AE 417

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. “Quatro anjos em pé sobre os quatro cantos da terra”. Que isto signifique o Divino proveniente do Senhor procedendo em todo o mundo espiritual vê-se pela significação de ‘anjos’, que é o Divino proveniente do Senhor procedendo (de que se tratou acima, n. 130, 200 e 302); e pela significação de ‘quatro cantos da terra’, que é todo o mundo espiritual, pois pelas ‘quatro cantos’ é significado o mundo espiritual, pelo fato de ali também haver terras, como em nosso planeta, porque ali há igualmente montes, colinas, rochas, planícies, vales e muitas outras coisas, como acima se disse algumas vezes; e como no Apocalipse se trata do juízo final sobre todos no mundo espiritual, e, aqui, da separação ali entre os bons e os maus, daí vem que pela ‘terra’ se entende aquele mundo. Que a ‘terra’ signifique a igreja, como se disse muitas vezes acima, é porque a face da terra no mundo espiritual é absolutamente como a face da igreja com os espíritos e os anjos ali; uma face belíssima onde habitam os anjos dos céus superiores e também bela onde habitam os anjos dos céus inferiores e não bela onde habitam os espíritos do mal. Com efeito, onde os anjos habitam há paraísos, jardins, canteiros, palácios e todas as coisas na forma e na harmonia celestes, das quais emanam amenidades e que deleitam intimamente os ânimos. Com os maus espíritos, porém, há lugares pantanosos, pedregosos e todas as coisas são estéreis; e habitam em cabanas que são de vil aparência, bem como em covis e cavernas.
[2] Estas coisas foram ditas para que se saiba que pela ‘terra’, num sentido próximo, entende-se o mundo espiritual. Nenhuma outra terra pôde aparecer a João, porque ele a viu quando esteve em espírito. Além disso, quando o homem está em espírito, nada do que ele vê está em nossa terra, mas no mundo espiritual. Assim é que ele viu quatro anjos e estes de pés nos quatro cantos daquela terra. Que ele tenha visto ‘quatro anjos’ é porque pelos ‘quatro anjos’ de pé nos ‘quatro cantos’ é significado o Divino proveniente do Senhor procedendo em todo o mundo espiritual. Com efeito, esse mundo consiste de quatro regiões, a saber, a oriental, a ocidental, a meridional e a setentrional, pois assim esse mundo é dividido. Na região oriental habitam os que estão no bem do amor ao Senhor, do mesmo modo que na ocidental, mas aqueles no bem do amor claro, porque está no interior, e estes no bem do amor obscuro, porque está no exterior. Na região meridional habitam os que numa clara luz do vero, na setentrional os que estão numa luz obscura do vero. (A respeito dessas regiões, porém, vide na obra O Céu e o Inferno os n. 141-153, onde se trata delas). E visto que todas as coisas se referem ao bem do amor e ao vero proveniente desse bem, ou, em geral, ao bem e ao vero, por isso pelas quatro regiões também se entendem todas as coisas do céu e da igreja. Essas regiões também se entendem na Palavra pelos ‘quatro ventos’ e, aqui, também pelos ‘quatro cantos’. Daí é evidente que os anjos não foram vistos de pé nos quatro cantos da terra, mas nas quatro regiões. Que as regiões também se chamem ‘quatro cantos’ é porque pelos ‘cantos’ são significados os extremos, e os extremos significam todas as coisas, porque as incluem.
[3] Que os ‘cantos’2 signifiquem regiões, vê-se pelas passagens na Palavra onde as regiões são descritas por meio de ‘cantos’, como nas seguintes passagens. Em Moisés:
“Para o habitáculo farás vinte tábuas para o canto meridional, para o sul... para o segundo lado do habitáculo para o canto setentrional, vinte tábuas”, e assim por diante (Êx. 26:18, 20; 27:9, 11; 36:21, 23, 25);
‘para o canto meridional’ é para a região meridional, e ‘para o canto setentrional’ é para a região setentrional, pois eram vinte tábuas para cada uma. Semelhantemente, em Ezequiel:
“Junto ao termo de Dan, para o canto do oriente até o canto do ocidente, Asher um; e daí, junto ao termo de Asher, desde o canto do oriente e até o canto voltado para o ocidente...” e assim por diante (Ez. 48:1-8);
no mesmo:
Estas são as medidas: o canto do setentrião, cinquenta e quatro mil; e o canto do meridião o mesmo, do canto do oriente o mesmo e o canto do ocidente o mesmo, junto ao termo do ângulo do oriente que dá para o ocidente, e assim por diante (vide Ez. 48:16, 17, 23-28, 33, 34; e também 47:17-20).
