. “Que espiritualmente se chama Sodoma e Egito”. Que isto signifique pelos males do amor de si e pelos falsos daí vê-se pela significação de ‘Sodoma’, que é o amor de si e, daí, males de todo gênero (de que se tratará a seguir); e pela significação de ‘Egito’, que é o homem natural separado do espiritual e, daí, o falso do mal de todo gênero (de que também se tratará a seguir). Que por ‘Sodoma e Egito’ se entenda Jerusalém, por conseguinte a igreja, na qual foram adulterados os bens que são do amor e falsificados os veros que são da doutrina, é evidente, pois se segue: ‘onde também nosso Senhor foi crucificado’, pois são os males do amor de si e os falsos da doutrina que crucificam o Senhor; por isso Ele foi crucificado pelos judeus, porquanto neles havia males e falsos. Todavia, a respeito deste assunto ver-se-á na sequência. [2] Aqui será mostrado primeiramente que ‘Sodoma’, na Palavra, significa o amor de si e, daí, todo mal, porque os males de todo gênero brotam do amor de si. Com efeito, quem ama a si somente, esse ama o seu proprium, e daí imerge em seu proprium todas as coisas de sua vontade e de seu entendimento, a ponto de não poder ser elevado dali ao céu e ao Senhor. Assim é que nada vê pela luz do céu, mas somente pela luz do mundo, luz essa que, separada da luz do céu, está em mera escuridão quanto às coisas espirituais, quais são as coisas do céu e da igreja. Por isso, também, quanto mais o homem se ama, mais despreza as coisas espirituais, e mesmo as nega. Daí também é fechada a mente interna espiritual pela qual o homem está na luz do céu. Daí o homem se torna meramente natural, e o homem meramente natural favorece males de todo gênero, pois os males em que o homem nasce residem no homem natural. Esses males são removidos dele na proporção que é aberta sua mente interior, a qual recebe a luz do céu. O proprium do homem também reside no homem natural, e o proprium do homem nada é senão o mal. [3] Que, pois, ‘Sodoma’ signifique o amor de si e, daí, os males de todo gênero, pode-se ver pelas passagens na Palavra onde Sodoma é nomeada, como nas seguintes. Em Ezequiel: “Tua irmã maior é Samaria, ela e suas filhas, que habita à tua esquerda; mas tua irmã menor do que ti, que habita à tua esquerda, é Sodoma e suas filhas; ... corrompeste-te mais do que elas em todos os teus caminhos. ... Não fez Sodoma, tua irmã, ela e as suas filhas, como tu fizeste e as tuas filhas. Eis que esta foi a inequidade de Sodoma... soberba, saciedade de pão e tranquilidade de repouso teve ela e as suas filhas, e não fortaleceu a mão do aflito e do necessitado, pelo que se tornaram altivas, e fizeram abominação diante de Mim” (Ez. 16:46-50). Aí se trata das abominações de Jerusalém, que foram principalmente o fato de terem adulterado os bens e veros da Palavra e da igreja. ‘Samaria’, onde os israelitas estavam, significa a igreja espiritual, na qual o essencial é o bem espiritual, que é o bem da caridade para com o próximo. Mas ‘Jerusalém’, onde os judeus estavam, significa a igreja celeste, na qual o essencial é o bem celeste, que é o bem do amor ao Senhor, porque há dois reinos em que foi distinto o céu e, daí, a igreja: o reino espiritual e o reino espiritual (a respeito desses dois reinos vide a obra O Céu e o Inferno, n. 20-28); esses reinos foram representados pelos israelitas, cuja cidade principal era Samaria, e pelos judeus, cuja cidade principal era Jerusalém. [4] O bem espiritual, que é o bem da caridade para com o próximo, é oposto ao mal infernal, que é o mal do amor do mundo; e o bem celeste é oposto ao mal diabólico, que é o mal do amor de si. Do amor de si brotam males de todos os gêneros, e muitos piores que os que brotam do amor do mundo (vide Doutrina da Nova Jerusalém, n. 65-83). Daí é que a respeito de Jerusalém são