Os necessitados27 possuirão a terra, e se deleitarão sobre a multidão de paz;... observa o íntegro e vê o reto, pois para o varão o último fim é a paz” (Sl. 37:11, 37);
pelos ‘necessitados’28 se entendem aqui os que estão em tentações no mundo; pela ‘ multidão de paz’ em que se deleitarão, são significados os prazeres que há após as tentações, porque após as tentações o Senhor dá prazeres pela conjunção do bem e do vero, e, assim, pela conjunção com o Senhor. Que pela conjunção do bem e do vero o homem tenha o prazer da paz, é o que se entende por ‘observa o íntegro e vê o reto, pois o último fim do varão é a paz’; o ‘íntegro’ que deve ser observado se diz na Palavra do bem, e o ‘reto’ que deve ser visto se diz do vero; o ‘último fim’ é o fim, quando há a paz.
[16] No mesmo:
“Os montes tragam paz ao povo, e as colinas em justiça;... florescerá nos Seus dias o justo, e muita paz até quando a lua não durar mais” (Sl. 72:3, 7);
aí se trata do advento do Senhor e de Seu reino; pelos ‘montes’ que trarão paz ao povo é significado o amor ao Senhor; pelas ‘colinas’, em justiça, é significada a caridade para com o próximo; (que estas coisas sejam significadas pelos ‘montes’ na Palavra, vê-se nos n° 795, 6435 e 10438, pelo fato de que aqueles que estão no amor ao Senhor habitam no céu sobre os montes, e aqueles que estão na caridade para com o próximo habitam em colinas ali, n° 10438; e Iná obra O Céu e o Inferno, n° 188). Daí é evidente que pela ‘paz’ se entende o prazer celeste, o qual vem da conjunção com o Senhor pelo amor. Por ‘florescerá nos Seus dias o justo’ é significado quem está no bem do amor; daí se dizer ‘e muita paz’, pois, conforme foi dito acima, a paz não vem de outra parte senão do Senhor e da conjunção d’Ele com os que estão no bem do amor; diz-se ‘até quando a luz não durar mais’ e isto significa que não haverá mais o vero separado do bem, mas conjuntos de tal modo que sejam um, isto é, que o vero também seja bem, porque todo vero é do bem, porque procede do bem e, daí, em sua essência é o bem; tal é o vero naqueles que estão no bem do amor ao Senhor pelo Senhor, os quais se entendem aqui pelo ‘justo’. (Que o ‘sol’ signifique o bem do amor, e que a ‘lua’ signifique o vero daí, vê-se nos n. 1521-1531, 2495, 4060, 4696 e 7083).
[17] Em Isaías:
“Um Menino nos nasceu, um Filho se nos deu, sobre cujo ombro está o principado; Seu nome se chamará Maravilhoso, Conselheiro, Deus, Herói, Pai da eternidade, Príncipe da paz. Para multiplicar o principado e a paz não haverá fim” (Is. 9:6, 7);
estas palavras são a respeito do advento do Senhor, do qual se diz que ‘um Menino nos nasceu, e um Filho se nos deu’, porque ‘menino’, na Palavra, significa o bem, no caso, o Divino Bem; e ‘filho’ significa o vero, no caso, o Divino Vero; diz-se assim por causa do casamento do bem e do vero que existe em cada coisa da Palavra; e como d’Ele vêm o Divino Bem e o Divino Vero, por isso Ele é chamado ‘Príncipe da paz’ e se diz: ‘para multiplicar o principado e a paz não haverá fim’; o ‘principado’ se diz do Divino Vero, e a ‘paz’ do Divino Bem conjunto ao Divino Vero; daí é que Se chama ‘Príncipe da paz’. (Que ‘príncipe’ se refira aos veros e signifique o vero principal, vê-se nos n° 1482, 2089 e 5044, e acima, n° 29; e que a ‘paz’ se refira à conjunção do bem e do vero, vê-se acima, neste artigo).
[18] Como, porém, se diz ‘paz’ em muitas passagens na Palavra, e a explicação deve ser aplicada ao assunto de que se trata, ou ao sujeito do qual é predicado, e, assim, a sua significação parece variar, quero expor resumidamente o que a ‘paz’ significa, para que a mente não fique perdida [feratur quaquaversum]. A paz é a bem-aventurança de coração e da alma oriunda da conjunção do Senhor com o céu e com a igreja, e isto pela conjunção do bem e do vero naqueles que ali se acham. Daí não existe mais a luta do mal e do falso contra o bem e o vero, ou não existe mais dissensão ou guerra, no sentido espiritual. Assim existe a paz, na qual se faz toda frutificação do bem e toda multiplicação do vero, por conseguinte, toda sabedoria e toda inteligência. E como essa paz vem do Senhor somente, e por Ele está nos anjos no céu e nos homens na igreja, por isso, pela ‘paz’, no sentido supremo, se entende o Senhor, e, num sentido relativo, o céu e a igreja, e, por conseguinte, o bem conjunto ao vero naqueles que ali se acham.