Em Moisés:
Medireis fora da cidade o canto que dá para o nascente dois mil côvados, e o canto do meridião o mesmo, e o canto do ocidente o mesmo e o canto do setentrião o mesmo (vide Nm. 35:5);
e, além disso, em Josué (15:5; 18:12, 14, 15, 20). Aí, pelo ‘canto do oriente’, ‘do meridião’, ‘do ocidente’ e ‘do setentrião’ se entendem os lados da região oriental, meridional, ocidental e setentrional. Por essas explicações é evidente que pelos ‘quatro anjos de pé sobre os quatro cantos da terra’ não se entende ‘sobre os seus quatro cantos’, mas em suas quatro regiões. É semelhante em outra passagem no Apocalipse:
Satanás “sairá para seduzir as nações que estão nos quatro cantos da terra” (Ap. 20:8).
[4] A razão porque se diz ‘quatro cantos’ e não quatro regiões é que pelos ‘cantos’ são também significadas todas as coisas, porque são os extremos, uma vez que os extremos compreendem todas as coisas que estão desde o centro até às periferias, pois são os últimos termos. Assim era que sobre os quatro cantos do altar foram postos quatro chifres e sobre eles se derramava sangue e, assim, todo o altar era expiado, como é evidente em Êxodo 27:2; 29:12; 30:2, 3, 10; 38:2; Levítico 4:7, 18, 25, 30, 34; 16:18, 19; Ezequiel 41:22; 43:20).
[5] Que pelos ‘cantos’ sejam significadas todas as coisas, por serem os extremos – pelo motivo de que se falou acima, ou seja, porque os extremos incluem e compreendem todas as coisas – vê-se claramente por alguns dos estatutos entre os filhos de Israel, tais como:
Que não arredondassem ou aparassem o canto de sua cabeça (Lv. 19:27);
Que não aparassem o canto de sua barba (Lv. 19:27; 21:15);
E que não consumissem o canto de seu campo, quando fizessem a colheita (Lv. 19:9; 23:22).
Não se pode saber por que esses estatutos lhes foram dados a menos que se saiba o que significam os ‘cabelos da cabeça’, a ‘barba’, o ‘campo’ e os ‘cantos’ ao mesmo tempo. Pelo ‘cabelo da cabeça’ e pela ‘barba’ é significado o último da vida do homem, que se chama sensual corporal; pelo ‘campo’ é significada a igreja e pela ‘colheita’ o vero da doutrina. Por isso, por essas coisas era representado que os extremos fossem conservados, porque significam todas as coisas, pois se os extremos não forem conservados, também os meios são conservados, mas se dispersam. É, comparativamente, como a pele, que, se não estivesse envolvendo o homem, os interiores se dispersariam. é o mesmo em todas as coisas, assim também nas que são significadas pelo ‘cabelo da cabeça’, pela ‘barba’ e pela ‘colheita do campo’. (Que o ‘cabelo da cabeça’ signifique o extremo da vida do homem, que se chama sensual corporal, vê-se acima, n. 66; e que o mesmo seja significado pela ‘barba’, vê-se nos Arcanos Celestes, n. 9960; que os ‘extremos ou ‘últimos’ signifiquem todas as coisas em conjunto, assim, o todo, n. 10044, 10329 e 10335). E visto que o ‘campo’ significava a igreja, e a ‘colheita’ os seus veros, assim, por ‘não consumir o canto de teu campo quando colheres’ é significada a conservação de todas as coisas que são significadas pela ‘colheita do campo’.
[6] Que os ‘cantos’ signifiquem todas as coisas, por serem extremos, pode-se ver também pelas seguintes passagens. Em Moisés:
“Em cantos extremos os lançarei; farei cessar do homem a memória deles” (Dt. 32:26);
‘lançar em cantos extremos’ significa ser privado de todo bem e vero, pelo que também se diz: ‘farei cessar do homem a memória deles’, pelo que é significado que não mais teriam vida espiritual alguma, o que acontece quando o homem está somente nos últimos da vida. Isto é o que se chama sensual corpóreo e aí se acha a maioria das pessoas, as que que não adquiriram alguma vida espiritual. De fato, elas então se tornam não diferentes de bestas, já que estas não estão em outra vida, com a diferença de que o homem, por ter nascido homem, pode falar e raciocinar, mas faz isso pelas falácias dos sentidos ou dos extremos da natureza do mundo e do corpo. É isto o que se entende por ‘ser lançado nos cantos extremos’.
