. “As almas dos que foram mortos por causa da Palavra de Deus e por causa do testemunho que davam”. Que isto signifique os que foram rejeitados e ocultos por causa do Divino Vero e por causa da confissão do Senhor vê-se pela significação de ‘mortos’, que são os que foram rejeitados pelos maus e ocultos pelo Senhor (de que se tratará a seguir); pela significação de ‘Palavra de Deus’, que é o Divino Vero. Chama-se ‘Palavra de Deus’ àquilo que o Senhor fala, e isto é o Divino Vero. A Palavra ou Escritura Santa não é santa por outro motivo, pois todo Divino Vero está contido ali. Mas a Palavra mesma em sua glória não aparece ali senão perante os anjos, porque os interiores da Palavra, que são espirituais e celestes, chegam a eles e também fazem a sabedoria deles. Por isso, pela ‘Palavra de Deus’ no sentido genuíno é significado o Divino Vero, e, no sentido supremo, o Senhor mesmo, que o pronuncia, pois Ele falou de Si ou de Seu Divino, e que o procede d’Ele também é Ele. [2] Que o Divino procedente seja Ele, será ilustrado por isto: Ao redor de cada anjo existe uma esfera que se chama esfera de sua vida; ela se espalha a muita distância a partir dele. Essa esfera flui ou procede da vida de sua afeição de seu amor, sendo, por isso, uma extensão da vida fora dele tal como é nele. Essa extensão se faz por uma atmosfera ou aura espiritual, que é a aura do céu; por essa esfera um anjo é percebido à distância pelos outros o que ele é quanto à afeição, o que também me foi dado algumas vezes perceber. Ao redor do Senhor, porém, existe uma esfera Divina que aparece mais próxima d’Ele, como um Sol, que o Seu Divino Amor, de que procede as coisas que há em todo o céu, preenchendo-o e fazendo a luz que há ali. Essa esfera é o Divino procedente do Senhor, que, em sua essência, é o Divino Vero. Essa coisas foram ditas em comparação com os anjos para fim de ilustração, para que se saiba que o Divino procedente do Senhor é o Senhor mesmo, porque é procedente de Seu amor, e o procedente é Ele aparecendo foram de Si. E pela significação de ‘testemunho’ que é a confissão do Senhor e o Senhor mesmo, de que se tratará a seguir. [3] Que pelos ‘mortos’ aqui se entendam aqueles que foram rejeitados pelos maus espíritos e ocultos pelo Senhor, ou removidos dos olhares dos outros e guardados para o dia do juízo final, pode-se ver pelas coisas que foram ditas num artigo acima, e também pelas coisas que se seguem nos dois versículos em se trata unicamente deles. Num artigo acima foi dito que o ‘primeiro céu’, que passou, consistia daqueles que tinham vivido moralmente nos externos, porém não foram espirituais mas meramente naturais, ou seja, os que viveram uma vida parecida com a espiritual somente pela afeição ou amor da fama, da honra, da glória e do lucro, por conseguinte, por causa da aparência. Esses, embora fossem interiormente maus, foram todavia tolerados e constituíram sociedades em lugares mais altos no mundo espiritual. Essas sociedades tomadas em conjunto foram chamadas ‘céu’, mas o ‘primeiro céu’ que depois passou. Daí sucedeu que todos ali que tinham sido espirituais, isto é, que tinham estado no bem interior e não somente no bem exterior, não puderam ficar junto a eles, mas se separaram, espontaneamente ou fugindo, e onde foram achados sofreram perseguições. Por isso, eles foram ocultos pelo Senhor e guardados em seus lugares até o dia do juízo, para que constituíssem o ‘novo céu’. Esses são, pois, os que se entendem pelas ‘almas dos que foram mortos vistas sob o altar’; daí é evidente que ‘os que foram mortos’ significa os que foram rejeitados e ocultos, pois eram odiados pelos outros por causa do Divino Vero e por causa da confissão do Senhor, e dos que são odiados se diz que ‘são mortos’, pois ter ódio é matar espiritualmente. Que eles sejam entendidos pelas ‘almas dos que foram mortos’ pode-se ver também pelas coisas que se seguem nos dois versículos acima, onde se diz deles: Até quando, ó Senhor, que és Santo e Verdadeiro, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra? E foram dadas, a cada um, estolas brancas, e foi-lhes dito que repousassem ainda por pouco tempo, até que se completassem, e dos seus conservos e seus irmãos, que seriam mortos assim como