[19] Por aí se pode ter uma ideia da significação da paz nas seguintes passagens. Em David:
“Afasta-te do mal, e faze o bem; busca a paz, e segue-a” (Sl. 34:14);
a ‘paz’ está em lugar de tudo o que é do céu e da igreja, donde existe a felicidade da vida eterna que, por existir somente para aqueles que estão no bem, por isso se diz: ‘Afasta-te do mal, e faze o bem; busca a paz, e segue-a’.
[20] No mesmo:
“Muita paz para os que amam a Tua lei, nem haverá para eles tropeço. Esperei a tua salvação, ó JEHOVAH, e Teus preceitos cumpri” (Sl. 119:165, 166);
a ‘paz’ está em lugar da bem-aventurança, felicidade e prazer celeste, que, por existirem somente naqueles que amam cumprir os preceitos do Senhor, por isso se diz: ‘Muita paz para os que amam a Tua lei ... Esperei a tua salvação, ó JEHOVAH, e Teus preceitos cumpri’; ‘salvação’ está em lugar da vida eterna; ‘não haverá para eles tropeço’ significa que não terão infestação pelos males e falsos.
[21] Em Isaías:
“JEHOVAH, dá-nos a paz, pois operaste para nós todas as nossas obras” (Is. 26:12);
como a paz vem somente de JEHOVAH, isto é, o Senhor, e em fazer o bem por Ele, por isso se diz: ‘JEHOVAH, dá-nos a paz, pois operaste para nós todas as nossas obras’.
[22] No mesmo:
“Os anjos da paz choram amargamente; as veredas foram devastadas, cessou o que passa pelo caminho” (Is. 33:7, 8);
como a paz vem do Senhor e por Ele está no céu, por isso os anjos ali são chamados ‘anjos da paz’; e como não há paz para os que na terra estão nos males e, daí, nos falsos, por isso se diz que choram amargamente por estarem ‘devastadas as veredas, e ter cessado o que anda no caminho’; ‘veredas’ e ‘caminho’ significam os bens da vida e os veros da fé; por isso, as ‘veredas devastadas’ significam que não há mais os bens da vida, e ‘cessou o que anda no caminho’ significa que não há mais os veros da fé.
[23] No mesmo:
“Tomara que escutastes os Meus preceitos, e a tua paz seria como rio, e a tua justiça como ondas do mar;... não há paz para os ímpios, diz JEHOVAH” (Is. 48:18, 22);
como têm paz os que vivem segundo os preceitos do Senhor e não têm paz os que não vivem, por isso se diz: ‘Tomara que escutastes os Meus preceitos, e a tua paz seria como rio... não há paz para os ímpios’; a ‘paz como o rio’ significa em abundância; a ‘justiça’ que é ‘como ondas do mar’ significa a frutificação do bem por meio dos veros (na Palavra, ‘justiça’ se diz do bem, e ‘mar’ dos veros).
[24] No mesmo:
“Os montes se retirarão e as colinas serão removidas, mas a Minha misericórdia não se apartará de ti, Minha aliança de paz não será removida... Todos os teus filhos serão ensinados de JEHOVAH, e muita paz de teus filhos” (Is. 54:10, 13);
aí se trata do novo céu e da nova igreja; o céu anterior e a igreja precedente, que iriam perecer, entendem-se por ‘os montes se retirarão e as colinas serão removidas’; ‘Minha misericórdia não se apartará de ti, e Minha aliança de paz não será removida’ significa que aqueles que estiverem no novo céu e na nova igreja estarão no bem proveniente do Senhor e terão alegria celeste na eternidade pela conjunção com o Senhor; ‘misericórdia’ significa o bem que vem do Senhor, e ‘aliança de paz’ significa o prazer celeste pela conjunção com o Senhor; ‘aliança’ é a conjunção; pelos ‘filhos’ que ‘serão ensinados de JEHOVAH’ e que terão ‘muita paz’ se entendem aqueles que no novo céu e na nova igreja estarão nos veros provenientes do bem pelo Senhor, os quais terão bem-aventurança e felicidade eterna; pelos ‘filhos’, na Palavra, são significados os que estão nos veros provenientes do bem; ‘ensinados de JEHOVAH’ significa que eles estão nos veros provenientes do bem pelo Senhor; ‘muita paz’ significa a bem-aventurança e a felicidade.
