AE 654

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. Que o ‘Egito’ signifique aqui o homem natural separado do espiritual e, daí, os falsos que jorram dos males do amor de si, por conseguinte, do orgulho da própria inteligência, dir-se-á agora. Com efeito, quando o homem natural é separado de seu espiritual, o que acontece principalmente pelo amor de si, então dos males desse amor jorram falsos, pois todo falso é proveniente do mal, porque é o falso é o protetor do mal, e o mal da vontade é formado no entendimento pelas ideias do pensamento, ideias essas que se chamam falsos. E visto que os falsos que jorram dos males do amor de si têm consigo o orgulho, pois então o homem pensa pelo proprium, por isso também o ‘Egito’ significa aqui o orgulho da própria inteligência.
[2] Como, porém, pelo ‘Egito’ é significado o homem natural em ambos os sentidos, a saber, tanto conjunto com o homem espiritual quanto separado dele, assim, num sentido bom e num sentido mal, por isso pelo ‘Egito’ são também significadas várias coisas que são do homem natural, as quais em geral se referem às cognições e aos conhecimentos, pois os veros e os falsos do homem natural são chamados cognições e conhecimentos. Mas os veros mesmos, quando adquirem vida, o que acontece pela vida de fé, que é a caridade, são de seu homem espiritual. Estes, juntamente com suas afeições e prazeres, não aparecem ao sentido e à visão manifesta do homem tal como as cognições e os conhecimentos do homem natural, porque o homem, enquanto vive no mundo, pensa naturalmente e fala naturalmente, e isto é sentido e percebido por ele como uma espécie de visão, que é o seu entendimento. Mas o seu pensamento espiritual, que é conjunto à afeição do vero, ou do falso, não aparece antes de o homem se despir do corpo natural e revestir-se de um corpo espiritual, o que acontece após o óbito ou a saída deste mundo e a entrada no mundo espiritual. Então ele pensa espiritualmente e fala espiritualmente, e não naturalmente, como antes. Isto ocorre em cada homem, seja meramente natural, seja ao mesmo tempo espiritual. E o pensamento no homem meramente natural é, após a morte, espiritual, mas grosseiro, sem a inteligência do vero e a afeição do bem, pois consiste de ideias correspondentes que aparecem, de fato, como material, embora não sejam materiais. Todavia, a respeito do pensamento espiritual e, daí, também da linguagem nos homens meramente naturais no mundo espiritual, muitas coisas serão ditas em outro lugar, se o Senhor quiser.
[3] Que o ‘Egito’ signifique na Palavra o homem natural em ambos os sentidos, bom e mau, consequentemente, tudo o que pertence propriamente ao homem natural, era porque no Egito se cultivavam as ciências, principalmente a ciência das correspondências e das representações, no tempo em que as igrejas eram representativas. Como, porém, ele fizeram imagens para si segundo as correspondências, quando de internos se tornaram inteiramente externos, começaram a adorar os rituais santos, donde fizeram tais ídolos, por isso mudaram os representativos de coisas espiritual e celestes em coisas idolátricas e também em magia, daí é que pelo ‘Egito’, num sentido mau na Palavra, o qual é oposto ao anterior, é significado o conhecimento falso do homem natural e também o que é idolátrico e mágico.
[4] Que tais coisas sejam significadas pelo ‘Egito’ pode-se por muitíssimas passagens na Palavra. Mas antes de passarmos à confirmação disso pela Palavra, devemos saber que em cada homem existe um interno, que vê pela luz do céu, qual interno é chamado homem interno espiritual, ou mente interna espiritual, e um externo, que vê pela luz do mundo, qual externo é chamado homem externo natural, ou mente externa natural. Em todo homem da igreja deve haver um interno conjunto ao externo, ou o homem interno espiritual conjunto ao externo natural do homem, e quando são conjuntos, então o homem espiritual, que está na luz do céu, domina sobre o homem natural, que está na luz do mundo, e o governa como um patrão governa criado, e o ensina como um mestre ensina o discípulo. Por essa conjunção o homem é um homem da igreja e é um anjo. Quando, todavia, o homem natural não é conjunto e subordinado ao espiritual, o que acontece principalmente quando o homem espiritual é fechado (e é fechado naqueles que negam os Divinos da Palavra e da igreja, pois então nada veem pela luz do céu), então o homem natural está cegueira quanto às coisas espirituais, e por seu racional perverte todos os veros da igreja e pelas ideias em si os converte em falsos. Sobre este assunto, a saber, da conjunção do homem espiritual com o natural, e sobre a separação entre o homem natural e o espiritual, trata-se em muitas passagens na Palavra, principalmente onde se trata do Egito, visto que pelo ‘Egito’ é significado o homem natural, tanto conjunto ao homem espiritual quanto separado dele, e onde se trata do homem natural separado do espiritual o Egito é condenado [vituperatur] e rejeitado.
[5] E como pelo ‘Egito’, no sentido amplo, é significado o homem natural, por isso pelo ‘Egito’ é também significado o conhecimento verdadeiro e o conhecimento falso, porquanto os veros e falsos, que estão no homem natural, são chamados conhecimentos. E visto que os conhecimentos verdadeiros e falsos são significados pelo ‘Egito’, também por ele é significada a fé, porque a fé pertence ao vero e o vero pertence à fé, pelo que a fé conjunta à caridade também é significada pelo ‘Egito’ num sentido bom, e a fé separada da caridade num sentido mau. Com efeito, a fé é conjunta à caridade quando o homem espiritual é conjunto ao natural, e então pelo ‘Egito’ são significados os conhecimentos verdadeiros; mas a fé é separada da caridade quando o homem natural é separado do espiritual, e então pelo ‘Egito’ é significado o conhecimento falso, pois quando o homem natural é separado do homem espiritual, então não há quaisquer veros no homem; e se recebe veros da Palavra ou da doutrina da igreja, falsifica-os, todavia, pelas ideias de seu pensamento. Daí é que em tal homem da igreja todo vero se torna falso.
[6] Essas coisas dizem respeito à significação do Egito na Palavra. Por isso deve-se demonstrar primeiramente que pelo ‘Egito’ é significado o homem natural conjunto ao espiritual, ou o conhecimento vivificado pelo influxo da luz espiritual, ou, o que é o mesmo, a fé conjunta à caridade, fé que em si é a fé. E em seguida será demonstrado que pelo ‘Egito’ no sentido oposto é significado o homem natural separado do espiritual , ou o conhecimento não vivificado por algum influxo da vida espiritual, ou, o que é o mesmo, a fé separada da caridade, fé que em si não é fé. Que o ‘Egito’ signifique o homem natural conjunto ao espiritual, então o conhecimento vivificado pelo influxo da luz espiritual, o qual em si é o conhecimento verdadeiro ou o vero do homem natural, e que, semelhantemente, signifique a fé conjunta à caridade, fé que em si é fé, vê-se pelas passagens que se seguem.
[7] Em Isaías:
“Naquele dia haverá cinco cidades na terra do Egito falando com os lábios de Canaan e jurando a Jehovah Zebaoth; cada cidade se chamará cidade de Cheres. Naquele dia haverá um altar a Jehovah no meio da terra do Egito, e uma coluna [statua] a Jehovah no seu termo. ... Clamarão a Jehovah por causa das opressões; Ele lhes enviará um Salvador e Príncipe;... então Jehovah será conhecido pelo Egito, e os egípcios conhecerão Jehovah naquele dia, e farão sacrifício e minchah. ... Assim Jehovah ferirá o Egito, ferindo e curando, pelo que se converterão a Jehovah, que será invocado por eles, e Ele os curará. Naquele dia haverá uma vereda do Egito à Assíria, para que a Assíria venha ao Egito, e o Egito à Assíria, e os egípcios servirão com a Assíria. Naquele dia Israel será o terceiro com o Egito e a Assíria, uma bênção no meio da terra, que Jehovah Zebaoth abençoará, dizendo: Bendito o Meu povo, o Egito, e a obra de Minhas mãos, a Assíria, e Minha herança, Israel" (Is. 19:18-25).
O ‘Egito’ aqui está em lugar do homem natural conjunto ao espiritual, assim, em lugar das nações e povos que estiveram fora da igreja; e como não estiveram nos veros, foram homens naturais, mas quando ouviram o evangelho, reconheceram o Senhor e, daí, instruídos nos veros da doutrina, receberam a fé. O advento do Senhor se entende por ‘naquele dia’, que é aí mencionado cinco vezes. ‘Naquele dia haverá cinco cidades na terra do Egito falando com os lábios de Canaan’ significa que neles haverá muitos doutrinais segundo os veros da doutrina dessa igreja; ‘cinco’ significa muitos; ‘cidades’, os doutrinais; ‘ terra do Egito’ a igreja de tais nações; ‘lábios de Canaan’, os veros da doutrina da igreja; ‘cada cidade será chamada Cheres’ significa a doutrina do bem da caridade em cada coisa; ‘cidades’ é a doutrina, ‘ Cheres’, que na língua hebraica significa o sol e seu raio, é o bem da caridade e, por conseguinte, a fé.
[8] “Naquele dia haverá um altar a Jehovah no meio da terra do Egito, e uma coluna a Jehovah em seu termo’ significa que então o culto do Senhor será pelos bens da caridade e, daí, pelos veros da fé em todas as coisas que são do homem natural; pelo ‘altar a Jehovah’ é significado o culto pelo bem da caridade, e pela ‘coluna’ o culto pelos veros da fé; ‘no meio da terra do Egito’ significa em toda parte e em todas as coisas do homem natural; e pelo ‘termo’ é significado o conhecimento verdadeiro.
[9] ‘Clamarão a Jehovah por causa das opressões; Ele lhes enviará um Salvador e Príncipe’ significa a dor deles por causa da falta do vero e, daí, do bem espiritual, e o advento do Senhor pelo qual os receberão; ‘clamar’ significa a dor, ‘opressões’ significa a falta do vero e, daí, do bem espiritual, e ‘Salvador e Príncipe’ significam o Senhor, que é chamado ‘Salvador’15 por causa do bem do amor, e ‘Príncipe’ por causa dos veros da fé; ‘então Jehovah será conhecido pelo Egito, e os egípcios conhecerão Jehovah naquele dia’ significa o reconhecimento do Senhor e de Seu Divino; ‘e farão sacrifício e minchah’ significa o culto ao Senhor segundo os Seus preceitos da Palavra, assim, pelos veros da doutrina e pelo bem do amor; ‘assim Jehovah ferirá o Egito, ferindo e curando, pelo que se converterão a Jehovah, que será invocado por eles, e Ele os curará’ significa as tentações e, assim, a conversão, e a cura dos falsos por meio dos veros.
[10] ‘Naquele dia haverá uma vereda do Egito à Assíria, para que a Assíria venha ao Egito, e o Egito à Assíria’ significa que então lhes será aberto o racional pelos conhecimentos verdadeiros, para que o homem considere racional e inteligentemente os conhecimentos que pertencem ao homem natural; o ‘Egito’ é o conhecimento do homem natural, e a ‘Assíria’ é o racional; ‘naquele dia Israel será o terceiro com o Egito e a Assíria, uma bênção no meio da terra’ significa o influxo em um e outro pela luz espiritual; ‘Israel’ é o homem espiritual cuja luz vem do céu, ‘Egito’ é o homem natural cuja luz vem do mundo, e ‘Assíria’ é o homem racional, que é o meio, e recebe luz do espiritual e a transmite ao natural, iluminando-o; ‘que Jehovah abençoará’ significa o influxo do Senhor; ‘dizendo: Bendito o Meu povo, o Egito’ significa o homem natural iluminado; ‘e a obra de Minhas mãos, a Assíria’ significa o homem racional não por si, mas pelo Senhor; ‘e Minha herança, Israel’ significa o homem espiritual, que é chamado ‘herança’ porque todo espiritual é do Senhor, pois é o Divino procedente d’Ele, do qual existe o céu e a igreja. Quem haveria de entender essa profecia sem o sentido espiritual?
[11] Em Miquéias:
“Este é o dia em que virão a Ti desde a Assíria e das cidades do Egito, e daí desde o Egito até o rio, e de mar a mar, e de monte a monte” (Mq. 7:12).