eles também”. Que esses de que agora se fala se entendam pelos que ‘foram mortos’ ninguém pode saber senão aquele a quem foi revelado, pois quem é que sabe, a não ser por revelação, de quem consistira o ‘primeiro céu’ (de que se fala no Apocalipse, 21:1), e que aqueles de quem o novo céu foi formado tinham sido ocultos e guardados pelo Senhor? E, a menos que essas coisas tivessem sido reveladas a alguém, todas as coisas que estão contidas no sentido interno no Apocalipse permaneceriam ocultas, pois ali se trata principalmente de coisas tais que iriam acontecer no mundo espiritual antes do juízo final e, também, as que iriam acontecer no juízo e após o juízo. [4] Que o ‘testemunho’ signifique a confissão do Senhor e o Senhor mesmo, pode-se ver pelas passagens na Palavra que se seguirão. Essa significação tira daí a origem, porque a Palavra testifica do Senhor em todas e cada uma das coisas, pois em seu sentido íntimo trata do Senhor somente, e no sentido interno trata de coisas celeste e espirituais que procedem do Senhor; e, em particular, o Senhor testifica de Si mesmo em cada um dos que estão na vida do amor e da caridade, porque influi no coração e na vida deles e os ensina, principalmente a respeito de Seu Divino Humano. De fato, aos que estão na vida do amor Ele concede pensar em Deus sob a forma Humana, e Deus sob a forma Humana é o Senhor. Assim pensam os simples no mundo cristão e assim também os gentios que vivem na caridade segundo a sua religiosidade. Estes e aqueles ficam espantados quando ouvem eruditos falando, a respeito de Deus, que Ele deve ser percebido não sob alguma forma Humana, pois sabem que então não se vê Deus algum com o pensamento e, assim, que têm pouca fé na existência de Deus, porque a fé que é fé da caridade quer de algum modo compreender aquilo que crê. Com efeito a fé pertence ao pensamento, e pensar algo incompreensível é não pensar, mas somente saber e daí falar sem qualquer ideia. Mesmo os anjos mais sábios não pensam em Deus de outro modo senão na forma Humana; é impossível para eles pensar diferentemente, porque suas percepções avançam segundo a forma do céu, que é a forma humana proveniente do Divino Humano do Senhor (a cujo respeito se vê na obra O Céu e o Inferno, n. 59-86), e depois porque as afeições, das quais vêm os seus pensamentos, procedem do influxo, e o influxo procede do Senhor. Estas coisas foram ditas para que se saiba de onde vem que o ‘testemunho’ significa o Senhor, a saber, é porque o Senhor testifica de Si mesmo em todos aqueles que recebem o testemunho, os quais são os que vivem a vida de amor ao Senhor e a vida de caridade para com o próximo. Que esses recebam o testemunho e confessem o Senhor é porque a vida de amor e de caridade abre a mente interior pelo influxo da luz do céu, pois a vida do amor e da caridade é a vida Divina mesma. De fato, o Senhor ama a todos e beneficia cada um pelo amor; por isso, onde essa vida é recebida, aí o Senhor está presente e conjunta a Si, influindo, por conseguinte, em sua mente superior, que se chama mente espiritual e a abre pela luz que emana de Si. [5] Que o ‘testemunho’ signifique o Senhor, e, no homem, a confissão do Senhor de coração, particularmente o reconhecimento do Divino do Senhor em Seu Humano, pode-se ver pelo fato de que a Lei que foi dada no Monte Sinai, inscrita em duas tábuas e, em seguida, posta na arca, foi chamada ‘testemunho’, pelo que também a arca era chamada ‘arca do testemunho’ e também as tábuas eram chamadas ‘tábuas do testemunho’; e como isso era santíssimo, por isso o propiciatório foi posto sobre a arca e sobre o propiciatório foram esculpidos dois querubins, entre os quais JEHOVAH, isto é, o Senhor, falava com Moisés e com Aarão. Daí é evidente que o ‘testemunho’ significa o Senhor mesmo, caso contrário o propiciatório não teria sido posto sobre a arca, nem o Senhor teria falado com Moisés e Aarão de entre os querubins sobre o propiciatório. Também, quando Aarão fosse entrar além do véu, o que ele fazia todos os anos, primeiro se santificava e, depois, oferecia incenso até que a fumaça do incenso cobrisse o propiciatório; diz-se que seria morto, se não fizesse isso. Por aí se vê claramente que o testemunho, que ficava na