. “E a voz que ouvi do céu novamente fala comigo, e diz”. Que isto signifique o exame dos homens da igreja, quanto a que entendimento da Palavra ainda restava neles, vê-se pelas coisas que precedem pelas que se seguem neste capítulo, pois ‘a voz do céu que falou com ele e disse” envolve isso. Nas coisas que precederam tratou-se do entendimento do Divino Vero ou da Palavra, como se pode ver pelos versículos 2, 3 e 4, onde pela ‘voz, que clamou o anjo forte descendo do céu’ e pela ‘voz dos sete trovões’ é significada a manifestação da qualidade do estado da igreja quanto ao entendimento da Palavra (vide acima, n. 601-604). Nas coisas que se seguem trata-se do entendimento da Palavra ainda restando nos homens da igreja, pois pelo ‘livrinho’ que o anjo tinha em sua mão é significada a Palavra; por ele ‘ser devorado’ é significado o exame, e por ‘ter sido doce na boca e amargo no ventre’ é significado que a Palavra no sentido da letra seria um prazer, mas, no sentido interno, no qual estão os veros mesmos, um desprazer, o que se verá pelas coisas que ainda se seguirão. Como estas são as coisas de que se trata e de que ainda se tratará , pode-se ver que pela ‘voz que ouvi do céu de novo fala e diz’ significa o exame dos homens da igreja, quanto a que entendimento da Palavra ainda restava neles. [2] Cumpre saber que o entendimento da Palavra na igreja perece gradativamente, conforme o homem da igreja de interno se torna externo; e de interno se torna externo conforme se afasta da caridade, por conseguinte, conforme se afasta da vida da fé. Quando o homem da igreja é tal, então pode mesmo se deleitar com a leitura da Palavra, contudo não se deleita com o vero mesmo, que é o seu sentido interior, pois a vida da fé, que é a caridade, produz a afeição do vero interior e, daí, o seu deleite. Por isso a Palavra, quanto ao sentido da letra, pode até ser amada, mas pelo fato de que pode ser levada a confirmar os falsos oriundos do amor de si do mundo, pois a Palavra na letra é assim. Daí ocorre que no fim da igreja mal existe algum entendimento do vero. Os veros da Palavra podem até ser pronunciados de boca, mas não se tem ideia alguma do vero. Que isto seja assim é o que foi concedido experimentar com muitos no mundo espiritual, e foi descoberto que ainda que tivessem falado os veros da Palavra, não tiveram, todavia, nenhum entendimento deles. Eles foram, por assim dizer, vasos vazios e sinos sonantes somente por coisas tais que tinham depositado na memória e absolutamente nada por percepção do entendimento. Quando o homem é tal, então não possui interiormente coisa alguma celeste e espiritual, mas somente o natural pelo corpo e o mundo, e o natural separado do celeste e do espiritual é infernal. Por aí se pode ver o que se entende na sequência pelo fato de o livrinho ser dado a João para que o comesse, que ‘na boca foi doce como mel’, mas que por ele ‘amargou-se o ventre’.