. “E quando o devorei amargou-se o meu ventre.” Que isto signifique que foi percebido e examinado que a Palavra seria interiormente um desprazer por causa do vero adulterado do sentido da letra vê-se pelo que foi explicado acima (n. 617 e 618), onde há palavras semelhantes. Que o ‘ventre’ aqui signifique os interiores da Palavra, que são chamados espirituais, é porque o exame foi representado pelo ato de ser devorado ou comido o livrinho, pelo qual se entende a Palavra, e por seu sabor, pelo qual se entende a percepção. Daí, a primeira percepção é significada pelo ‘sabor na boca’, onde o livrinho era ‘doce como mel’. A primeira percepção da Palavra é tal qual é a percepção do seu sentido da letra, assim, tal como é a Palavra exteriormente. A segunda percepção é significada pelo sabor quando no ‘ventre’, do qual se diz que tornou-se amargo. Essa segunda percepção da Palavra é tal qual é a percepção de seu sentido espiritual, ou tal qual é a Palavra interiormente. Dai é que, como pela ‘boca’ é significado o exterior, por isso pelo ‘ventre’ aqui é significado o interior, porque foi interiormente recebida e examinada. Que o ‘ventre’ signifique os interiores é porque o ventre encerra interiormente a comida, e pela ‘comida’ é significado tudo o que nutre a alma, e também porque o ventre, assim como as outras vísceras, está dentro ou no meio do corpo. Assim é que pelo ‘ventre’ e também pelas ‘vísceras’ são significados os interiores. [2] Que pelo ‘ventre’ e pelas ‘vísceras’ sejam significados os interiores pode-se pelas passagens que se seguem. Em Ezequiel: “Filho do homem, alimenta o teu ventre, e enche as tuas vísceras com este rolo” (Ez. 3:1, 3), pelo que são significadas coisas semelhantes às que estão no Apocalipse, as quais são agora explicadas, a saber, que ‘tomou e devorou o livrinho’, pois pelo ‘rolo’ é significado o mesmo que pelo ‘livrinho’, isto é, a Palavra; e por ‘alimentar o ventre e encher as vísceras com o rolo’ é significado examinar de que maneira a Palavra é entendia na igreja, o que se faz por sua leitura e percepção. [3] Em David: “Enche o ventre deles com o Teu tesouro; os filhos sejam saciados, e deixem o seu resto para as suas crianças” (Sl. 17:14); pelo ‘tesouro’ é significado o vero da Palavra; pelo ‘ventre’ o entendimento interior. Daí, por ‘encher o ventre deles com o tesouro’ é significado instruir o entendimento interior neles pelos veros da Palavra. Que, daí, os que são afetados pelos veros sejam plenamente instruídos é significado por ‘os filhos serem saciados’; ‘os filhos’ significam aqueles que estão na afeição do vero, e as ‘crianças’ dos filhos significam os veros nascentes. Deles se diz que ‘deixem o resto para as suas crianças’. Diz-se entendimento interior, porque no homem há o entendimento exterior e o entendimento interior; o entendimento exterior pertence à mente natural, e o entendimento interior à mente espiritual. O entendimento interior é significado pelo ‘ventre’. [4] Em João: Jesus disse: “Se alguém tem sede, venha a Mim e beba; quem crê, como diz a Escritura, de seu ventre fluirão rios de águas vivas. Isto disse a respeito do Espírito, que haviam de receber os que creem n’Ele” (Jo. 7:37-39). Assim o Senhor descreve o Divino Vero interiormente percebido para aqueles que estão na afeição do vero espiritual; esses se entendem por ‘aqueles que têm sedem veem ao Senhor e bebem’; que esses tenham o entendimento do Divino Vero é significado por ‘de seu ventre fluirão rios de águas vivas’; ‘rios e ventre’ são o entendimento ou a inteligência interior, e ‘água vida’ é o Divino Vero procedente do Senhor; e visto que pelo ‘Espírito Santo’ entende-se o Divino Vero procedente do Senhor, diz-se que Ele falou isto ‘a respeito do Espírito, que haviam de receber os que creem n’Ele’. [5] Em Marcos: “Tudo o que de fora entra no homem não pode torna-lo imundo, porque