. “Porque as suas caudas eram semelhantes a serpentes, tendo cabeças”. Que isto signifique que dos conhecimentos sensuais, que são falácias, raciocinam astutamente, vê-se pela significação de ‘caudas’, aqui, as dos cavalos, que são os conhecimentos, os quais se chamam sensuais porque são os últimos do entendimento (de que se tratou acima, n. 559); pela significação de ‘serpentes’, que são as astúcis do homem sensual (de que se tratará a seguir); e pela significação de ‘ter cabeças’, que é raciocinar por esses conhecimentos, porque pela ‘cabeça’ é significada a inteligência, assim, ‘ter cabeça’ é ser inteligente. Que seja raciocinar por esses conhecimentos é porque a ‘cabeça’, quando se refere ao homem sensual, significa o conhecimento e, daí, o pensamento vão (vide acima, n. 577), por conseguinte, também o raciocínio pelos conhecimentos sensuais. Por aí se pode ver que as ‘caudas dos cavalos semelhantes a serpentes, tendo cabeçs’ significa que raciocinam astutamente pelos conhecimentos sensuais, que são falácias. Diz-se que são falácias porque os conhecimentos sensuais se tornam falácias quando o homem raciocina por eles a respeito das coisas espirituais, como, por exemplo, que as dignidades e as riquezas são bênçãos reais; que na glória, como a dos grandes no mundo, é que consiste a bem-aventurança celeste; e que o Senhor quer adoração da parte do homem por causa de Sua glória, e outras coisas semelhantes, que são falácias quando aplicadas às coisas espirituais, pois o homem sensual, por não ser dotado de inteligência, pensa assim, porque não pode saber diferentemente. [2] Que as ‘serpentes’ signifiquem na Palavra o homem sensual quanto à astúcia e quanto à prudência, pode-se ver pelo que se segue. Em Moisés: “A serpente se fez astuta mais do que toda fera do campo que Jehovah Deus fizera” (Gn. 3:1); por ‘serpente’ aqui não se entende uma serpente, mas o homem sensual, e, no sentido geral, o sensual mesmo, que é o último do entendimento humano. Pelo ‘homem e sua esposa’ é significada a Igreja Antiquíssima, que caiu quando os homens dessa igreja começaram a raciocinar pelos conhecimentos sensuais a respeito das coisas Divinas; isto é significado por ‘comer da árvore do conhecimento’. A astúcia deles em raciocinar a respeito das coisas Divinas pelo sensual é descrita pelo raciocínio da serpente com a esposa de Adão, pela qual foram enganados. Que a serpente seja referida como ‘mais astuta do que toda fera do campo’ é porque ela tem veneno e, daí, sua mordida é letal, e porque se oculta em esconderijos. O veneno significa o que é astuto e doloso, e daí sua ‘mordida’ é nociva e letal; e os ‘esconderijos’ de onde morde e em que se oculta significam as astúcias. [3] Cumpre saber que todas as ‘bestas’ significam afeições tais que estão nos homens, e as ‘serpentes’ significam as afeições sensuais do homem, pelo fato de rastejarem sobre o ventro no humos, semelhantemente ao sensual do homem, pois este está em último lugar e rasteja, por assim dizer, no humos, sob os demais. Também os homens sensuais habitam no mundo espiritual nos lugares inferiores, pois não podem ser elevados aos superiores, porquanto estão nos externos, e por estes julgam e concluem a respeito de tudo. Os maus, que estão nos infernos, são também sensuais em sua maioria, e muitos deles são astutos, pelo que também aparecem como serpentes de vários gêneros, quando vistos à luz do céu. Daí é que o diabo é chamado ‘serpente’. Que os infernais também sejam astutos é porque o mal encerra em si a astúcia e a malícia, assim como o bom em relação a toda prudência e sabedoria. (A cujo respeito se vê na obra O Céu e o Inferno, n. 570-581, onde se trata da malícia e das artes nefandas dos espíritos infernais). [4] Daí é, pois, que o diabo ou o inferno é chamado ‘serpente’ nas passagens que se seguem. No Apocalipse: “O dragão, a antiga