[25] Em Ezequiel:
“Davi... o seu príncipe eternamente; e farei com eles uma aliança de paz, uma aliança de eternidade haverá com eles, e os estabelecerei, e os multiplicarei, e porei o Meu santuário no meio deles na eternidade” (Ez. 37:25, 26);
aí se trata do Senhor, da criação de um novo céu e uma nova igreja por Ele; por ‘David’, que será ‘seu príncipe na eternidade’ se entende o Senhor; por ‘fazer com eles uma aliança de paz’ é significado o prazer celeste e a vida eterna para os que são conjuntos ao Senhor; ‘aliança de paz’, aqui como acima, é o prazer celeste e a vida eterna pela conjunção com o Senhor; a frutificação do bem e a multiplicação do vero daí são significadas por “estabelecê-los-ei e multiplicá-los-ei’; e como daí vêm o céu e a igreja, acrescenta-se: ‘e porei o Meu santuário no meio deles na eternidade; ‘santuário’ é o céu e a igreja.
[26] Em Malaquias:
“Para que haja aliança Minha com Levi; ... Minha aliança com ele foi de vida e de paz; ... a lei da verdade esteve em sua boca, e não se achou perversidade em seus lábios; em paz e em retidão andou comigo” (Ml. 2:4-6);
por ‘Levi’ são significados todos os que estão no bem da caridade para com o próximo, e, no sentido supremo, o Senhor mesmo, porque d´Ele procede esse bem; aqui, significa o Senhor mesmo; ‘aliança de vida e de paz’ significa a união do Seu Divino com o Seu Divino Humano, união da qual vem toda vida e paz; ‘a lei da verdade esteve em sua boca, e não se achou perversidade em seus lábios’ significa que o Divino Vero é proveniente d´Ele; a união mesma, que se fez no mundo, é entendida por ‘em paz e em retidão andou comigo’. (Que ‘Levi’, na Palavra signifique o amor espiritual ou caridade, vê-se nos n. 4497, 4502 e 4503 ; e que por ele, no sentido supremo, se entenda o Senhor, n. 3875 e 3877).
[27] Em Ezequiel:
“Então firmarei com eles uma aliança de paz, e farei cessar da terra a fera má, para que habitem no deserto em segurança, e durmam nas selvas;... então a árvore do campo dará o seu fruto, e a terra dará a sua colheita, quando [Eu] tiver quebrado os canzis dos seu jugo, e os tiver livrado da mão dos que os fazem servir” (Ez. 34:25, 27);
também aí se trata do advento do Senhor e da instauração de uma nova igreja por Ele; a conjunção dos que são da igreja com Ele é significada pela ‘aliança de paz’ que então firmará com eles; a proteção daí e a segurança contra os males e falsos é significada por ‘farei cessar da terra a fera má, para que habitem seguramente no deserto, e durmam nas selvas’; a ‘fera má’ significa os males de todo gênero; o ‘deserto’, onde ‘habitarão em segurança’ significa as cobiças do mal, que não mais infestarão, e as ‘selvas’ nas quais ‘dormirão’ significam os falsos daí que tampouco infestarão; a frutificação do bem e pelo vero e a multiplicação do vero por meio do bem são significadas por ‘então a árvore dará o seu fruto, e a terra dará a sua colheita; a ‘árvore do campo’ significa as cognições do vero; o ‘fruto’ significa o bem daí; a ‘terra’ significa a igreja quanto ao bem, assim, também o bem da igreja, e ‘a sua colheita significa a multiplicação do vero daí; ‘quando eu tiver quebrado os canzis do seu jugo, e os tiver livrado da mão dos que os fazem servir’ significa que estão coisas se farão com eles depois de o Senhor remover os males e falsos que há neles; ‘canzis do jugo’ são os prazeres do mal pelo amor de si e do mundo que os mantêm em cadeias, e ‘os que os fazem servir’ são os falso, porque estes fazem que eles sirvam aos males.