[7] Em Jeremias:
“Os camelos serão... por presa, e a multidão do gado... por despojo, e os dispersarei a todo o vento, nos de cantos cortados, e de todas as suas passagens trarei a ruína” (Jr. 49:32);
estas coisas foram ditas a respeito da devastação da Arábia e de Hazor pelo rei da Babilônia, e por ‘Arábia’ e ‘Hazor’ são significadas as cognições do bem e do vero; pelo ‘rei da Babilônia’, o mal e o falso que devastam. A devastação de todos os conhecimentos de confirmações e de cognições do bem e do vero é significada por ‘os seus camelos serão por presa, e a multidão do gado por despojo’; ‘camelos’ são os conhecimentos que confirmam, e ‘gado’ são as cognições do bem e do vero. A devastação quanto a todas as coisas do bem e do vero até que não haja resto é significada por ‘dispersá-los-ei a todo o vento, nos cortados de canto’; ‘cortados de canto’ são os extremos, onde não há mais bem e vero. Que então os males e falsos irrompam por toda parte é significado por ‘de todas as suas passagens trarei a ruína’, porque no mundo espiritual, onde estão os males, em toda parte ali se veem caminhos para os infernos, e por eles irrompem dali os males e falsos, e pelos mesmos caminhos vão todos os que estão em semelhantes males e falsos, e se consociam. Estas coisas foram ditas para que se saiba o que se entende por ‘de todas as passagens trarei a ruína’. Por ‘ser por presa’ e ‘despojo’, como também por ‘dispersar e trazer ruína’ é significada a devastação.
[8] No mesmo:
“Eis que dias virão em que visitarei todo circunciso no prepúcio, Egito e Judah e Edom, e os filhos de Amon e de Moab, e todos os cortados de canto que habitam no deserto, pois todas as nações são prepuciadas, e toda a casa de Israel prepuciados de coração” (Jr. 9:25, 26);
pelos ‘cortados de canto’ aqui são significados os que estão nos últimos da igreja separados dos interiores. Os interiores são as coisas espirituais. São, por conseguinte, aqueles que estão somente nos sensuais, que são os últimos do homem natural (a respeito dos que são meramente sensuais, quem e quais eles são, vê-se na Doutrina da Nova Jerusalém, n. 50). Que esses sejam significados aqui pelos ‘cortados de canto’ é porque pelos ‘cantos’ são significadas as regiões do mundo espiritual, e por essas regiões são significados todos os bens e veros do céu e da igreja, como se disse nas premissas. As habitações dos espíritos e dos anjos se sucedem ali nessa ordem, isto é, no meio estão os que se acham na maior sabedoria e inteligência, e no meio até às últimas periferias os que estão em sabedoria e inteligência cada vez menores, e essas diminuições são inteiramente segundo as distâncias em relação ao meio. Nos últimos estão os que não se acham em sabedoria e inteligência algumas, e por fora estão os que se acham nos males e nos falsos daí. São esses que se entendem pelos ‘cortados de canto’, e como ali há desertos, diz-se deles que ‘habitam no deserto’. (A respeito dessas diminuições no mundo espiritual veem-se na obra O Céu e o Inferno os n. 43, 40 e 189). As mesmas coisas são significadas pelas ‘nações prepuciadas’ e pela ‘cada de Israel, prepuciados de coração’; pelos ‘‘prepuciados’ são significados os que estão sem amor e caridade, assim, os que estão sem bem e, daí, estão nos amores de si e do mundo. Os que estão nesses amores estão nos últimos do homem natural inteiramente separados das coisas espirituais, pelo que são os ‘cortados de canto no deserto’. Por ‘Egito’, ‘Judah’, ‘Edom’, ‘filhos de Amon’ e ‘de Moab’ se entendem todos os que se separaram dos bens e veros da igreja por esses amores, pelo que estão fora dela, assim, ‘cortados de canto’. O mesmo é significado por ‘cortados de canto’ em Jr. 25:23.
[9] Em Moisés:
“Uma estrela nascerá de Jacob, e de Israel surgirá um cetro que esmagará os cantos de Moab” (Nm. 24:17);
pelos ‘cantos de Moab’ se entendem todas as coisas que são significadas por ‘Moab’; por ‘Moab’ são significados os que estão nos últimos da Palavra, da igreja e do culto, e, no sentido oposto, os que os adulteram por voltarem-nos para si mesmos e por considerarem a sua própria honra em cada uma das coisas da Palavra, da igreja e do culto. Por isso, os ‘cantos de Moab’ são as adulterações da Palavra e, daí, da igreja e do culto, tais como são naqueles que são assim. Coisas semelhantes são significadas pelos ‘cantos de Moab’ em Jeremias (48:45).
