. “E com fome”. Que isto signifique por privação, falta e ignorância a respeito das cognições do vero e do bem, vê-se pela significação de ‘fome’, que é a privação das cognições do vero e do bem e também a falta e a ignorância a respeito deles. Essas coisas são significadas pela ‘fome’ na Palavra. Que elas sejam significadas pela ‘fome’ é porque a comida e a bebida significam todas as coisas que nutrem e sustentam a vida espiritual, que são em geral as cognições do vero e do bem. A vida espiritual mesma precisa de sua nutrição e seu sustento, igualmente à vida natural, pelo que se diz que essa vida ‘tem fome’ quando o homem é privado disso ou quando falta, ou quando ele ignora e, todavia, os deseja. As comidas naturais até correspondem às comidas espirituais, assim como o pão ao bem do amor, o vinho aos veros daí, e as demais comidas e bebidas em partículas aos seus bens e veros, dos quais se tratou em várias passagens no que precedeu e se tratará no que se segue. Foi dito que a ‘fome’ significa (i.) a privação das cognições do vero e do bem; depois (ii.) a falta, e (iii.) a ignorância a respeito deles, porque a privação está naqueles que estão nos males e, daí, nos falsos; a falta está naqueles que não podem conhecê-los porque não se acham na igreja ou em sua doutrina, e a ignorância está naqueles que sabem que elas existem e, assim, as desejam. Essas três condições são significadas pela ‘fome’ na Palavra, como se pode ver pelas passagens onde se nomeiam ‘fome’, ‘famintos, ‘sede’ e ‘sedentos’.
[2] (i.) Que a ‘fome’ signifique a privação das cognições do vero e do bem que há naqueles que estão nos males e, daí, nos falsos, vê-se pelas seguintes passagens. Em Isaías:
“Na inflamação de JEHOVAH Zebaoth a terra foi escurecida, e o povo tornou-se comida do fogo; o varão não poupa a seu irmão; e se cortasse à direita, estaria todavia faminto; e se comesse à esquerda, não ficariam saciados; comeriam, o varão a carne de seu braço, Manassés a Efraim e Efraim a Manassés, unidos contra JEHOVAH” (Is. 9:19-21).
Ninguém compreende essas coisas senão pelo sentido interno, nem mesmo de que assunto se trata. Trata-se aí da extinção do bem pelo falso, e do vero pelo mal. A perversão da igreja pelo falso se entende por ‘na inflamação de JEHOVAH Zebaoth a terra foi escurecida’, e a sua perversão pelo mal se entende por ‘o povo tornou-se comida do fogo’; ‘a terra foi escurecida’ significa a igreja onde não há o vero, mas o falso’; e ‘comida do fogo’ significa a sua consumição pelo amor do mal (‘fogo’ é o amor do mal); que o falso destrói o bem entende-se por ‘o varão não poupa a seu irmão’; ‘varão’ e ‘irmão’ significam o vero e o bem; aqui, ‘varão’ significa o falso, e ‘irmão’ o bem, porque se diz que ‘não o poupa’; que daí haja a privação de todo bem e de todo vero, por mais que os busquem, entende-se por ‘se cortasse à direita, estaria todavia faminto, e se comesse à esquerda, não ficariam saciados’; ‘direita’ significa o bem do qual procede o vero, e ‘esquerda’ o vero que procede do bem; ‘cortar’ e ‘comer’ significa buscá-las, e ‘estar faminto e não se saciar’ é estar privado; que o mal extinga todo vero e o falso todo bem entende-se por ‘comeriam, o varão a carne de seu braço’; a ‘carne do braço’ é o poder do bem por meio do vero; ‘varão’ é o falso, e ‘comer’ é extinguir; que daí pereçam toda vontade do bem e todo entendimento do vero, entende-se por ‘Manassés comerá a Efraim e Efraim a Manassés”. (Que ‘Manassés’ seja a vontade do bem, e ‘Efraim’ o entendimento do vero vê-se nos n. 3969, 5354, 6222, 6234, 6238, 6267 e 6296. ). Que tais coisas existam nos que estão nos males e falsos, entende-se por ‘unidos contra JEHOVAH’, pois quando a vontade está no bem e o entendimento está no vero, estão se está com JEHOVAH, porque um e outro vêm d’Ele, mas quando a vontade está no mal e o entendimento no falso, então se está contra JEHOVAH.
[3] No mesmo:
“Não te alegres, ó toda Filístia, por ser quebrada a vara que te fere, pois da raiz da serpente sairá um basilisco, cujo fruto será uma serpente voadora;... matarei de fome a tua raiz, e [ela] teus restantes matará” (Is. 14:29-30).
Quase as mesmas coisas se entendem por estas palavras no sentido interno, mas aqui se trata daqueles que creem que a fé é somente a visão interior do homem natural e por essa fé ou visão se é justificado e salvo, negando, desse modo, que o bem da caridade efetue alguma coisa. Os que são tais se entendem pelos ‘filisteus’ e o conjunto deles pela ‘Filístia’ (vide n. 3412, 3413, 8093 e 8313 ). Que esse falso princípio, que é a fé só ou a fé separada da caridade, destrua todo bem e vero da igreja é o que se entende por ‘da raiz da serpente sairá um basilisco’; ‘raiz da serpente’ é esse princípio falso, e ‘basilisco’ é a destruição do bem e do vero da igreja por ele. Que daí nasça o raciocínio por meros falsos entende-se por ‘cujo fruto será uma serpente voadora’; ‘serpente voadora’ é o raciocínio pelos falsos. A privação de todo vero e, daí, de todo bem entende-se por ‘matarei de fomo a rua raiz, e fome matará teus restantes’; ‘fome’ é a privação do vero e do bem, e os ‘restantes’ são todas as coisas que são extraídas desse princípio. Que sejam estas coisas aí entendidas é o tornou-se-me evidente também pela experiência mesma; aqueles que na doutrina da fé, só, se confirmaram na doutrina e na vida são vistos no mundo espiritual como basilisco, e seus raciocínios como serpentes voadoras.