[28] Em Zacarias:
“Semente de paz serão, a vide dará o seu fruto, e a terra dará a sua colheita, e os céus darão o seu orvalho;... falai a verdade, o varão com o seu companheiro, julgai em verdade e em juízo de paz em vossas portas;... amai somente a verdade e a paz” (Zc. 8:12, 16, 19);
‘semente de paz’ se diz daqueles em que existe a conjunção do bem e do vero, e como esses se entendem pela ‘semente de paz’, por isso se diz que ‘a vide dará o seu fruto, e a terra a sua colheita’; ‘a vida dará o seu fruto’ significa que o vero produzirá o bem, e ‘a terra dará a sua colheita’ significa que o bem produzirá os veros, pois ‘vide’ significa a igreja quanto aos veros, ou os veros da igreja, e ‘terra’ significa a igreja quanto ao bem, ou o bem da igreja, e ‘colheita’ significa a produção do vero. Pelos ‘céus’ que ‘darão o seu orvalho’ é significada a frutificação do bem e a multiplicação do vero. A conjunção do vero e do bem é depois descrita por ‘falai a verdade, o varão com o seu companheiro, amai somente a verdade e a paz’; pela ‘verdade’ é significado o vero; pelo ‘juízo de paz’ e pela ‘paz’ é significada a sua conjunção com o bem.
[29] Em David:
JEHOVAH “falará de paz ao Seu povo e aos Seus santos, para que não voltem à insensatez;... a misericórdia e a verdade se encontrem, a justiça e a paz se beijem” (Sl. 85:8, 10);
JEHOVAH ‘falará de paz ao Seu povo e aos Seus santos’ significa que ensinará e dará a conjunção consigo pela conjunção do bem e do vero neles; a ‘paz’ significa essas duas conjunções; pelo ‘povo’ são significados os que estão nos veros pelo bem, e pelos ‘santos’ os que estão nos bens pelos veros; que daí não tenham o mal proveniente do falso nem o falso proveniente do mal é o que significa ‘para que não voltem à estultícia’; essas duas conjunção são descritas depois por ‘a misericórdia e a verdade se encontrem, e a justiça e a paz se beijem’; a ‘misericórdia’ aí significa a remoção dos falsos, donde eles terão os veros; e a ‘justiça’ significa a remoção dos males, donde eles terão os bens; daí é evidente o que significa ‘a justiça e a paz se beijem’.
[30] Em Isaías:
“Quão prazerosos são sobre os montes os pés do que anuncia boas novas [evangelizantis], do que faz ouvir a paz, do que anuncia o bem, do que faz ouvir a salvação, do que diz a Sião: Teu Rei reina” (Is. 52:7);
estas palavras são a respeito do Senhor, e pela ´paz’ aí é significado o Senhor mesmo e, daí, o céu para aqueles que são conjuntos a Ele; ‘anunciar boas novas’ [evangelizare] significa pregar essas coisas; e visto que tal conjunção se faz pelo amor, por isso se diz: ‘anunciar boas novas sobre os montes’ e ‘dizer a Sião’; os ‘montes’ significam, aqui como acima, o bem do amor ao Senhor, e ‘Sião’ significa a igreja que está nesse bem; e o Senhor Se entende por ‘Teu rei’, que ‘reina’. Visto que a conjunção do vero e do bem pela conjunção com o Senhor é significada pela ‘paz’, por isso se diz: ‘do que faz ouvir a paz, do que anuncia o bem, do que faz ouvir a salvação’; ‘anunciar o bem’ significa a conjunção com Ele pelo bem, e ‘fazer ouvir a salvação’ significa a conjunção com Ele pelos veros e por uma vida segundo os veros, pois por essas coisas há salvação.
[31] No mesmo:
“Mas Ele foi traspassado por causa de nossas transgressões. ferido por causa de nossas iniquidades; o castigo de nossa paz sobre Ele, e em Sua ferida nos foi dada a cura” (Is. 53:5);
estas palavras são a respeito do Senhor, de quem se trata claramente nesse capítulo, e por essas palavras se descrevem as tentações que Ele no mundo suportou a fim de subjugar os infernos e repor em ordem todas as coisas ali e nos céus. Essas atrozes tentações se entendem por ‘traspassado por causa de nossas transgressões, e ferido por causa de nossas iniquidades’, e pelo ‘castigo de nossa paz sobre Ele’; a salvação por esse meio é significada por ‘em Sua ferida nos foi dada a cura’. E assim, a ‘paz’ aí significa o céu e a vida eterna que têm os que são conjunção a Ele, pois o gênero humano não poderia de modo algum ser salvo a menos que o Senhor repusesse em ordem todas as coisas nos infernos e nos céus, e, ao mesmo tempo, glorificasse o Seu Humano, e essas coisas foram feitas pelas tentações admitidas em Seu Humano.