Também essas palavras foram ditas a respeito da instauração da igreja pelo Senhor entre as nações, e por essas palavras se descreve a extensão dessa igreja de uma extremidade a outra. Numa extremidade da terra de Canaan estava o rio Eufrates, e na outra estava o rio do Egito. A extensão do vero, de uma à outra extremidade, é significada por ‘de mar a mar’, e a extensão do bem, de uma extremidade à outra, por ‘monte a monte’.
[12] Que a extensão da terra de Canaan, pela qual é significada a igreja, tenha sido do rio do Egito ao rio da Assíria, o Eufrates, vê-se em Moisés:
“Nesse dia Jehovah firmou uma aliança com Abrahão, dizendo: À tua semente darei esta terra, desde do rio do Egito até o grande rio, o rio Eufrates” (Gn. 15:18);
e no Livro Primeiro dos Reis:
“Salomão dominava em todos os reinos, desde o rio” Eufrates “até a terra dos filisteus, e até as terras do Egito” (I Re. 4:21),
porque a igreja, que em si é espiritual, termina no homem natural, a saber, no seu racional e seu conhecimento, pois o racional está no homem natural interior, porque é seu entendimento. Neles está, semelhantemente, o conhecimento, e o racional nasce pelos conhecimentos, pois vê neles suas conclusões como num espelho, e se confirma por eles, embora, todavia, pelo espiritual. Sem isto o homem não tem racional nem conhecimento verdadeiro, mas, em lugar do racional, tem o raciocínio, e em lugar do conhecimento verdadeiro, tem o conhecimento falso. Por conseguinte, esses dois constituem os limites da igreja espiritual, que é significada pela ‘terra de Canaan’.
[13] Em Ezequiel:
“Filho do homem, diz ao faraó, o rei do Egito, e à sua multidão: A quem te fizeste semelhante em tua grandeza? Eis a Assíria, um cedro no Líbano, formosa de ramo e floresta sombrosa, e alta em altura, e entre entrelaçados esteve seu broto. As águas fizeram-na crescer, o abismo a fez alta, de sorte que seus rios fossem ao redor da planta, e enviou regatos a todas as árvores do campo, pelo que se tornou alta a sua altura... e compridos se tornaram os seus ramos pelas muitas águas que enviou. Nos seus ramos se aninharam todas as aves dos céus, e sob os seus ramos pariram de toda besta do campo, e em sua sombra habitaram todas as grandes nações. Formosa foi em sua grandeza, no comprimento de seus ramos, pois sua raiz estava em muitas águas. Os cedros a não ocultaram no jardim de Deus, os abetos não se igualavam aos seus ramos; ... nenhuma árvore no jardim de Deus se lhe igualava em sua formosura; fizeram-na formosa pela multidão de seus ramos, e tinham-lhe inveja todas as árvores do Éden, que estavam no jardim de Deus” (Ez. 31:2-9).
Visto que ‘o faraó, rei do Egito’ significa o entendimento do homem natural, que nasce e é formado pelos conhecimentos verdadeiros racionalmente vistos, daí é que aqui ele é chamado ‘Assíria’, pela qual é significado o racional, e é descrito pelo ‘cedro’ e a sua altura, e pelo comprimento e pela multidão de seus ramos, e isto porque o ‘cedro’, na Palavra, também significa o racional. (Mas a maior parte das coisas aqui citadas foi explicada acima, n. 650). Como assim é o racional quanto às coisas do entendimento, e, daí, o natural quanto aos conhecimentos verdadeiros, por isso se diz que ‘os cedros a não ocultaram no jardim de Deus’, que ‘os abetos não se igualaram aos seus ramos’ e que ‘nenhuma árvore no jardim de Deus se lhe igualava em formosura’. Pelo ‘jardim de Deus’ é significada a inteligência que tem o homem da igreja que está nos veros genuínos; pelo ‘cedro’ é significado o seu racional, que é de origem espiritual; pelos ‘abertos’ é significado o perceptivo do homem natural; pela ‘formosura’ é significada a afeição do vero e, daí, a inteligência; ‘fizeram-na formosa pela multidão dos ramos’ significa a abundância dos conhecimentos verdadeiros racionalmente percebidos; ‘tinham-lhe inveja todas as árvores do Éden no jardim de Deus’ significa as percepção do vero pelo bem celeste, donde vem a sabedoria; as ‘árvores’ significam as percepções onde se trata do homem celeste e as cognições onde se trata do espiritual; ‘Éden, no jardim de Deus’, significa a sabedoria que vem do bem do amor. Que sejam o faraó e o Egito e que aqui se entendem e descrevem por ‘Assíria’ e por ‘cedro’ vê-se também pelo último versículo desse capítulo, onde se diz: ‘Este é o faraó e toda a sua multidão’. Como toda inteligência e sabedoria do homem espiritual terminam no natural, e aí se fazem visíveis, por isso na passagem citada acima o faraó, rei do Egito – por quem é significado o entendimento que está no homem natural, nascido e formado pelos conhecimentos verdadeiros – é comparado ao ‘cedro no jardim de Deus’; por conseguinte, é a terra do Egito que se entende pelo ‘jardim de Deus’. Semelhantemente se lê em Moisés:
“Ló levantou os seus olhos e viu toda a planície do Jordão, que era toda abundante de águas, como o jardim de Jehovah, como a terra do Egito, que vem a Zoar” (Gn. 13:10).
[14] Tal como acima, em Ezequiel, o homem natural, quanto ao seu entendimento, também é descrito por Senaqueribe, encarregado do rei da Assíria, mas pelas blasfêmias, nesses termos:
“Pela mão de teus emissários fizeste ignomínia ao Senhor, e disseste: Pela multidão de meus carros eu subi à altura dos montes, aos lados do Líbano, onde cortarei a altura dos seus cedros, a escolha de seus abetos, e virei à pousada de sua extremidade, ao campo fértil de sua floresta. Eu cavei e bebi águas estranhas, e secarei com a sola dos meus passos todos os rios do Egito” (2 Re. 19:23, 24).
Por essas palavras são significadas coisas semelhantes às que estão na passagem citada acima, a saber, as coisas racionais dos homens da igreja formadas pelos conhecimentos verdadeiros e iluminadas pelo Divino espiritual, as quais, todavia, o rei da Assíria – que aqui significa o racional pervertido – quis destruir, pois fez guerra a Ezequias, rei de Judá. Como, porém, os blasfemou e ameaçou destruir, da primeira à última, todas as coisas da igreja, a qual é formada no homem pelo espiritual em seu racional e natural, por isso naquela noite foram feridos pelo anjo de Jehovah ‘cento e oitenta e cinco mil’ (vers. 35). Pelo ‘multidão de carros do rei da Assíria’ são significados aí os falsos da doutrina; pela ‘altura dos montes, aos lados do Líbano’, aonde quis subir, são significados todos os bens e veros da igreja, os quais quis destruir; pela ‘altura dos cedros’ e pela ‘escolha de seus abetos’, os quais quis cortar, são significados os veros racionais e naturais quanto à percepção; pela ‘floresta de campo fértil’ são significados os conhecimentos; pelos ‘rios do Egito’, que secaria com a sola dos passos, é significado o conhecimento do homem natural de origem espiritual, que aniquilaria e destruiria por seu sensual; a ‘sola dos passos do rei da Assíria’ é o sensual e, daí, o raciocínio, que vem somente das falácias; os ‘rios do Egito’ são a inteligência do homem natural pelos conhecimentos que são de origem espiritual, quando aplicados para confirmar os veros da igreja que são espirituais.
[15] Visto que todo homem em quem a igreja é implantada deve primeiramente ser instruído nos conhecimentos (pois sem a instrução do homem natural pelos conhecimentos, que também são as várias experiências advindas das coisas terrenas e do convívio, o homem não pode se tornar racional, e se não se tornar racional não pode se tornar espiritual, porque o racional do homem se conjunta de uma parte com o espiritual, isto é, com o céu, e de outra parte com o natural, isto é, com o mundo), e como a igreja devia ser instituída entre os filhos de Israel, por isso o homem natural com eles devia ser primeiramente instruído, o que se fazia nos veros naturalmente e também cientificamente compreendidos. Para que isto fosse representado e significado, aconteceu que Abrahão, cuja descendência iria representar a igreja e a sua cabeça mesma,
Peregrinou no Egito com sua esposa e ali ficou por algum tempo (Gn. 12:10 e seq.),
e, depois,
Jacob, com os seus filhos, que então foram chamados filhos de Israel, foram por mandado ao Egito e habitaram em Goschen, que era a melhor das terras do Egito, e ali permaneceram por muito tempo (Gn. 46 e seq.),
e isto a fim de serem instruídos científica e naturalmente nos veros, antes de o serem espiritualmente.
[16] Pois cada um adquire o racional para si por meio de veros científica e naturalmente compreendidos, no que o espiritual pode influir e operar. Com efeito, o homem recebe a luz do céu, que é a luz espiritual, pelo racional, que é do seu entendimento, e pelo racional iluminado pelo espiritual considera as cognições e os conhecimentos e dentre eles escolhe os que concordam com os genuínos veros e bens do céu e da igreja, que são espirituais, e rejeita os que discordam. Assim o homem funda em si a igreja. Por isso se diz, a respeito de Abrahão e de Jacob, que, por causa da fome na terra de Canaan, foram ao Egito para peregrinarem ali. Diz-se ‘por causa da fome’ porque a ‘fome’ significa a falta de cognições do vero e do bem, e também o desejo por estes, e ‘peregrinar’ significa, na Palavra, ser instruído.
[17] Por aí é evidente o que se entende por estas palavras em David:
“Fizeste sair a videira do Egito, expeliste as nações, plantaste-a, limpaste diante dela, e fizeste enraizar as suas raízes, para que enchesse a terra;... enviaste as suas ramagens até o mar, e até o rio os seus rebentos” (Sl. 80:8, 9, 11);
pela ‘videira saída do Egito’ é significada a igreja que os filhos de Israel representaram; por ‘expelir as nações’ são significados os males do homem natural, que são expelidos pelos veros; por ‘plantá-la’, ‘limpar diante dela’ e ‘fazer enraizar suas raízes’ é significada a instrução segundo a ordem, isto é, que sejam imbuídos nas cognições e nos conhecimentos, em seguida que estejam no deserto e sejam tentados, e depois sejam introduzidos na terra de Canaan, isto é, na igreja. Essas coisas, em sua ordem, são significadas por ‘plantaste-a, limpaste diante dela, fizeste enraizar as suas raízes, para que enchesse a terra’. ‘Enviar as suas ramagens até o mar’ significa o incremento e a extensão da inteligência até os últimos do bem e do vero da igreja, e por ‘enviar seus rebentos até o rio’ é significado até o racional. (Que pelo ‘rio’, a saber, o Eufrates, seja significado o racional, vê-se acima, n. 569).
[18] Em Oséias:
“Quando Israel era menino, o amei, e do Egito chamei o Meu filho” (Os. 10:1);
por ‘Israel’, no sentido espiritual, é significada a igreja e, no sentido supremo, o Senhor, Que, assim como é tudo do céu, também é tudo da igreja. E como os filhos de Israel iriam representar a igreja, e era segundo a ordem Divina que primeiramente fossem instruídos em coisas tais que serviriam ao racional e, por este, ao espiritual, por isso primeiramente peregrinaram no Egito, depois foram levados ao deserto, para que sofressem tentações e por elas fosse domado o homem natural, pois o homem não se torna racional a menos que os conhecimentos vazios e falsos sejam removidos e assim seja limpo o homem natural, o que se faz principalmente pelas tentações.
[19] Como por ‘Israel’ se entende, no sentido supremo, o Senhor, por isso Ele também, quando criança, foi levado ao Egito, segundo este relato em Mateus:
“Um anjo do Senhor apareceu em sonho a José, dizendo: Levanta, toma o Menino e foge para o Egito, e ficai ali até quando eu disser;... ele se levantou, tomou o Menino e Sua mãe de noite, e partiu para o Egito, e esteve ali até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que foi dito... pelo profeta: Do Egito chamei o Meu filho” (Mt. 2:13-15).
