. Porquanto se diz que ‘subiu a fumaça do poço como a fumaça de uma grande fornalha’, e até aqui se mostrou que a ‘fumaça’ significa o denso falso, importa também mostrar que a ‘fornalha’ significa os amores terrestres e corpóreos, e, assim, que ‘a fumaça como a fumaça de uma grande fornalha’ significa os densos falsos provenientes desses amores. Que a ‘fornalha’ signifique esses amores é também pelas aparências no mundo espiritual, porque os infernos em que esses amores reinam, quando se apresentam à vista, aparecem como fornalhas inflamadas de fogo, e acima delas aparecem fumaças como as que sobem de fornalhas e como as que se veem nos incêndios. Daí é que na Palavra as ‘fornalhas’ significam ou o inferno ou ajuntamento de homens, ou o homem mesmo, nos quais reinam tais amores e cobiças, ou, o que é o mesmo, onde brotam os males provenientes deles. [2] Essas coisas são significadas por ‘fornalhas’ e ‘fornos’ , nas seguintes passagens. Em Mateus: “O Filho do homem enviará os Seus anjos, que ajuntarão de Seu reino todas as coisas que servem de tropeço [offendicula], e os que praticam iniquidade, e os lançarão na fornalha de fogo. (...) Na consumação do século, os anjos sairão e separarão os maus do meio dos jutos, e lançarão aqueles na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes” (Mt. 13:41, 42, 49, 50). É evidente que aqui pela ‘fornalha de fogo’ entendem-se os infernos. A ‘consumação do século’ é o ultimo tempo da igreja, quando há o juízo. Que então os maus devam ser separados dos bons, e aqueles lançados no inferno, é significado por ‘os anjos ajuntarão todas as coisas que servem de tropeço, e os que praticam iniquidade’, e que ‘separarão os maus do meio dos justos, e os lançarão na fornalha de fogo’. O inferno é chamado ‘fornalha de fogo’ porque aparece ígneo pelos amores de si e do mundo. Que o tormento proveniente desses amores se entenda pelo ‘fogo infernal’ vê-se na obra O Céu e o Inferno, n. 566-575. [3] Em Malaquias: “Eis que o dia vem, ardente como fornalha, no qual todos os que pecam arrogantemente e todo obreiro de malícia serão palha, e o dia que vem os acenderá” (Ml. 4:1). Essas palavras também foram ditas a respeito do último tempo da igreja e do juízo final, sendo ambos significados pelo ‘dia que vem’. Pela ‘fornalha’ também se entende o inferno onde estão os que se confirmam na doutrina dos falsos e na vida do mal proveniente dos amores terrestres e corpóreos. Que esses haveriam de perecer por seus amores entende-se por ‘todos os pecam arrogantemente e todo obreiro de malícia serão palha, e a fornalha os acenderá’; ‘os pecam arrogantemente’ são os que se confirmam nos falsos, e ‘o obreiro de malícia’ são os que se confirmam na vida dos males. [4] Em Oséias: “Por sua malícia alegram o rei, e por sua mentira os príncipes. Todos os que adulteram são como fornalha acesa pelo padeiro. O excitador cessa de amassar a massa até a sua fermentação. (...) Quando tiverem convertido como fornalha a sua mente em sua cilada, toda a noite dormindo o seu padeiro, arde de manhã como fogo de chama. Todos se abrasam como fornalha, e comem seus juízos, todos os seus reis cairão, sem haver quem entre eles clame a Mim. (...) Efraim tornou-se um bolo que não foi virado” ??? (Os. 7:3-8). Por essas palavras são descritos, no sentido espiritual, os filhos de Jacob, que, pelos amores de si e do mundo, converteriam todo bem em mal e todo vero em falso. Pelo ‘rei’, que eles alegram pela malícia, é significado todo falso do mal, pois o ‘rei’ significa o vero do bem e, no sentido oposto, o falso do mal; pelos ‘príncipes’, que alegram pela mentira, são significados os falsos principais. Que pelos amores de si eles perverteriam os bens e veros é significado por ‘todos os que adulteram são como fornalha acesa pelo padeiro’; ‘adulterar’ significa perverter o bem e, daí, o vero. Isto é comparado a uma ‘fornalha acesa pelo padeiro’ porque compõem falsos como uma massa em confirmação de seus amores, e como os males e falsos não são separados dos bens e veros que vêm do sentido da letra da Palavra, mas são coerentes, por isso se diz que ‘o excitador cessa de amassar a massa até a fermentação’; a ‘fermentação’ significa a separação, mas, aqui, que não há separação, porque se diz ‘cessa de amassar a massa na fermentação’. O mesmo é significado por ‘Efraim tornou-se um bolo que não foi virado’; ‘Efraim’ é o entendimento do vero. Que daí haja somente males que pertencem aos seus amores, aos quais os falsos favorecem, é significado por ‘toda a noite dormindo o padeiro, ele arde de manhã como fogo de