[32] Em Jeremias:
“Eis que Eu lhes farei subir a cura e o medicamento, e os curarei, e revelar-lhes-ei abundância de paz e verdade;... todas as nações da terra, que ouvirão do bem que Eu lhes farei, que temam e se abalem sobre todo bem e sobre toda paz que Eu lhes farei” (Jr. 33:6, 9);
também estas palavras são a respeito do Senhor, que livra dos males e falsos os que estão em conjunção com Ele; a libertação dos males e falsos é significada por ‘lhes farei subir a cura e o medicamento, e os curarei’, pois curar espiritualmente é curar dos males e falsos; e como o Senhor faz isso por meio dos veros, por isso se diz: ‘e lhes revelarei abundância de paz e verdade’; pelas ‘nações da terra’ são significados os que estão nos falsos e falsos, dos quais se diz que ‘temerão e se abalarão sobre todo bem e sobre toda paz que Eu lhes farei’.
[33] Em David:
“Remirá em paz a minha alma, para que não se aproximem de mim” (Sl. 55:18);
‘remir em paz a minha alma’ significa a salvação pela conjunção com o Senhor; e ‘para que não se aproximem de mim’ significa daí a remoção dos males e dos falsos.
[34] Em Ageu:
“Maior será a glória dessa última casa do que a da primeira... pois nesse lugar darei a paz” (Ag. 2:9);
pela ‘casa de Deus’ é significada a igreja, pela ‘primeira casa’ a igreja que existiu antes do advento do Senhor, e pela ‘última casa’ a igreja que existiu após o Seu advento; pela ‘glória’ é significado o Divino Vero que há em uma e outra igrejas; e pela ‘paz que dará nesse lugar’ ou na igreja se entendem todas as coisas que são significadas pela paz (de que se tratou acima, onde essas coisas são vistas).
[35] Em David:
“Buscai [petite] a paz de Jerusalém; estejam em repouso os que te amam; haja paz em teus antemuros, repouso em teus palácios; por causa dos meus irmãos e companheiros, direi: Eia! paz seja em ti! Por causa da casa de JEHOVAH nosso Deus buscarei [quaeram] o bem para ti” (Sl. 122:6-9);
por ‘Jerusalém’ não se entende Jerusalém, mas a igreja quanto à doutrina e ao culto; pela paz se entende tudo da doutrina e do culto, pois quando isto é de origem celeste, isto é, do céu desde o Senhor, então vêm da paz e estão na paz. Daí se vê o que se entende por ‘buscai a paz de Jerusalém’; e como dos que estão nessa paz se diz que estão ‘em repouso’, por isso se diz também ‘estejam em repouso os que te amam’, a saber, os que amam doutrina e o culto da igreja; ‘haja paz em teus antemuros, e repouso em teus palácios’ significa nos exteriores e nos interiores do homem, pois o homem exterior com as coisas que estão aí, que são os conhecimentos e prazeres naturais, é uma espécie de antemuro ou fortaleza para o homem interior, pois está fora e na frente dele e o protege; e o homem interior com as coisas que aí estão, que são os veros e bens espirituais, é uma espécie de palácio ou casa, porque está dentro do exterior; assim, os exteriores do homem são significados pelo ‘antemuro’ e os seus interiores pelos ‘palácios’ (ocorre semelhantemente em outras passagens da Palavra); ‘por causa dos meus irmãos e companheiros’ significa por causa daqueles que estão nos bens e, daí, nos veros, e, abstratamente das pessoas, significa os bens e veros; (que estas coisas se entendam pelos ‘irmãos e companheiros’ na Palavra, vide no n. 10490 e acima, n. 47; pela ‘casa do Senhor nosso Deus’ é significada a igreja em que se acham tais coisas.
[36] No mesmo:
“Louva, ó Jerusalém, a JEHOVAH! Louva, ó Sião, o Seu29 nome;... que põe paz em teu termo, ??? com a gordura dos trigos te sacia” (Sl. 147:12);
por ‘Jerusalém’ e por ‘Sião” se entende a igreja; por ‘Jerusalém’ a igreja quanto aos veros da doutrina, e por ‘Sião’ a igreja quanto aos bens do amor; pelo ‘nome de JEHOVAH’, que Sião celebrará, é significado todo culto pelo bem do amor; ‘que põe paz em teu termo’ significa todas as coisas do céu e da igreja, pois ‘termo’ significa todas as coisas destes, porque no termo ou no último estão todas as coisas em conjunto (vide n. 634, 5897, 6239, 6451, 6465, 8603, 9215, 9216, 9824, 9828, 9836, 9905, 10044, 10099, 10329, 10335 e 10548); ‘com gordura dos trigos te sacia’ significa todo bem do amor e sabedoria (pois a ‘gordura’ significa o bem do amor – vide nos n. 5943, 6409 e 10044 – e o ‘trigo’ significa todas as coisas que procedem do bem do amor, especialmente os veros do céu e, daí, a sabedoria, n. 3941 e 7605).