Por essas coisas era também significada a primeira instrução do Senhor, pois o Senhor foi instruído como qualquer outro homem, mas por Seu Divino recebeu todas as coisas mais inteligente e sabiamente do que todos os outros. A ida para o Egito, aqui, somente representou a instrução, pois como todas as coisas da igreja representativa Israelita e Judaica visavam o Senhor, por isso Ele as representou e realizou em Si, pois assim cumpriu todas as coisas da Lei. Porquanto as coisas representativas eram os últimos do céu e da igreja, e todas as coisas anteriores, que são as racionais, espirituais e celestes, entram nas últimas e estão nelas, por isso por elas o Senhor este nos últimos. E como nos últimos reside toda força, por isso dos primeiros pelos últimos Ele subjugou todos os infernos e repôs em ordem todas as coisas nos céus. Daí era que toda a vida do Senhor no mundo foi representativa, até mesmo todas as coisas que são relatadas nos evangelhos sobre a Sua paixão, as quais representavam a qualidade da igreja então, contra o Divino e contra os bens e veros do céu e da igreja.
[20] Por aí se pode ver o que se entende pelo ‘Egito’, onde se trata da igreja a ser instaurada pelo Senhor, nas passagens seguintes. Em Isaías:
“Assim disse Jehovah: O labor do Egito e as mercadorias de Cush e dos sabeus, varões de estatura [longitudinis], passarão para Ti, e para Ti serão; irão após Ti, em grilhões passarão, de modo que se curvem a Ti, orem a Ti; tão somente em Ti está Deus, e ninguém além de Deus” (???) (Is. 45:14).
Essas palavras são a respeito do Senhor, de Quem se trata em todo esse capítulo. Pelo ‘labor do Egito’ e pelas ‘mercadorias de Cush e dos sabeus’ é significado o prazer do amor natural pela aquisição de cognições do vero e do bem; as cognições mesmas são significadas pelos ‘sabeus’, que são chamados ‘varões de estatura’ por causa do bem, pois a ‘estatura’ [longitudo] significa o bem e sua qualidade, e a ‘largura’ o vero e a sua qualidade. Que eles hão de chegar à igreja e adorarão e reconhecerão o Senhor é significado por ‘passarão para Ti, para ti serão, e curvar-se-ão a Ti’; que o homem natural neles servirá ao espiritual e, assim, ao Senhor, é significado por ‘em grilhões passarão’, pois ‘andar em grilhões’ se diz daqueles em quem são restringidas as cobiças que são do homem natural. Que reconhecerão que só o Senhor é Deus entende-se por ‘a Ele orarão; tão somente n’Ele está Deus, e ninguém além de Deus’ (???).
[21] Em David:
“Virão os gordos do Egito, Cush apressará suas mãos a Deus. reinos da terra, cantai a Deus, salmodiai ao Senhor’ (Sl. 68:31, 32);
pelos ‘gordos do Egito’ são significados os gentios, que estão na afeição de conhecer os veros, e por ‘Cush’ são significados os que os recebem pelo prazer do homem natural. Que ‘Cush’ signifique isto, pode-se ver por outras passagens onde Cush é citada ( como Gn. 2:13; Sf.. 3:5, 9, 10; Dan. 11:43); que os gentios hão de receber os veros e bens do céu e da igreja vindos do Senhor é significado por ‘os reinos da cantarão a Deus e salmodiarão ao Senhor’.
[22] Em Oséias:
“Com honra virão do Egito como ave, e da terra da Assíria como pomba, e os farei habitar sobre as suas casas” (Os. 11:11).
Essas palavras, também, são a respeito do Senhor, que instauraria a igreja entre os gentios. Diz-se ‘como ave do Egito’ porque a ‘ave’ significa os pensamentos pelos verdadeiros conhecimento, e ‘como pomba da terra da Assíria’ porque a ‘pomba’ significa o bem racional oriundo do espiritual; a ‘Assíria’ mesma é o racional; por ‘fazer habitar sobre suas casas’ são significados os interiores da mente formados pelos veros pelos do bem, assim protegidos da infestação dos falsos do mal.
[23] Em Isaías:
“Acontecerá naquele dia que Jehovah sacudirá da espiga desde o rio até o rio do Egito; e vós sereis colhidos, um ao outro, ó filhos de Israel; além disso, acontecerá que naquele dia se tocará uma grande corneta, e virão os que perecem na terra da Assíria, e os expulsos da terra do Egito, e curvar-se-ão a Jehovah no monte da santidade, em Jerusalém” (Is. 27:12, 13);
‘naquele dia’ significa o advento do Senhor; ‘da espiga desde o rio até o rio do Egito’, que Jehovah sacudirá, significa todo vero racional e conhecimento todo conhecimento, que servirão ao espiritual; diz-se ‘espiga’ porque ela contém o grão, pelo qual é significado o vero e o bem que servem de nutrimento ao homem espiritual. A convocação à igreja pelo Senhor é significada por ‘naquele dia se tocará uma grande corneta’; por ‘virão os que perecem na terra da Assíria e os expulsos da terra do Egito’ é significado que hão de vir à igreja aqueles que de outro modo pereceriam pelos raciocínios oriundos de conhecimentos aplicados para confirmar os falsos; que eles adorarão o Senhor e deles a igreja consistirá é significado por ‘curvar-se-ão a Jehovah no monte da santidade, em Jerusalém’; ‘monte de santidade’ significa a igreja quanto ao bem da vida, e ‘Jerusalém’ a igreja quanto ao vero da doutrina. De fato, essas coisas se dizem a respeito dos filhos de Israel, que se tornaram cativos na Assíria e no Egito, mas pelos ‘filhos de Israel’, aí e também em outras passagens, entendem-se as nações, das quais a igreja consiste, e pelo seu ‘cativeiro’ na Assíria e no Egito é significado o cativeiro espiritual, que o homem tem pelos falsos da religião.
[24] Em Zacarias:
“Trá-los-ei de volta da terra do Egito, e da Assíria os ajuntarei, e à terra de Gileade e ao Líbano os levarei...; passará por mar de angústia, mas ferirá as ondas no mar; ... e será abatida a soberba da Assíria, e o cajado do Egito se retirará” (Zc. 10:10, 11).
Também essas palavras dizem respeito à restauração da igreja pelo Senhor. ‘Trazer de volta da terra do Egito’ e ‘ajuntar da Assíria’ significam coisas semelhantes às que foram explicadas logo acima, em Isaías; pela ‘terra de Gileade’ e pelo ‘Líbano’ são significados os bens e veros da igreja no homem natural; ‘passará pelo mar de angústia, mas ferirá as ondas no mar, e será abatida a soberba da Assíria, e o cajado do Egito se retirará’ significa que serão dispersos os males e falsos do homem natural, e os raciocínios pelos conhecimentos que os confirmam; ‘passar por mar de angústia’ significa as tentações, as ‘ondas’ significam os falsos e males; ‘soberba da Assíria’ significa os raciocínios pelo orgulho da própria inteligência, e ‘cajado do Egito’ o conhecimento que confirma.
[25] Em Ezequiel:
“Ao fim de quarenta anos ajuntarei o Egito desde os povos entre os quais foram dispersos... e os trarei de volta à terra de Pathros, à terra de sua negociação, para que sejam ali um reino humilde, para que não te exaltes mais sobre as nações; e os diminuirei, para que não dominem nas nações” (Ez. 29:13);
pelo ‘Egito’ aqui é significada a igreja naqueles que estão na vida moral pelo lume natural; as tentações que eles hão de sofrer, para que o homem natural não domine sobre o espiritual, é significada por ‘quarenta anos’; os conhecimentos pelos quais eles confirmaram os falsos são significados pelo ‘Egito’ que Jehovah ‘ajuntará desde os povos entre os quais foram dispersas; a iluminação deles pelas cognições do vero é significada por ‘trá-los-ei de volta à terra de Pathros’, que é chamada ‘a terra de sua negociação’ por causa das cognições que adquiriram para si, pois ‘negociar’ significa adquirir e comunicar cognições. Para que os conhecimentos do homem natural não se elevam e pela exaltação façam mal aos veros e bens da igreja e dominem sobre eles é significado por ‘serão um reino humildo, para que não te exaltes mais sobre as nações, e os diminuirei, para que não dominem sobre as nações’; por ‘nações’ na primeira ocorrência são significados os veros da igreja, e por ‘nações’ na ocorrência posterior, os seus bens.
[26] Em Zacarias:
“Todos os que restarem de todas as nações virão contra Jerusalém subirão de ano a ano para adorar o Rei Jehovah Zebaoth, e para celebrar a festa dos tabernáculos; ...quem não subir... sobre eles não haverá chuva; e se uma família do Egito não subir, nem vir, nem estiver com eles, haverá a praga com a qual Jehovah ferirá as nações” (Zc. 14:16-18).
Essas palavras, também, são a respeito do Senhor e da instauração da igreja por Ele. Pelo ‘Rei Jehovah Zebaoth’, a Quem hão de adorar, entende-se o Senhor; pela ‘festa dos tabernáculos’ é significada a implantação do bem pelos veros; que não haverá influxo do vero e do bem proveniente do Senhor naqueles que não subirem à igreja d’Ele é significado por ‘quem não subir, sobre eles não haverá chuva’; que aqueles que estão no lume natural pelos conhecimentos somente, e nos quais o bem não pode ser implantado pelos veros, estarão em todo gênero de males e falsos, é significado por ‘se uma família do Egito não subir, haverá a praga com a qual Jehovah ferirá as nações’.
[27] Em Isaías:
“Eu, Jehovah teu Deus, o Santo de Israel, o teu Salvador, dei por tua expiação o Egito, em teu lugar Cush e Seba... darei o homem em teu lugar, e o povo por tua alma” (Is. 43:3, 4).
Essas, também, são a respeito do Senhor e da redenção daqueles que O reconhecem e, por afeição, recebem d’Ele os veros. A redenção é significada por ‘expiação’, ‘em teu lugar’ e ‘por tua alma’; a afeição natural de conhecer os veros pela afeição natural é significada por ‘Egito, Cush e Seba’; a inteligência deles daí é significada por ‘homem’ e a igreja constituída por eles, por ‘povo’.
[28] Visto que pelo ‘Egito’ é significado o homem natural, e toda inteligência espiritual do homem se finda e se funda no homem natural e nas suas cognições e nos seus conhecimentos, por isso sem estes o homem não é inteligência nem sábio, e nem mesmo é racional, pois o homem natural age com o homem natural como um só, assim como a causa com o efeito, e agem como um só pelas correspondências. Daí é que nos tempos antigos, quando a igreja representativa também havia no Egito, o rei do Egito, ou o faraó, foi chamado
“Um filho sábio” e “um filho do reino de antiguidade” (Is. 19:21),
e o Egito
“Pedra angular das tribos” (vers. 13);
pois pela ‘tribo’ foram significados todos os veros e bens da igreja em conjunto, e pela ‘pedra angular’ foi significado o seu fundamento.
[29] Por isso também se diz de Salomão, por quem foi representado o Senhor quanto ao reino celeste e quanto ao reino espiritual,
Que sua sabedoria foi maior “do que a sabedoria de todos os filhos do oriente, e mais do que toda a sabedoria dos egípcios” (1 Re. 4:30);
pelos ‘filhos do oriente’ se entendem todos os que estiveram naquele tempo nas cognições do vero e do bem e por elas se tornaram sábios; e pelos ‘egípcios’ se entendem todos os foram eruditos pelos conhecimentos, principalmente pela ciência das correspondências e, daí, estiveram na inteligência. Por isso também os conhecimentos dos egípcios foram referidos como ‘ocultos de ouro e de prata’ e ‘coisas desejáveis’, em Daniel:
O rei do setentrião “estenderá suas mãos às terras, nem a terra do Egito escapará; ele dominará sobre os ocultos de ouro e de prata e sobre todas as coisas desejáveis do Egito” (Dn. 11:42, 43).
