. “Até que tenhamos assinalado os servos de nosso Deus nas suas testas”. Que isto signifique que antes devem ser separados os que estão nos veros do bem, vê-se pela significação de “assinalar’, que é distinguir e separar (de que se tratará a seguir); pela significação de ‘servos de Deus’, que são aqueles que estão nos veros do bem (de que se tratou acima, n. 6); e pela significação de ‘testa’, que é o bem do amor. Que a testa seja o bem do amor, isso vem da correspondência, pois todas as coisas que há no homem, em todo o seu corpo, tanto as de dentro quanto as de fora dele, correspondem ao céu, porque todo o céu é como um Homem à vista do Senhor, ordenado de tal modo a corresponder com todas e cada uma das coisas do homem. A face toda, onde estão situados os sentidos da visão, do olfato, da audição e do paladar, corresponde às afeições e, daí, aos pensamentos em geral; os olhos correspondem ao entendimento, o nariz à percepção, o ouvido à audição e à obediência, o paladar ao desejo de conhecer e de saber. A testa, porém, corresponde ao bem do amor, do qual vêm todas essas coisas. Além disso, faz o supremo da face e inclui imediatamente a parte anterior e primária do cérebro, onde se acham as coisas intelectuais do homem. Daí vem que o Senhor contempla os anjos na testa, e os anjos contemplam o Senhor pelos olhos, e isto porque a testa corresponde ao amor, pelo qual o Senhor os contempla, e os olhos correspondem ao entendimento, pelo qual eles contemplam o Senhor. Com efeito, o Senhor concede que seja visto pelo influxo do amor no entendimento deles. (Sobre isto, vide a obra O Céu e o Inferno, n. 11, 145 e 151); e que o céu em todo o conjunto se refira ao um homem, na mesma obra, n. 68-86; e que daí haja correspondência de todas as coisas do céu com todas as coisas do homem, n. 87-102). Por é evidente o que é significado por ‘ser assinalado na testa’, a saber, é estar no bem do amor ao Senhor pelo Senhor e por aí ser distinto e separado daqueles que não estão nesse amor, pois o Senhor os contempla na testa e os enche do bem do amor, pelo qual eles contemplam o Senhor com o pensamento da afeição. Os demais o Senhor não pode contemplar na testa, porque se desviam d’Ele para um amor oposto, do qual são cheios e pelo qual são atraídos. (Que cada um no mundo espiritual, e também o homem quanto ao seu espírito, volte a face para o amor reinante, vê-se na obra O Céu e o Inferno, n. 17, 123, 142-144, 153 e 552).
[2] ‘Ser assinalado’ não é ser assinalado, mas reduzido a um estado em que se possa ser reconhecido, por conseguinte, conjunto àqueles que estão num estado semelhante e separado dos que estão num dessemelhante. Isto é significado por ‘ser assinalado’ e pelo ‘sinal’ nas passagens que se seguem. Em Ezequiel:
“Disse Jehovah ao” varão vestido de linho: “Passa pelo meio da cidade, pelo meio de Jerusalém, e assinala com um sinal as testas dos varões que gemem e suspiram sobre todas as abominações feitas no seu meio;... e passai pela cidade após ele e feri; vosso olho não poupe, nem useis de clemência;... mas de qualquer varão sobre o qual houver o sinal nem sequer vos aproximeis” (Ez. 9:4-6);
trata-se, aqui também, da separação dos bons de entre os maus, e por ‘ser assinalado nas testas’ é significado o mesmo que na presente passagem do Apocalipse, a saber, ser distinto e separados dos maus e conjunto aos bons. Trata-se, em seguida, também da expulsão e da danação dos maus; os que estão no bem são descritos pelos que ‘gemem e suspiram sobre todas as abominações feitas no meio da cidade de Jerusalém’; ‘os que gemem e suspiram sobre as abominações’ são os que não estão nos males e, daí, nos falsos; o ‘gemido’ e o ‘suspiro’ sobre elas significam aversão e dor por causa delas; ‘Jerusalém’ é a igreja, e ‘cidade’ é a doutrina; a expulsão e a danação dos maus em seguida são descritas por eles ‘passarem pela cidade após ele, e ferirem e o olho não poupasse’; ‘ferir e matar’ significa ser condenado, pois a morte espiritual, que é a danação, é significada na Palavra pela morte natural.
[3] Em Isaías:
“Virá para congregar todas as nações e línguas, para venham e vejam a Minha glória, e porei neles um sinal” (Is. 18, 19);
essas palavras foram ditas a respeito do Senhor e de uma nova igreja a ser instaurada por Ele, por conseguinte, de um novo céu e uma nova terra (como se vê no vers. 22 no mesmo capítulo); ‘congregar todas as nações e línguas’ significa o mesmo que
“Congregar os eleitos desde os quatro ventos” (Mt. 24:31);
‘congregar’ significa chamar a Si os que são Seus; ‘nações’ significam os que estão no bem, e ‘línguas’ os que estão na vida segundo a doutrina; ‘ vir e ver a glória’ do Senhor significa ser iluminado com o Divino Vero e, assim, fruir do prazer celeste, pois a ‘glória’ do Senhor significa o Divino Vero e, por este, a iluminação e o prazer; ‘pôr um sinal neles’ significa distinguir e separar dos maus, e conjuntar aos bons.