não entra em seu coração, mas no ventre, e é lançado na latrina, limpando todas as comidas. ... Mas o que sai do homem, isto torna o homem imundo, pois de dentro, do coração do homem” sai (Mc. 7:18-21; Mt. 15:17-20). Assim devem ser entendias essas palavras: todas as coisas, tanto as falsas quanto as más, que, seja pela visão, seja pela audição, influem no pensamento do entendimento mas não em sua vontade, não afetam nem infectam o homem, porque o pensamento do entendimento do homem, enquanto não proceda da afeição de sua vontade, não está no homem, mas fora dele, pelo que não lhe é apropriado. Dá-se de modo semelhante com o vero e o bem. Estas coisas o Senhor ensina por meio de correspondências, dizendo que ‘o que entra pela boca no ventre não torna o homem imundo, porque não entra no coração, pois o que entra no ventre é lançado na latrina’, pelo que se entende que aquilo que vem de fora ou do exterior e entra, seja pelos objetos da visão, seja pelos objetos da linguagem, seja pelos objetos da memória, entra no pensamento do entendimento do homem, não o torna imundo, mas, enquanto não pertence à sua afeição ou vontade, é separado e lançado fora, como levado do ventre à latrina. Estas coisas espirituais o Senhor expôs por meio das coisas naturais, porque a comida que é tomada na boca e passada ao ventre significam coisas tais que o homem espiritualmente haure e com as quais nutre a alma. Daí é que o ‘ventre’ corresponde ao pensamento do entendimento e também o significa. Que o ‘coração’ signifique a afeição da vontade do homem, mostrou-se acima, e também que só é apropriado ao homem o que se torna de sua afeição ou vontade. É evidente que se entendem coisas espirituais e não naturais, pois o Senhor diz que ‘do coração saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, os estupros, os furtos, os falsos testemunhos, as blasfêmias’. Visto que os falsos e males, que entram de fora nos pensamentos, entram dos infernos, e, se não forem recebidos pelo homem na afeição da vontade, são rejeitados ao inferno, por isso se diz que ‘são lançados na latrina’, porque pela ‘latrina’ é significado o inferno. Isto é porque todos os infernos são imundos e neles estão os que são expelidos do céu, o qual, na forma, é como um homem e, daí, chamado Máximo Homem, e também corresponde a todos as coisas do homem, enquanto os infernos correspondem, assim, às ejeções do ventre do Máximo Homem ou do céu. Por isso é que pela ‘latrina’ entende-se, no sentido espiritual, o inferno. Que seja dito do ‘ventre’ que este ‘limpa todas as comidas’ é porque pelo ‘ventre’ é significado o pensamento do entendimento, como acima se disse, e pelas ‘comidas’ são significadas todos os nutrimentos espirituais, e é o pensamento do entendimento que separa das coisas imundas as limpas, e assim limpa. [6] Em Jeremias: Disse Jehovah Deus: “Perturbou-Me Nebuchadnezar, rei de Babel; fez de Mim um vaso vazio; engoliu-Me como uma baleia; encheu o seu ventre com Minhas delícias, expeliu-Me” (Jr. 51:34); Por ‘Nebuchadnezar, rei de Babel’ é significada a profanação do Divino Vero; e visto que o profanam aqueles que o recebem mais do que os outros e os aplicam aos amores impuros, principalmente ao amor de dominar, a ponto de terem transferidos a si mesmo todo o poder Divino, isto é significado por ‘engoliu-Me como uma baleia’ e por ‘encheu o seu contra com as Minhas delícias’; a ‘baleia’ significa o último natural, no qual estão os que se acham no amor de si; as ‘delícias’ são as cognições do vero e do bem provenientes da Palavra, e ‘encher o ventre’ com elas significa recebê-las e profaná-las. [7] Em David: “Tem misericórdia de mim, Jehovah, porque tenho angústia. Por causa da indignidade consomem-se o meu olho, a minha alma e o meu ventre” (Sl. 31:9); por ‘olho’, ‘alma’ e ‘ventre’ é significado aqui o entendimento e, daí, o pensamento