[30] Por isso, também, quando os filhos de Israel saíram do Egito, foi-lhes ordenado que
Pedissem dos egípcios vasos de ouro e de prata, e vestimentas, coisas que assim eles arrebataram do Egito (Êx. 12:35, 36);
pelos ‘vasos de ouro e de prata’ e pelas ‘vestes’ são significados os conhecimentos e as cognições do vero e do bem, que foram arrebatados do Egito, porque as tinham aplicado para confirmar males e falsos e os converterem em coisas idolátricas e magias. Por isso, como os egípcios foram privados disto, e assim se tornaram meramente naturais, foram logo submersos no mar de Suph. Por aí era representava a sorte daqueles que têm abundantes conhecimentos para confirmar males e falsos, pois são privados da cognição do vero e bem após a morte, e quando são privados disto, são lançados no inferno, o que também foi representado pela submersão dos egípcios no mar de Suph.
[31] Como o ‘Egito’ significa o conhecimento do qual o homem tem a inteligência, por isso se diz, onde se trata de Tiro,
Que de linho fino e de bordado do Egito fora a expansão, que lhe seria por signo (Ez. 27:7);
por ‘Tiro’ são significadas as cognições do vero, e por ‘linho fino e bordado do Egito’ é significado conhecimento oriundo do vero espiritual; ‘bordado’ é o conhecimento, e ‘linho fino’ o vero espiritual; ‘expansão’ e ‘signo’ significam a manifestação, pois os veros espirituais são manifestos pelos conhecimentos, porque por eles aparecem à vista e à percepção do homem natural.
[32] Visto que todos os conhecimentos que servem ao homem espiritual para confirmação das verdades são provenientes do Senhor, a saber, toda aplicação deles para se confirmarem os veros e bens do céu e da igreja, por isso
José foi levado ao Egito e ali se tornou dominador de toda a terra (Gn. 41),
pois por ‘José’, no sentido supremo, entende-se o Senhor quanto ao Divino espiritual e, daí também, o vero da doutrina, que se funda nos conhecimentos do homem natural (como acima se disse, n. 448). E visto que o homem natural ou o natural do homem deve estar subordinado ao espiritual, para que lhe possa servir para confirmar e para executar os arbítrios do homem espiritual, por isso José, por causa de sua representação, tornou-se senhor e dominador do Egito, e sob seus auspícios o Egito teve grão ou frumento em abundância, a ponto de com isto serem nutridas as regiões vizinhas e a própria terra de Canaan.
[33] Visto que Salomão representou o Senhor quanto a ambos os reinos, tanto o celeste quanto o espiritual, e todos os que são desses reinos estão em inteligência e em sabedoria pelas cognições do vero e do bem e pelos conhecimentos que os confirmam, por isso
Salomão “tomou a filha do faraó por esposa, e a trouxe à cidade de David” (1 Re. 3:1),
E, depois, também edificou para a filha do faraó uma casa junto ao pórtico (1 Re. 7:8),
pelo que também foi representado que o conhecimento, sobre o qual se funda toda inteligência e sabedoria, é significado pelo ‘Egito’ num sentido bom. E visto que cada homem da igreja é espiritual, natural e racional, por isso Salomão edificou três casas: a casa de Deus, ou o templo, em lugar do espiritual; a casa da floresta do Líbano, em lugar do racional (pois o ‘cedro’ e, daí, o ‘Líbano’ significa o racional), e a casa da filha do faraó, em lugar do natural. Esses arcanos não se mostram no sentido histórico da Palavra, mas, não obstante, estão ocultos em seu sentido espiritual.
[34] Até aqui se tratou da significação do ‘Egito’ num sentido bom; segue-se agora que se tratará também da significação do ‘Egito’ num sentido mau ou oposto. Neste sentido, o ‘Egito’ significa o homem natural separado do espiritual, ou verdadeiro conhecimento separado do bem espiritual, conhecimento esse que em si é o falso, ou, o que é o mesmo, da fé separada da caridade, fé essa que em si não é fé. Com efeito, o homem nasce natural e primeiro recebe do mestre e dos pais o conhecimento; depois o recebe pela leitura de livros e, ao mesmo tempo, pela vida no mundo. A menos que o homem se torne espiritual, isto é, nasça de novo, ele então aplica os conhecimentos que recebeu para confirmar os apetites e as volúpias do homem natural, isto é, os seus amores, que são todos contra a ordem Divina. É esse homem natural que é significado pelo ‘Egito’ no sentido oposto, como se pode ver pelas passagens que se seguem.
[35] Em Ezequiel:
“Porquanto” faraó “se elevou na altura, e pôs seu topo... entre os [ramos] espesso, e seu coração se elevou na sua altura, entregá-lo-ei nas mãos do forte das nações; ... conforme a sua impiedade o lancei fora; por isso os estrangeiros o cortarão, os violentos das nações, e abatê-lo-ão; sobre montes e vales cairão os seus ramos; ... pelo que desceram de sua sombra todos os povos da terra, e o abandonaram. Sobre a sua ruína habitarão todas as aves dos céus, e sobre os seus ramos estarão todas as feras do campo. ... Todos serão entregues à morte, à terra inferior, no meio dos filhos do homem, aos que descem à cova. Naquele dia, no qual há de descer ao inferno ... cobrirei sobre ele o abismo, e reterei os seus rios, para que sejam tapadas as grandes águas; e enegrecerei sobre ele o Líbano, e todas as árvores do campo desmaiarão sobre ele. A quem te tornaste semelhante em glória e em grandeza entre as árvores do Éden? quando te tiveres feito descer com as árvores do Éden à terra inferior, no meio de incircuncisos te deitares com os traspassados à espada. Este é o faraó e toda a sua multidão” (Ez. 31:10-18);
pelo ‘faraó’ é significado o mesmo que pelo ‘Egito’, a saber, o homem natural quanto ao conhecimento e à inteligência daí. O orgulho da própria inteligência pelo conhecimento se entende por ‘elevou-se em altura, e pôs seu topo entre os espessos’ e ‘elevou-se o seu coração em altura’; pelos ‘espessos’ são significados os conhecimentos do homem natural; que os conhecimentos sejam aplicados para confirmar as cobiças do mal e do falso é significado por ‘entregá-lo-ei na mão do forte das nações’; o ‘forte das nações’ significa o falso do mal. Que os falsos do mal o destruirão é significado por ‘cortá-lo-ão os estrangeiros, os violentos das nações abatê-lo-ão’.
[36] Que todos os verdadeiros conhecimentos sejam dispersos pelos males e falsos é significado por ‘sobre montes e vales cortarão os seus ramos’; que todos os veros da igreja sejam desviados é significado por ‘descerão de sua sombra todos os povos da terra, e o abandonarão’; que em lugar destes sucederão cognições e afeições do falso é significado por ‘sobre a sua ruína habitarão todas as aves dos céus, e sobre os seus ramos estarão todas as feras do campo’; que todas as coisas sejam condenadas e infernais é significado por ‘todos serão entregues à morte, à terra inferior, no meio dos filhos do homem, aos que descem à cova; ‘filhos do homem’ são os que estão na própria inteligência, e ‘cova’ é onde estão os que se acham nos falsos da doutrina; a retenção para que não entrem quaisquer verdadeiros conhecimentos e coisas racionais é significado por ‘cobrirei sobre ele o abismo, e reterei os seus rios’; que tampouco entre os veros espirituais é significado por ‘para que sejam tapadas as grandes águas’; que ele não tenha o racional é significado por ‘enegrecerei sobre ele o Líbano’.
[37] Que tampouco haja quaisquer cognições do vero que são da igreja é significado por ‘todas as árvores do campo desmaiarão sobre ele’; que não tenha mais entendimento algum do vero, nem percepção alguma das cognições do bem, por causa do orgulho da própria inteligência, é significado por ‘a quem te tornaste semelhante em glória e em grandeza entre as árvores do Éden?’; como as cognições do bem se tornaram completamente pervertidas por aplicações aos males é significado por ‘quando te tiveres feito descer com as árvores do Éden à terra inferior’; as ‘árvores do Éden’ são as cognições do bem oriundas da Palavra, as quais o homem natural perverte e falsifica. Que aqueles que em si extinguiram todo vero pela fé separada da vida de caridade estarão entre os que se acham no inferno é significado por ‘quando no meio de incircuncisos te deitares, entre os traspassados à espada’; pelos ‘traspassados à espada’ se entendem na Palavra aqueles que pelos falsos extinguiram em si os veros. Que todas essas coisas sejam ditas a respeito do homem natural privado da luz vinda do homem espiritual é significado por ‘este é o faraó e toda a sua multidão; ‘faraó’ é o homem natural, e ‘sua multidão’ é todo conhecimento aí.
[38] No mesmo:
“Filho do homem, profetiza e diz: ... Gemei: Ai, que dia!... Dia de nuvem, tempo das nações será, no qual virá a espada ao Egito... e tomarão a sua multidão, e arruinarão as suas fundações... e cairão os que sustentam o Egito, e descerá a soberba de sua força, desde a torre de Sevene, cairão nela à espada... Então serão devastados no meio de terras devastadas, e as suas cidades estarão no meio das cidades desoladas. Para que conheçam que Eu sou Jehovah, quando eu puser fogo ao Egito, para que sejam quebrados todos os seus auxiliadores;... e fartei cessar a multidão do Egito pelas mãos de Nebuchadnezar, rei de Babel, ele e seu povo com ele, os violentos das nações, que serão trazidos para destruírem a terra; e desembainharão sua espada contra o Egito, para encherem a terra de traspassados. Então farei dos rios uma aridez, e venderei a terra às mãos dos estrangeiros, e devastarei a terra e a sua plenitude pelas mãos dos estrangeiros; ... não haverá mais príncipe da terra do Egito;... porei fogo ao Egito, e dispersarei o Egito entre as nações, e os espalharei nas terras” (Ez. 30:1 ao fim).
Essas palavras foram tomadas resumidamente desse capítulo. É uma lamentação sobre a devastação da igreja pelos falsos que favorecem os males que procedem do homem natural, pois dele, separado do espiritual, brotam todos os males e falsos daí, que pervertem e destroem os veros e bens da igreja. A lamentação sobre essa devastação é significada por ‘Gemei: Ai, que dia! Dia de nuvem, tempo das nações será’; ‘dia de nuvem’ é o estado da igreja por causa dos veros não compreendidos, por conseguinte, por causa dos falsos; ‘tempo das nações’ é o estado da igreja por causa dos males; que o falso destruirá todo o homem natural e todas as coisas que há aí, pela aplicação aos males, é significado por ‘virá a espada ao Egito, e tomarão sua multidão, e arruinarão as suas fundações’.
[39] Que não haverá confirmações e corroborações do vero pelos conhecimentos do homem natural é significado por ‘cairão os que sustentam o Egito, e descerá a soberba de sua força’; que os falsos destruirão o entendimento do vero é significado por ‘desde a torre de Sevene, cairão nela à espada’; que perecerão todas as coisas da igreja e todas as coisas da doutrina da igreja é significado por ‘então serão devastados no meios de terras devastadas, e suas cidades no meio das cidades desoladas’. As más cobiças do homem natural são significadas pelo ‘fogo’ que Jehovah porá ao Egito. Que não haja mais confirmações do vero pelo homem natural é significado por ‘para que sejam quebrados todos os seus auxiliadores’; que as cobiças do amor e as falsidades daí devastarão é significado pelas ‘mãos de Nebuchadnezar, rei de Babel, ele e seu povo’.
[40] Que assim a igreja será devastada pelos falsos do mal que farão violência ao bem da caridade e aos veros da fé é significado por ‘os violentos das nações serão trazidos para destruírem a terra, e desembainharão sua espada contra o Egito, para encherem a terra de traspassados’; que, assim, o vero não seja compreendido é significado por ‘farei dos rios uma aridez’. Como em lugar do bem haverá o mal, e em lugar do vero o falso na igreja é significado por ‘venderei a terra às mãos dos maus, e devastarei a terra e a sua plenitude pelas mãos dos estrangeiros; que não haverá vero algum que seja o principal e, daí, vero algum da vida procedente do Senhor é significado por ‘não haverá mais príncipe da terra do Egito’; que nada senão males do amor de si ocuparão o homem natural é significado por ‘porei fogo ao Egito, e dispersarei o Egito entre as nações’; que daí venha a dissipação de tudo da igreja é significado por ‘espalhá-los-ei nas terras’.