[37] No mesmo:
“JEHOVAH te bendirá desde Sião, para que vejas o bem de Jerusalém todos os dias de tua vida, para que vejas os filhos de teus filhos, [e vejas] a paz sobre Israel” (Sl. 128:5-6);
‘Sião’ e ‘Jerusalém’, aqui como acima, significam a igreja quanto aos bens do amor e quanto aos veros da doutrina; diz-se ‘JEHOVAH te bendirá desde Sião’ porque isto vem do bem do amor, pois ‘Sião’ significa a igreja quanto ao bem do amor; e como desse bem procede e existe todo bem e vero da doutrina, daí se dizer ‘para que vejas o bem de Jerusalém’ e ‘os filhos de teus filhos’; ‘filhos de teus filhos’ significam os veros da doutrina e a multiplicação destes na eternidade. Visto que todas estas coisas procedem do Senhor e vêm por meio da paz que procede d’Ele, por isso se conclui: ‘para que vejas a paz sobre Israel’; aqueles com os quais está a igreja são ‘Israel’.
[38] No mesmo:
“Está em Salém o tabernáculo” de Deus, “e o Seu habitáculo em Sião; ali quebrará as centelhas do arco, o escudo, a espada e a guerra” (Sl. 76:2, 3);
aqui, Jerusalém é chamada Salém, porque ‘Salém’ significa a paz, da qual também Jerusalém é chamada. Que ela seja nomeada assim é porque ‘paz’ significa todas as coisas que acima foram ditas resumidamente, as quais podem ser vistas. Pelo ‘tabernáculo de Deus’ que há ali é significa a igreja que procede de tais coisas, e pelo ‘ tabernáculo em Sião’ é significado o bem do amor, porquanto nesse bem Deus habita e daí dá os veros e os frutifica e multiplica. E como a ‘paz’ também significa que não mais haverá luta do mal e do falso contra o bem e o vero, ou, não haverá mais dissídio ou guerra, no sentido espiritual, por isso se diz: ‘ali quebrará as centelhas do arco, o escudo, a espada e a guerra’, pelos quais é significada a dissipação de toda luta dos falsos da doutrina contra o bem e o vero e, em geral, a dissipação de todo dissídio. Além disso, por causa da paz Jerusalém se chama ‘Schelomim’ (Jr. 13:19) ???; e por isso Melquisedeque, que foi sacerdote do Deus Altíssimo, era “rei de Salém” (Gn. 14:8), e representou o Senhor, como se vê em David:
“Tu és Sacerdote na eternidade, segundo o modo de Melquisedeque” (Gn. 14:18).
[39] Em Isaías:
“Alegrai-vos com Jerusalém, e exultai nela, vós todos os que a amam... para que mameis e vos farteis da mama de suas consolações, e espremais e vos delicieis do esplendor de sua glória;... eis que Eu expando a paz sobre ela como um rio, e a glória das nações como um ribeiro que inunda, para que mameis; ao lado tomai, e sobre os joelhos deliciai-vos” (Is. 66:10-12);
aí, como acima, por ‘Jerusalém’ se entende a igreja quanto à doutrina, ou, o que é o mesmo, a doutrina da igreja; desta se diz “alegrai-vos com Jerusalém, e exultai nela, vós todos os que a ama’, e da doutrina também se diz: ‘para que mameis e vos farteis da mama de suas consolações, e espremais e vos delicieis do esplendor de sua glória’; pelo ‘mama das consolações’ é significado o Divino Bem, e pelo ‘esplendor da glória’ é significado o Divino Vero do qual vem a doutrina; ‘Eis que Eu expando a paz sobre ela como um rio, e a glória das nações como um ribeiro que inunda, para que mameis’ significa que eles terão todas essas coisas em abundância pela conjunção com o Senhor; pela ‘paz’ é significada a conjunção com o Senhor; pela ‘glória das nações’ a conjunção do bem e do vero daí; por ‘mamar’, o influxo proveniente do Senhor, e por ‘como um rio e como um ribeiro que inunda’, a abundância; ‘ao lado tomai, e sobre os joelhos deliciai-vos’ significa que daí há o amor espiritual e o amor celeste; pelo ‘lado’ é significado o amor espiritual, pelos ‘joelhos’ o amor celeste, e por ‘tomar’ e ‘deliciar-se’ é significada a felicidade eterna que vem da conjunção. (Que a ‘mama’ signifique o amor espiritual, e também o ‘lado’ ou ‘peito’, vide acima, n. 65; que os ‘joelhos’ signifiquem o amor conjugal e, daí, o amor celeste, nos Arcanos Celestes, n. 3021, 4280 e 5050-5062); que a ‘glória’ signifique o Divino Vero e, daí, a inteligência e a sabedoria, vide acima (n. 33, 288 e 345); e que as ‘nações’ signifiquem os que estão no bem do amor e, abstratamente das pessoas, os bens do amor, vê-se também acima (n. 175 e 331); assim, a ‘glória das nações’ significa o vero genuíno que procede do bem do amor, por conseguinte, a conjunção deles.