arca e que era a Lei dada sobre o Monte Sinai e inscrita em duas tábuas de pedra, significava o Senhor mesmo. [6] Que essa Lei seja chamada ‘testemunho,’ vê-se em Moisés: “Porás na arca o testemunho que te darei” (Êx 25:16); “Pôs o testemunho na arca” (Êx. 40:20); “O propiciatório que está sobre o testemunho” (Lv. 16:13); “Põe” os cajados das tribos “perante o testemunho” (Nm. 17:4). Que daí as tábuas e a arca tenham sido chamadas tábuas e arca do testemunho (Êx. 25:22; 31: 7, 18; 32:15); Que o propiciatório tenha sido posto sobre ele e sobre o propiciatório esculpidos dois querubins (Êx. 25:17-22; 26:34); Que o Senhor tenha falado com Moisés e com Aarão de entre os dois querubins (Êx. 25:16, 21-22; Nm. 17:4; e em outras passagens); Que se santificassem antes de entrar ali e que o a fumaça do incenso cobrisse o propiciatório, para que não fossem mortos, (Lv. 16). [7] Que o ‘testemunho’ signifique o Senhor, vê-se também pelo fato de que aquilo que ficava sobre a arca foi chamado propiciatório, e o Senhor é o Propiciador. A arca, também por causa do testemunho que estava nela, era o santo dos santos tanto na tenda quanto no templo, e daí a tenda e também o templo eram santos. A tenda representava o céu, como também o templo, e o céu é céu pelo Divino Humano do Senhor; daí se segue que pelo ‘testemunho’ é significado o Senhor quanto ao Seu Divino Humano. (Que a tenda da congregação tenha representado o céu, vide n. 9457, 9481, 9485 e 10545; do mesmo modo que o Templo, acima, n. 220; e que o céu seja céu pelo Divino Humano Domino, na obra O Céu e o Inferno, n. 59-86.) Que a Lei promulgada do Monte Sinai seja chamada ‘testemunho’ é porque essa Lei significa, num sentido amplo, toda a Palavra, tanto a histórica quanto a profética, e a Palavra é o Senhor, secundo essas palavras em João: “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava em Deum, e Deus era a Palavra; e a Palavra se fez Carne” (Jo. 1:1, 14). Que a Palavra seja o Senhor é porque a Palavra significa o Divino Vero, e todo Divino Vero procede do Senhor, pois é a Luz no céu, que ilumina as mentes dos anjos e também as mentes dos homens, e lhes dá a sabedoria. Essa Luz em sua essência é o Divino Vero procedente do Senhor como Sol (a respeito dessa Luz vide a obra O Céu e o Inferno, n. 126-140). Daí é que, após ser dito que ‘Palavra estava em Deus, e Deus era a Palavra’, também se disse em João: “N’Ele estava a vida, e a vida era a Luz dos homens... era a verdadeira Luz que ilumina todo homem que vem ao mundo” (Jo. 1:4, 9). [8] Por estas explicações também é evidente que pelo ‘testemunho’ se entende o Senhor, porquanto a Lei escrita sobre duas tábuas e chamada ‘testemunho’ significa a Palavra in todo o conjunto, e o Senhor é a Palavra. (Que a ‘Lei’ num sentido amplo signifique a Palavra em todo o conjunto, num sentido menos amplos a Palavra histórica e, num sentido estrito, os dez preceitos do Decálogo, vê-se no n. 6752). Essa Lei também era chamada ‘aliança’, e daí as tábuas em que foi inscrita eram chamadas ‘tábuas da aliança’, e também a arca era chamada ‘arca da aliança’ (vide Êx. 34: 28; Nm. 14:44; Dt. 9:9, 15; Ap. 11:19; e em outras passagens); e isto pelo fato de que ‘aliança’ significa conjunção, e a Palavra ou Divino Vero é o que conjunta o homem ao Senhor; de outra parte não existe conjunção alguma. (Que ‘aliança’ signifique conjunção, vê-se nos n. 665, 666, 1023, 1038, 1864, 1996, 2003, 2021, 6804, 8767, 8778, 9396 e 10632). Que essa Lei seja chamada aliança e testemunho é porque quando ela é chamada ‘aliança’ entende-se a Palavra pela qual há a conjunção, e quando ela é chamada ‘testemunho’ entende-se o Senhor mesmo, que conjunge, e, da parte do homem, a confissão do Senhor e o reconhecimento do Seu Divino em Seu Humano Seu, que conjunge. Por estas explicações pode ser visto de onde vem que Palavra na igreja se chama ‘Aliança’; a Palavra que havia antes do advento do Senhor ‘Velha Aliança’, e a que houve após o Seu advento ‘Nova Aliança’. Também se diz velho e novo ‘Testamento’, mas deve-se dizer Testemunho. [9] Que pelo ‘testemunho’ seja significado o Senhor, e da parte do homem, a confissão do Senhor e o reconhecimento do Seu Divino em Seu Humano, vê-se também por estas passagens