AE 458

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. “E com palmas nas suas mãos”. Que isto signifique no bem da vida segundo os veros, vê-se pela significação de ‘palmas’ que é o bem do vero ou o bem espiritual (de que se tratará a seguir); e pela significação de ‘mãos’, que é o poder e, daí, toda capacidade [posse] no homem (de que se tratou acima, n. 72, 79). Assim, por ‘terem palmas em suas mãos’ é significado que o bem do vero está neles, ou que eles estão no bem do vero. O bem do vero, quando está em alguém, é o bem da vida, pois o vero se torna bem pela vida segundo ele; antes disso o vero não é bem em pessoa alguma, pois o vero, quando está somente na memória e, daí, no pensamento, não é o bem, mas torna-se bem quando entra na vontade e, daí, no ato. Com efeito, a vontade mesma transforma o vero em bem, o que se pode ver pelo fato de que o homem quer aquilo que ele chama de bem, e tudo o que o homem pensa ele chama de vero, pois a vontade interior do homem, que é a vontade de seu espírito, é o receptáculo de seu amor, porque aquilo que o homem ama pelo espírito, isso ele quer, e o que ele quer, isso faz. Por isso o vero que é de sua vontade é também de seu amor, e tudo o que é amor ele chama de bem. Por aí é evidente de que maneira o bem é formado no homem pelos veros, e que todo bem que é bem no homem é o bem da vida. Acredita-se que o bem seja também do pensamento, ainda que não da vontade, porquanto o homem pende pensar que isto ou aquilo é um bem, todavia não é bem aí, mas o vero. Pensar que isso é um bem é um vero, e também é parte dos veros que ele sabe e, daí, pensa ser um bem. Se, porém, esse vero no pensamento é amado a ponto de o querer e, pelo querer, o fazer, então se torna bem, porque é do amor.
[2] Isto pode ser ilustrado pelo seguinte exemplo: havia uns espíritos que na vida do corpo tinham acreditado que a caridade é o essencial da igreja e, assim o essencial para a salvação, e não a fé só; e, todavia, os mesmos não viveram a vida de caridade, pois somente pensaram e afirmaram que assim é. Foi-lhes dito, porém, que somente pensar e daí crer que a caridade salva é o mesmo que crer que a fé, só, salva, se o homem não quer e não pratica. Foram, por isso, rejeitados. Daí tornou-se-me evidente que somente pensar no bem, e não querê-lo nem fazê-lo, não é bem em pessoa alguma. Seria o mesmo se o homem conhecesse os veros e bens mesmos, e pelo pensamento, apenas, atestasse deles, e se não dá vida a eles pelo querer e o fazer. Estas coisas foram ditas para que se saiba que o bem do vero ou o bem espiritual, quando está em alguém, é o bem da vida. É isto, pois, que é significado pelas ‘palmas nas mãos’.
[3] Visto que pelas ‘palmas’ era significado o bem espiritual, por isso no templo edificado por Salomão havia esculturas de palmas, além de outras, segundo essas palavras no primeiro Livro dos Reis:
Salomão, “esculpiu todas as paredes da casa em redor com aberturas de querubins e de palmas, e aberturas de flores, por dentro e por fora” assim como as duas portas (I Re. 6:29, 32);
pelas ‘paredes da casa’ são significados os últimos do céu e da igreja – os últimos são os efeitos que procedem dos interiores – e pelas ‘portas’ é significado acesso ao céu e à igreja; pelos ‘querubins’ sobre elas é significado o bem celeste, que é o bem do céu íntimo; pelas ‘palmas’, o bem espiritual, que é o bem do segundo céu; e pelas ‘flores’, o bem espiritual natural, que é o bem do céu mais externo. Assim, por esses três são significados os bens dos três céus em sua ordem. No sentido supremo, porém, pelos ‘querubins’ é significada a Divina providência do Senhor e também a guarda; pelas ‘palmas’, a Divina sabedoria do Senhor, e pelas ‘flores’, Sua Divina inteligência, pois o Divino Bem unido ao Divino Vero procedente do Senhor no terceiro céu ou íntimo é recebido como a Divina providência; no segundo céu ou médio, como a Divina sabedoria; e no primeiro céu ou o mais externo, como a Divina inteligência.