[41] Em Isaías:
“Profecia das bestas do meio-dia, numa terra de angústia e de opressão; o leão jovem e o leão velho diante deles; a víbora e a serpente voadora carregam sobre o ombro dos jumentos as suas riquezas, e sobre o dorso dos camelos os seus tesouros, a um povo que não aproveitará, (???) e o Egito, vaidade e vazio, os ajudará” (???) (Is. 30:6);
pelas ‘bestas do meio-dia’ são significadas as cobiças que procedem do homem natural, as quais extinguem a luz que o homem da igreja deve ter da Palavra; pela ‘terra de angústia e de opressão’ é significada a igreja, onde não haverá bem da caridade nem vero da fé; pelo ‘leão jovem’ e pelo ‘leão velho’ diante deles é significado o poder do falso de destruir o vero e o bem da igreja; pela ‘víbora’ e pela ‘serpente voadora’ é significado o sensual que raciocina astuta e sagazmente; ‘carregam sobre o ombro dos jumentos as suas riquezas, e sobre o dorso dos camelos os seus tesouros’ significam os conhecimentos sensuais e naturais do homem, dos quais se concluem a respeito de todas as coisas; ‘riquezas’ e ‘tesouros’ são as cognições do vero e do bem da Palavra, mas aqui são os conhecimentos falsos, porque vêm da própria inteligência; ‘jumentos’ são os que pertencem ao homem sensual, e ‘camelos’ os que pertencem ao natural; pelo ‘Egito’, que é ‘vaidade e vazio’ são significados ambos, tanto o sensual quanto o natural, que, considerados em si mesmos, são desprovidos de bem e de veros.
[42] No mesmo:
“Ai dos que descem ao Egito em busca de auxilio, e em cavalos se estribam, e confiam em carros, por serem muitos, e em cavaleiros, por ser muito fortes, mas não olham para o Santo de Israel, e a Jehovah não buscam;... porque o Egito é homem e não Deus, e seus cavalos são carne, e não espírito” (Is. 31:3).
Por essas palavras se descreve o estado daqueles que querem ser sábios por si mesmos, assim, pela própria inteligência, nas coisas que são do céu e da igreja, e não pelo Senhor. Como esses são meramente naturais, e por isso tiram todas as coisas das falácias dos sentidos e dos conhecimentos aplicados ao mal, pervertem e falsificam os veros e bens da igreja, pelo que se diz deles: ‘Ai dos descem ao Egito em busca de auxílio, e não olham para o Santos de Israel, e a Jehovah não buscam’. As coisas imaginárias que vêm das falácias dos sentidos são significadas pelos ‘cavalos do Egito’ em que se estribam; os falsos da doutrina confirmados por conhecimentos em muita abundância são significados por ‘confiam em carros, por serem muitos’; e os raciocínios daí, com os quais combatem os veros, são significados pelos ‘cavaleiros’ em que confiam, por serem muito fortes. Que o homem natural por si mesmo não entenda as coisas Divinas é significado por ‘o Egito é homem, e não Deus’; que a inteligência seja proveniente do proprium, no qual não há vida, é significado por ‘seus cavalos são carne, e não espírito’; os ‘cavalos do Egito’ são as coisas imaginárias, que em si são mortas, porque são falácias; a ‘carne’ é o proprium do homem, e ‘espírito’ é a vida proveniente do Senhor.
[43] Em Jeremias:
“Contra o Egito, contra o exército do faraó... o rei do Egito, que estava no rio Eufrates... a quem Nebuchadnezar, rei de Babel, feriu; ... Que é esse que sobre como rio, cujas águas se agitam como rios? O Egito sobe como um rio, e como rios se agitam as águas, pois diz: Subirei, cobrirei a terra, destruirei a cidade e os que habitam nela. Subi, ó cavalos! e enlouquecei, ó carros! e saí, ó fortes!... a espada comerá e ficará saciada, e ficará embriagada com o sangue deles. ... Sobe a Gileade e toma o bálsamo, ó virgem filha do Egito; em vãos multiplicaste os remédios; não há cura para ti” (Jr. 46:2, 7-11, e, além disso, 14-26).
Aqui, também, pelo ‘Egito’ é significado o homem natural, com seus conhecimentos, separado do espiritual, o que acontece pelo orgulho da própria inteligência, a qual destrói os veros e bens da igreja pelos raciocínios oriundos dos conhecimentos. Isto é evidente por cada uma destas coisas, vistas no sentido espiritual. Com efeito, pelo ‘exército do rei do Egito que estava no rio Eufrates’ são significados os conhecimentos falsamente aplicados e os raciocínios por eles; ‘a quem Nebuchadnezar, rei de Babel, feriu’ significa a sua destruição pelo orgulho da própria inteligência; ‘quem é esse que sobe como rio, cujas águas se agitam como rios?’ significa a própria inteligência e os seus falsos, no esforço de destruir os veros da igreja; ‘o Egito sobe como rio, e como rios agitam-se as águas’ significa o homem natural que por si ou pelo proprium raciocina contra os veros da igreja; ‘pois diz: Subirei, cobrirei a terra, destruirei a cidade e os que habitam nela’ significa o esforço e o desejo de destruir a igreja e seus veros e bens da doutrina; ‘subi, ó cavalos, e enlouquecei, ó carros, e saí, ó fortes’ significa pelas coisas imaginárias que vêm das falácias e pelos falsos da doutrina confirmados pelos conhecimentos, pelos quais parecem a si mesmos serem fortes.
[44] ‘A espada comerá, e ficará saciada, e ficará embriagada com o sangue deles’ significa a total destruição do homem natural pelos falsos e pelas falsificações do vero; ‘sobe a Gileade e toma o bálsamo, ó filha do Egito’ significa os veros do sentido da letra da Palavra e o raciocínio e a defesa daí, pois ‘Gileade’ significa o raciocínio pelo sentido da letra da Palavra, pelo qual os falsos são confirmados, porque Gileade não ficava longe do Eufrates, e dali vinham a cera, o bálsamo e a mirra, e essa terra foi a herança dos filhos de Manassés e da meia tribo de Gade (Gn. 1:21; 37:25; Nm. 32:29; Js. 13:25). Assim, por Gileade, mais do que as outras, são significados os raciocínios pelo sentido da letra da Palavra, pelo ‘bálsamo’ é significada a aplicação e, daí, a confirmação do falso, e pela ‘filha do Egito’ a afeição do falso que é dessa igreja. ‘Em vão multiplicaste os remédios, não há cura para ti’ significa que tais coisas, por mais abundantes que sejam, em nada ajudam, porquanto os veros assim são falsificados.
[45] Em Moisés:
“Os egípcios perseguiram os filhos de Israel e vieram atrás deles, todos os cavalos do faraó, os seus carros, e os seus cavaleiros no meio do mar. ... Mas Jehovah, olhando para o acampamento dos egípcios... perturbou-os... removeu a roda dos seus carros e as águas retornaram e cobriram os carros e os cavaleiros com todo o exército de faraó” (Êx. 14:23-25, 28; 15:19, 21);
pelos ‘cavalos de faraó’ são significadas as coisas imaginárias, porque são falácias, que são os conhecimentos do entendimento pervertido aplicados para confirmar os falsos; pelos ‘seus carros’ são significados os doutrinais do falso, e pelos ‘cavaleiros’ os raciocínios daí; pela ‘roda dos carros’ é significada a faculdade de raciocinar. (Essas coisas, porém, foram explicadas nos Arcanos Celestes, n. 8208-8219, 8332-8335 e 8343).
[46] Visto que pelos ‘cavalos do Egito’ foram significadas essas coisas, por isso foi prescrito por Moisés:
“Se o povo quiser um rei, pôr-se-á sobre eles um rei que Jehovah Deus escolher do meio dos filhos de Israel; não se porá um varão estrangeiro, que não é teu irmão. Somente que não multiplique cavalos para si, nem traga o povo de volta ao Egito para que não multiplique cavalos, pois Jehovah vos disse: Não retornareis mais por este caminho. Tampouco multiplique para si esposas, para que seu coração não se desvie, nem multiplicará demais para si prata e ouro” (Dt. 17:15-17).
Ninguém pode saber o que é significado por essas palavras que foram prescritas a respeito do rei, a menos que saiba o que é significado no sentido espiritual por ‘rei’, pelos ‘filhos de Israel’, pelo ‘Egito’ e ‘seus cavalos’, como também por ‘esposas’ e por ‘prata e ouro’. Pelo ‘rei’ é significado o vero do bem; pelo ‘Egito’, o homem natural; por ‘seus cavalos’, os conhecimentos; pelas ‘esposas’, as afeições do vero e do bem, e por ‘prata e ouro’ os veros e bens da igreja e, no sentido oposto, os seus falsos e males. E como pelo ‘rei’ é significado o vero do bem, e pelos ‘filhos de Israel’ a igreja constituída pelos que estão nos veros do bem, por isso se diz: ‘Se o povo quiser, pôr-se-á sobre eles um rei que Jehovah Deus escolher do meio dos filhos de Israel; não se porá varão estrangeiro, que não é teu irmão’; pelo ‘varão estrangeiro que não é irmão’ é significada a religiosidade não concordante, por conseguinte, o falso em que não há bem.
[47] E como pelo ‘Egito’ é significado o homem natural, e pelos ‘cavalos’ os conhecimentos falsos, que são coisas imaginárias, por isso se diz: ‘Somente que não multiplique para si cavalos, nem traga o povo de volta ao Egito, para que multiplique cavalos’. Como pelas ‘esposas’ são significadas as afeições do vero e do bem, que se tornam afeições do mal e do falso quando se unem a um só varão, por isso se diz: ‘Tampouco multiplique para si esposas, para que seu coração não se desvie’. E como por ‘prata e ouro’ são significados os veros e bens da igreja, mas, aqui, os falsos e males, quando são considerados somente pelo homem natural, por isso se diz: ‘Nem multiplicará demais para si prata e ouro’. Mas, para se aproximar mais do assunto, por essas palavras foi prescrito que o vero não domine sobre o bem, o que acontece quando o homem natural domina sobre o espiritual. Que não se faça tal é significado por ‘não trará o povo de volta ao Egito e daí se multiplicassem os cavalos’, e também por ‘não terá muitas esposas’, pois ‘esposa e marido’ significam a afeição do bem correspondente à afeição do vero, correspondência essa que existe no casamento de um varão com uma só esposa, mas não com muitas. Coisas semelhantes foram mais amplamente descritas na lei do rei (1 Sm. 8:10-18). Visto que Salomão não só adquiriu para si cavalos do Egito, mas também multiplicou esposas, como também acumulou prata e ouro, por isso tornou-se idólatra, e após a sua morte o reino foi dividido.
[48] Em Isaías:
“Profecia acerca do Egito: Jehovah, que cavalga sobre uma nuvem ligeira, e vem ao Egito, pelo que serão abalados os ídolos do Egito diante d’Ele, e o coração dos egípcios se derreterá no seu meio;... fecharei o Egito na mão de um senhor duro, e um rei veemente dominará sobre eles. ... Então faltarão águas no mar, e o rio se esgotará e se secará, e os ribeiros recuarão, e... secar-se-ão os rios do Egito, a cana e o junco murcharão. ... Por isso lamentarão os pescadores, e ficarão tristes todos os que lançam o anzol no ribeiro, e os que estendem a rede sobre as faces das águas desfalecerão. Também envergonhar-se-ão os que fazem a linha de sedas, e os tecelões de cortinas. ... Como dizeis ao faraó: Eu sou filho dos sábios, filhos dos reis da antiguidade. Onde estão agora os teus sábios? para que te digam: Vai-te; e conheçam o que Jehovah determinou... a respeito do Egito. Fizeram-se insensatos os príncipes de Zoan, foram tirados os príncipes de Noph, e seduziram o Egito, a pedra angular de suas tribos;... não haverá para o Egito obra que faça cabeça e cauda, ramo e junco" (Is. 19:1-17).