chama; todos se abrasam como fornalha’. São comparados ao padeiro e à fornalha porque compõem doutrina por meio de falsos, assim como o padeiro faz pães e bolos na fornalha. Que assim fazem perecer todos os bens e veros que eles têm da Palavra é significado por ‘comem seus juízos, e todos os seus reis caem’; ‘juízos’ significam os bens do vero, e ‘reis’ os veros mesmos. Que eles façam isso é porque querem ser sábios por si mesmos e não pelo Senhor, o que é significado por ‘não há entre eles quem clame a Mim’. Que tais coisas se entendam por essas palavras, pode-se ver somente pela intuição comum, mas que cada coisa significa e descreva tais coisas, não se pode ver senão pelo sentido interno, como as coisas que foram ditas se entendam pelos ‘reis’, ‘príncipes’, ‘juízos’ e ‘os que adulteram’, como também pela ‘fornalha’ e pelo ‘padeiro’. Ademais, aqueles que compõem veros ou falsos para que sejam coerentes também aparecem no mundo espiritual como padeiros que amassam a massa, junto aos quais também há fornalhas. [5] Nas Lamentações: “Nossas peles foram como que enegrecidas em fornalha, por causa das procelas da fome” (Lm. 5:10). Essa lamentação é a respeito da privação do vero e da inundação do falso. A ‘fome’ significa a privação e a falta do vero (vide acima, n. 386), e as ‘procelas da fome’ significam a falta complete e também a inundação do falso, pois onde não há veros aí há falsos. As ‘procelas’ significam na Palavra o mesmo que a ‘inundação’. ‘Nossas peles foram como que enegrecidas em fornalha’ significa que o homem natural está sem a luz do vero e, daí, nas trevas do falso. Aqui, também, a ‘fornalha’ significa a confecção de doutrina por meio de falsos e não de veros (vide, porém, acima, n. 386, onde essas palavras foram mais amplamente explicadas). [6] Em Ezequiel: “A casa de Israel tornou-se para Mim escória, todos eles são bronze, e estanho, e ferro e chumbo no meio da fornalha; tornaram-se escória de prata. (...) Eis que Eu vos congrego no meio de Jerusalém; uma congregação de prata, e de bronze, e de ferro, e de chumbo e de estanho” vos congregarei, “no meio da fornalha, para soprar sobre ela o fogo para fundir. Assim congregarei na Minha ira e na Minha inflamação, e vos deixarei e fundirei. (...) Como a fundição da prata no meio d a fornalha, assim sereis fundidos no seu meio” (Ez. 22:18-22). Por essas palavras são descritos os falsos doutrinais que os judeus e os israelitas compuseram a partir do sentido da letra da Palavra, os quais aplicaram somente a si e aos amores; eles são chamados ‘escorias de prata’ porque a ‘prata’ significa o vero da Palavra, e a ‘escória’ é nada do vero ou o que é abstraído do vero, que é rejeitado. As coisas que são do sentido da letra da Palavra são significadas por ‘bronze, estanho, ferro e chumbo’, porque por estes são significados os bens e veros do homem natural; para esse homem são as coisas da Palavra contidas no seu sentido da letra. E como por esse sentido esses compuseram seus falsos doutrinais, que eram as ‘tradições’, diz-se que ‘seriam fundidos juntamente’. E como eram aplicados aos amores de si e do mundo, diz-se que ‘congregá-los-ia no meio da fornalha para soprar sobre eles o fogo para fundir’; o ‘fogo’ significa esses amores. E como se entendem os seus doutrinais, diz-se que ‘seriam congregados no meio de Jerusalém’; por ‘Jerusalém’ é significada a igreja quanto à doutrina, assim também a doutrina da igreja. [7] Em Moisés: “O sol se pôs e houve escuridão, e eis uma fumaça de forno e uma tocha de fogo, que passou entre aquelas metades [segmenta]” (Gn. 15:17). Que os falsos do mal e os males do falso, que brotam dos amores imundos na nação judaica e israelita, entendam-se aqui pela ‘fumaça do forno’ e pela ‘tocha de fogo que passou entre as metades’ vê-se no artigo acima. Com efeito, Abrahão desejou que a sua posteridade dominasse sobre toda a terra de Canaan, e como o Senhor aprouve ??? que a igreja fosse instituída naquela posteridade, por isso estabeleceu aliança com Abrahão. O que, porém, eles se tornariam, foi predito por essa visão. [8] Em Naum: “Tira para ti águas para o cerco; reforça tuas fortalezas; entra na lama e pisa o betume; repara fornalha de alvenaria; ??? aí o fogo te devorará, a espada te cortará” (Nm. 3:14, 15). Por essas palavras é descrita a destruição do vero pelos falsos do mal. ‘Águas para o cerco’ são os falsos pelos quais eles se esforçam para destruir os veros; ‘reforçar as fortalezas’ significa munir-se de coisas tais que pareçam veros; ‘entrar na lama e pisar o betume’ significa fazer com que pareçam