[40] No mesmo:
“A obra de JEHOVAH é a paz, e o labor da justiça o repouso, e segurança até a eternidade; para que Meu povo habite num habitáculo de paz, e nas tendas de seguranças, e em lugares quietos de tranquilidade” (Is. 32:17, 18);
a ‘paz’ é chamada ‘obra de JEHOVAH’ porque vem unicamente do Senhor, e tudo o que existe do Senhor naqueles que estão em conjunção com Ele se chama ‘obra de JEHOVAH’, pelo que se diz: ‘a obra de JEHOVAH é a paz’; ‘labor de justiça’ significa o bem conjunto ao vero, no qual há a paz. Com efeito, ‘labor’, na Palavra, se diz do vero, ‘justiça’ do bem e ‘repouso’ se diz da paz aí; ‘segurança na eternidade’ significa que assim não há infestação e temor proveniente dos males e falsos. daí se vê o que é significado por ‘para que Meu povo habite num habitáculo de paz, e nas tendas de seguranças, e em lugares quietos de tranquilidade’, a saber, para que estejam no céu onde está o Senhor e, daí, no bem do amor e do culto, sem a infestação dos infernos e, assim, no prazer do bem e na amenidade do vero; ‘habitáculo de paz’ é o céu onde está o Senhor; ‘ tendas de seguranças’ são os prazeres do bem e as amenidades do vero. (Que as ‘tendas’ signifiquem os bens do amor e do culto, vê-se nos n. 414, 1102, 2145, 2152, 3312, 4391 e 10545.)
[41] No mesmo:
“Em lugar do bronze trarei ouro, e em lugar do ferro trarei prata... e em lugar das pedras, ferro; e porei por tua governante a paz, e por teus exatores a justiça. Não se ouvirá mais de violência na tua terra, de vastação e quebradura em teus termos” (Is. 60:17, 18);
trata-se nesse capítulo do advento do Senhor e, então, de um novo céu e uma nova igreja; e entende-se por essas palavras que haverá espirituais e não naturais como antes, a saber, aqueles que são conjuntos ao Senhor pelo bem do amor. e que não haverá mais dissídio entre o homem interno ou espiritual e o externo ou natural. Que haverá espirituais e não naturais como antes, isto é significado por ‘em lugar do bronze trarei ouro, em lugar do ferro, prata, e em lugar das pedras, ferro’; ‘bronze’, ‘ferro’ e ‘pedras’ significam as coisas naturais, e ‘ouro’, ‘prata’ e ‘ferro’, que estarão em lugar desses, significam as coisas espirituais; o ‘ouro’, o bem espiritual, a ‘prata’, o vero desse bem, e o ‘ferro’ o vero espiritual natural; ‘porei por tua governante a paz, e pelos exatores, a justiça’ significa que o Senhor reinará pelo bem do amor; ‘governante’ significa o reino, ‘paz’ significa o Senhor, e ‘justiça’ o bem que vem d’Ele. Que não haverá mais dissídio entre o homem espiritual e o natural é significado por ‘não se ouvirá mais de violência na tua terra, de vastação e de quebradura em teus termos’; por ‘violência’ é significado o dissídio, pela ‘terra’ o homem interno espiritual, porque ali está a igreja que em geral é significada pela ‘terra’; por ‘vastação e quebradura’, que ‘não haverá mais’ é significado que não haverá mais males e falsos; e por ‘nos termos’ é significado o homem natural, pois as coisas espirituais terminam nas coisas que ali se acham. Que ‘vastação e quebradura’ signifiquem os males e falsos é porque os males vastam o homem natural e os falsos o quebram.
