. ‘Dizendo: Até quando, ó Senhor, que és Santo e Verdadeiro, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?’- Que isto signifique os suspiros ao Senhor, que é a Justiça, quanto ao juízo e à remoção daqueles que perseguem e infestam os que professam o Senhor e estão na vida de caridade, vê-se pela significação de clamar e dizer ‘Até quando, ó Senhor’ que é deixar sair suspiros de dor ao Senhor, pois são as palavras dos que gemem, suspiram e suplicam por justiça; pela significação ‘que és Santo e Verdadeiro’, que é Aquele que é a Justiça, pois ‘justiça’, quando se trata do Senhor, significa que não tolera tais coisas e isto porque é Santo e Verdadeiro; pela significação de ‘julgar e vingar o nosso sangue’, que é julgar e remover aqueles que perseguem e infestam os que professam o Senhor e estão na vida de caridade; que estas coisas sejam significadas por essas palavras é porque pelo ‘sangue’ é significada toda violência feita ao Divino Bem e ao Divino Vero, assim, ao Senhor, por conseguinte a violência feita aos que estão na vida da caridade e da fé; fazer violência a esses é fazê-la ao Senhor mesmo, segundo essas palavras do Senhor em Mateus: “Na medida em fizeste a um dos Meus menores irmãos, a Mim o fizeste” (Mt. 25:40, 45). Que isto seja significado pelo ‘sangue’ nesse sentido, vide acima (n. 329); e pela significação de ‘dos que habitam sobre terra’, que são aqueles que estavam no primeiro céu, o qual depois passou, pois eles habitavam sobre a terra, sobre os montes, colinas e rochedos no mundo espiritual, e os que reconheceram o Senhor e estiveram na vida da caridade, moravam então debaixo da terra ou sob os céus, e aí foram ocultos e guardados (vide acima, n. 391 e 392). [2] Por estas explicações pode-se ver o que se entende por essas palavras em seu sentido genuíno; mas ninguém pode saber que tais coisas sejam entendidas, a menos que isto seja revelado, pois quem de outro modo saberiam quem são os que se entendem pelas ‘alma dos que foram mortos’ e o que se entende por ‘vingar o seu sangue dos que habitam sobre a terra’? Quem não sabe quem são pela, acham que devam ser entendidos somente os mártires, quando, todavia, não são os mártires, mas todos os que sofreram perseguição e foram infestados por aqueles que estavam no primeiro céu, que passou, pois esses foram tais que, por serem interiormente maus, rejeitaram de si todos os que professaram o Senhor e estiveram na vida de caridade (como se disse também acima, n. 391 e 392. A isto acrescentarei o seguinte: No mundo espiritual, todos aqueles que foram interiormente maus, ainda que no mundo tenham nos externos vivido uma vida moral, não podem absolutamente suportar alguém que adore ao Senhor e que viva a vida de caridade. Tão logo veem esses, eles os infestam e lhes causam dano ou insultam. Fiquei admirado muitas vezes de que isto seja assim, e também ficam admirados os que não sabem disso, visto que tais indivíduos no mundo toleraram as pregações sobre o Senhor e também sobre a caridade, além de eles mesmos terem falado da caridade pela doutrina, mas quando se tornam espíritos não toleram isso. A causa, porém, é porque isto está inerente no mal em que eles se acham, pois no seu mal há inimizade e mesmo ódio ao Senhor e também àqueles que são conduzidos pelo Senhor, que são os que estão na vida de caridade. Mas essa inimizade e esse ódio jazem latentes em seu espírito, pelo que estão neles quando se tornam espíritos; então essa antipatia ou essa oposição ínsitas no mal se manifestam. [3] Sejam por exemplo aqueles em que o amor de reinar é predominante. O prazer desses é dominar sobre os outros e, se puderem, sobre todos. Esse prazer é inerente neles após a morte e não pode ser tirado, porquanto todo prazer é do amor, e o amor predominante faz a vida deles, e essa vida permanece eternamente. Esses, quando se tornam espíritos, como pelo prazer do amor de si ambicionam continuamente o domínio sobre os outros, como no mundo, e não o podem, ficam irados contra o Senhor; e como não podem Lhe causar dano, ficam irados contra os que professam o Senhor, porque o prazer do amor deles é oposto ao prazer do amor celeste. Este prazer é que o Senhor reine, enquanto o outro prazer é que eles mesmos reinem. Esta é a razão pela qual o ínsito desse prazer é o ódio ao Senhor e àqueles que pelo Senhor são conduzidos, que são os que estão na vida de caridade. Por estas explicações pode ser vista a causa porque aqueles que professaram ao Senhor e viveram na vida de caridade foram poupados pelo Senhor de tal violência e ocultos na terra inferior, e ali guardados até o juízo. Depois do juízo, porém, os que tinham habitado acima da terra, sobre montes, colinas e rochedos, os quais foram interiormente maus, como acima se disse, foram expulsos, enquanto os que foram ocultos sob a terra ou sob o céu foram elevados e alocados por herança nos lugares de onde os primeiros foram expulsos. Por estas explicações pode-se compreender mais plenamente agora o que se entende por essas palavras no versículo seguinte, ‘e foi-lhes dito que repousassem ainda por pouco tempo até que se completassem’.