serpente... diabo e satanás, que seduz todo o mundo das terras” (Ap. 12:9, 14, 15; 20:2); em David: “Aguçaram a língua como serpente, veneno de áspide está sob seus lábios” (Sl. 140:3), pelo que é significado o seu engano astuto e doloso. No mesmo: “O veneno deles é como veneno de serpente” (Sl. 58:4); em Jó: “Sugará veneno de áspides, língua de víbora o matará” (Jó 20:16); e em Isaías: “Punham ovos de áspide, e teciam teias de aranha; quem comer dos seus ovos morrerá; e quando alguém os espreme, sai víbora” (Is. 59:5); isto se diz dos homens maus que seduzem com dolo e astúcia nas coisas espirituais; os males clandestinos, para os quais atraem astutamente, são significados pelos ‘ovos de áspide’ que põem; os falsos dolosos são significados pelas ‘teias de aranha’ que tecem; a feridas letal, se [os falsos] foram recebidos, é significada por ‘quem comer dos seus ovos morrerá; e quando alguém os espreme, sai víbora’. [5] Visto que os fariseus eram tais, por isso foram chamados pelo Senhor de “Serpentes, raça de víboras” (Mt. 23:33). Que as astúcias e as malícias dos que são tais não sejam danosas para aqueles que são protegidos pelo Senhor, é significado por: “O que mama brincará sobre o buraco da víbora, e sobre a caverna do basilisco o desmamado meterá a mão” (Is. 11:8); pelo ‘que mama’ e pelo ‘desmamado’ são significados os que estão no bem da inocência, que são os que estão no amor ao Senhor; e pelo ‘buraco da víbora’ e pela ‘caverna do basilisco’ se entendem os infernos em que estão os espíritos dolos e astutos. A entrada desses infernos aparece mesmo como buracos escuros e, por dentro, como cavernas. [6] Que as astúcias e malícias dos espíritos infernais não causem dano àqueles que são protegidos pelo Senhor, é o que significam também estas palavras do Senhor: Que poderiam pisar sobre serpentes e escorpiões, e sobre toda potestade do inimigo (Lc. 10:19); Depois, que poderiam pegar serpentes e também beber coisa mortífera, sem terem dano (Mc. 16:18); ‘pisar sobre serpentes’ significa desprezar e menosprezar os dolos, as astúcias e as artes nefandas da turba infernal, pelo que também se diz ‘e sobre toda potestade do inimigo’; o ‘inimigo’ é essa turba, e ‘potestade’ é a sua astúcia. [7] As malícias e astúcias dos espíritos infernais, os quais são juntamente chamados ‘diabo’ e ‘satanás’, também se entendem pelas ‘serpentes’ nas seguintes passagens. Em Moisés: Jehovah Deus “te conduz por um deserto grande e terrível, de serpentes, de serpentes de fogo e de escorpiões” (Dt. 8:15). Pelas marchas dos filhos de Israel no deserto eram representadas e, daí, significadas, as tentações dos fiéis. As tentações então oriundas dos infernos pelos maus espíritos e gênios são significadas por ‘serpentes, serpentes de fogo e escorpiões’. [8] Em Isaías: “Não te alegres, ó toda Filístia, por ter-se quebrado a vara que te fere, pois da raiz da serpente sairá um basilisco, cujo fruto é uma serpente de fogo que voa” (Is. 14:29); pela ‘Filístia’ é significada a fé separada da caridade; a sedução de muitos por meio de sofismas, pelas quais essa fé é confirmada, é descrita por ‘da raiz da serpente sairá um basilisco, cujo fruto é uma serpente de fogo que voa’. Em Jeremias: “Eis que Eu envio no meio de vós serpentes, basiliscos, contra os quais não há encantamento, e eles vos morderão” (Jr. 8:17); no mesmo: “Sua voz irá como a da serpente” (Jr. 46:22); em Amós: “Se se escondessem diante dos Meus olhos no fundo do mar, ali condenarei a serpente que os morda” (Am. 9:3). As astúcias são também significadas pelo “Leviatã, serpente tortuosa” (Is. 27:1). [9] Que pelas ‘serpentes’ seja significada a astúcia e também a prudência que há nos homens sensuais pode-se ver pelas palavras do Senhor em Mateus: “Sede prudentes como as serpentes, e símplices como as pombas” (Mt. 10:16); dizem-se ‘prudentes’ dos que estão no