Também por essas palavras, consideradas em seu sentido espiritual, pode-se ver que pelo ‘Egito’ é significado o homem natural separado de seu espiritual. O homem se torna meramente natural quando em sua vida não considera o Senhor, mas a si mesmo e o mundo. Daí ele tem o orgulho da própria inteligência, que é comum com os eruditos e perverte neles o racional, fechando a mente espiritual. Para que se saiba que o homem natural é significado pelo ‘Egito’, a própria inteligência por ‘seu rio’ e os falsos pelas ‘águas do rio’, quero explicar em série as coisas que foram citadas em sumário desse capítulo. ‘Jehovah, que cavalga sobre uma nuvem ligeira, e vem ao Egito’ significa a visitação do homem natural pelo Divino Vero natural espiritual, pois a visitação é a investigação da qualidade do homem, e a investigação se faz pelo Divino Vero; a ‘nuvem ligeira’ significa o Divino Vero natural espiritual, pelo qual se mostra a qualidade do homem quanto ao seu natural; ‘pelo que serão abalados os ídolos do Egito diante d’Ele, e o coração dos egípcios se derreterá no seu meio’ significa o amontoado e a turba dos falsos no homem natural, pelos quais há o culto, e o seu temor por causa da visitação.
[49] ‘Fecharei o Egito na mão de um senhor duro, e um rei veemente dominará sobre eles’ significa que aí reina o mal do falso e o falso do mal; o ‘senhor duro’ é o mal do falso, e o ‘rei veemente’ é o falso do mal; ‘então faltarão águas no mar, e o rio se esgotará e se secará’ significa não haver quaisquer veros no homem natural e, daí, nenhuma inteligência; ‘secar-se-ão os rios do Egito’ significa que se converterá de veros em falsos, pelo que a inteligência morrerá, por estar sem os veros oriundos da luz espiritual do homem; ‘a cana e o junco murcharão’ significa que desvanecerá toda percepção do vero e do bem pelo sentido da letra da Palavra, que de outro modo o homem sensual teria; ‘por isso lamentarão os pescadores, e ficarão tristes todos os que lançam o anzol no ribeiro, e os que estendem a rede sobre as faces das águas desfalecerão’ significa que os que ensinam e instruem em vão trabalharão para reformar o homem natural pelos veros da Palavra; ‘pescadores’ e ‘os que estendem a rede sobre as faces das águas’ significam os que ensinam e instruem os homens naturais pela Palavra, especialmente pelo sentido de sua letra; o ‘peixe’ significa as cognições daí, ‘ficarem tristes’ e ‘desfalecerem’ significa trabalhar.
[50] ‘Também envergonhar-se-ão os que fazem a linha de sedas, e os tecelões de cortinas’ significa aqueles que ensinam naturalmente os veros espirituais; ‘linha de sedas’ é o vero espiritual, ‘cortinas’ são os veros naturais de origem espiritual, e ‘fazer’ e ‘tecer’ é ensiná-los; ‘como dizeis ao faraó: Eu sou filhos dos sábios, filhos dos reis da antiguidade. Onde estão agora os teus sábios?’ significa que a sabedoria e a inteligência do homem natural oriundas do espiritual perecerão, pois o homem natural é formado para receber inteligência e sabedoria do homem espiritual, o que acontece quando um e outros agem como um só, como causa e efeito; ‘fizeram-se insensatos os príncipes de Zoan, foram tirados os príncipes de Noph’ significa que os veros da sabedoria e da inteligência da luz espiritual no homem natural se converteram em falsos de insanidade; Zoah e Noph ficavam na terra do Egito e significam a iluminação do homem natural pela luz espiritual; ‘e seduziram o Egito, a pedra angular de suas tribos’ significa que o homem natural se perverteu, no qual, todavia, são fundados todos os veros e bens da igreja; ‘não haverá para o Egito obra que faça cabeça e cauda, ramo e junco’ significa que não mais terão inteligência nem conhecimento do vero, por conseguinte, nem vero espiritual nem vero natural.
[51] Em Ezequiel:
“Filho do homem, põe as tuas faces contra o faraó, rei do Egito, e profetiza contra ele e contra todo o Egito. Fala e diz: Assim diz o Senhor Jehovih: Eis que Eu estou contra ti, faraó, rei do Egito, grande baleia que se deita no meio dos seus rios, que diz: Meu é o rio... e eu [o] fiz por mim. Por isso porei anzóis em teus queixos, e farei o peixe dos rios se apegar a tuas escamas... e te abandonarei no deserto, a ti e a todo peixe dos teus rios; sobre as faces do campo cairás, não serás recolhido nem serás ajuntado; à fera da terra e à ave do céu te dei por comida, para que conheçam todos os habitantes do Egito que Eu sou Jehovah, porque eles tinham sido um cajado de cana para a casa de Israel; quando te seguraram na mão, partiste, e lhes perfuraste todo ombro; e quando se apoiaram em ti, quebraste, e fizeste parar... todos os lombos. ... Eis que Eu trago contra ti a espada, e cortarei de ti o homem e a besta, para que a terra do Egito se torne solidão e devastação pelo que disse: O rio é meu, e eu [o] fiz. Por isso Eu estou contra ti, e contra os teus rios, e porei a terra do Egito em devastações... desde a torre Sevene até o termo de Cush... e as suas cidades... serão solidão por quarenta anos” (Ez. 29:1-12).
Também por essas palavras se descreve o homem natural privado de todo vero e bem pelo orgulho por causa do conhecimento e, daí, pela própria inteligência. Visto que o ‘faraó, rei do Egito’ significa o conhecimento do homem natural e, daí, a própria inteligência, por isso se diz: ‘Eis que Eu estou contra ti, faraó, rei do Egito, grande baleia que se deita no meio dos seus rios’; ‘grande baleia’ significa o conhecimento do homem natural em geral, aqui o conhecimento falso, e pelo ‘rio’ é significada a própria inteligência; que diz ‘Meu é o rio, e eu [o] fiz por mim’ significa que o fez de sua inteligência e não do Senhor; assim, essas palavras envolvem o orgulho da própria inteligência; ‘por isso porei anzol em teus queixos’ significa a mentira pela qual será castigado; ‘e farei o peixe dos rios se apegar às tuas escamas’ significa os conhecimentos falsos da mais baixa espécie, que vêm das falácias dos sentidos; os ‘peixes’ são os conhecimentos, as ‘escamas’ são as falácias dos sentidos, que são os conhecimentos da mais baixa espécie.
[52] ‘E te deixarei no deserto, a ti e a todo peixe dos teus rios’ significa ser despojado dos veros com todos os conhecimentos de que vem a inteligência; ‘sobre as faces do campo cairás; não serás recolhido nem serás ajuntado’ significa a religiosidade desprovida de toda coerência e restauração; ‘à fera da terra e à ave do céu te dei por comida’ significa para ser consumido pelas afeições e pelos pensamentos do falso; ‘para que conheçam todos os habitantes do Egito que Eu sou Jehovah’ significa para que saibam e creiam que todo vero e bem, mesmo no homem natural, são proveniente do Senhor; ‘porque eles tinham sido um cajado de cana para a casa de Israel’ significa a confiança nos conhecimentos do homem sensual, os quais são falácias nos homens da igreja; (que o ‘cajado de cana’ signifique essa confiança vê-se acima, n. 627); ‘quando te seguraram na mão, partiste, e lhes perfuraste todo ombro’ significa que pela fé deles todo poder do vero perece; ‘e quando se apoiaram em ti, quebraste, e fizeste parar todos os lombos’ significa que pela confiança neles perece a faculdade de receber o bem do amor.
[53] ‘Eis que trarei contra ti a espada, e cortarei de ti o homem e a besta’ significa que o falso destruirá toda inteligência do vero e a afeição do bem no homem natural; ‘para que a terra do Egito se torne solidão e devastação’ significa que daí o homem natural é desprovido de todo vero e de todo bem; ‘pelo que disse: O rei é meu, e eu [o] fiz’ significa o orgulho da própria inteligência; ‘e porei a terra do Egito em devastação, desde a torre Sevene até o termo de Cush’ significa a destruição da igreja, desde as primeiras até as últimas coisas no homem natural; ‘suas cidades serão solidão por quarenta anos’ significa os doutrinais oriundos de meros falsos, até que não haja resto algum de vero; ‘quarenta anos’ significa o período inteiro de devastação da igreja e também a duração inteira das tentações.
[54] No Segundo Livro dos Reis:
“Se estás confiado no cajado de cana esmaga, no Egito, o qual, se o varão nele se apoiar, entra-lhe em sua mão e a perfura. Assim é o faraó, rei do Egito, para todos os que confiam nele” (2 Re. 18:21);
pelo ‘cajado de cana’ e por ‘apoiar-se nele’ são significadas coisas semelhantes às que se viram logo acima. Daí também o Egito é chamado, em Davi,
“Fera da cana, congrega ção dos fortes, que dispersa os povos” (Sl. 68:30);
pela ‘fera da cana’ é significada a afeição ou a cobiça do falso que vem dos conhecimentos do homem sensual, que são falácias; eles se chamam ‘congregação dos fortes’ porque persuadem fortemente; e como dispersam os veros da igreja, por isso se diz: ‘dispersa os povos’.
[55] Em Oséias:
“Efraim será como uma pomba insensata, sem coração. Chamaram o Egito, foram para a Assíria. ... Ai deles, porque se afastaram de Mim! Devastação para eles, porque prevaricaram contra Mim. ... Os príncipes deles cairão à espada, pela indignação de sua língua. Este é o escárnio deles na terra do Egito” (Os. 7:11, 13, 16).
Aí se trata da soberba de Israel, pela qual é significado o orgulho da própria inteligência nas coisas que são da igreja. Que o ‘Egito’ signifique o homem natural e seu conhecimento vê-se pelo fato de ‘Efraim’ – do qual se trata muitas vezes neste profeta – significar o entendimento da igreja e o vero de sua doutrina no natural; (que isto seja significado por ‘Efraim’ vê-se acima, n. 440). Por isso, ‘Efraim será como uma pomba insensata, sem coração’ significa que então não há entendimento, por não haver vero nem afeição do vero e do bem. ‘Chamaram o Egito e foram para a Assíria’ significa que confiaram nos conhecimentos do homem natural e nos raciocínios daí, que enganam. ‘Ai deles, porque se desviaram de Mim’ significa a privação de todo vero por causa do recuo; ‘os príncipes deles cairão à espada’ significa que os veros primários serão destruídos pelos falsos; ‘pela indignação de sua língua. Este é o escárnio deles na terra do Egito’ significa o vitupério da doutrina pelo homem natural e o seu desprezo.
[56] No mesmo:
“Israel,... praticaste escortação sob o teu Deus... não habitarão na terra de Jehovah, e Efraim voltará ao Egito, e na Assíria comerão coisa imunda;... Eis que se foram por causa da devastação; o Egito os ajuntará, Moph os sepultará; as suas coisas desejáveis de prata, o cardo as possuirá; espinhos haverá em suas tendas” (Os. 9:1, 3, 6).
Trata-se em todo esse capítulo do entendimento perdido da Palavra, o qual é aqui ‘Efraim’. ‘Israel, praticaste escortação sob o teu Deus’ significa o vero falsificado da Palavra; ‘não habitarão na terra de Jehovah’ significa que eles não têm a vida do bem qual a que existe no céu; ‘e Efraim voltará ao Egito’ significa o entendimento perdido do vero, pelo que se tornaram naturais; ‘e na Assíria comerão coisa imunda’ significa o racional que nasce do falso do mal; ‘eis que se foram por causa da devastação’ significa a aversão ao Senhor, por causa da falsificação do vero; ‘o Egito os ajuntará’ significa que se tornaram meramente naturais; ‘Moph os sepultará’ significa a morte espiritual pela aplicação das verdades do sentido da letra Palavra aos falsos do mal; ‘as suas coisas desejáveis de prata’ significa as cognições do vero; ‘o cardo as possuirá’ significa que o mal as perverterá; ‘espinhos haverá em suas tendas’ significa o falso do mal no culto.
[57] No mesmo:
Israel “não retornará ao Egito. O assírio, este é o rei deles” (Os. 11:5);
‘Israel não retornará ao Egito’ significa que o homem da igreja espiritual não se tornará natural; ‘o assírio, este é o rei deles’ significa que então os raciocínios pelos falsos hão de dominar. O homem da igreja de espiritual se torna natural quando separa a fé da caridade, isto é, quando crê na Palavra e não vive segundo os preceitos ali, e também quando arroga a si a inteligência e não a atribui ao Senhor. Daí vem o orgulho pelo qual o homem se torna natural, pois o homem é primeiramente natural, em seguida se torna racional e, finalmente, espiritual. Quando o homem é natural, então está no Egito; quando se torna racional, está na Assíria; e quando se torna espiritual, está na terra de Canaan e, assim, na igreja.