[42] Visto que a paz está naqueles que estão na conjunção do bem e do vero pelo Senhor, e como o mal destrói o bem e o falso destrói o vero, assim também destroem a paz. Daí se segue que não há paz alguma naqueles que estão nos males e falsos. Até lhes parece como se houvesse a paz quando são bem sucedidos no mundo, e também quando se veem estarem numa espécie de contentamento da mente, mas essa paz que lhes aparece está somente nos extremos deles, mas no interior não há paz. Com efeito, eles pensam na honra e no lucro sem um propósito, e na mente acalentam a astúcia, os dolos, as inimizades, os ódios, as vinganças e muitas coisas semelhantes que, sem que eles o saibam, fendem e devoram os interiores de suas mentes e, daí, também os interiores do corpo. Que isto seja assim, é o que se mostra vivamente neles após a morte, quando vêm aos seus interiores; então esses prazeres de sua mente se mudam em prazeres contrários (como se pode ver pelo que foi mostrado na obra O Céu e o Inferno, n. 485-490).
[43] Que tenham paz aqueles que estão no bem e, daí, nos veros, e nenhuma paz os que estão no mal e, daí, nos falsos, pode-se ver pelas seguintes passagens. Em Isaías:
“Os ímpios são como o mar agitado, quando não pode repousar, mas suas águas lançam lama e lodo [não há paz, diz o meu Deus, para os ímpios]” (Is. 57:20, 21);
no mesmo:
“Os pés deles correm para o mal, e se apressam para derramarem o sangue inocente; os pensamentos deles são pensamentos de iniquidade; a vastação e a quebradura nas veredas deles; não conhecem o caminho da paz, nem há juízo em seus cursos; perverteram para si as suas veredas; todo aquele que pisa ali não conhece a paz” (Is. 59:8);
em David:
“Muito a [minha] alma habitou com os que odeiam a paz; eu sou pela paz, mas, quando falo, eles são pela guerra” (Sl. 120:6, 7);
em Isaías:
Os profetas “seduziram o Meu povo, dizendo: Paz, quando não há paz; e quando um edifica uma parede, eis, eles a rebocam com argamassa fraca ???; ... os profetas de Israel... veem visões de paz, quando não há paz” (Is. 13:10, 16);
em Jeremias:
“Do menor até o maior, todos se dedicam à avareza, desde o profeta até o sacerdote, cada um pratica a mentira, e curam as quebraduras da filha do Meu povo por palavra leviana [nullius ponderis verbum] dizendo: Paz, paz, quando não há paz”; (Jr. 8:10, 11);
no mesmo:
“Voz de clamor dos pastores, e queixa dos poderosos do rebanho, porque JEHOVAH devasta o pasto deles, pelo que foram devastados os apriscos por causa do ardor da ira de JEHOVAH” (Jr. 25:36, 37);
em David:
“Não há integridade em minha carne, por causa de Tua indignação, nenhuma paz em meus ossos, por causa de meus pecados” (Sl. 38:3);
nas Lamentações:
“Encheu-me de amarguras, embebedou-me de absinto;... e a minha alma foi afastada da paz, esqueci-me do bem” (Lm. 3:15, 17);
além de outras passagens.
[44] Visto que a paz em sua primeira origem vem da união do Seu Divino com o Divino Humano no Senhor, e, daí, desde o Senhor na conjunção d’Ele com o céu e com a igreja, e em cada um ali na conjunção do bem e do vero, por isso o Sabbath, que foi uma coisa santíssima da igreja representativa, foi chamado assim pelo repouso ou paz; e por isso também foram ordenados os sacrifícios, que foram chamados “pacíficos” (a cujo respeito se vê em Êx. 29:18, 25, 41; Lv. 1:9, 13, 17; 2:2, 9; 6:15, 21; 23:12, 13, 18; Nm. 15:3, 7, 13; 28:6, 8, 13; 29:2, 6, 8, 13, 36); e por isso se diz de JEHOVAH que Ele cheirou dos holocaustos um “odor de repouso” (Êx. 29:18, 25, 41; Lev. 1:9, 13, 17; 2:2, 9; 6:15, 21; 23:12, 13, 18; Nm. 15:3, 7, 13; 28:6, 8, 13; 29:2, 6, 8, 13, 36); pelo ‘odor de repouso’ é significada a percepção da paz.

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