[4] No mesmo:
“Quem forma um deus, e funde uma imagem de fundição, e nada aproveita... fabrica o ferro com a tenaz, e trabalha na brasa, e com martelo agudo o molda; assim o trabalha pela força de seu braço, também sente fome até não ter força, nem bebe... até ficar fatigado” (Is. 44:10, 12);
por estas palavras se descreve a formação da doutrina pelo próprio entendimento quanto pelo próprio amor; por ‘formar um deus’ é significada a doutrina vinda do próprio entendimento, e por ‘fundir a imagem de fundição, vinda do próprio amor; ‘fabrica o ferro com a tenaz e trabalha na brasa’ significa o falso a que chama vero, e o mal a que chama bem; ‘ferro’ é o falso, e ‘fogo da brasa’ é o mal do amor do proprium; ‘com martelo agudo o molda’ significa por engenhosos raciocínios dos falsos, a fim de parecerem coerentes; ‘assim o trabalha pela força de seu braço’ significa provir do proprium; ‘também sente fome até não ter força, nem bebe, até ficar fatigado’ significa não há coisa alguma do bem nem coisa alguma do vero; ‘ter forme’ significa a privação do bem, e ‘não beber’ a privação do vero; ‘até não ter força’ e ‘até ficar fatigado’ significa até que nada permaneça do bem e do vero. Quem é que, pelo sentido da letra somente, sabe outra coisa senão que aqui se descreve a formação de uma imagem de fundição? Pode, no entanto, saber que tal descrição da formação de imagem de escultura não envolve coisa alguma espiritual, e então seria supérfluo dizer que ‘também sente fome até não ter força, nem bebe, até ficar fatigado’. Todavia, na Palavra, não somente aqui, mas também em outra passagem em qualquer lugar, pelos ‘ídolos’, ‘imagens de escultura’ e ‘imagem de fundição’ descreve-se a formação da religião e da doutrina do falso (que elas signifiquem os falsos da religião e da doutrina oriunda do próprio entendimento e do próprio amor, vide n. 8869, 8932, 8941, 9424, 10406 e 10503.)
[5] No mesmo:
“Estas duas coisas te encontraram. Quem se compadece de ti? Devastação e ruptura, e fome e espada” (Is. 51:19);
aqui também, pela ‘fome’ se entende a privação das cognições do bem até não haver mais bem; e pela ‘espada’ se entende a privação das cognições do vero até não haver mais vero. Por isso também se diz ‘devastação’ e ‘ruptura; ‘devastação significa que não há mais bem, e ‘ruptura que não há mais vero.
[6] No mesmo:
“Assim disse o Senhor Jehovih: Eis que os Meus servos comerão, mas vós tereis fome; os Meus servos beberão, mas vós tereis sede; eis que os Meu servos se alegrarão, mas vós sereis envergonhados” (Is. 65:13);
por ‘ter forme e ter sede’ entende-se, aqui também, a privação do bem do amor e dos veros da fé; por ‘ter fome’ se entende ser privado do bem do amor, e por ‘ter sede’, ser privado dos veros da fé; ‘comer e beber’ significam comunicar e apropriar a si os bens e veros; os ‘servos do Senhor Jehovih’ significam aqueles que recebem os bens e veros do Senhor. Daí é evidente o que é significado por “eis que os Meus servos comerão, mas vós tereis fome; os Meus servos beberão, mas vós tereis sede”; que eles terão a felicidade eterna, mas os outros a infelicidade, é significado por ‘eis que os Meus servos se alegrarão, mas vós sereis envergonhados’.
[7] Em Jeremias:
“Com espada, fome e peste Eu os consumirei. Eu disse, porém: Ah, Senhor Jehovih, eis que os profetas lhes dizem: Não vereis a espada, e não tereis fome;... por isso assim disse JEHOVAH contra os profetas que profetizam em Meu nome, quando não os envieis, os quais, todavia, dizem: Espada e fome não haverá nesta terra. À espada e à fome serão consumidos esses profetas; os povos, para os quais profetizam, serão lançados nas ruas de Jerusalém... sem haver quem os sepulte” (Jr. 14:12, 13, 15, 16);
‘espada, fome e peste’ significam a privação do vero e do bem. e. assim, da vida espiritual pelos falsos e males; pela ‘espada’ a privação do vero pelos falsos, pela ‘fome’ a privação do bem pelos males, e pela ‘peste’ a privação da vida espiritual; pelos ‘profetas’ se entendem os que ensinam os veros da doutrina, e, num sentido abstrato, os doutrinais do vero. Daí se vê o que é significado por todas essas coisas, a saber, que aqueles que ensinam doutrinais do falso e do mal perecerão pelas coisas que são significadas pela ‘espada’ e pela ‘fome’; ‘serão lançados nas ruas de Jerusalém, sem haver quem os sepulte’ significa que também aqueles que recebem essa doutrina deles são separados de todo vero da igreja e condenados; ‘ruas de Jerusalém’ são os veros da igreja; ‘lançados nelas’ é ser separados desses veros, e ‘não ser sepultado’ é ser condenado.