[4] Lê-se a respeito de Caim
Que Jehovah pôs nele um sinal, para que ninguém o matasse” (Gn. 4:15);
Quem não conhece o arcano da Palavra de que pelas pessoas, nas partes históricas onde são nomeadas, se entendem coisas, ou que cada pessoa ali representa alguma coisa da igreja e do céu, e, assim, significa isso, não pode saber outra coisa senão o histórico da letra, no qual não se apresenta Divino algum mais do que em outras histórias, quando, todavia, na Palavra, tanto nas partes proféticas quanto nas históricas, em todas e cada uma de suas coisas existe um Divino que não aparece na letra senão aos que estão no sentido espiritual e o conhecem. O arcano espiritual na história de Caim e Abel é este: Abel aí representa o bem da caridade e Caim o vero da fé. Esse bem e esse vero na Palavra são também chamados ‘irmãos’, mas o vero da fé é chamado ‘primogênito’, pelo fato de que os veros, que depois se tornam da fé, devem primeiro ser adquiridos e depositados na memória, para que daí o bem tire, como de uma despensa, aquilo com que se conjunte e faça com que se torne da fé. Porque o vero não se torna da fé antes que o homem o queira e o pratique; e quanto mais o homem o pratica, mais o Senhor conjunta o homem a Si e ao céu, e pelo amor influi com o bem e pelo bem nos veros que o homem adquiriu deste a meninice, e os conjunta ao bem, e assim faz com que sejam da fé. Antes, não são mais que cognições e conhecimentos, pelos quais o homem ainda não tem outra fé senão como nas coisas ouvidas de outrem, das quais pode se afastar se depois ele pensar diferentemente; por isso, essa fé é a fé de outrem em si, e não sua; e no homem deve estar a fé que é sua, para que fique nele após a morte, e ela se torna sua quando ele crê, vê, quer e faz essa fé, pois então ela entra no homem e forma o seu espírito, tornando-se de sua afeição e do seu pensamento, pois o espírito do homem em sua essência não é outa coisa senão sua afeição e seu pensamento.
[5] Chama-se bem ao que pertence à afeição, e o que daí pertence ao pensamento se chama vero. O homem não crê que outra coisa seja o vero senão o que pertence à sua afeição, mas à afeição interior que é de seu espírito. Por isso, o que o homem pensa pela afeição interior, isso é sua fé; e qualquer outra coisa que ele conserva na memória, seja o que ele tira da Palavra, seja o que vem da doutrina da igreja pela instrução ou pela pregação, seja o que é do próprio entendimento, não é a fé, ainda que ele suponha que é e ainda que hoje se diga e creia que é. Esse primogênito e primitivo é que Caim representa e significa nessa história, pois Caim era o primogênito. Quando se crê que isso é a fé, e não o querer isso e o fazer, isto é, viver segundo isso, surge a heresia danosa de que a fé, só, salva, qualquer que seja a vida, e que existe a fé sem a vida, quando, todavia, isso não é a fé, mas somente um conhecimento que reside fora do homem, em sua memória, e não dentro dele, na vida. E se isso é chamado fé, é uma fé histórica, que é a fé de outrem em si; e ele não recebe a vida antes que veja que aquilo de que se imbuiu é um vero; e, então, pela primeira vez o vê quando o quer e o pratica. Quando essa heresia cresce, então é aniquilada a caridade, que é o bem da vida, e finalmente é rejeitada como não essencial para a salvação. Isto foi representado por Caim matar Abel, seu irmão, pois a fé e a caridade, ou o vero da fé e o bem da caridade, chamam-se ‘irmãos’, na Palavra, conforme se disse acima.
[6] Que ‘Jehovah tenha posto um sinal a Caim para que este não fosse morto’ significa que o distinguiria dos outros e o conservaria, porque a fé salvífica não pode existir sem a fé histórica, que é a cognição das coisas da igreja e do céu oriunda dos outros. Em suma, é o conhecimento de coisas tais que em seguida devem ser da fé, pois a menos que o homem desde a infância seja imbuído dos veros da Palavra, seja da doutrina da igreja, seja da pregação, ele seria vazio, e num homem vazio não entra a operação e não existe influxo vindo do céu desde o Senhor. Com efeito, o Senhor opera e influi pelo bem nos veros no homem, e os conjunta e faz com que a caridade e a fé sejam um só. Por aí se pode ver o que significa ‘Jehovah ter posto um sinal em Caim, para que ninguém o matasse, e quem o matasse seria vingado ao sétuplo’. Além disso, os que estão somente na fé histórica, isto é, no conhecimento de coisas tais que são da fé, os quais são ‘Caim’ ou as coisas que são ‘Caim’, também são preservados, porque podem aos outros os veros da Palavra, pois os ensinam pela memória.