bem e ‘astutos’ dos que estão no mal, pois a prudência é do vero proveniente do bem, e as atúcia é do falso proveniente do mal. E como essas palavras foram ditas àqueles que estão no bem, por isso, pelas ‘serpentes’ nessa passagem também se pode entender a prudência. [10] Visto que as astúcias dos maus são diabólicas, por isso se aplica aos que estão nelas a expressão ‘comer pó’. Em Moisés: Foi dito à serpente: “Sê maldita mais do que todas as bestas, e mais do que todas as feras do campo; sdobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias de tua vida” (Gn. 3:14). em Isaías : “O pó, comida da serpente” (Is. 65:25); e, em Miquéias: “Lamberão o pó como a serpente” (Mq. 7:17); pelo ‘pó’ é significado o que é condenado, e por ‘andar sobre o ventre’ é significado o sensual, que é o último da vida no homem; e como é o último da vida, por não está na inteligência e na sabedoria, mas na astúcia e na malícia, que são contrárias à inteligência e à sabedoria. [11] Em Moisés: “Dan, uma serpente sobre o caminho, uma serpente-dardo sobre a vereda, que morde os calcanhares do cavlo, e seu cavaleiro cai para trás” (Gn. 49:17). O que significa essa profecia a respeito de Dan, ninguém pode saber a menos que saiba o que é significado pelo ‘cavalo’ e por seus ‘calcanhares’, como também o que é significado pela ‘serpente’. Pelo ‘cavalo’ é significado o entendimento do vero, e pelo ‘cavaleiro’ a inteligência; pela ‘serpente’ é significado o sensual, que é o último da vida intelectual; pelos ‘calcanhares do cavalo’ são significados os veros nos últimos, que são os conhecimentos sensuais. Que o sensual, pelos raciocínios oriundos das falácias, cause dano ao entendimento e o seduza, é significado pela ‘serpente que morde os calcanhares do cavalo, e seu cavaleiro cai para trás’. Estas coisas foram ditas a respeito de Dan porque a tribo nomeada segundo ele era a última tribo e, daí, significava os últimos do vero e do bem, por conseguinte, os últimos da igreja (a cujo respeito se vê nos Arcanos Celestes, n. 1710, 3923, 6396 e 10335, onde essa profecia é também explicada). [12] O sensual, que é o último da vida intelectual, também é significado pela “Serpente alongada” (Is. . 27:1; Jó 26:13); depois, também, pela Serpente em que se transformou o cajado de Moisés (Êx. 4:3, 4; 7:9-12). (Vide nos AC, n. 6949, 7293.). As coisas sensuais, que são as últimas da vida do homem, são também significadas pelas “Serpentes de fogo” enviadas ao povo que quis voltar ao Egito (Nm. 21:6), enquanto a cura da mordida de tais serpentes, pelo Divino sensual do Senhor, é significada pela “Serpente de bronze” posta sobre um marco, mediante à vista da qual se era vivificado (Nm. 21:5-9). Diz-se ‘Divino sensual do Senhor’ porque o Senhor, quando esteve no mundo glorificou, isto é, fez Divino todo o Seu Humano, até o seu último, como se pode ver pelo fato de que nada deixou no sepulcro e por ter dito aos discípulos Que tinha ossos e carne, os quais um espírito não tem (Lc. 24:39, 40). O último sensual que o Senhor também glorificou ou fez Divino é significado por aquele ‘serpente’ de bronze posta sobre o marco, da qual o Senhor mesmo assim disse em João: “Assim como Moisés levantou a serpente... importa também que o Filho do homem seja levantado, para que todo aquele que n’Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo. 3:14, 15). Por tal marco o Senhor foi representado diante do povo israelita e judaico, porque eles foram meramente sensuais, e o homem sensual não pode elevar seu pensamento, quando se dirige ao Senhor, além e acima do sensual. Com efeito, cada um olha para o Senhor segundo a elevação de seu entendimento; o homem espiritual para o Divino racional, e assim por diante. Por estas explicações é evidente que pela ‘serpente de bronze’ também é significado o sensual, mas o sensual glorificado ou Divino do Senhor.