[8] Coisas semelhantes são significadas pela ‘espada’, pela ‘fome’ e pela ‘peste’ nas passagens eu se seguem, ou seja, pela ‘espada’ é significada a privação do vero pelos falsos; pela ‘fome’ a privação do bem pelos males; e ‘peste’ a consequente consumição e a privação da vida espiritual. Em Jeremias:
“À espada e à fome serão consumidos, para que o cadáver deles torne-se comida para as aves dos céus e para as bestas da terra” (Jr. 16:4);
‘cadáver tornar-se comida para as aves dos céus’ significa a condenação pelos falsos, e ‘comida para as bestas da terra’, condenação pelos males. No mesmo:
“Negaram JEHOVAH quando disseram: Não é Ele, nem virá mal sobre nós, e não veremos a espada e a fome” (Jr. 5:12);
no mesmo:
“Eis que Eu visito sobre eles ???; os jovens morrerão à espada, seus filhos e suas filhas morrerão de fome” (Jr. 11:22);
no mesmo:
“Dá os seus filhos à fome, e faz que se derramem sobre a mão da espada., para que as esposas se tornem desfilhadas e viúvas, e os seus homens sejam mortos de morte, os seus jovens traspassados à espada na guerra” (Jr. 18:21);
no mesmo:
“Enviarei entre eles a espada, a fome e a peste, e os farei como figos horríveis que não se podem comer, por causa da malícia, e os perseguirei com espada, fome e peste” (Jr. 29:17-18);
no mesmo:
“Enviarei entre a espada, e a fome, e a peste, até que sejam consumidos de sobre terra que a eles e aos pais deles” (Jr. 24:10);
no mesmo:
“Eis que Eu vos proclamo a liberdade para a espada, para a peste e para a fome, e vos entregarei por comoção a todos os reinos da terra” (Jr. 34:17);
nos evangelhos:
“Nação se levantará contra nação, e reino contra reino, e haverá pestes, e fomes, e terremotos em vários lugares” (Mt. 24:17; Mc. 13:8; Lc. 21:11);
em Ezequiel:
“Porque poluíste o Meu santuário… a terça parte de ti morrerá de peste, e se consumirá de fome no meio de ti; e terça parte cairá à espada ao teu redor, e terça parte dispersarei a todo vento... Quando Eu enviar as malignas flechas da fome entre eles, as quais serão para perdição; quando eu as enviar para vos destruir; e ??? aumentarei a fome sobre vós, até haver quebrado para vós o cajado do pão. e enviarei sobre vós a fome, e a fera má, e te farei desfilhada; e a peste e o sangue passarão por ti” (Ez. 5: 11, 12, 16, 17);
no mesmo:
“A espada fora, e a peste e a fome dentro; o que estiver no campo morrerá à espada, mas o que estiver na cidade, a fome e a peste o consumirão” (Ez. 7:15);
no mesmo:
“Por causa de todas as más abominações... cairão pela espada, pela fome e pela peste; o que estiver longe morrerá de peste, o que está perto cairá à espada, e o que restar e for preservado morrerá de fome” (Ez. 6:11, 12).
Em Jeremias:
“...Que, se disseres: Nós não habitaremos nesta terra, para que não obedeçais à voz de JEHOVAH vosso Deus [dizendo]: Não, mas à terra do Egito viremos, onde não veremos a guerra, e a voz da trombeta não ouviremos, e não teremos fome de pão, e ali habitaremos... Ouvi a palavra de JEHOVAH: Se vós de todo puserdes52 as vossas faces para vir ao Egito, e vieres para peregrinar ali, acontecerá que a espada, a que vós temeis, ali vos alcançará, na terra do Egito; e a fome, da qual vós estais solícitos, ali se pegará atrás de vós, na terra do Egito; e ali morrereis;... e serão mortos ai à espada, à fome e à peste, nem haverá resíduo deles... por causa do mal que Eu trago sobre vós... e sereis por maldição e espanto... e por opróbrio, e não vereis mais este lugar... Agora, pois, sabendo saibais que pela espada, pela fome e pela peste sereis mortos no lugar aonde quisestes vir para peregrinar ali” (Jr. 42:13-18, 22; 44:12-13, 27);
pelo ‘Egito’, aqui, é significado o natural, e por ‘vir ao Egito e peregrinar ali’ é significado tornar-se natural; (que o ‘Egito” seja o conhecimento que pertence ao homem natural e que, daí, seja o natural, e ‘terra do Egito’ a mente natural, vide nos n. 4967, 5079-5080, 5095, 5160, 5276, 5278, 5280, 5288, 5301, 5799, 6015, 6147, 6252, 7353, 7648, 9340 e 9391; e que ‘peregrinar’ seja ser instruído e viver, n. 1463, 2025 e 3672). Por aí se pode ver o que é significado no sentido espiritual por ‘não fossem à terra do Egito’ e que então ‘morreriam à espada, à fome e à peste’, a saber, se se tornassem meramente naturais, seriam privados de todo vero, do bem e da vida espiritual, pois o homem natural separado do espiritual está em falsos e males, e, por conseguinte, na vida infernal. (Que o homem natural separado do espiritual seja isso, vê-se na Doutrina da Nova Jerusalém, n. 47 e 48). Por isso se diz que, se fossem ali, ‘seriam por maldição e por espanto e opróbrio, e não veriam aquele lugar’; pelo ‘lugar que eles não veriam’ se entende o estado do homem espiritual, o mesmo que pela ‘terra de Canaan’. Tais coisas foram também significadas pelas murmurações dos filhos de Israel no desertor, quando quiseram tantas vezes retornar ao Egito; por isso também foi-lhes dado o maná, que significa a nutrição espiritual (Êx. 16:2-3, 7-9, 22).