mencionadas coisas mais medonhas e mais abomináveis do que a respeito de Samaria, e daí é que Jerusalém é não somente chamada ‘Sodoma, mas também se diz que fez coisas piores que Sodoma, porquanto se diz: ‘Não fez Sodoma como tu fizeste e as tuas filhas’. Que o mal do amor de si tenha sido o mal de Sodoma, descreve-se assim: ‘Esta foi a iniquidade de Sodoma: soberba, saciedade de pão, tranquilidade de repouso’, e que ‘não fortaleceu a mão do aflito e do necessitado’. Por ‘soberba’ entende-se amor de si; por ‘saciedade de pão’, o desprezo por todo bem e vero do céu e da igreja, e a náusea em relação a estes; por ‘tranquilidade de repouso’ entende-se a segurança e a falta de ansiedade por causa de algum mal; e pelo ‘não fortalecimento da mão do aflito e do necessitado’ é significada a falta de misericórdia. Como o amor de si foi o amor de Sodoma, por isso se diz que ‘suas filhas se tornaram altivas, e fizeram abominação diante de Jehovah’; pelas ‘filhas’, que se tornaram altivas, são significadas as cobiças que pertencem àquele amor, e pela ‘abominação diante de Jehovah’ é significado todo mal contra o Divino mesmo. [5] Visto que pelos ‘caldeus’ são significadas a profanação e a adulteração do vero da doutrina da Palavra, e pelos ‘habitantes de Babel’ a profanação e a adulteração do bem do amor, por isso a ruína deles é comparada também à ruína de Sodoma e Gomorra. Em Jeremias: “Espada contra os caldeus... e contra os habitantes de Babel, conforme a ruína [vinda] de Deus a Sodoma e Gomorra e suas vizinhas; ... não habitará ali varão, nem se deterá nela o filho do homem’ (Jr. 50:35, 40); e em Isaías: “Assim será Babel, ornamento dos reinos, honra da magnificência dos caldeus, como a ruína [vinda] de Deus, Sodoma e Gomorra” (Is. 13:19); por ‘Sodoma’ é significado o mal do amor de si, e por ‘Gomorra’ o falso desse amor; e como o amor de si não reconhece vero algum da igreja, se diz que ‘não habitará nela varão, nem se deterá nela o filho do homem’; por ‘varão’ é significada a inteligência, e por ‘filho do homem’ o vero da igreja. [6] Visto que ‘Edom’ significa o homem natural que está nos falsos do amor de si e, assim, que adultera os bens da igreja, por isso também sua devastação é comparada à ruína de Sodoma e Gomorra, em Jeremias: “Edom estará em desolação... como a ruína de Sodoma e Gomorra; ... não habitará ali varão, nem se deterá ali o filho do homem” (Jr. 49:17, 18); e em Sofonias: “Moab se tornará como Sodoma, e os filhos de Amon como Gomorra, lugar deixado às urtigas e aos poços de sal, uma assolação na eternidade" (Sf. 2:9); por ‘Moab’, como foi dito, se entende o homem natural, que pelo amor de si adultera os bens da igreja, e pelos ‘filhos de Amon’ os que falsificam os seus veros. E como daí vem a devastação de todo bem e vero, por isso se diz: ‘Lugar deixado às urtigas e aos poços de sal, uma assolação na eternidade’. A devastação de todo bem é significado pelo ‘lugar de urtiga’, e a devastação de todo vero pelo ‘poço de sal’. Coisas semelhantes são significadas por ‘Sodoma’ e ‘Gomorra’. [7] Visto que ‘Judah’ significa o amor celeste, que é o amor ao Senhor, amor do qual vem todo bem, e, no sentido oposto, o amor diabólico, que é o amor de si, do qual vem todo mal, por isso a devastação da igreja (que é significada por ‘Judah’ e por ‘Jerusalém’) é também comparada à ruína de Sodoma e Gomorra. Em Isaías: “Jerusalém tropeçou, e Judah caiu... a obstinação de suas faces responde contra eles, e o pecado deles é como o de Sodoma” (Is. 3:8, 9); e no mesmo: “Ouvi a palavra de Jehovah, ó príncipes de Sodoma; escutai a lei de nosso Deus, ó povo de Gomorra” (Is. 1:10); pela ‘palavra de Jehovah’ entende-se o Divino Bem, e pela ‘lei de Deus’ se entende o Divino Vero, pois onde se trata do bem se diz ‘Jehovah’, e onde se trata