. “E a lua sob os seus pés”. Que isto signifique a fé naqueles que são naturais e estão na caridade vê-se pela significação de ‘lua’ que é a fé em que há a caridade (de que se tratará a seguir); e pela significação de ‘pés’, que são as coisas naturais (de que se tratou acima, n. 69, 600 e 632), por conseguinte, aqui, os naturais, porque se diz da ‘mulher’, pela qual é significada a igreja; e pelo ‘sol’, de que era envolta, o amor ao Senhor oriundo do Senhor e o amor para com o próximo (como se mostrou no artigo precedente). Assim, pela ‘mulher envolta pelo sol’ é significada a igreja naqueles que são celestes e, daí, espirituais, e pela ‘lua sob os pés’ é significada a igreja naqueles que são naturais e sensuais e estão, ao mesmo tempo, na fé da caridade, pois os bens e veros do céu e da igreja se sucedem em ordem, assim como a cabeça, o corpo e os pés no homem. Na cabeça do Máximo Homem, que é o céu, acham-se aqueles que estão no amor ao Senhor oriundo do Senhor, e estes são chamados celestes; no corpo, porém, desde o peito até os lombos desse Máximo Homem, que é o céu, acham-se aqueles que estão no amor para com o próximo, e esses são chamados espirituais. Mas, nos pés do Máximo Homem, que é o céu, acham-se aqueles que estão obscuramente na fé da caridade, e esses são chamados naturais.
[2] Todavia, para que isto venha claramente ao entendimento, cumpre saber que há dois reinos em que os céus foram distintos: um que é chamado celeste e outro que é chamado espiritual. E que há três céus, o supremo, que é chamado celeste, o médio, que é o espiritual, e o mais externo, que é chamado celeste e espiritual natural. Mas, além dessas distinções dos céus, há também uma distinção dos que recebem a luz, isto é, a inteligência, do Senhor como Sol, e há os que recebem a luz e a inteligência do Senhor como Lua. Os que recebem do Senhor como Sol a luz da inteligência são aqueles em que o entendimento e o seu racional foram abertos e, daí, pela afeição do vero espiritual pensaram racionalmente sobre as coisas que deveriam crer. Já os que recebem a luz do Senhor como Lua são aqueles que o entendimento e o racional não foram interiormente abertos, mas somente o natural, e daí pensaram pela memória nas coisas que deveriam crer; e pensar nisso pela memória é pensar somente por coisas tais que ouviram do mestre ou do pregador, as quais eles dizem e também creem ser veros, ainda que fossem falsos, pois não as veem ulteriormente. Esses, se também estiveram na fé da caridade do mundo, estão nos céus sob o Senhor como Lua, pois o lume de que vem a inteligência deles é como o lume da Lua no tempo da noite, enquanto a luz de que vem a inteligência naqueles que estão nos ceus sob o Senhor como Sol é como a luz do dia. Qual é a diferença entre eles é o que se pode ver pela diferença da luminosidade do sol de dia e da luz de noite. Além disso, a diferença é tal que aqueles que estão sob o Senhor como Lua nada podem ver na luz daqueles que estão sob o Senhor como Sol, pelo fato de que neles não há a luz genuína, mas somente uma luz refletida, a qual pode receber igualmente os veros e falsos, se tão somente neles aparecer o bem. Como aqueles que estão nos céus sob o Senhor como Lua são todos naturais e sensuais, e nada têm em comum com aqueles que nos céus estão sob o Senhor como Sol, e como eles também estão nos falsos em que há, todavia, o bem, por isso foi vista ‘a lua sob os pés da mulher’, e por isto se entende a fé naqueles que são naturais.
[3] Essas coisas são a respeito da fé naqueles que estão no céu sob o Senhor como Lua. Também se dirá em poucas palavras a respeito da afeições deles, da qual a fé tira a sua vida. A afeição deles de saber o vero e de fazer o bem é, tal como eles, natural, derivando, assim, em maior ou menor grau, da glória de erudição e da reputação que visa as honras e os ganhos como prêmios, no que difere da afeição espiritual de saber o vero e de fazer o bem, como têm aqueles que estão no eu sob o Senhor como Sol. Essa afeição neles é separata da afeição natural, de modo que esta está sob os pés. É daí, também, que a ‘lua’ – pela qual é significada não somente a fé, mas também a sua afeição – foi vista aqui ‘sob os pés’. (Todavia, uma ideia mais plena a respeito disso pode ser adquirida das coisas que foram ditas e mostradas na obra O Céu e o Inferno, ou seja, que o céu foi distinto em dois reinos, n. 20-28; do Sol e da Lua no céu, e da luz e do calor nos céus, n. 116-140; da correspondência do céu com todas as coisas do homem, n. 51-102; e, na Doutrina da Nova Jerusalém, daqueles que estão nos falsos pelo bem, n. 21). Que o ‘sol’ signifique o Senhor quanto ao Divino Amor e, daí, o amor ao Senhor oriundo do Senhor, e que a ‘lua’ signifique o vero da fé, vê-se acima, n. 401. E, além disso, a respeito dos céus que estão sob o Senhor como Sol e dos céus que estão sob o Senhor como Lua, também acima, n. 411, 422 e 527. A isto se deve acrescentar que os céus que estão sob o Senhor como Lua são também três, superiores, médios e inferiores, ou, o que é o mesmo, interiores, médios e exteriores, mas todos nesses céus são naturais. A razão pela qual há céus interiores, médios e exteriores é porque o natural se distingue em três graus, do mesmo modo que o espiritual. O exterior natural se comunica com o mundo, o interior com o céu e o médio os conjunge. No entanto, aqueles que estão nos céus sob o Senhor como Lua não podem entrar nos céus que estão sob o Senhor como Sol, porque a visão interior deles, ou o entendimento, é formada para receber a luz lunar ali, e não para receber a luz solar. Comparativamente, não são diferentes das aves que veem de noite e não de dia; por isso, quando vêm à luz solar que têm aqueles que estão sob o Senhor como sol, a visão deles fica cega. Mas os que estão nesses céu são os que estiveram na caridade segundo a sua religiosidade, ou segundo a sua fé, enquanto aqueles que são tais, a saber, naturais, e não estiveram na fé da caridade, estão nos infernos sob os céus. Por aí se pode ver que pela ‘lua’, aqui, entende-se a fé naqueles que são naturais e estão na caridade, e que ‘a lua foi vista sob os pés’ porque aqueles que estão nos céus sob o Senhor como Lua nada têm em comum com aqueles que estão nos céus sob o Senhor como Sol, a ponto de não poderem se elevar até eles.
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