[9] Em Ezequiel:
“Quando Eu estender a Minha mão contra” a casa de Israel, “para Eu lhe quebrar o cajado do pão, e enviar sobre ela a fome, e cortar dela o homem e a besta;... quando Eu fizer passar a fera má pela terra e a tiver desfilhado, para que haja a desolação;... quando Eu enviar Meus quatro juízos maus, a espada, e a fome, e a fera má, e a peste, sobre Jerusalém, para cortar dela o homem e a besta” (Ez. 14:13, 15, 21);
por essas palavras se descreve a vastação da igreja; a ‘casa de Israel’ e ‘Jerusalém’ é a igreja; ‘quebrar o cajado do pão’ significa destruir todo celeste e espiritual pelos quais ela deve ser nutrida, pois ‘pão’ envolve tudo do céu e da igreja, ou toda nutrição espiritual; e ‘cortar o homem e a besta’ significa toda afeição espiritual e natural; por isso, ‘espada, fome, fera má e peste’ significam a destruição do vero pelo falso, do bem pelo mal, das afeições do vero e do bem pelas cobiças oriundas dos amores maus e, assim, a extinção da vida espiritual; estas coisas se chamam ‘quatro juízos maus’, que também se entendem por ‘espada, fome, morte e fera má’ neste versículo do Apocalipse. Que seja a vastação da igreja que é assim descrita, é evidente.
[10] Os três males que são significados pela ‘fome’, pela ‘espada’ e pela ‘peste’ foram também anunciados a David por Gad, o profeta, após ele ter numerado o povo (2Sm 24:13). O motivo pelo qual essas coisas foram anunciadas a Davi por ele ter numerado o povo ninguém pode saber, a menos que saiba que o povo de Israel tinha representado e, por conseguinte, significado a igreja quanto a todos os seus veros e bens, e que ‘numerar’ significa conhecer a sua qualidade e, em seguida, ordená-la e dispô-la de acordo com isso. Como ninguém conhece e faz isso senão o Senhor somente, e como o homem que faz isso se priva de todo bem e vero, e, assim da vida espiritual, por isso, como David fez isso representativamente, aquelas três coisas lhes foram propostas para que escolhesse uma. Quem não vê que não teria havia mal algum em que o povo fosse numerado, e que o mal, pelo qual David e o povo foram punidos, encerrava-se interiormente, a saber, nos representativos, nos quais a igreja então estava? Nas passagens aqui citadas a ‘fome’ significa a privação das cognições do vero e do bem e, assim, a privação de todo vero e todo bem.
[11] (ii.) Que a ‘fome’ signifique também a falta de cognições, o que se dá naqueles que não podem conhece-las por não estarem na igreja ou em sua doutrina, vê-se pelas seguintes passagens. Em Amós:
“Eis que dias virão... em que enviarei fome à terra, não uma fome de pão, nem sede de águas, mas de ouvir as palavras de JEHOVAH; ... para que vagueiem de mar a mar, do norte ao oriente, corram por toda parte a buscar a palavra de JEHOVAH; não a acharão. Naquele dia as virgens formosas e os jovens desmaiarão de sede” (Am. 8:11-14);
aqui está explicado o que se entende por ‘fome’ e por ‘sede’, a saber, não se entende fome de pão nem sede de águas, mas de ouvir a palavra de JEHOVAH. Entende-se, portanto, que há uma falta de cognições do bem e do vero; e que essas cognições não estejam na igreja nem em sua doutrina descreve-se por ‘virão de mar a mar, e do norte ao oriente, a buscar a palavra de JEHOVAH; não a acharão’; ‘de mar a mar’ significa em toda parte, pois os últimos limites no mundo espiritual aparecem como mares, onde começam e terminam os veros e bens, pelo que os ‘mares’ na Palavra significam as cognições do vero e do bem, e os conhecimentos em geral; ‘do norte ao oriente’ também significa em toda parte onde estão o vero e o bem; ‘norte’ é onde o vero está na obscuridade, e ‘oriente’ é onde está o bem. Como a falta das cognições do vero e do bem é significada pela ‘fome’ e pela ‘sede’, por isso também se diz: ‘naquele dia as virgens formosas e jovens desmaiarão de sede’; ‘virgens formosas’ são as afeições do vero provenientes do bem, ‘jovens’ são os veros que procedem do bem e a sua falta é a ‘sede’ de que desmaia. (Que as ‘virgens’ signifiquem as afeições do bem e do vero, vide nos n. 2362, 3963, 6729, 6775 e 6788; e que os ‘jovens’ sejam os veros mesmos e a inteligência, n. 7668).
[12] Em Isaías:
“Por isso o Meu povo será banido por falta de conhecimento [scientiam], e a sua glória será homens de fome, e a sua multidão está seca de sede” (Is. 5:13);
a desolação ou o aniquilamento da igreja por não ter cognições do bem e do vero é significada por ‘o Meu povo será banido por falta de conhecimento’; o Divino Vero, que faz a igreja, é significado por ‘glória’; que não haja isto e, por conseguinte, que não haja o bem, é significado por ‘sua glória será homens de fome’; ‘homens de fome’ são os que não estão percepção alguma do bem nem cognições do vero; e que daí não haja o vero é significado por ‘sua multidão está seca de sede’; ‘seca de sede’ é a falta de veros, e ‘multidão’, na Palavra, se atribui aos veros.