do vero se diz ‘Deus’; e como o Divino Bem para aqueles que estão no amor de si é o mal, diz-se que o ‘o pecado deles é como o de Sodoma’, e também: ‘Ouvi a palavra de Jehovah, príncipes de Sodoma; e como o Divino Vero naqueles que estão no mal do amor de si é o falso, diz-se : ‘Escutai a lei de Deus, povo de Gomorra’. [8] Em Moisés: “Da videira de Sodoma é a videira deles, e dos campos de Gomorra as suas uvas, uvas de fel, cachos de amargor são eles” (Dt. 32:32), palavras ditas a respeito dos medonhos falsos nos descendentes de Jacob, brotando dos males do amor de si. (Mas elas foram explicadas acima, n. 519). Nas Lamentações: “Os que comeram iguarias foram devastados nas ruas; os [que foram] criados sobre a púrpura abraçaram esterco; ...grande se tornou a iniquidade de Meu povo mais do que o pecado de Sodoma, que foi arruinada como num instante” (Lm. 4:5, 6). Essas palavras foram ditas a respeito daqueles que são do reino e da igreja celeste do Senhor, quando se mudaram no contrário, pois o amor celeste é o que converte em amor de si, que é um amor diabólico. Essas palavras foram ditas a respeito deles. O que é significado por ‘comer iguarias’, ‘ser criado sobre púrpura’, ‘ser devastado nas ruas’ e ‘abraçar esterco’ foi explicado no artigo superior (n. 652). Diz-se da iniquidade deles que ela se tornou ‘mais do que o pecado de Sodoma’ porque eles tinham a Palavra, pela qual puderam conhecer os veros e bens do céu e da igreja, ou da doutrina e da vida, e eles os adulteraram, o que os habitantes de Sodoma não puderam fazer, pois quem conhece a vontade do Senhor e não a faz, peca mais do que aquele que a não conhece. Ademais, todos aqueles em que reina o amor de si desprezam as coisas santas do céu e da igreja, e negam o Divino do Senhor. E a fim de confirmar os males que jorram desse amor, ou adulteraram a Palavra ou a rejeitam como um escrito que não é santo senão porque assim foi aceito. Daí é que as coisas que eles fazem pelo amor de si são comparadas às de Sodoma e Gomorra. [9] Que façam pior do que em Sodoma aqueles que são instruídos pelo Senhor sobre os veros e bens da igreja e, todavia, os rejeitam e nega, vê-se pelas palavras do Senhor a respeito de Cafarnaum, em Mateus: “Tu, Cafarnaum, que até o céu és exaltada, até o inferno serás abatida. Porque se em Sodoma se tivessem feito as virtudes que fora feitas em ti, eles teriam permanecido até hoje;... digo-te que para a terra de Sodoma haverá mais tolerância no dia do juízo do que para ti” (Mt. 11:23, 24), pois o Senhor, após deixar Nazareth, habitou em Cafarnaum (Mt. 4:13) e fez milagres ali (Mt. 8:5-14; Jo. 4:46 ao fim). Coisas semelhantes o Senhor disse a respeito das cidades em que os discípulos pregaram o Seu advento, ou o evangelho, mas não receberam, por essas palavras, no mesmo livro: “Se alguém vos não receber, nem ouvir as vossas palavras, saindo daquela casa ou cidade, sacudi o pó dos vossos pés. Amém vos digo: haverá mais tolerância para a terra de Sodoma e Gomorra no dia do juízo do que para aquela cidade" (Mt. 10:14, 15; Mc. 6:11; Lc. 10:10-12), pois ninguém rejeita as coisas santas da igreja e nega interiormente o Divino do Senhor senão aqueles que estão no amor de si. Os que estão no amor do mundo e nos males daí também podem rejeitar as coisas santas da igreja, mas não tão interiormente, isto é, por confirmação de coração. [10] O mesmo se diz a respeito dos profetas e do povo que adulteram os veros e bens da Palavra para confirmarem os males e falsos, em Jeremias: “Nos profetas de Jerusalém vi horrenda obstinação, adulterando e andando em mentira, quando fortaleceram as mãos dos maus, para que o varão não volte atrás de sua malícia; fizeram-se para Mim como Sodoma, e seus habitantes como Gomorra” (Jr. 23:14); aí, pelos ‘profetas’ se entendem os que