. “Porque foi dado às nações”. Que isto signifique porque isto foi pervertido pelos males da vida e pelos falsos da doutrina vê-se pela significação de ‘nações’, que são aqueles que estão nos males quanto à vida e, daí, nos falsos quanto à doutrina, e, no sentido abstrato, os males da vida e os falsos da doutrina. (Que os males e falsos sejam significados pelas ‘nações’ vide acima, n. 175, 331 e 625). Que o externo da Palavra e, assim, da igreja e do culto, seja pervertido pelos males da vida e pelos falsos da doutrina é porque o externo da Palavra, que se chama sentido de sua letra, é segundo as aparências no mundo, pois é para as crianças e os simples, que não percebem coisa alguma que seja contra as aparências. Por isso, pelo sentido da letra, onde há aparências de vero, eles são introduzidos nos veros interiores conforme avançam na idade, e assim as aparências são gradativamente removidas e os veros interiores são implantados no lugar delas. Este assunto pode ser ilustrado por inumeráveis exemplos, como o fato de orarmos para que Deus não nos induza em tentações: diz-se assim porque parece Deus induz, quando, todavia, Ele a ninguém induz em tentações. Semelhantemente, que Deus fica irado, castiga, lança no inferno, faz mal aos ímpios, e várias coisas semelhantes, quando, todavia, Deus nunca fica irado, nunca castiga nem lança no inferno, e não faz absolutamente mal algum, mas o ímpio o faz a si mesmo pelos males, pois nos próprios males estão as males do castigo. Contudo, assim se diz em muitas passagens na Palavra porque assim parece. Seja, também, por exemplo
Que ninguém deve chamar de pai o seu pai, nem de mestre um mestre (Mt. 23:8-10),
quando, todavia, devem ser chamados. Mas diz-se assim porque por ‘Pai’ entende-Se o Senhor, que nos cria de novo e nos gera, e porque é Ele unicamente que ensina e instrui. Por isso, quando o homem está na ideia espiritual, então pensa no Senhor somente como Pai e Mestre, diferentemente de quando o homem está na ideia natural. Além disso, no mundo espiritual ou no céu, ninguém conhece outro pai, instrutor ou mestre senão o Senhor, porque d’Ele vem a vida espiritual. Assim também em relação às demais coisas.
[2] Por aí se pode ver que o externo da Palavra e, daí, o externo da igreja e do culto, consiste de aparências de vero, pelo que aqueles que estão nos males quanto à vida a aplicam em favor de seus amores e, assim, em favor de princípios concebidos. Por isso se diz que o ‘átrio’, pelo qual também é significado o externo da Palavra, ‘foi dado às nações’ e, em seguida, que ‘elas pisarão a cidade santa’. Isto acontece no fim da igreja, quando as pessoas são tão mundanas, naturais e corpóreas que não podem absolutamente ver os veros interiores, que se chamam veros espirituais. Daí se segue que então pervertem completamente o externo da Palavra, que é o seu sentido da letra. Tal perversão do sentido da letra da Palavra também aconteceu com os judeus no fim da igreja com eles, o que se entende no sentido espiritual pelo fato de
Os soldados dividirem as vestes do Senhor, mas não a túnica (Jo. 19:23, 24),
pelo que é significado que aqueles que eram da igreja tinham pervertido todas as coisas da Palavra quanto ao seu sentido da letra, mas não a Palavra quanto ao sentido espiritual, porque o não conheceram. (O que se entende no sentido espiritual por essas coisas vê-se acima, n. 64). O mesmo acontece hoje na igreja, porque ela está em seu fim, porque hoje a Palavra é explicada não segundo os veros espirituais, mas segundo as aparências do sentido da letra, as quais são aplicadas para confirmar não só os males da vida, mas também os falsos da doutrina. E como os veros interiores, que são os veros espirituais, não são conhecidos nem recebidos, segue-se que o sentido da letra da Palavra é pervertido pelos males da vontade e, daí, pelos falsos do pensamento. É isto, pois, que se entende pelo fato de ‘o átrio ser dado às nações.