[58] No mesmo:
“Efraim apascenta-se de vento, e segue o vento oriental; todo dia multiplica mentira e devastação; e fazem aliança com a Assíria, e o óleo é levado ao Egito” (Os. 12:1);
por ‘Efraim’ é significada a igreja na qual se perdeu o entendimento do vero; ‘apascentar-se de vento’ significa imbuir-se do falso; o ‘vento oriental’, ao qual segue, significa a sequidão e a dissipação do vero; ‘o óleo ser levado ao Egito’ significa que o bem do amor é pervertido pelos conhecimentos do homem natural. (Essas coisas, porém, foram mais amplamente explicadas acima, n. 419).
[59] Em Isaías:
“Ai dos filhos rebeldes... que fazem conselho, mas não de Mim, e que fundem a imagem fundida, mas não por Meu espírito, para acrescentarem pecado sobre pecado; que se vão para descerem ao Egito, mas à Minha boca não perguntaram; ...e para confiarem na sombra do Egito. Por isso... a força do fará tornar-se-á em vergonha, e a confiança na sombra do Egito em ignomínia” (Is. 30:1-3);
“ai dos rebeldes’ significa a lamentação sobre a danação dos que se desviam; ‘que fazem conselho mas não de Mim’ significa os pensamentos e as conclusões a respeito das coisas do céu por si mesmos e não pelo Senhor; ‘e que fundem imagem fundida mas não por Meu espírito’ significa o culto pelo falso infernal e não pelo Divino Vero; ‘que se vão para descerem ao Egito, mas à Minha boca não perguntaram’ significa pelo proprium do homem natural e não pela Palavra; ‘e para confiarem na sombra do Egito’ significa que não confiam, e têm fé em coisas tais que o homem natural sugere, o qual não está em luz alguma do céu; ‘por isso a força do fará tornar-se-á em vergonha, e a confiança na sombra do Egito em ignomínia’ significa a nula faculdade de resistir aos males pela própria inteligência, nem pelos conhecimentos do homem natural; ‘vergonha’ e ‘ignomínia’ significam o estado deles quando são tidos como vis por causa dos males.
[60] Em Jeremias:
“Deixaste a Jehovah teu Deus, no tempo em que te conduziu no caminho; ... que tens com o caminho do Egito, para beberes as águas de Schichor? e o que tens com o caminho da Assíria, para beberes as águas do rio?... por que vais diligentemente, para mudar o teu caminho? Também pelo Egito ficarás envergonhado, como te envergonhaste pela Assíria” (Jr. 2:17, 18, 36).
Essas palavras são, também, a respeito do homem da igreja que, pelos falsos da doutrina e, daí, pelos males da vida, tornou-se externo e meramente natural. ‘Deixaste a Jehovah teu Deus, no tempo em que te conduziu no caminho’ significa a aversão a que seja reformado pelo Senhor por meio dos veros que conduzem; ‘que tens com o caminho do Egito, para beberes as águas de Schichor?’ significa a instrução somente pelo homem natural, donde vêm meros falsos; ‘o que tens com o caminho da Assíria, para beberes as águas do rio?’ significa os raciocínios daí, donde vêm os falsos da fé; ‘por que vais diligentemente, para mudar o teu caminho?’ significa a forte renitência a que seja reformado e se torna espiritual; ‘também pelo Egito ficarás envergonhado, como te envergonhaste pela Assíria’ significa o estado pervertido e vil de ser conduzido pelo homem natural e pelos raciocínios daí, porque assim se é conduzido pelos falsos e males que vêm do proprium.
[61] Nas Lamentações:
“A nossa herança passou a estranhos, a nossa casa a estrangeiros; ... nossas águas por prata bebemos, por preço vem a nossa lenha; ... ao Egito demos a mão, e à Assíria, para que fôssemos saciados de pão; ... servos dominam sobre nós, não há quem nos liberte da mão deles” (Lm. 5:2, 4, 6, 8);
‘a nossa herança passou a estranhos’ significa os veros da igreja convertidos em falsos; ‘a nossa casa a estrangeiros’ significa os bens da igreja convertidos em males; ‘nossas águas por prata bebemos’ significa a instrução por nós mesmos, da qual procedem meramente falsos; ‘por preço vem a nossa lenha’ significa a instrução por nós mesmos, da qual procedem meramente males. Visto que o homem é instruído e reformado gratuitamente pelo Senhor, ou ‘sem prata e sem preço’ (Is. 55:1), por isso beber ‘por prata’ e adquirir lenha e aquecer-se ‘por preço’ significa por nós mesmos. E como sermos instruídos por nós mesmos é sermos instruídos pelo homem natural e seus conhecimentos e conclusões daí, por isso diz: ‘ao Egito demos a mão, e à Assíria, para que fôssemos saciados de pão’; pelo ‘Egito’ é significado o homem natural, de onde vêm os falsos, e pela ‘Assíria’ o homem natural que raciocina pelos falsos, de donde vêm os males. E como as coisas que são do homem natural são relativamente serviçais, pois o homem natural foi feito para servir ao espiritual, por isso, quando ele domina sobre o espiritual, então os servos dominam. Isto se entende por ‘servos dominam sobre nós, não há quem nos liberte da mão deles’.
[62] Em Jeremias:
“Se vós disserdes: Não habitaremos nesta terra... dizendo: Não, mas à terra do Egito viremos, onde não veremos a guerra, e não ouviremos a voz da trombeta, e não teremos fome de pão, e ali habitaremos;... mas, se dispuserdes as vossas faces para virem ao Egito, e vierdes para peregrinar ali, acontecerá que a espada, que vós temeis, vos apanhará ali, na terra do Egito, [e a fome, sobre a qual estais ansiosos, se vos apegará ali, no Egito] ... e ali morrereis; e será que todos os varões que dispuseram as faces para virem ao Egito, para peregrinarem ali, serão mortos à espada, de fome e de peste; não haverá restante deles ou quem escape... e estareis em maldição, em espanto e em execração, e em opróbrio, e não vereis mais este lugar” (Jr. 42:13-18 e seq.).
Nas partes históricas da Palavra, e também nas suas partes proféticas, lê-se muitas vezes que o povo israelita ardia de desejo de ‘voltar ao Egito’, e que isto lhes foi vedado; e, para que não fizessem isso, foram-lhe anunciadas pragas e punições. Mas até hoje ninguém soube a causa disso. A razão era porque os filhos de Israel deveriam representar a igreja, desde sua primeira origem até o seu fim, e a igreja é formada no homem primeiramente pelos conhecimentos e pelas cognições no homem natural, pelos quais ele é primeiramente cultivado, pois cada homem nasce natural; por isso este deve ser primeiro cultivado, para que por último sirva de base à inteligência e à sabedoria do homem. Em seguida, pelos conhecimentos e pelas cognições, que são implantadas no homem natural, o entendimento é formado, para que o homem se torne racional. Mas, para que de racional se torne espiritual, ele deve necessariamente sofrer tentações, pois o racional é domado de modo a não evocar do natural as coisas tais que favorecem as concupiscências e que o destroem. Finalmente, quando por esse caminho o homem se tornou racional, então se torna espiritual, pois o racional é o meio entre o espiritual e o natural; por isso o espiritual influi no racional e, por este, no natural.
[63] Em suma, o homem deve primeiramente enriquecer a memória com os conhecimentos, em seguida o seu entendimento é cultivado por eles e, finalmente, a vontade. A memória pertence ao homem natural, o entendimento ao racional e a vontade ao espiritual. Este é o caminho da reforma e da regeneração do homem. Por esta causa, os filhos de Israel foram primeiro levados ao Egito, depois ao deserto, para que sofressem tentações, e finalmente à terra de Canaan, pois eles deveriam representar a igreja, desde a sua primeira origem até o último fim, como foi dito. Pela estada e pela peregrinação deles no Egito foi representada a instrução do homem natural; pelas perambulações durante quarenta no deserto foram representadas as tentações, pelas quais o homem racional é formado; e pela terra de Canaan, na qual foram finalmente introduzidos, foi representada a igreja, que, considerada em si mesma, é espiritual.
[64] Todavia, aqueles que não querem ser reformados e regenerados ficam no primeiro caminho, e permanecem naturais. Por isso o filhos de Israel, que não quiseram isso, cobiçaram tantas vezes ‘voltar ao Egito’, de cuja cupidez se lê muitas vezes no Êxodo. Com efeito, eles eram naturais e dificilmente poderiam se tornar espirituais; não obstante, deviam representar as coisas que são da igreja espiritual. Daí é que eles foram conduzidos ao Egito, depois ao deserto e, finalmente, à terra de Canaan, pelo que eram representados o nascimento, a progressão e, finalmente, a instauração da igreja no homem. Por aí se pode ver agora de onde procede que tenha sido tão severamente vedado aos filhos de Israel ‘voltarem ao Egito’, pois por isso eles representariam que de homem espiritual eles se tornavam naturais, e quando o homem espiritual se torna natural, então não vê mais vero algum nem percebe o bem, mas cai em falsos e males de todo gênero.
[65] Mas, retornando à explicação destas palavras: ‘Se vós disserdes: Não habitaremos nesta terra... dizendo: Não, mas à terra do Egito viremos’ significa a aversão ao estado espiritual, em que se acham os que são da igreja, e o desejo pelo estado natural e pelas coisas que são do homem natural; ‘onde não veremos a guerra, e não ouviremos a voz da trombeta, e não teremos fomos de pão’ significa, então, nenhuma infestação pelos males e falsos e, então, nenhuma tentação; a ‘guerra’ significa a infestação e a luta provenientes dos falsos e males, e ‘não ter fome de pão’ significa não desejar o bem, o que ocorre naqueles que estão nos falsos e males, por conseguinte, naqueles que são meramente naturais; os males e falsos não os infestam, porque estão neles, e não sabem coisa alguma a respeito dos veros e bens; ‘e ali habitaremos’ significa a vida natural.
[66] ‘Mas, se dispuserdes as vossas faces para virem ao Egito, e vierdes para peregrinar ali’ significa se pelo amor desejarem a vida natural; ‘acontecerá que a espada, que vós temeis, vos apanhará ali, na terra do Egito’ significa os falsos que destroem os veros; ‘e a fome, sobre a qual estais ansiosos, se vos apegará ali, no Egito’ significa a falta das cognições do vero e do bem; ‘e ali morrereis’ significa daí a desolação da igreja e a danação; ‘e todos os varões que dispuseram as suas faces para virem ao Egito, para peregrinarem ali, serão mortos à espada, de fome e de peste’ significa coisas semelhantes às anteriores (a ‘peste’ significa a devastação de todo bem e vero); ‘não haverá restante deles ou quem escape’ significa que absolutamente nada subsiste do vero e do bem; ‘e estareis em maldição, em espanto e em execração, e em opróbrio’ significa a danação de todas as coisas; ‘e não vereis mais este lugar’ significa que não haverá mais coisa alguma da igreja neles.
[67] Em Ezequiel:
“Houve duas mulheres, filhas de uma só mãe, que praticaram escortação no Egito;... os seus nomes Ohola, a mais velha... que é Samaria,... e Oholiba... que é Jerusalém. Ohola praticou escortação estando sob Mim, e amou... os vizinhos assírios... e deu suas escortações à escolha de todos os filhos da Assíria... Entretanto, não deixou suas escortações do Egito, pois com ela se deitou em sua adolescência;... por isso a entreguei na mão de seus amásios... dos filhos da Assíria; ...eles descobriram a sua nudez, tomaram seus filhos e filhas, e por fim a mataram à espada. ...Viu sua irmã, Oholiba, e corrompeu o seu amor mais do que ela, e suas escortações acima das escortações de sua irmã; amou os filhos da Assíria;... pois acrescentou às suas escortações, quando viu varões pintados na parede, imagens dos caldeus pintadas de vermelho... as quais eram de todas as aparências de governante, à semelhança dos filhos de Babel, dos caldeus; ... e vieram a ela os filhos de Babel, ao leito do amores, e a contaminaram por sua escortação;... multiplicou as suas escortações quando se lembrou dos dias de sua adolescência, nos quais praticou escortação na terra do Egito, amou-o acima dos seus amantes, porque carne de jumentos era a carne deles, e fluxo de cavalos o fluxo deles. Assim valorizaste os crimes de tua adolescência, quando adornaste do Egito os teus seios... Por isso, ó Oholiba... suscitarei os teus amásios contra ti, os filhos de Babel e todos os caldeus... e todos os assírios com eles... tomarão teus filhos e tuas filhas, e tua descendência será consumida pelo fogo; tirar-te-ão as tuas vestes, e tomarão os vasos de teu ornamento. Assim farei cessar de ti o teu crime, e tua escortação da terra do Egito, para que não levantes teus olhos a eles, e do Egito não te recordes naus;... de embriaguez e de tristeza te encherás, do cálice da devastação e da desolação” (Ez. 23:2-33 e adiante, até o fim).
