. “Sobre povos e nações, e línguas e muitos reis.” Que isto signifique a todos aqueles que estão nos veros e bens quanto à vida e, ao mesmo tempo, nos bens e veros quanto à doutrina, segundo a religião de cada um, por conseguinte, que a Palavra seja ensinada quanto aos bens da vida e quanto aos veros da doutrina vê-se pela significação de ‘povos e nações’, que são aqueles que são da igreja espiritual e da igreja celeste; os que são da igreja espiritual são chamados ‘povos’, na Palavra, e os que são da igreja celeste são chamados são chamados ‘nações’. Os que são da igreja espiritual, que são chamados ‘povos’, são os que estão nos veros quanto à doutrina e quanto à vida, e os que são da igreja celeste, que são chamados ‘nações’, são os que estão no bem do amor ao Senhor e, daí, no bem quanto à vida. (Todavia, a respeito da significação de ‘povos’ e de ‘nações’ na Palavra, vide acima, n. 175 e 331). E pela significação de ‘línguas e muitos reinos’, que são os que estão nos bens e veros quanto à vida e quanto à doutrina, mas segundo a religião de cada um, porque ‘línguas’ significam os bens do vero e a confissão deles segundo a religião de cada um (vide acima, n. 330 e 455); e ‘reis’ significam os veros de que procede o bem, e ‘muitos reis’ os vários veros de que procede o bem, mas segundo a religião de cada um. (Que ‘reis’ signifiquem os veros do bem, vide acima, n. 31 e 553). [2] Que ‘muitos reis’ signifiquem os vários veros de que procede o bem é porque os povos e nações fora da igreja estiveram em sua maioria nos falsos quanto à doutrina, mas, como viveram a vida de amor a Deus e de caridade para com o próximo, os falsos de sua religião foram aceitos como veros por Deus, pelo fato de que dentro de seus falsos houve o bem do amor, e o bem do amor qualifica todo vero, e então o falso que esses tais tinham acreditado ser vero, e também o bem encerrado interiormente, faz com eles percebam os veros genuínos e os recebam, quando chegam à outra vida. Além disso, há veros que são somente aparências de vero, como s]ao os veros que há no sentido da letra da Palavra. Essas aparências de vero são também aceitas como veros genuínos pelo Senhor quando neles há o bem do amor ao Senhor e o bem da caridade para com o próximo. E o bem interiormente encerrado neles dissipa as aparências na outra vida e desnuda os veros espirituais, que são os veros genuínos. Por aí se pode ver o que se entende por ‘muitos reis’. (A respeito, porém, dos falsos em que há o bem, como os que há nas nações, vide a Doutrina da Nova Jerusalém, n. 21). [3] Pelo que foi dito e mostrado neste artigo e no artigo precedente pode-se ver que ‘importa profetizar novamente sobre povos, nações, e línguas e muitos reis’ significa a Palavra deve ainda ser ensinada àqueles que estão nos bens e veros quanto à doutrina e, daí, quanto à vida. Como, porém, se diz ‘sobre povos, nações, línguas e reis’ também por essas palavras é significado que a Palavra deve ser ensinada quanto aos bens da vida e quanto aos veros da doutrina, pois são essas duas coisas que a Palavra contém em todo o seu conjunto. [4] Este é o sento dessas palavras abstraído das pessoas, o qual é o sentido verdadeiramente espiritual. O sentido da letra na maioria das passagens se refere às pessoas e também as nomeia, mas o sentido verdadeiramente espiritual não tem relação às pessoas. Com efeito, os anjos, que estão no sentido espiritual da Palavra, em cada coisa que pensam e falam não têm ideia alguma de pessoa nem de lugar, porquanto a ideia de pessoa e de lugar limita e confina os pensamentos, e por esse modo os torna naturais. É diferente com a ideia abstraída de pessoas e lugares. Daí é que eles têm inteligência e sabedoria, e daí é que a inteligência e a sabedoria angélicas sejam inefáveis. Porque o homem, quando vive no mundo, está no pensamento natural, e o pensamento natural tem ideias de pessoas, de lugares, de tempos e de coisas materiais, os quais, se forem tirados do homem, perece para ele o pensamento que vem à percepção, pois sem eles não compreende coisa alguma. Mas o pensamento angélico é desprovido de ideias de pessoas, de lugares, de tempos e de coisas materiais. Daí é que o pensamento e, daí, a linguagem angélica é inefável e também incompreensível para o homem. [5] Mas, no entanto, o homem que vive no mundo a vida de amor ao Senhor e a vida de caridade para com o próximo, esse, após ter saído do mundo, vem a essa inteligência e sabedoria inefáveis, pois a sua mente interior, que é a mente mesma de seu espírito, é então aberta, e o homem, quando se torna anjo, então pensa e fala por ela, por conseguinte, pensa e fala coisas tais que no mundo não pôde proferir nem compreender. Essa mente espiritual, que é semelhante à mente angélica, todo homem tem, mas fica encerrada na mente natural ou vive acima dela, porque no mundo o homem fala, vê, ouve e sente pelo corpo material; e o homem ignora completamente o que ele aí pensa, pois o pensamento dessa mente então influi na mente na natural e aí se limita e se confina, e se apresenta para ser vista e percebida. Quando está no corpo, no mundo, o homem ignora que possui essa mente interior e, nela, a inteligência e a sabedoria angélicas, em razão de que todas as coisas que aí são consideradas influem na mente natural, como foi dito, e assim se tornam naturais segundo as correspondências. Estas coisas foram ditas para que se sabia como é a Palavra no sentido espiritual, quando esse sentido é inteiramente abstraído de pessoas e de lugares, isto é, de coisas tais que tiram sua qualidade das coisas materiais do corpo e do mundo. Fim do volume III ******* INICIO DE VOLUME IV