na Palavra. No Apocalipse: “Eles venceram” o dragão “pelo sangue do Cordeiro e pela Palavra do testemunho;... e o dragão irou-se... foi, para que fizesse guerra ao ??? restantes de sua ??? semente, os que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus Cristo” (Ap. 12:11, 17); e, em outra passagem, ‘Sou teu conservo e de teus irmãos, que têm o testemunho de Jesus;... o testemunho de Jesus é o espírito de profecia” (Ap. 19: 10); que o ‘testemunho de Jesus seja o espírito de profecia’ significa que a confissão do Senhor e o reconhecimento do Seu Divino em Humano Seu é a vida de todo vero, tanto na Palavra quanto na doutrina proveniente da Palavra. [10] Em outra passagem: “As almas dos que foram mortos a machado por causa do testemunho de Jesus, e por causa da Palavra de Deus não receberam a marca sobre sua testa e sobre sua mão” (Ap. 20:4); mas na sequência se verá explicação a este respeito. Em David: ‘Jerusalém, edificada como uma cidade compacta, e aonde sobem as tribos, as tribos de Jah, testemunho de Israel, para confessarem o nome de JEHOVAH, pois ali estão os tronos para o juízo” (Sl. 122:3-5); por ‘Jerusalém’ é significada a igreja quanto à doutrina; dela se diz ‘edificada’ quando é instaurada pelo Senhor; ‘como uma cidade compacta’ significa a doutrina, na qual todas as coisas estão em ordem (‘cidade’ é doutrina); ‘aonde sobem as tribos, as tribos de Jah’ significa que nela há todos os veros e bens em conjunto; ‘testemunho de Israel, para confessarem o nome de JEHOVAH’ significa que ali há o reconhecimento e a confissão do Senhor; ‘pois ali estão os tronos para o o juízo’ significa que ali há o Divino Vero segundo o qual se faz o juízo; que os ‘tronos’ signifiquem isso, vide acima (n. 253). [11] No mesmo, JEHOVAH “erigiu um testemunho em Jacob, e uma lei... em Israel’ (Sl. 78:5); por ‘Jacob’ e ‘Israel’ é significada a igreja; por ‘Jacob’ a igreja externa, e por ‘Israel’ a igreja interna; e por ‘testemunho’ e ‘lei’ é significada a Palavra; por ‘testemunho’ o que ali ensina os bens da vida, e por ‘lei’ o que ali ensina os veros da doutrina. Visto que aqueles que estão na igreja externa acham-se no bem da vida segundo os veros da doutrina, e os que estão na igreja internos acham-se nos veros da doutrina segundo a qual é a vida, por isso de Jacob se diz ‘testemunho,’ e de Israel ‘lei’. [12] No mesmo: “Se teus filhos guardarem a Minha aliança contigo, e o testemunho que lhes ensinarei, também os teus filhos se sentarão eternamente no trono para ti” (Sl. 132:12); essas palavras são a respeito de David, mas por ‘David’ aí se entende o Senhor; pelos seus ‘filhos’ se entendem os que fazem os preceitos do Senhor; destes se diz: ‘Se teus filhos guardarem Minha aliança contigo e o Meu testemunho’; pela ‘aliança’ se entende o mesmo que acima pela ‘lei,’ ou seja, o vero da doutrina, e pelo ‘testemunho’ o mesmo que acima pelo ‘testemunho’, ou seja, o bem da vida segundo os veros da doutrina. (Coisas semelhantes são significadas em David por ‘aliança’ e ‘testemunho’, no Sl. 25:10.) [13] Em muitas passagens são mencionados ‘testemunhos’ e, ao mesmo tempo, ‘lei’, ‘preceitos’, ‘mandamentos’, ‘estatutos’ e ‘juízos’, e nelas por ‘testemunho e mandamento’ são significadas as coisas que ensinam a vida; por ‘lei e preceitos’ as que ensinam a doutrina; por ‘estatutos e juízos’ as que ensinam os rituais, como nas seguintes passagens em David: “A lei de JEHOVAH é perfeita, restaura a alma; o testemunho de JEHOVAH é firme, torna sábio o simples; os mandamentos de JEHOVAH são retos, alegrando o coração; o preceito de JEHOVAH é puro, iluminando os olhos... os juízos de JEHOVAH são a verdade, são juntamente justos” (Sl. 19:7-9); no mesmo: “Bem-aventurados os íntegros no caminho, os que andam na lei de JEHOVAH; bem-aventurados os que guardam o Seu testemunho, de todo o coração o buscam... Tu prescreveste os Teus mandamentos para serem muito [bem] guardados; quisera que os meus caminhos fossem dirigidos para guardar os teus estatutos; então não me envergonharei quando olhar para todos os Teus preceitos; confessar-Te-ei em retidão de coração, quando aprender os juízos de Tua justiça” (Sl. 119:1-7; igualmente aos versículos 12-15, 88, 89, 151-156 e em outras passagens).