[13] No mesmo:
“O povo buscará o seu Deus... a lei e o testemunho;... pois passará por ela o perplexo e faminto; e acontecerá que, quando tiver fome, ficará indignado e amaldiçoará ao seu rei e aos seus deuses, e olhará para cima; a terra também contemplará, mas eis, angústia e escuridão” (Is. 8:19-22);
trata-se aí daqueles que estão nos falsos pela falta de cognições do vero e do bem, e da indignação deles por causa disso. A falta é descrita por ‘olhará para cima, e a terra também contemplará, mas eis, angústia e escuridão’; “olhar para cima e contemplar a terra’ é a toda parte onde há bens e veros; ‘mas, eis, angústia e escuridão’ é que não os há em parte alguma, mas meros falsos (‘escuridão’ é o falso denso); a indignação deles por causa disso é descrita por ‘acontecerá que, quando tiver fome, ficará indignado, e amaldiçoará ao seu rei e aos seus deuses’; ‘ter fome’ é querer saber, ‘rei’ é o falso, ‘deuses’ são os falsos do culto daí, e ‘amaldiçoar’ é ser abominável ???.
[14] Nas Lamentações:
“Levanta” ao Senhor “as tuas mãos sobre a alma de teus filhinhos, que desmaiaram de fome na cabeça de todas as ruas” (Lm. 2:9).
A lamentação sobre aqueles que devem ser instruídos nas cognições do bem e do vero, pela qual eles têm vida espiritual, é descrita por ‘levanta ao Senhor as tuas mãos sobre a alma dos teus filhinhos’; e a falta dessas cognições é descrita por ‘desmaiaram de fome na cabeça de todas as ruas’; ‘fome’ é a falta, ‘ruas’ são os veros da doutrina, ‘desmaiar na cabeça das ruas’ é que não existem veros.
[15] No mesmo livro:
“Servos têm dominado sobre nós, não há quem nos livre da mão deles; com perigo de nossas almas buscamos nosso pão, por causa da espada do deserto; nossa pele está escurecida como num forno, por causa das procelas da fome” (Lm. 5:8-10);
pelos ‘servos’ que têm dominado sem haver quem os liberte de suas mãos são significados os males da vida e dos falso da doutrina, em geral os amores do mal e os falsos princípios; ‘com perigo de nossas almas buscamos nosso pão, por causa da espada do deserto’ significa que não há bem do qual vem a vida espiritual mesma, por causa do falso que reina em toda parte; ‘pão’ é o bem do qual procede a vida espiritual; ‘espada’ é o falso que destrói, e ‘deserto’ é onde não há bem, por não haver vero, porque todo bem no homem é formado por veros, pelo que, onde não há veros, mas falsos, não existe o bem; ‘nossa pele escurecida como no forno, por causa das procelas da fome’ significa que por causa da falta das cognições do bem e do vero, o homem natural está em seu amor mau; ‘pele’, pela correspondência com o Máximo Homem ou o céu, significa o homem natural; ‘escurecer como no formo’ significa estar em seu mal oriundo dos males, e as ‘procelas da fome’ significam o auge da falta de cognições do bem e do vero.
[16] Em Lucas:
“Ai de vós que estais fartos, porque tereis fome” (Lc. 6:25);
pelos ‘fartos’, na Palavra, se entendem os que têm a Palavra, onde há as cognições do bem e do vero, e por ‘ter fome’ se entende estar na falta dessas cognições e também ser privado delas. Em Jó:
“Bem-aventurado o homem a quem Deus castiga, e não rejeita a disciplina de Schaddai;... na fome te remirá da morte, e na guerra, das mãos da espada” (Jó 5:17, 20).
Estas palavras são a respeito dos que estão em tentações. As tentações são significadas por ‘a quem Deus castiga’ e pela ‘disciplina de Shaddai”; por ‘Schaddai’ são também significadas as tentações, a libertação delas e a consolação após eles (vide n. 1992, 3667, 4572, 5628 e 6229); a ‘fome na qual será remido’ significa a tentação quanto à percepção do bem, na qual será liberto do mal; ‘remir’ é libertar; e as ‘mãos da espada na guerra’ significa a tentação quanto ao entendimento do vero; ‘guerra’, também, é a tentação, ou a luta contra os falsos.
[17] (iii.) Que a ‘fome’, na Palavra, signifique também a ignorância a respeito das cognições do vero e do bem, qual a que se acha naqueles que sabem que as cognições existem e, assim, as desejam, vê-se pelas seguintes passagens. Em Mateus:
“Bem-aventurados os que tem fome... de justice, porque ficarão saciados” (Mt. 5:6);
‘ter fome de justiça’ significa desejar o bem, pois na Palavra ‘justiça’ se diz do bem. Em Lucas:
Deus “que encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos” (Lc. 1:53);
os ‘famintos’ estão em lugar dos que estão na ignorância a respeito das cognições do vero e bem e, todavia, no desejo; e ‘ricos’ estão em lugar dos que estão na abundância delas e em nenhum desejo. Que os anteriores devam ser enriquecidos, é significado por Deus ‘os encheu de bens’; e que os últimos sejam privados, é significado por ‘despediu vazios os ricos’.