[4] Coisas semelhantes são significadas pelos ‘querubins’ e as ‘palmas’ no novo templo, em Ezequiel:
Fizeram, no novo templo, “querubins e palmas, assim como palmas entre querubim e querubim, e o querubim tinha duas faces... da terra até acima da entrada. Os querubins e as palmas foram feitos sobre as paredes e sobre as portas” (Ez. 41:18-20, 25, 26);
pelo ‘novo templo’ aí é significada a nova igreja que seria instaurada pelo Senhor quando Ele viesse ao mundo, pois pela descrição da nova cidade, do novo templo e da nova terra, aí, são significadas todas as coisas da nova igreja e, assim do novo céu, as quais são aí descritas por meras correspondências. Visto que pela ‘festa do tabernáculo’ era significada a implantação do bem pelos veros, por isso foi ordenado que
Então tomassem “fruto de árvore de honra, folhas de palmeiras, ramos de árvore densa e salgueiros do ribeiro, e se alegrassem perante Jehovah por sete dias” (Lv. 23:39, 40);
pelo ‘fruto da árvore de honra’ é significado o bem celeste; pelas ‘palmas’, o bem espiritual ou o bem do vero; pelo ‘ramo de árvore densa’, o vero do conhecimento com o seu bem; e pelos ‘salgueiros do ribeiro’, os veros e bens ínfimos do homem natural, que são dos sensuais externos. Assim, por esses quatro são significados todos os bens e veros em sua ordem, desde os primeiros até os últimos, no homem.
[5] Como as ‘palmas’ significavam o bem espiritual, e pelo bem espiritual o homem tem regozijo de coração, pois o bem espiritual é a afeição mesma ou o amor do vero espiritual, por isso, pelas ‘palmas nas mãos’ se atestava outrora o regozijo de coração e também que se agia pelo bem. Isto é significado pelo que se segue:
“Muitos dos que vieram à festa, quando ouviram que Jesus vinha a Jerusalém, tomaram ramos de palmeiras e foram ao Seu encontro, e clamaram: Bendito o que vem em nome do Senhor, Rei de Israel” (Jo. 12:12, 13).
[6] A ‘palma’ também significa o bem espiritual ou o bem do vero nas passagens seguintes. Em David:
“O justo florescerá como a palmeira, crescerá como cedro no Líbano; plantados na casa de Jehovah, nos átrios de nosso Deus germinarão” (Sl. 92:12, 13);
‘justo’ significa aqueles que estão no bem, pois pelo ‘justo’ se entendem na Palavra os que estão no bem do amor, e pelos ‘santos’ os que estão nos veros desse bem (vide acima, n. 204). Daí vem que se diz do justo que ele ‘florescerá como a palmeira’ e ‘crescerá como o cedro no Líbano’, pois a frutificação do bem nele se entende por ‘como a palmeira florescerá’ e a multiplicação do vero daí por ‘como cedro no Líbano crescerá. A ‘palma’ significa o bem espiritual, o ‘cedro’ o vero desse bem e ‘Líbano’ a igreja espiritual. Pela ‘casa de Jehovah’, na qual foram plantados, e pelos ‘átrios em que germinarão’ é significado o céu e a igreja; pela ‘casa de Jehovah’ a igreja interna, e pelos ‘átrios’ a igreja externa. A plantação é feita nos interiores do homem, onde há o bem do amor e da caridade; e a germinação se dá nos exteriores do homem, onde há o bem da vida.
[7] Em Joel:
“A videira se secou, e a figueira se enfraqueceu, a romãzeira, e também a palmeira e a macieira; todas as árvores do campo se murcharam; secou-se o regozijo do filho do homem” (Jl. 1:12);
por essas palavras se descreve a desolação do vero e do bem na igreja, e, assim, de todo regozijo de coração, isto é, do regozijo espiritual, pois a ‘videira’ significa o bem e o vero espirituais da igreja, a ‘figueira’ significa o bem e o vero naturais daí, e a ‘romãzeira’ o vero e o bem sensuais, que são o último do natural; a ‘palmeira’ significa o regozijo de coração proveniente do bem espiritual, e a ‘macieira’ o mesmo proveniente do bem natural daí. Pelas ‘árvores do campo que se secaram’ são significadas as percepções do bem e as cognições do vero, que não existem mais. E como o regozijo espiritual e o natural daí são significados pela ‘palmeira’ e pela ‘macieira’, por isso também se diz: ‘secou-se o regozijo do filho do homem’. Pelo ‘filho do homem’ na Palavra se entendem os que estão nos veros do bem, e pelo ‘regozijo’ é significado o regozijo espiritual, que provém unicamente do bem por meios dos veros. Quem não pode ver que aqui não se entendem videira, figueira, romãzeira, palmeira, macieira e árvores do campo? O que seria na Palavra e o que seria para a igreja, se essas árvores murchassem e se secassem?
