. “E houve relâmpagos, e vozes, e trovões”. Que isto signifique que nos inferiores, onde estão os maus, houve conflitos e perturbações dos pensamentos e raciocínios pelo mal e falso a respeito do bem e do vero, vê-se pela significação de ‘relâmpagos, vozes e trovões’, que são as iluminações, os pensamentos e as percepções (de que se tratou acima, n. 273), e no sentido oposto, como é aqui, o conflito e a perturbação dos pensamentos, e os raciocínios pelos males e falsos a respeito dos bens e veros da igreja (de que também se tratou acima, n. 498). Num sentido restrito, pelos ‘relâmpagos’ são significadas as escuridões do entendimento, pelas ‘vozes’ os raciocínios e pelos ‘trovões’ as conclusões do falso proveniente do mal. E visto que desses, segundo o estado dos interiores neles, acontecem os conflitos e a perturbação das afeições e dos pensamentos, e, daí, os raciocínios pelos males e falsos a respeito dos bens e veros da igreja, por isso essas coisas são significadas por essas palavras, pela série que segue das coisas precedentes. Que ‘os relâmpagos, as vozes e os trovões’, como também o ‘terremoto e a saraiva’ tenham ocorrido nos inferiores, é evidente pelo fato de que nos superiores foi visto o ‘templo’ e foi vista a ‘arca da aliança no templo’, pelo que é significada a aparição do novo céu, onde há o culto do Senhor, e a representação do Divino Vero pelo qual há a conjunção, como se pode ver pela explicação das coisas precedentes. Disto se segue que essas coisas ocorreram nos inferiores por um influxo dos céus superiores. Que tais coisas tenham ocorrido nos inferiores por um influxo dos céus superiores é o que esclarecido anteriormente. Como, porém, são coisas tais que não caem em entendimento algum senão por uma viva revelação e, daí, pelo pensamento a respeito do influxo dos superiores nos inferiores no mundo espiritual, coisas essas que a mim foram reveladas e, daí, conhecidas, quero expor brevemente este arcano. [2] No mundo espiritual – pelo qual se entendem os céus e os infernos – existe uma ordenação tal que os céus são como expansões, uma sobre a outra; sob os céus está o mundo dos espíritos e sob este estão os infernos, um abaixo do outro. Segundo essa ordenação sucessiva se dá o influxo vindo do Senhor, assim, pelo céu íntimo no médio, por este no mais externo e deles, em sua ordem, nos infernos que estão subjacentes. O mundo dos espíritos é o meio, e recebe o influxo tanto dos céus quanto dos infernos, cada um ali segundo o estado de sua vida. [3] Mas essa ordenação dos céus e dos infernos passa por mudanças de um juízo a outro, pelo fato de que os homens que chegaram das terras – dos quais se compõem os céus e os infernos – foram de diversas afeições, alguns sendo espirituais ou internos em menor ou maior grau, outros sendo naturais ou externos em menor ou maior grau. E como o Senhor a ninguém faz o mal, mas a todos faz bem, por isso permitiu que aqueles que viveram nos externos uma vida moral e como se fosse espiritual pelo costume e pelo hábito no mundo, por mais que tenham sido interiormente conjuntos ao inferno, formassem para si no mundo espiritual uma espécie de céu em vários lugares. E então as ordenações dos céus acima deles, e dos infernos abaixo deles, foram dispostas de tal modo que os interiores deles, pelos quais foram conjuntos ao inferno, fossem mantidos fechados tanto quanto possível, e os exteriores, pelos quais foram conjuntos ao céu mais externos, mantidos abertos. E foi então provido que os superiores do céu não influíssem imediatamente, pois pelo influxo imediato seriam abertos os inferiores deles, inferiores esses que são infernais, e fechados os exteriores, que apareciam como se fossem espirituais, pois o influxo dos céus superiores é nos interiores, que são o proprium dos espíritos, e não nos exteriores, que não são o seu proprium. [4] Todavia, quando esses céus aparentes se multiplicaram tanto, e, daí, o influxo dos infernos começou a prevalecer sobre o influxo dos céus, e, por isso, o céu mais externo, que foi conjunto a eles, começou a enfraquecer, então aproximou-se o juízo final, e por etapas se fez a separação dos maus de entre os bons nesses novos céus aparentes, e isto por meio de um influxo imediato dos céus superiores. Por esse influxo foram abertos os interiores deles, que eram infernais, e fechados os exteriores, que eram como se fossem espirituais, como acima foi dito. Por aí se pode ver agora de onde foi que apareceu o ‘templo’ e a ‘arca no templo’, pelos quais é significado Divino Vero, pelo qual foram iluminados os céus superiores dos quais se deu o influxo nos inferiores, onde estavam os maus. Por causa desse influxo é que aconteceu que nos inferiores, onde estão os maus, ‘relâmpagos’, foram vistos, ‘vozes e trovões’ foram ouvidos e também aconteceu o ‘terremoto’ e choveu ‘saraiva’. O influxo dos céus, isto é, desde o Senhor por meio dos céus, não é outra coisa senão do amor do bem e da afeição do vero, mas nos maus se transforma em coisas tais que correspondem ao seu amor do mal e suas afeições do falso. E como o conflito e a perturbação dos pensamentos e os raciocínios pelos males e falsos a respeito dos bens e veros da igreja, nos quais estiveram, correspondem a ‘relâmpagos’, ‘vozes’ e ‘trovões’, por isso essas são as coisas significadas por estes, porque aqui se trata do estado do céu, qual este seria pouco antes do juízo final. Que o conflito e a perturbação dos pensamentos, e os raciocínios pelos males e falsos a respeito dos bens e veros da igreja, existam naqueles que são interiormente maus e parecem ser bons exteriormente, após serem abertos os seus interiores e fechados os exteriores, isto vem do conflito dos interiores com os exteriores no primeiro estado da separação. Mas tão logo os exteriores foram completamente fechados, e eles são deixados em seus interiores, então o conflito cessa, pois então se acham plenamente no amor de seu mal e na afeição de seu falso, e, daí, no prazer de sua vida. Por isso é que então se lançam no inferno, aos que lhe são semelhantes, o que acontece no dia do juízo final.