do vero exterior e interior; assim, pelo ‘ventre’ são significados os interiores do entendimento, que se dizem ‘consumidos por causa da indignidade’ quando perecem pelos falsos. [8] No mesmo: “Nossa alta está curvada até o pó, o nosso ventre apegado à terra” (Sl. 44:25); Aí também, pela ‘alma’ e pelo ‘ventre’, no sentido espiritual, também é significado o pensamento do entendimento, e por ‘curvado até o pó e apegado à terra’ é significado que estão imbuídos de falsos, pois pelo ‘pó’ e pela ‘terra’ é significado o que é infernal e condenado. O infernal e condenado também é significado por ‘andar sobre o ventre’ e ‘comer pó’, como foi dito à serpente: “Sê maldita mais do que todas as bestas, e mais do que todas as feras do campo. Sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias de tua vida” (Gn. 3:14). Daí era, também, Que tinha sido absolutamente proibido comer tudo o que anda sobre o ventre, porque era abominação (Lv. 11:42). Que pelo ‘pó’ e pelo ‘apego do ventre à terra’ seja significado o falso infernal e condenado é porque sob as terras no mundo espiritual estão os infernos, e pelas terras se exalam ali, dos infernos, os falsos do mal, e também porque o ‘ventre’ significa pelas correspondências os interiores do entendimento e do pensamento, que se contaminam e se imbuem dos falsos do mal, se se apegarem às terras. Por isso também, no mundo espiritual, ninguém se deita sobre o ventre na terra, mas andar ali com os pés sobre a terra é tocar e haurir as coisas exaladas dos infernos pelo corpóreo natural, que corresponde à planta dos pés. E esse natural não tem comunicação com os pensamentos do entendimento a não ser naqueles que estão nos males quanto à vida e nos falsos quanto à doutrina. [9] Em Jó: Que o ventre prepara o dolo (Jó 15:35); e, em outra passagem, “Fui cheio de palavras, o espírito de meu ventre me faz ter angústia, e o meu ventre, como o vinho, não se abre” (Jó 32:18, 19), pelo que se entende que não se podem abrir os pensamentos de seu entendimento. Em Jeremias: “Lava da malícia o teu coração, ó Jerusalém, para seres salva. Até quando demorarão em teu ventre os pensamentos de iniquidade?” (Jr. 4:14); aqui, os pensamentos são claramente atribuídos ao ventre, pois se diz: ‘até quando demorarão no teu ventre os pensamentos de iniquidade?’, e a malícia é atribuída ao coração, porque o coração corresponde à vontade, na qual a malícia reside. Em David: “Não há o que certo na boca deles, no ventre deles há perdições; a garganta deles é um sepulcro aberto, com sua língua lisonjeiam” (Sl. 5:9); aqui, ao ventre são atribuídas as ‘perdições’, isto é, os maus pensamentos. No mesmo: “O ventre do varão, e assim o coração, é profundo” (Sl. 64:6); pelo ‘ventre do varão’ são significadas as cognições do falso, e pelo ‘coração’ são significadas as afeições do mal; estas pertencem à vontade e aquelas ao entendimento. Em Habacuque: “Comoveu-se o meu ventre; [diante da] voz, meus lábios tremeram” (Hb. 3:16); ‘comoveu-se o meu ventre’ significa a dor do pensamento, pelo que se diz ‘[diante] da voz, meus lábios tremeram’, pelo que é significado que daí a fala hesitasse. Pelas ‘vísceras da baleia’ Em que Jonas esteve por três dias e três noites (Jn. 1:17), são significados os infernos há falsos horrendíssimos, pelos quais foi cercado e, por conseguinte, tentações atrozes, como se pode ver pela profecia de Jonas nesse capítulo, onde também diz: “Do ventre do inferno gritei, e ouviste a minha voz” (Jn. 2:2). [10] Pelas ‘vísceras’ também são significadas coisas semelhantes às que o são pelo ‘ventre’, como se pode ver pelas seguintes passagens. Em Isaías: “Minhas vísceras se comovem como uma cítara, por causa de Moab, e meu intestino por causa de Kir Cheres” (Is. 16:11); em David: “Bendize, ó minha alma, a Jehovah; e todas as minhas vísceras [bendigam] o nome de Sua santidade” (Sl. 