[10] Em Sofonias:
“Dias de trombeta e de clangor sobre as cidades fortificadas, e sobre os altos cantos” (Sf. 1:16);
‘dias de trombeta e de clangor’ significa a luta espiritual, que é contra os falsos e males; ‘cidades fortificadas’ significam os doutrinais falsos que eles confirmaram; e ‘cantos altos’ significa as coisas que favorecem os seus amores; daí é evidente o que significado por ‘dia de trombeta e clangor sobre as cidades fortificadas e sobre os cantos altos’. No mesmo:
“Cortarei as nações, serão devastados os seus cantos; desolarei as suas ruas para que não haja quem passe, e devastarei as suas cidades para que... não haja quem habite” (Sf. 3:6).
A destruição de todos os bens da igreja é significada por ‘cortarei as nações’ e por ‘serão devastados os seus cantos’; ‘nações’ são os bens da igreja, ‘cantos’ são todas as suas coisas, porque são os extremos (de que se falou acima). A destruição das verdades da doutrina é significada por ‘desolarei as suas ruas’, e por ‘serão devastadas as suas cidades’; ‘ruas’ são verdades e ‘cidades’ são os doutrinais. a destruição total até que não vero algum nem bem algum é significada por ‘para que não haja quem passe nem quem habite, pois ‘passar’, na Palavra, se diz dos veros, e ‘habitar’ se diz dos bens.
[11] No livro dos Juízes:
“Saíram todos os filos de Israel, e a congregação se ajuntou como um só varão desde Dan até Beersheba... e os cantos de todo o povo, todas as tribos de Israel, apresentaram-se na congregação do povo de Deus” (Jz. 20:1, 2);
Que ‘os cantos de todo povo tenham-se apresentado na congregação do povo de Deus’ signifique todos em toda parte ou de toda região, vê-se claramente pelo fato de se dizer ‘saíram todos os filhos e todas as tribos de Israel’ e ‘congregou-se desde Dan até Beersheba’; no sentido espiritual, porém, pelos ‘cantos de todo o povo’ são significados todos os veros e bens da igreja. Do mesmo modo, também, por ‘todas as tribos de Israel, desde Dan até Beersheba’ são significados esses bens e veros, desde os últimos até os primeiros; e pela ‘congregação do povo de Deus’ é significada a consulta a respeito das coisas da igreja. Com efeito, nas partes históricas da Palavra há em toda parte um sentido espiritual, igualmente às partes proféticas; por isso, no sentido histórico, pelos ‘cantos’ são significadas as regiões tais quais são no mundo espiritual, mas no sentido espiritual são significados todos os veros e bens da igreja, pelo motivo tratado acima.
[12] Por aí se pode ver o que é significado pela ‘pedra do canto’3 nas seguintes passagens. Em Isaías:
“Fundará em Sião uma pedra, pedra de provação, de canto, de preço, de fundação fundada” (Is. 18:16);
em Jeremias:
“Não tomarão de ti a pedra para o canto, ou a pedra das fundações” (Jr. 51:26);
em Zacarias:
De Judah [sairá a pedra] ‘do canto, dele o cravo e dele o arco de guerra” (Zc. 10:4);
em David:
“A pedra que rejeitaram... tornou-se cabeça do canto” (Sl. 118:22; vide também Mt. 21:42; Mc. 12:10, 11; Lc. 20:17, 18);
a ‘pedra do canto’ significa todo o Divino Vero sobre o qual se fundam o céu e a igreja, assim, toda a fundação; e como a fundação é o último em que repousa a casa ou o templo, por isso significa todas as coisas. Visto que pela ‘pedra do canto’ são significadas todas as coisas sobre as quais se funda a igreja, por isso se diz: ‘Fundará em Sião uma pedra... de canto, de preço, de fundação fundada’, e se diz ‘pedra para o canto’ e ‘pedra das fundações’. E visto que pela ‘pedra do canto’ é significado todo o Divino Vero sobre o qual se funda a igreja, por isso também é significado o Senhor quanto ao Divino Humano, porque todo Divino Vero procede d’Ele. Os “edificadores’ ou ‘arquitetos’ que rejeitaram essa pedra, como se lê nos Evangelhos, são os que são da igreja, aí a Igreja Judaica, que rejeitou o Senhor e, com Ele, todo Divino Vero, pois com eles nada havia senão vãs tradições tiradas do sentido da letra da Palavra, nas quais os veros mesmos da Palavra foram falsificados e os bens adulterados. (Que os ‘últimos’ signifiquem todas as coisas e, daí, isso, vê-se nos Arcanos Celestes, n. 634, 5897, 6239, 6451, 6465, 9216, 9824, 9828, 9836, 9905, 10044, 10099, 10329, 10335 e 10548).

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