[18] Em David:
“Eis que olhos de JEHOVAH estão sobre os que O temem... para resgatar as suas almas da morte, e para os vivificar na fome” (Sl. 33:18, 19);
pelos ‘que temem JEHOVAH’ se entendem os que amam fazer os Seus preceitos; por ‘resgatar a alma da morte’ é significado resgatar dos males e falsos e, assim, da danação; e por ‘vivificar na fome’ é significado dar vida espiritual segundo o desejo. O desejo pelas cognições do vero e do bem é a afeição do vero espiritual, que existe somente naqueles que estão no bem da vida, isto é, que fazem os preceitos do Senhor, os quais, como foi dito, se entendem pelos ‘que temem JEHOVAH’.
[19] No mesmo:
“Confessem a JEHOVAH a Sua misericórdia... que satisfaz a alma desejosa, e a alma faminta enche com o bem” (Sl. 107:8, 9);
‘satisfazer a alma desejosa, e encher com o bem a alma faminta’ está em lugar daqueles que desejam os veros e bens; ‘alma desejosa’ significa aqueles que desejam os veros, e ‘alma faminta’ aqueles que desejam os bens. No mesmo:
“Nada falta aos que temem” JEHOVAH; “os leões jovens carecerão e terão fome, mas os que buscam JEHOVAH, de bem nenhum carecerão” (Sl. 34:9-10);
‘os que temem JEHOVAH’, aos quais nada falta, significam aqui também aqueles que amam fazer os preceitos do Senhor; e ‘os que buscam JEHOVAH’ que são aqueles que não carecerão de bem algum, significam os que por isso são amados pelo Senhor e d’Ele recebem os veros e bens; ao ‘leões jovens’, que carecerão e terão fome, significam os que sabem e conhecem por si mesmos; ‘carecer e ter fome’ é que eles não têm o vero nem o bem (O que significam os ‘leões’ em ambos os sentidos, vide n. 278).
[20] No mesmo:
JEHOVAH, “que faz justiça aos oprimidos, que dá o pão aos famintos; JEHOVAH, que solta os encarcerados” (Sl. 146:7);
pelos ‘oprimidos’, aqui, entendem-se os que estão nos falsos pela ignorância; a opressão deles vem dos espíritos que estão nos falsos, pelo que se diz que JEHOVAH ‘lhes faz justiça, regatando-os daqueles que os oprimem. Pelos ‘famintos’ se entendem os que desejam os bens; como esses são nutridos pelo Senhor, por isso se diz que ‘JEHOVAH dá o pão aos famintos’; ‘dar pão’ é nutrir, e a nutrição espiritual é o conhecimento [scientia], a inteligência e a sabedoria. E pelos ‘encarcerados’ se entendem os que desejam os veros, mas uma doutrina falsa ou a ignorância por não terem a Palavra os impedem de alcançá-los; por isso, ‘soltar os encarcerados’ é libertá-los delas. (Que esses sejam chamados ‘encarcerados, vide nos n. 5037, 5086 e 5096 ).
[21] No mesmo:
JEHOVAH ‘faz do deserto um lago de águas, e da terra de sequidão fonte de águas; e faz ali habitar os famintos, para que edifiquem uma cidade de habitação, e semeiem campos, e plantem vinhas e deem abundância de fruto” ??? (Sl. 107:35-37);
essas palavras devem ser entendidas completamente diferente do sentido da letra, a saber, os que estão na ignorância das cognições do vero e, todavia, no desejo de conhece-las, ficarão muito abastados e enriquecidos, porque ‘JEHOVAH faz do deserto um lago de águas’ significa onde há a ignorância do vero aí haverá abundância; ‘deserto’ é onde há a ignorância do vero, o ‘lago de águas’ é a sua abundância; ‘faz da terra de sequidão fonte de águas’ significa coisas semelhantes no homem natural, porque a ‘terra de sequidão’ é a ignorância do vero, ‘fontes de águas’ é a abundância; o homem natural é ‘fonte’ [exitus], e as ‘águas’ são os veros; ‘fazer habitar ali os famintos’ significa aqueles que estão no desejo do vero; ‘habitar’ é viver, ‘famintos’ são os que desejam; ‘para que edifiquem uma cidade de habitação’ significa para que façam para uma doutrina de vida; ‘cidade’ é doutrina, e ‘habitação’ é vida; ‘para que semeiem campos, plantem vinhas, e deem abundância de fruto’ significa receber os veros, entendê-los e praticá-los; ‘semear campos’ é ser instruído e receber os veros’; ‘plantar vinhas’ é recebê-los no entendimento, isto é, no espírito, pois as ‘vinhas’ são os veros espirituais; assim ‘plantá-las’ é recebe-las espiritualmente, isto é, entender; ‘dar abundância de fruto’ é praticá-los e receber os bens, pois os frutos são os feitos e os bens da caridade.
[22] No mesmo:
“JEHOVAH conhece os dias dos íntegros, e será a sua herança na eternidade; não ficarão envergonhados no tempo do mal, e nos dias de fome serão saciados” (Sl. 37:18-19);
‘dias dos íntegros’ significam o estados dos que estão no bem e nos veros daí, ou, dos que estão na caridade e na fé daí; ‘JEHOVAH será a sua herança na eternidade’ significa que são d’Ele próprio e estão no céu; ‘não ficarão envergonhados no tempo do mal’ significa que vencerão quando tentados pelos males; e ‘nos dias de fome serão saciados’ significa que serão sustentados pelos veros quando tentados e infestados pelos falsos; ‘tempos do mal’ e ‘dias da fome’ significam o estado de tentações, e as tentações são provenientes dos males e dos falsos.