[8] Em Jeremias:
“Corta da floresta um madeiro, e obra das mãos do artífice pelo machado; com prata e com ouro o enfeita, com pregos e martelos o firma, para que não se mova; é como palmeira sólida” (Jr. 10:3-5);
por essas palavras se descreve o bem natural separado do espiritual, que é o bem proveniente do proprium e, considerado em si mesmo, não é bem, mas o prazer da cupidez principalmente pelo amor de si e do mundo, que é sentido como bem. De que maneira o homem o forma em si para que apareça como bem e persuada de que é um bem, descreve-se por ‘corta madeiro que é da floresta’ e ‘obra das mãos do artífice, pelo machado’; ‘madeiro’ significa o bem, aqui, um tal bem; ‘floresta’ significa o natural, aqui, o natural separado do espiritual; ‘obra das mãos do artífice, pelo machado’ significa isso proveniente do proprium e da própria inteligência. Sua confirmação por meio dos veros e bens da Palavra, que assim os falsifica, é descrita por ‘com prata e com ouro o enfeita’; a ‘prata’ é o vero daí e o ‘ouro’ é o bem daí. A coerência formada pelas confirmações oriundas do proprium é descrita por ‘com pregos e martelos o firma, para que não vacile’. A aparência, daí, de bem formado pelos veros, é significada por ‘é como palmeira sólida’.
[9] Em Moisés:
“Vieram a Elim, e ali havia doze fontes de águas e setenta palmeiras, e acamparam-se ali, junto às águas” (Êx. 15:27; Nm. 33:9).
Esses relatos históricos contêm também um sentido espiritual, pois em todos os históricos da Palavra também se encerra esse sentido. Aqui, por ‘vieram a Elim’ é significado o estado de iluminação e de afeição, assim, o estado de consolação após as tentações. Por ‘doze fontes de águas’ é significado que então tinham os veros em toda abundância; pelas ‘setenta palmeiras’ é significado que tinham, semelhantemente, os bens do vero; e por ‘acamparam-se junto às águas’ é significado que após as tentações os veros foram ordenados pelos bens. (Essas coisas, porém, veem-se mais amplamente explicadas nos Arcanos Celestes, n. 8366 a 8370).
[10] Como “Jericó” significa o bem do vero, por isso aquela cidade foi chamada:
“Cidade das palmeiras” (Dt. 34:3; Jz. 1:16; 3:13),
porque todos os nomes de lugares e de cidades na Palavra significam coisas tais que são do céu e da igreja, as quais se chamam espirituais, e ‘Jericó’ significa o bem do vero. Como isto é significado por ‘Jericó’, por isso o Senhor, na parábola sobre o samaritano, disse:
Que o mesmo descia de Jerusalém para [in] Jericó (Lc. 10:30),
pelo que é significado que pelos veros [descia] ao bem, pois ‘Jerusalém’ significa o vero da doutrina, e ‘Jericó’ o bem do vero, que é o bem da vida, o que também ele fez ao ferido pelos ladrões.
[11] E como ‘Jericó’ significava esse bem, por isso
Josué, quando estava perto de Jericó, viu um varão de pé, em cuja mão havia uma espada desembainhada, o qual disse a Josué: “Tira o sapato de teu pé no lugar em que estás, porque é santo, o que Josué também fez” (Js. 5:13, 15).
E, por isso, após os filhos de Israel tomarem Jericó pela circundação da arca, “a prata e o ouro, e os veros de bronze e de ferro” achados ali “deram por tesouro à casa de Jehovah” (Js. 6:24),
pelo que é evidente de onde procede que Jericó é chamada ‘cidade das palmeiras’.
[12] Além disso, no mundo espiritual, nos paraíso onde se acham os anjos que estão no bem espiritual ou no bem do vero, aparecem palmeiras em grande abundância, pelo que tornou-se-me evidente também que a ‘palmeira’ significa o bem do vero, porque todas as coisas que aparecem naquele mundo são representativas do estado da vida e das afeições, assim, do bem e do vero que há com os anjos.

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