A fim de que se saiba que pelo ‘Egito’ é significado o homem natural – aqui, separado do espiritual – e pela ‘Assíria’ o racional – aqui, o raciocínio pelas coisas que são do homem natural – irei explicar resumidamente essas palavras. ‘Houve duas mulheres, filhas de uma só mãe, que praticaram escortação no Egito’ significa as falsificações do vero e do bem; e como os filhos de Jacob foram homem meramente naturais, eles se imbuíram das coisas idolátricas dos egípcios, o que significa que falsificaram todos os veros da igreja; ‘os seus nomes Ohola, a mais velha, que é Samaria, e Oholiba, que é Jerusalém’ significa uma e outra igrejas, a espiritual e a celeste, que os descendentes de Jacob representaram; os israelitas, que estavam em Samaria, a igreja espiritual, e os judeus, em Jerusalém, a igreja celeste, uma e outra da mesma mãe, que é o Divino Vero.
[68] ‘Ohola praticou escortação estando sob Mim’ significa a falsificação do Divino Vero que está na Palavra; ‘e amou os vizinhos assírios, e deu suas escortações à escolha de todos os filhos da Assíria’ significa as confirmações por muitos raciocínios; ‘entretanto, não deixou suas escortações do Egito, pois com ela se deitou em sua adolescência’ significa que, não obstante, seguiram suas idolatrias; ‘por isso a entreguei na mão de seus amásios, dos filhos [da Assíria]’ significa os raciocínios que confirmam as coisas idolátricas; ‘eles descobriram a sua nudez, tomaram seus filhos e filhas, e por fim a mataram à espada’ significa a privação de todo vero e bem, e, assim, a extinção da igreja com eles; ‘nudez’ é a privação, ‘filhos e filhas’ são os veros e bens, e ‘Ohola’ é a igreja; ‘viu sua irmã, Oholiba, e corrompeu o seu amor mais do que ela, e suas escortações acima das escortações de sua irmã’ significa a devastação da igreja celeste, que foi representada pela nação judaica, que estava em Jerusalém; diz-se que ‘corrompeu o amor mais do que a sua irmã’ quando perverteu e adulterou os bens da Palavra e, daí, da doutrina, pois peca mais quem corrompe ou perverte os bens da igreja do que aqueles que o fazem aos seus veros.
[69] ‘Amou os filhos da Assíria’ significa pelos raciocínios contra os veros e bens; ‘acrescentou às suas escortações, quando viu varões pintados na parede, imagens dos caldeus pintadas de vermelho’ significa as fantasias pelas falácias dos sentidos, que são do homem sensual, e, por conseguinte, as argumentações, donde vêm as falsificações; ‘as quais eram de todas aparências de governante, à semelhança dos filhos de Babel, dos caldeus’ significa a aparência como que das verdades principais, que são preferidas em relação às demais; ‘e vieram a ela os filhos de Babel, e a contaminaram por sua escortação’ significa a conjunção com os falsos do mal pelo amor de si; ‘multiplicou as suas escortações quando se lembrou dos dias de sua adolescência, nos quais praticou escortação na terra do Egito’ significa que tinha confirmado suas idolatrias e os falsos do mal, de que se tinham imbuído pelo homem natural, e assim tinha aumentado suas coisas falsificadas; ‘amou-o acima dos seus amantes, porque carne de jumentos era a carne deles, e fluxo de cavalos o fluxo deles’ significa as cobiças do amor para com tais coisas, porque vêm do proprium voluntário e, daí, do proprium do entendimento; ‘carne de jumentos’ é o proprium voluntário, e ‘fluxo de cavalos’ é o proprium do entendimento daí, os quais pervertem todas as coisas.
[70] ‘Assim valorizaste os crimes de tua adolescência, quando adornaste do Egito os teus seios’ significa o amor do falso implantado desde a primeira idade, e o deleite por este; ‘por isso, ó Oholiba, suscitarei os teus amásios contra ti, os filhos de Babel e todos os caldeus, e os assírios com eles’ significa a destruição da igreja pelos males do amor de si e pelos falsos oriundos do orgulho da própria inteligência, nos quais há um ódio mortal contra os bens e veros da doutrina; ‘tomarão teus filhos e tuas filhas’ significa os veros e bens da igreja que eles destruirão; ‘e tua descendência será consumida pelo fogo’ significa que as coisas restantes daí pereceriam pelos amores terrestres; ‘tirar-te-ão as tuas vestes, e tomarão os vasos de teu ornamento’ significa que privarão de toda inteligência e conhecimento, que são o ornamento da igreja; ‘assim farei cessar de ti o teu crime, e tua escortação da terra do Egito’ significa que assim os veros não podem ser falsificados; ‘para que não levantes teus olhos a eles, e do Egito não te recordes mais’ significa até que não haja mais entendimento algum do vero nem conhecimento do vero; ‘de embriaguez e de tristeza te encherás’ significa a insanidade nas coisas espirituais e a aversão; ‘do cálice da devastação e da desolação’ significa os falsos do mal que devastam e desolam completamente todos os bens e veros da igreja.
[71] No mesmo:
“Praticaste escortação com os filhos do Egito, teus vizinhos de grande carne, e multiplicaste a tua escortação... e praticaste escortação com os filhos da Assíria, e não ficaste saciada; ... e multiplicaste tua escortação até a terra de tua negociação, a Caldéia, mas nem então te sacias” (Ez. 16:26, 28, 29).
Essas palavras são a respeito das abominações de Jerusalém, pela qual é significada a igreja quanto à doutrina, e pelas ‘escortações’ são significadas as falsificações do vero da doutrina e da Palavra. ‘Porque praticaste escortação com os filhos do Egito, teus vizinhos de grande carne’ significa as falsificações pelo homem natural, onde há todos os males e falsos; ‘carne’ significa o proprium do homem, que reside no homem natural, e em si nada é senão o mal e o falso daí; ‘e praticaste escortação com os filhos da Assíria’ significa as falsificações pelos raciocínios; ‘e não ficaste saciada’ significa a cupidez sem fim de falsificar os veros; ‘e multiplicaste tua escortação até a terra de tua negociação, a Caldéia’ significa as falsificações pelo homem sensual, onde há meramente falácias, pelas quais o homem rejeita completamente e nega, e também blasfema os veros; ‘a terra da negociação’ significa onde todos os falsos são adquiridos, e o sensual é a fonte de todos os males e dos falsos daí. De fato, o nasce primeiramente sensual, depois se torna natural, em seguida racional e finalmente espiritual, e quem falsifica os veros da igreja se torna novamente natural e, finalmente, sensual. ‘mas nem então te sacias’ significa a imensa cupidez de destruir os veros da igreja.
[72] Em Joel:
“O Egito estará em devastação, e Edom em deserto de devastação, por causa da violência aos filhos16 de Judah, dos quais derramaram sangue inocente em sua terra” (Jl. 3:19);
‘o Egito estará em devastação’ significa que o homem natural estará sem os veros e, assim, em meros falsos; ‘e Edom em deserto de devastação’ significa que o homem natural estará sem o bem e, assim, em meros males; ‘por causa da violência dos filhos de Judah, dos quais derramaram sangue inocente’ significa que fizeram violência aos veros e bens da Palavra, os quais perverteram.
[73] Coisas semelhantes envolvem as guerras entre os filhos de Israel e os egípcios, como também as guerras entre os filhos de Israel e os assírios, bem como entre os assírios e os egípcios, como em 2 Reis 23:29 ao fim; 2 Reis 24; Isaías 10:3-5, e no Primeiro Livro dos Reis:
Sob o rei Reoboão subiu o rei do Egito contra Jerusalém, e tomou os tesouros da casa de Jehovah, e os tesouros da casa do rei, e tomou os escudos que Salomão fizera, e muitas outras coisas (1 Re. 14:25, 26).
Com efeito, em todas as partes históricas da Palavra, igualmente a suas partes proféticas, existe um sentido espiritual, pois todos os históricos da Palavra são representativos de coisas espirituais e celestes que pertencem ao céu e à igreja, e as palavras aí são significativas. Pelo fato de ‘o rei do Egito ter tomado os tesouros da casa de Jehovah e da casa do rei’, e muitas outras coisas, era representada a devastação da igreja quanto às cognições do bem e do vero pelos conhecimentos falsamente aplicados, os quais estão no homem natural.
[74] No sentido interno do Êxodo se descreve plenamente a qualidade do homem natural quando é subordinado ao espiritual e quando é separado dele. A qualidade do homem natural quando é subordinado e, assim, conjunto ao espiritual é descrita ali onde se trata de José e dos filhos de Israel chamados [ao Egito] e habitando na terra de Goshen, que foi a melhor das terras do Egito. Onde se trata de José descreve-se o domínio do Senhor sobre o homem natural, pois por ‘José’, no sentido interno, entende-se o Senhor, pelo ‘Egito’ o homem natural, e pelos ‘filhos de Israel’ o homem espiritual. Mas, depois, a qualidade do homem natural quando separado do espiritual é descrita pelo faraó que pôs os filhos de Israel sob pesada servidão. Em seguida, a sua devastação quanto a todos os veros e bens da igreja é descrita pelos milagres, que eram as tantas pragas havidas ali, e destruição final é descrita pela submersão do faraó e de todo o seus exército no mar Suph.
[75] Os milagres pelos quais se descreve no sentido espiritual a devastação do homem natural separado do espiritual foram os seguintes:
O cajado de Aarão converteu-se em serpente; as águas no rio converteram-se em sangue, de modo que o peixe morresse e o rio fedesse (Êx. 7).
Dos rios e dos lagos apareceram rãs sobre a terra do Egito; o pó da terra converteu-se em piolhos; um enxame de [insetos] voadores nocivos entrou na casa do faraó, dos seus servos e em toda a terra do Egito (Êx. 8).
Houve úlceras abrindo-se em pústulas no homem e na besta; uma chuva de pesada saraiva misturada com fogo caiu sobre o Egito (Êx. 9).
Gafanhotos foram enviados sobre a terra, os quais comeram a erva e todo fruto da árvore; houve escuridão de trevas em toda a terra do Egito (Êx. 10).
Todos os primogênitos na terra do Egito morreram (Êx. 11).
Finalmente, os egípcios, depois que os filhos de Israel tomaram emprestado e, assim, surrupiaram deles vasos de ouro e de prata, e vestes – pelos quais são significadas as cognições do bem e do vero – foram submersos no mar Suph, pelo qual é significado o inferno (Êx. 12:35, 36; 14:28).
Por todas essas coisas se descreve o homem natural devastado, o que acontece quando rejeita de si todos os veros e bens da igreja e se imbui de falsos e males, até não reste mais qualquer vero e bem da igreja. (Todavia, todas essas coisas se veem amplamente explicadas quanto ao sentido espiritual nos Arcanos Celestes). Daí se pode ver o que é significado pelas
“Pragas e doenças do Egito” (Dt. 7:15; 28:60),
e o que é significado por
“Serem submersos no rio do Egito” (Am. 8:8; 9:5),
e de onde procede que o Egito é chamado de
“Terra de servidão” (Mq. 6:4),
e, também,
“Terra de Cham” (Dt. 4:20; 1 Re. 8:51).
São essas as coisas a respeito do Egito, pelas quais é claramente evidente que o ‘Egito’ significa o homem natural em ambos os sentidos.

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