[23] No Livro Primeiro de Samuel:
“Os arcos dos fortes estão quebrados, e os que eram impelidos se circundaram de força; os saciados se alugaram por pão, e cessaram os famélicos; até mesmo a estéril pariu sete, a de grande prole enfraqueceu” (I Sm. 2:4, 5);
os ‘saciados se alugaram por pão’ e os ‘ famélicos que cessaram’ significam os que querem e desejam os bens e os veros; as demais coisas se veem explicadas acima (n. 257 e 357).
[24] Em Isaías:
“O estulto fala estultícia, mas seu coração pratica iniquidade, para fazer hipocrisia e para falar o erro contra JEHOVAH, e para esvaziar a alma do faminto, e para que faça faltar a bebida do sedento” (Is. 32:6);
‘estulto’, aqui, se diz daquele que está nos falsos e males pelo amor de si, por conseguinte, pela própria inteligência; pela ‘estultícia que ele fala’ se entendem os falsos, e pela ‘iniquidade que seu coração pratica’ se entendem os males; pela ‘hipocrisia’ que faz se entendem os males que ele fala contra os bens, e pelo ‘erro que ele fala contra JEHOVAH’ se entendem os falsos que ele fala contra os veros; que seja para persuadir e destruir aqueles que desejam os bens e veros entende-se por ‘para esvaziar a alma do faminto, e para fazer faltar a bebida do sedento’; ‘alma faminta’ são os que desejam os bens, e ‘copo do sedento’ os que desejam os veros.
[25] No mesmo:
“Se abrires a tua alma ao faminto, e saciares a alma aflita, tua luz nascerá nas trevas, e tua escuridão como o meio dia” (Is. 58:10);
por estas palavras se descreve a caridade para com o próximo; aqui, para com aqueles que estão na ignorância e ao mesmo tempo no desejo de saber os veros, e na dor por causa dos falsos pelos quais são tomados; e naqueles que estão nessa caridade, os falsos são dissipados mas os veros brilham e refulgem. A caridade para com aqueles que estão na ignorância e ao mesmo tempo do desejo de saber os veros se entende por ‘se abrires a tua alma ao faminto’; ‘famintos’ são aqueles que desejam, ‘alma’ é a inteligência do vero que instrui; que seja naqueles que estão na dor por causa dos falsos pelos quais são tomados, entende-se por ‘se a alma aflita saciares’; que naqueles que estão nessa caridade a ignorância é dissipada e os veros brilhem e refuljam, entende-se por ‘ tua luz nascerá nas trevas, e tua escuridão como o meio dia’; ‘trevas’ significam a ignorância da mente espiritual, e ‘escuridão’ a ignorância da mente natural, e ‘luz’ o vero na luz, do mesmo modo que ‘meio-dia’. Tal iluminação têm aqueles que pela caridade ou pela afeição espiritual instruem os que estão nos falsos da ignorância, pois essa caridade é o receptáculo do influxo da luz ou do vero proveniente do Senhor.
[26] No mesmo:
“Não é este o jejum que escolhi... partir o teu pão com o faminto, e aos aflitos desterrados acolher em casa, quando vires o nu e o cobrires?” (Is. 58:6, 7);
coisas semelhantes se entendem por essas palavras, pois ‘partir o pão com o faminto’ significa comunicar e instruir pela caridade aqueles que estão na ignorância e ao mesmo tempo no desejo de saber os veros; ‘acolher em casa os aflitos desterrados’ significa corrigir e restaurar aqueles que estão nos falsos e, daí, na dor; ‘aflitos desterrados’ são os que estão na dor por causa dos falsos, pois a ‘casa’ é a mente intelectual, na qual não se admitem outras coisas senão os veros, pois ela é aberta pelo veros provenientes do bem. Como são estas as coisas significadas, também se acrescenta: ‘quando vires o nu e o cobrires’; pelo ‘nu’ é significado os que são desprovidos de veros, e por ‘cobri’ é significado instruir, pois as vestes na Palavra significa os veros que revestem (vide acima, n. 195).
[27] No mesmo:
“Não terão fome nem sentirão sede, e os ferirá o calor ou o sol, pois aquele que tem misericórdia deles os conduz, até mesmo sobre as nascentes de águas os conduzirá” (Is. 49:10);
que ‘não terão fome nem sentirão sede’ não significa que não irão ter fome e sede de comida e bebida naturais; e que ‘ferirão o calor e o sol’ não significa que sentirão calor por causa deles, igualmente a ‘serem conduzidos pelas fontes de águas’. Quem não vê, quando presta a atenção, que outras coisas se entendem aí? Porque ‘ter fome’ e ‘ter sede’ significam ter fome e sede pelas coisas que pertencem à vida eterna, ou que a proporcionam, as quais se referem, em geral, ao bem do amor e ao vero da fé; ‘ter fome’ ao bem do amor, e ‘sentir sede’ ao vero da fé; o ‘calor’ e o ‘sol’ significam o abrasamento pelos princípios do falso e pelo amor do mal, pois essas coisas tiram toda fome e sede espirituais; as ‘nascentes das águas’ às quais o Senhor os conduzirá significam a iluminação em todo o vero; ‘nascente’ ou ‘fonte’ é a Palavra e também a doutrina da Palavra; as ‘águas’ são os veros, e ‘conduzir’, quando se trata do Senhor, é iluminar. Por aí se pode ver o que é significado pelas palavras do Senhor em João:
“Eu sou o Pão da vida; quem vem a Mim não terá fome, e quem crê em Mim nunca terá sede” (Jo. 6:35);
que ‘ter fome’ aqui seja vir ao Senhor, e ‘ter sede’ seja crer n’Ele, é vidente. Vir ao Senhor é fazer os Seus preceitos.
