. (Vers. 3) “Dizendo: Não danifiqueis a terra, nem o mar, nem as árvores”. Que isto signifique para que os bons não pereçam com os maus em qualquer parte onde estiverem, vê-se pela significação de ‘não danificarem’, é que para que não pereçam (de que se tratará a seguir); e pela significação de ‘terra, mar e árvores’, que é em toda parte no mundo espiritual, até os seus últimos, com quem houver alguma percepção (de que se tratou acima, n. 420), por conseguinte, nos bons com os maus, em qualquer parte onde estejam. Que haja tal sentido nessas palavras vê-se pela série das coisas no sentido espiritual, pois trata-se no que agora se segue da separação dos bons de entre os maus, separação essa significada por ‘selar os servos de Deus nas testas’, por ‘doze mil de cada tribo’ e pelos apareceram ‘vestidos de estolas brancas’, tratando-se de todos esses neste capítulo. Por uns e outros se entendem os bons que eram para ser separados dos maus antes de estes serem expulsos ao inferno. E como a separação dos bons de entre os maus e a expulsão dos maus nos infernos se faz pelo influxo Divino proveniente do Senhor como Sol – a separação dos bons de entre os maus por um influxo brando e moderado, e a expulsão dos maus ao inferno por um influxo forte e intenso (como se vê mostrado acima, n. 413, 418 e 419), por isso se trata nesses três versículos do primeiro influxo, pelo qual os bons são separados dos maus, e na sequência deste capítulo, até o fim, trata-se dos bons que foram separados. [2] Antes, porém, dir-se-á algo a respeito do seguinte: se os bons não fossem primeiro separados dos maus, antes de os maus serem expulsos aos infernos, os bons pereceriam juntamente com os maus, pois os bons que ainda não tinham sido elevados ao céu, mas eram para serem elevados após os maus serem expelidos, tinham uma comunicação muito próxima com os maus, pelo culto externo destes. Porque, conforme foi dito acima e também mostrado no opúsculo Do Juízo Final, n. 59 e 70, os maus, que foram tolerados até o juízo final, estavam no culto externo, porém não em qualquer interno, pois com a boca e os gestos exibiam e simulavam as coisas santas da igreja, mas não com a alma e o coração; por isso, pelo externo do culto comunicavam com os que eram bons também interiormente, e por causa dessa comunicação os maus não puderam ser expulsos antes que deles fossem separados os bons, pois assim seriam danificados, isto é, pereceriam, os bons juntamente com os maus aos quais tinham estado conjuntos pelo externo do culto, porquanto os maus os arrastariam consigo. [3] Isto é também o que o Senhor predisse em Mateus: “O reino dos céus é semelhante ao homem que semeia boa semente em seu campo; mas, quando dormiram os homens, veio o seu inimigo, e semeou joio, e se foi; quando, porém, a erva germinou, e deu fruto, então apareceu também o joio. Chegando-se, porém, os servos ao pai de família, disseram-lhe: Senhor, não semeaste a boa semente em teu campo? donde, pois, tem joio? Ele, porém, disse: Um homem inimigo fez isso. Mas os servos lhe disseram: Queres, pois, que, indo, a colhamos? Porém ele disse: Não, para que, talvez, colhendo o joio, arranqueis juntamente com ele o trigo. Deixei crescer um com o outro até à ceifa, e no tempo da ceifa direi aos ceifeiros: Colhei antes o joio, e colhei-o em feixes para o queimar; o trigo, porém, colhei-o em meu celeiro” (Mt. 13:24-30); pelo ‘homem que semeia’ se entende o Senhor; pelo ‘campo’ se entende o mundo espiritual e a igreja, onde estão tanto os bons quanto os maus; pela ‘boa semente’ e pelo ‘trigo’ se entendem os bons, e pelo ‘joio’ se entendem os maus. Que esses não possam ser separados senão no tempo do juízo final, por causa da conjunção acima citada, entende-se pela resposta aos servos que queriam colher o joio antes, isto é, separar os maus dos bons: ‘Não, para que, talvez, colhendo o joio, arranqueis juntamente com ele o trigo; deixai crescer