ensinam os veros e bens da doutrina, e, no sentido abstrato, que é genuíno sentido espiritual, entende-se a doutrina da Palavra, assim, também a Palavra quanto à doutrina; por isso, por ‘horrenda obstinação’ é significada a confirmação de coração contra os veros e bens da Palavra; por ‘adulterar e andar em mentira’ é significado perverter os bens e veros da Palavra; por ‘adulterar’, perverter os bens da Palavra pelos males e falsos; ‘mentira’ é o falso e ‘andar em mentira’ é viver nos falsos; confirmar os males e, daí, o poder deles sobre os bens é significado por ‘confirmar as mãos dos maus’; e persistir nos males e falsos da doutrina é significado por ‘o varão não voltar atrás de sua malícia’. Daí se diz que ‘tornaram-se como Sodoma, e seus habitantes como Gomorra’; ‘como Sodoma’ significa nos males que brotam do amor de si, e ‘seus habitantes como Gomorra’ significa a vida má pelos falsos da doutrina. [11] O mal que destruiu Sodoma e Gomorra é descrito por estas palavras em Moisés: Quiseram fazer violência aos anjos e por isso foram feridos de cegueira, para que não pudessem achar a porta onde os anjos estavam; e por isso Jehovah fez chover enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra, e destruiu aquelas cidades e toda a planície, e todos os habitantes das cidades, e o germe da terra (Gn. 19:1-28); ‘quiseram fazer violência aos anjos’ significava ao Divino Bem e ao Divino Vero, pois estes são significados pelos ‘anjos’; a ‘cegueira’ de que foram feridos, ‘para que não pudessem achar a porta’ significava a completa rejeição e a negação das coisas Divinas e santas do céu e da igreja, a ponto de não poderem ver e reconhecer coisa alguma do céu e da igreja; isto é significado por ‘não achar a porta’ onde estavam os anjos. Pelo ‘enxofre’ é significada a concupiscência de destruir os bens e veros da igreja pelos falsos, e pelo ‘fogo’ é significado o amor de si e todo mal que destrói, aqui a sua destruição. [12] Que por ‘Sodoma’ e ‘Gomorra’ se entendam todos os males e falsos que jorram do amor si é o que me dito do céu, pois quando perecem os que estão nos males desse amor, como aconteceu no dia do juízo final, apareceu como que enxofre e fogo chovendo do céu. Isto também foi visto por mim. Que isto aconteceria no dia do juízo final é o que foi também predito pelo Senhor em Lucas: “Semelhantemente se fará como se fez nos dias de Ló;... no dia em que saiu... de Sodoma, choveu fogo e enxofre do céu e destruiu a todos; assim se fará no dia em que o Filho do homem será revelado” (Lc. 17:28-30). [13] Visto que, pelo amor de si, aqueles que confirmam em si os males pelos falsos contra os bens do céu e da igreja, erradicam completamente de si todo vero da doutrina e da Palavra e o bem do amor espiritual e celeste, por isso a devastação neles é total. Ela é assim descrita em Moisés: “Toda a terra será enxofre e sal, uma combustão; não será semeada, nem germinará, nem subirá nela erva alguma, como a ruína de Sodoma e Gomorra, de Adamá e Zeboim” (Dt. 29:23); pelo ‘enxofre’ é significada a devastação de todo bem pelas concupiscências oriundas dos males; pelo ‘sal’ é significada a devastação de todo vero pelos falsos oriundos dessas concupiscências; pela ‘combustão de toda a terra’ é significada a devastação da igreja pelo amor de si; por ‘não será semeada, nem geminará, nem subirá nela erva alguma’ é significado que não será absolutamente receptível do vero da igreja (a ‘erva’ significa o vero nascente da igreja). E como tal é a devastação do bem e do vero pelo amor de si, por isso se diz: ‘como a ruína de Sodoma e Gomorra, de Adamá e Zeboim’; por ‘Adamá e Zeboim’ são significadas as cognições do mal e do falso. Que isto deverá existir no dia do juízo final é significado por ‘no dia em que o Filho do homem será revelado’.