[28] Visto que essas coisas são significadas por ‘ter fome e sede’, também é evidente o que é significado pelas palavras do Senhor em Mateus:
“Disse o rei àqueles da direita... Tive fome e Me destes de comer, tive sede e Me dessedentastes; peregrino fui, e Me acolhestes.” E disse àqueles da esquerda que teve fome e não Lhe deram de comer, que teve sede e não Lhe deram de beber, que tinha sido peregrino e não O tinham acolhido (Mt. . 25:34-35, 37, 41-44);
‘ter fome e sede’ significa estar na ignorância e na carência espiritual, e ‘dar de comer e dessedentar’ significa instruir e iluminar pela afeição espiritual ou caridade; por isso também se diz ‘peregrino fui e não Me acolhestes’ pois os ‘peregrinos’ significam aqueles que estão fora da igreja e querem ser instruídos e receber os doutrinais da igreja e viver segundo eles (vide n. 1463, 4444, 7908, 8007, 8013 e 9196). Também se lê na Palavra, a respeito do Senhor, que Ele teve fome e sede, e por aí se entende que pelo Divino amor quis e desejou a salvação do gênero humano.
[29] Que o Senhor tenha tido fome, lê-se em Marcos:
“Quando saíram de Betânia, Jesus teve fome; e vendo ao longe uma figueira tendo folhas, veio, se talvez encontrasse algo nela; mas, quando chegou a ela, nada encontrou senão folhas, pois não era tempo de figos; por isso... lhe disse: Ninguém comerá qualquer fruto de ti, eternamente. E pela manhã, ao passarem, os discípulos viram a figueira ressecada desde as raízes” (Mc. 11:12-14, 20; Mt. 21:19-20).
Quem não sabe que todas as coisas da Palavra contêm um sentido espiritual pode acreditar que o Senhor tenha feito isso à figueira por indignação, porque tinha fome, mas pela ‘figueira’, aqui, não se entende uma figueira, mas a igreja quanto ao bem natural, em particular a Igreja Judaica; ‘Jesus, vendo ao longe a figueira tendo folhas, veio, se talvez encontrasse algo nela; mas, quando chegou a ela, nada encontrou senão folhas’ significa que ali não havia bem natural algum, por não haver nada de espiritual; pelas ‘folhas’ são significados os veros do sentido da letra da Palavra; o fato de Jesus ter-lhe dito “ninguém comerá qualquer fruto de ti, eternamente’ e ‘a figueira ressecou-se desde a raiz’ significa que naquela nação não existiria bem natural algum que pertença à igreja, porque eles estão nos densos falsos e nos maus amores. Também se diz que ‘não era tempo de figos’ e por aí se entende que a igreja ainda não tinha começado. Que o começo de uma nova igreja se entenda pela ‘figueira’, é evidente pelas palavras do Senhor em Mateus 24:32, 33; Marcos 13:28, 29, e em Lucas 21:28-31). Por estas explicações se pode ver o que significa aí ‘ter fome’. (Que a ‘figueira’ signifique o bem natural que pertence à igreja, vê-se nos n. 217, 4231 e 5113; e que as ‘folhas’ signifiquem os veros do homem natural, acima, n. 109).
[30] Que o Senhor tenha sentido sede, lê-se em João:
“Jesus, sabendo que todas as coisas já estavam consumadas, para que se cumprisse a Escritura, disse: Tenho sede; e fora posta uma vasilha cheia de vinagre; e encheram uma esponja, e puseram em volta de um hissopo e chegaram à Sua boca; e quando Jesus recebeu o vinagre, disse: Está consumado”. (Jo. 19:28-30).
Aqueles que pensam sobre isso apenas naturalmente e não espiritualmente podem crer que tais palavras não envolvem outra coisa senão que o Senhor sentiu sede que então foi-Lhe dado vinagre. Como, porém, estavam consumadas todas as coisas que a Escritura disse sobre Ele, e o Senhor veio ao mundo para salvar o gênero humano, por isso disse: ‘Tenho sede’, pelo que se entende que pelo Divino amor quis e desejou a salvação do gênero humano. E o fato de ‘terem Lhe dado vinagre’ significa que na igreja vindoura não haveria o vero genuíno, mas um vero misturado com falsos, tal qual existe naqueles que separam a fé da caridade ou o vero do bem; isto é significado pelo ‘vinagre’; ‘que puseram em volta de um hissopo’ significa alguma purificação sua, porque o ‘hissopo’ significa o meio de purificação externa (vide n. 7918). Que cada coisa relata na Palavra a respeito da paixão do Senhor envolva e signifique coisas Divinas celestes e espirituais, vê-se acima (n. 83). Pelas passagens referidas acima pode-se ver o que a ‘fome’ significa na Palavra. Que sejam examinadas e ponderadas, e aqueles que estão em algum pensamento interior verão que não se pode entender de forma alguma a fome, o apetite e a sede naturais, mas espirituais.
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