[7] Porquanto a ‘testa’ corresponde ao bem do amor e, por isso, o Senhor, pelo Divino Amor, contempla os anjos e os homens na testa, como acima foi sito, por isso foi ordenado que sobre o diadema de Aarão, na região da testa, fosse posta uma lâmina de ouro puro na qual estivesse escrito ‘Santidade a Jehovah’, a cujo respeito assim se lê em Moisés:
“Farás uma lâmina, ouro puro, e gravarás nela com a gravura de um selo ‘Santidade a Jehovah’; e a porás sobre o cordão de azul... na região das faces estará o diadema, para que esteja sobre a testa de Aarão... e sobre sua testa continuamente, em beneplácito para ele diante de Jehovah” (Êx. 28:36-38),
pois Aarão, como sumo sacerdote, representava o Senhor quanto ao bem do Divino Amor, e, assim, suas vestes representavam coisas tais que procedem desse amor. O diadema representava a inteligência e a sabedoria, e a região da frente representava o seu amor, do qual vêm a inteligência e a sabedoria. Por isso, a lâmina de ouro puro era ali posta sobre o cordão de azul, sobre a qual foi gravado ‘Santidade a Jehovah’; o ‘ouro puro’ de que era feita a lâmina significa o bem do amor celeste; o ‘azul’ de que era feito o cordão sobre o qual ficava a lâmina significa o bem do amor espiritual (o amor espiritual é o amor do vero); a ‘gravura de selo’ significa a permanência na eternidade; ‘Santidade a Jehovah’ significa o Senhor quanto ao Divino Humano, do qual procede tudo o é o santo do céu e da igreja. Essas coisas estavam ‘sobre a testa do diadema’ que estavam sobre a cabeça de Aarão porque o ‘diadema’ significa o que mesmo que a ‘cabeça’, ou seja, a Divina Sabedoria, e a ‘testa’ significa o Divino Bem do amor. (Que Aarão tenha representado o Senhor quanto ao bem do amor, vê-se nos Arcanos Celestes, n. 9806, 9946 e 10017; que o ‘azul’ signifique o amor do vero, n. 9466, 9687 e 9833; e que o ‘diadema’ signifique a inteligência e a sabedoria, n. 9827).
[8] Porquanto a ‘testa’ significa o bem do amor, por isso foi ordenado aos filhos de Israel que atassem em suas testas o preceito sobre o amor a Jehovah, a cujo respeito assim se lê em Moisés:
“Amarás Jehovah teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças;... atarás estas’ palavras ‘por sinal sobre a tua mão, e que sejam por frontais, diante de teus olhos” (Dt. 6:5, 8; 11:18, além de Êx. 13:9, 16).
Diz-se ‘para que sejam por frontais diante dos olhos’; isto era representativo de que o Senhor contempla os anjos e os homens na testa, porque o faz pelo Divino Amor, e concede que os anjos e os homens O contemples pela inteligência e pela sabedoria, pois os ‘olhos’ significam o entendimento. Além disso, todo entendimento do homem procede do bem de seu amor, e segundo aquilo que recebe do Senhor. Que também ‘atassem sobre a mão’ representava os últimos, porque as mãos são os últimos das forças da alma do homem; assim, ‘sobre a testa e sobre a mão’ significa nos primeiros e nos últimos, e ‘o primeiro e o último’ significam todas as coisas (vide acima, n. 417). Que assim atassem esse preceito era por causa de que dele dependem a Lei e os Profetas, isto é, toda a Palavra, por conseguinte, todas as coisas do céu e da igreja. Que desse preceito dependam a Lei e os Profetas, o Senhor o ensina em Mateus (22:35-38, 40). Daí também é evidente de onde vem e o que significa o fato de os reis de outrora e de hoje, quando coroados, serem ungidos com azeite na testa e na mão, pois outrora os reis representaram o Senhor quanto ao Divino Vero; e como este é recebido no bem do amor, que influi do Senhor, por isso se fazia a unção na testa e na mão. Também o azeite com que se ungia significa o bem do amor. Assim é que os ‘reis’, na Palavra, significam os que estão nos veros do bem e, abstratamente, os veros do bem (vide acima, n. 31). Por aí se pode o que se entende pelo ‘sinal sobre as testas’, como também é o caso em outra passagem no Apocalipse (9:4; 14:1; 22:3, 4).
[9] Mas, por outro lado, a ‘testa’ significa aquilo que é oposto ao bem do amor, a saber, o mal do amor, e, daí, o que é duro, obstinado, impudente e infernal. Duro, em Isaías:
“Tu és duro, pois a tua cerviz é um nervo de ferro, e tua testa de bronze” (Is. 48:4).
Obstinado, em Ezequiel:
“A casa de Israel não Me quer11 obedecer... pois toda a casa de Israel é de testa obstinada e dura de coração” (Ez. 3:7, 8);
Impudente, em Jeremias:
“A testa de uma mulher permanece em ti, recusaste a ficar envergonhado” (Jr. 3:3).
Infernal, no Apocalipse (13:16; 14:9-11; 16:2; 17:5; 19:20; 20:4), pois assim como o bem do amor é celeste e, assim, clemente, paciente e pudico, assim o mal oposto a esse bem é infernal, duro, obstinado e impudente.
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