103:1); no mesmo: “Fazer a Tua vontade, ó meu Deus, tenho desejado, e a Tua lei está nas minhas vísceras” (Sl. 40:8); em Ezequiel: “A sua prata e o seu ouro não poderão livrá-los no dia da ira de Jehovah; não saciarão a sua alma, e não encherão as suas as vísceras” (Ez. 7:19); por sua ‘prata’ e seu ‘ouro’ são significados os falsos e males da religião que vêm da própria inteligência e da própria vontade; que deles não venha qualquer nutrição espiritual ou inteligência e afeição do bem é significado por ‘não saciarão a sua alma, e não encherão as suas vísceras’. Visto que pelas ‘vísceras’ são significados os interiores do pensamento, e como são estes que são afetados pela dor, por isso essa dor é expressa na Palavra por ‘comoverem-se as vísceras’ (por exemplo, em Is. 63:15; Jr. 31:20; Lm. 1:20; Mt. 9:36; Mc. 6:34; 8:2; Lc. 1:78; 7:12, 13; 10:33, 34; 15:20). [11] Como pelo ‘ventre’ são significados os interiores do pensamento ou do entendimento, por isso pelo ‘fruto do ventre’, no sentido espiritual, são significados os bens do entendimento, e pelos ‘filhos’ os seus veros, como em David: “Eis que os filhos são a herança de Jehovah, o fruto do ventre a recompensa” (Sl. 127:3); em Isaías: “Do fruto do ventre não terão misericórdia; o seu olho não poupará os filhos” (Is. 13:8); em Jó: “Lamentando choro pelos filhos de meu ventre” (Jó 19:17); em Moisés: “Será bendito o fruto do ventre, e o fruto da terra” (Dt. 7:13); em Oséias: “Até quando tiverem gerado, matarei os desejos de seu ventre” (Os. 9:11, 16); ‘fruto do ventre’ e ‘desejos do ventre’ significam, no sentido literal, a prole natural, mas, no sentido espiritual, significam a prole espiritual, que é o conhecimento, a inteligência e a sabedoria, pois nestas o homem renasce quando é regenerado. Daí é que pelo ‘parto’, pelos ‘filhos’ e ‘filhas’, e pelas demais palavras com que se nomeiam as natividades, são significadas as coisas que pertencem à natividade espiritual, isto é, as coisas que pertencem à regeneração, pois os anjos, que percebem a Palavra espiritualmente, não conhecem outros partos nem frutos do ventre. [12] Daí é, também, que pelo ‘útero’ e pelo ‘ventre’ são significadas coisas semelhantes nas passagens que se seguem. Em Isaías: “Antes tivesses escutado os Meus preceitos... tua semente seria como a areia, e os nascidos de tuas vísceras como os seus grãos” (Is. 48:18, 19); em David: “Sobre Ti fui lançado... desde o ventre de Minha mãe, Tu [és] Deus” (Sl. 22:10); no mesmo: “Tu possuis os meus rins; cobriste-me no ventre de minha mãe” (Sl. 139:13); no mesmo: “Alienam-se os ímpios desde o útero; erram desde o ventre os que falam mentira” (Sl. 58:3); e outras passagens. [13] Que o ‘ventre’ ou as ‘vísceras’ signifiquem os interiores do pensamento ou do entendimento é porque no homem há duas vidas, a saber, e a vida do entendimento e a vida da vontade. A essas duas fontes de vida correspondem todas as coisas do corpo, pelo que também atuam e são atuados sob toda direção delas, a ponto de que a parte do corpo que não é atuada por eles não é vida. Assim é que todo o corpo está sujeito ao império dessas duas vidas, porque todas as coisas no corpo que se movem e tanto quanto são movidas pela respiração dos pulmões estão sujeitas ao império da vida do entendimento, e todas as coisas do corpo que se movem e tanto quanto são movidas pelo batimento do coração estão sujeitas ao império da vida da vontade. Daí é que na Palavra se dizem muitas vezes ‘alma’ e ‘coração’, e que a ‘alma’ significa a vida do entendimento e, assim, a vida da fé, pois a alma se atribui à respiração, e o ‘coração’ significa a vida da vontade, assim, a vida do amor. Por isso é, também, que o ‘ventre’ e as ‘vísceras’ são mencionados em relação ao pensamento, que pertence ao entendimento, e o ‘coração’ é mencionado em relação à afeição, que pertence à vontade. * * * * * * *