coerentes (‘betume’ é o falso do mal que conjunge); ‘reparar a fornalha de alvenaria’ ??? significa reparar a doutrina composta de veros falsificados e invenções, pois a ‘alvenaria’ significa os falsos que são inventados e não são coerentes com os veros; ‘o fogo de devorará’ significa que pereceriam pelos males de seus amores, e ‘a espada te cortará’ significa que pereceriam pelos falsos. [9] Em Jeremias: “Toma em tua mão pedras grandes e esconde-as... na fornalha de alvenaria que está à porta da casa do faraó. (...) Tomarei o rei de Babel… porei seu trono sobre essas pedras que escondeste... virá e ferirá a terra do Egito... e acenderei fogo nas casas do Egito... até que a terra do Egito se vista como o pastor veste a sua vestimenta” (Jr. 43:9-12). Por essas palavras foi representada a profanação do vero por meio de raciocínios provenientes de conhecimentos falsamente aplicados. Pelas ‘pedras grandes escondidas na alvenaria da fornalha’ são significados os veros da Palavra falsificados por invenções que vêm da própria inteligência; as ‘pedras’ são os veros da Palavra, ‘fornalha de alvenaria’ é a doutrina composta de ficções; a ‘casa do faraó’ significa o homem natural quanto aos conhecimentos aí; a ‘porta’ é o conhecimento sensual pelo qual há entrada no homem natural; por aí se fazem as falsificações. Pelo ‘rei de Babel’ é significada a profanação do vero’; que ‘Ele porá seu trono sobre aquelas pedras e ferirá o Egito, e acenderá fogo nas suas casas’ significa que o homem natural perverterá pelos conhecimentos todos os veros da doutrina e os profanará. Que sujeitará a si o homem natural quanto a todas as coisas ali, o que se faz pela confirmação dos falsos provenientes dos conhecimentos é significado por ‘a terra do Egito se vestirá como um pastor a sua vestimenta’. Que todas as coisas do homem natural assim haviam de perecer pelos males dos amores terrestres e corpóreos é significado por ‘acenderei fogo nas casas do Egito’. [10] Visto que pelo ‘Egito’ é significado o homem natural quando ao conhecimento aí, e pela ‘fornalha de ferro’ semelhantemente, por isso o Egito é chamado ‘fornalha de ferro’, na Palavra, como em Jeremias: “No dia em que os tirei do Egito, da fornalha de ferro” (Jr. 11:4); em Moisés: “Tirei-os da fornalha de ferro, do Egito” (Dt. 4:20) no Livro Primeiro dos Reis: “Tirei do Egito, do meio da fornalha de ferro” (I Re. 8:51); em David: “Removi a carga” do Egito “do ombro” de Israel; “suas mãos passaram da fornalha” (Sl. 81:6); o homem natural quanto ao conhecimento é significado pela ‘fornalha de ferro’; a ‘fornalha’ é o homem natural, e o ‘ferro’ é o conhecimento, aqui o conhecimento falso, porque se diz que ‘foram tirados’, pois o homem natural, a menos que seja conduzido pelo homem espiritual, está nos falsos e nos males, pelo fato de não estar em luz alguma do céu. Com efeito, a luz do céu influi pelo homem espiritual no natural e ilumina, ensina e conduz. É completamente o contrário quando o homem natural não pensa nem age sob os auspícios do homem espiritual. Então está também em servidão, pois pensa e age pelos falsos e males que vêm do inferno. Isto é significado pelo que se diz deles, que ‘foram tirados da casa da servidão’ quando é ‘do Egito’, pois todo livre de pensar e de agir vem do homem espiritual, porquanto esse pensa e quer pelo céu, desde o Senhor, e o livre é ser conduzido pelo Senhor. Por aí se pode ver de onde procede que o Egito é chamado ‘fornalha de ferro’ e ‘casa de servidão’, servidão essa que também é significada por ‘removi a carga do Egito do ombro de Israel’. (Que o ‘ferro’ signifique o conhecimento que pertence ao homem natural, vide acima, n. 176). [11] Como a maioria das coisas na Palavra também tem um sentido oposto, assim também a ‘fornalha’, como em Isaías: “Dito de Jehovah, cujo fogo está em Sião e Sua fornalha em Jerusalém” (Is. 31:9); pelo ‘fogo’ é significado o bem do amor, pela ‘fornalha’ o vero desse bem, assim, o vero da doutrina. Coisas semelhantes são significadas também por ‘Sião’ e por ‘Jerusalém’: por ‘Sião’, a igreja quanto ao bem do amor, e por ‘Jerusalém’ a igreja quanto ao vero da doutrina. Dá-se semelhantemente em relação à ‘fornalha’, em Moisés, onde se trata Do minchah que devia ser preparado ou na fornalha, ou na assadeira [sartagine] ou na panela [cacabo] (Lv. 2:4, 5, 7), (coisas que foram explicadas nos Arcanos Celestes). Semelhantemente, pela ‘fornalha’, acima, no Apocalipse: Os pés do Filho do homem eram ‘semelhantes ao latão reluzente como que inflamados numa fornalha” (Ap. 1:15), de que se tratou acima, n. 69.