um com o outro até à ceifa’; a ‘ceifa’ é o juízo final. Que sejam essas as coisas significadas, o Senhor mesmo ensina, dizendo: “Quem semeia a boa semente é o Filho do homem, o campo é o mundo; a semente são os filhos do reino; o joio são os filhos do mal;... a ceifa é a consumação do século;... assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será na consumação do século” (vers. 37-40 do mesmo capítulo). Daí é evidente que pelo ‘homem pai de família’ que semeia a boa semente é o Senhor, que aí Se chama ‘Filho do homem’, e que ‘o campo é o mundo’ é o mundo espiritual e a igreja, onde se acham tanto os bons quanto os maus. (Que se entenda esse mundo é evidente por se dizer que ‘o reino dos céus é semelhante ao homem que semeia boa semente em seu campo’; o ‘reino dos céus’ é o mundo espiritual e a igreja. Isto é também evidente pelo fato de que essas palavras foram ditas a respeito do juízo final, e o juízo final foi realizado no mundo espiritual e não no nosso mundo, conforme se vê demonstrado no opúsculo Do Juízo Final). É evidente também que a ‘boa semente’ e o ‘trigo’ são os bons, que ali são chamados ‘filhos do reino’, e que o ‘joio’ são os maus ali, que são chamados ‘filhos do mal’, e que quando se fizer separação é o tempo do juízo final, pois se diz: ‘a ceifa é a consumação do século’ (a ‘consumação do século’ é o tempo do juízo final, como se vê acima, n. 397). Que, então, ‘o joio será colhido em feixes para ser queimado, e o trigo ajuntado no celeiro’ significa que os maus, segundo os gêneros e espécies de mal que há neles, devem ser reunidos e rejeitados ao inferno (assim acontece com os maus quando são rejeitados; isto é o que se entende por ‘reunir em feixes’), e que os bons sejam preservados, é o que se entende pelo ‘reunião do trigo no celeiro’ (‘celeiro’ é onde há a reunião dos bons). Por aí se pode ver que a separação dos bons de entre os maus se torna plena no tempo do juízo final, e que isso não se pode fazer antes por causa da conjunção acima citada, e que de outro modo os bons pereceriam juntamente com os maus, porquanto se diz: ‘para que, talvez, colhendo o joio, arranqueis juntamente com ele o trigo’ e se diz mais: ‘deixei crescer um com o outro até à ceifa’, isto é, até a consumação do século. Ora, visto que a separação dos bons de entre os maus se faz por um influxo brando e moderado do Divino que procede do Senhor, e a rejeição dos maus no inferno por um influxo forte e intenso, pode-se ver de que maneira devem ser entendidas todas essas coisas que estão contidas nos três primeiros versículos desse capítulo, quando se sabe pelo sentido espiritual o que é significado pelos ‘ventos que são contidos para que não se danificassem a terra, o mar e as árvores, antes de os servos de Deus serem assinalados em suas testas’. [4] Dir-se-á também em poucas palavras de que maneira se faz a separação mesma. Quando os bons são separados dos maus, o que se faz pelo Senhor por meio de um influxo moderado de Seu Divino e pela inspeção nas coisas que pertencem às afeições espirituais nos anjos e espíritos, então os Senhor faz com que aqueles que são bons interiormente e, assim, exteriormente, voltem-se para Ele e, assim, desviem-se dos maus. E, quando se voltam, tornam-se, invisíveis aos maus, pois isto é comum no mundo espiritual, que quando alguém se desvia de outrem, torna-se invisível. Quando isto se faz, os maus são separados e, ao mesmo tempo, são também separados da santidade que fingem nos externos, e assim olham para o inferno, onde são logo lançados. (A respeito dessa conversão veem-se muitas coisas na obra O Céu e o Inferno, n. 17, 123, 142, 144, 145, 151, 153, 251, 255, 272, 510, 548 e 561. Que os maus que puderam estar no culto externo, ou na piedade e santidade eterna, ainda que em nenhum interno, tenham sido tolerados até o juízo final e não mais depois disso, e por quê, vide no opúsculo Do Juízo Final, n. 59 e 70).