AE 714

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. “E eis um grande dragão vermelho”. Que isto signifique todos os que são meramente naturais e sensuais pelo amor de si e do mundo, e, no entanto, sabem muitas ou poucas coisas da Palavra, pela doutrina daí ou pela pregação, e pensam que só pelo conhecimento só, sem a vida, são salvos, vê-se pela significação de ‘dragão’, que é o homem meramente natural e sensual e, contudo, está no conhecimento das coisas que em si são espirituais, sejam estas oriundas da Palavra ou da pregação ou da religião (de que se tratará a seguir); e pela significação de ‘grande vermelho’, que é estar no amor de si e em seus males, pois ‘grande’, na Palavra, se diz do bem e, no sentido oposto, do mal, assim como ‘muito’ se diz dos veros e, no sentido opostos, dos falsos (vide acima, n. 336, 337 e 424); e ‘vermelho’ se diz do amor em ambos os sentidos, a saber, do amor celeste, que é o amor ao Senhor, e, no sentido oposto, do amor diabólico, que é o amor de si (a cujo respeito também se vê acima, n. 364). Por aí se ver que pelo ‘grande dragão vermelho’ se entendem todos os que são meramente naturais e sensuais pelo amor de si e, no entanto, sabem muitas ou poucas coisas da Palavra, quer pela doutrina daí, quer pela pregação, e pensam que que são salvos pelo conhecimento só, sem a vida de caridade. Que esses pensem serem salvos pelo conhecimento só, sem a vida de caridade, é porque todos os que vivem para o corpo e o mundo e não para Deus e o céu se tornam meramente naturais e sensuais, pois cada um é formado segundo a sua vida interior, e viver para o corpo e o mundo é viver no natural e sensual, mas viver para Deus e o céu é viver no espiritual.
[2] Todo homem nasce sensual pelos pais, e pela vida no mundo se torna natural cada vez mais interiormente, isto é, racional segundo a vida moral e civil, e daí adquire o lume. Mas, em seguida, ele se torna homem espiritual pelos veros da Palavra ou pela doutrina da Palavra e pela vida segundo os veros. Daí se pode ver que quem sabe as coisas que a Palavra, a doutrina ou o pregador ensina, e não vive segundo elas, por mais culto e erudito que pareça, não é, todavia, espiritual, mas natural e, mesmo, sensual, pois o conhecimento e a faculdade de raciocinar não fazem o homem espiritual, mas a vida mesma. A razão disso é que o conhecimento e, daí, a faculdade de raciocinar é somente natural, por isso existindo também nos maus, e mesmo nos péssimos, enquanto os veros da Palavra unidos à vida segundo eles fazem o homem espiritual, pois a vida querer os veros e fazê-los pelo amor a eles. Isto não existe pelo homem natural só, mas pelo espiritual e pelo influxo deste no natural, pois amar os veros e, pelo amor, querê-los e, pela vontade, fazê-los, vem do céu, isto é, do Senhor por meio do céu, e é, em sua natureza, o celeste e o Divino. Isto não pode influir imediatamente na mente natural, mas mediatamente, pela mente espiritual, que pode ser aberta e formada para a recepção da luz e do calor celeste, isto, para a recepção do Divino Vero e do Divino Bem. A razão por que essas coisas não podem influir imediatamente na mente natural é porque nessa mente residem os males hereditários do homem, que são do amor de si e do mundo. Assim, o homem natural considerado em si mesmo não ama senão a si e ao mundo, e pelo amor os quer e pelo querer os faz. E estas são as coisas que impedem que o que vem do céu possa influir e ser recebido ali. Por esse motivo foi provido pelo Senhor que essas coisas possam ser removidas e possa haver lugar para os veros e bens do amor espiritual, a saber, pela abertura e formação da mente espiritual, que está acima da mente natural, e pelo influxo aí do céu desde o Senhor, por ela, na mente natural.

[3] Estas coisas foram ditas para que se saiba que conhecer as coisas que são da Palavra e as que são da doutrina da igreja não faz a o homem espiritual, mas a vida segundo as coisas que o Senhor prescreve na Palavra. Por conseguinte, ainda que saibam muitas coisas da Palavra, eles permanecem, todavia, naturais. São esses, pois, que são significados na Palavra pelo ‘dragão’. Que sejam esses que são significados pelo ‘dragão’ é porque um dragão é um gênero de serpente, que não somente rasteja no humo, mas também voa e, daí, aparece no céu. É por esse voo e por essa aparência que aqueles que estão no conhecimento das verdades da Palavra e não na vida segundo elas se entendem pelo ‘dragão’, pois pelas ‘serpentes’ em geral são significadas as coisas sensuais do homem (vide acima, n. 581). Daí é, também, que o dragão é chamado ‘antiga serpente’ (no versículo 9 deste capítulo e também no capítulo 20, versículo 2).
[4] Uma vez que na sequência deste capítulo e, também, depois, se trata do ‘dragão’, dir-se-á quem são as pessoas que são por ele significadas em geral e em particular. Em geral, por ele são significados os que são naturais em maior ou menor grau, e, no entanto, estão no conhecimento das coisas espirituais da Palavra; em particular, porém, são significados os que se confirmaram na fé separada da caridade, da doutrina, e da vida. estes constituem a sua cabeça. Mas aqueles que, pela própria inteligência, derivaram da Palavra dogmas para si, esses fazem o corpo do dragão, e os que examinam a Palavra sem a doutrina fazem os externos do dragão. Todos esses também falsificam e adulteram a Palavra, porque estão no amor de si e, daí, no orgulho da própria inteligência, pelo que se tornaram meramente naturais e, mesmo, sensuais. E o homem sensual não pode ver os veros genuínos da Palavra, por causa das falácias, por causa da obscuridade da percepção e por causa dos males do corpo que ali residem, pois o sensual se adere ao corpo, onde há tais coisas.
[5] (i.) Quanto ao primeiro ponto, a saber, que pelo ‘dragão’ em geral se entendem os que são naturais em maior ou menor grau, e estão, todavia, no conhecimento das coisas espirituais da Palavra, é porque pelas ‘serpentes’ em geral são significadas as coisas sensuais do homem e, daí, os homens sensuais. Por isso, pelo ‘dragão’, que é uma serpente que voa, é significado o homem sensual, que voa em direção ao céu pelo fato de falar e agir pela Palavra ou pela doutrina oriunda da Palavra, pois a Palavra mesma é espiritual, porque é Divina em si e, daí, está no céu. Como, porém, o conhecimento, só, das coisas espirituais da Palavra não faz o homem espiritual, mas a vida segundo as coisas que estão na Palavra, por isso todos os que estão no conhecimento da Palavra e não na vida segundo ela são naturais e, mesmo, sensuais.
[6] Os sensuais, que se entendem pelo ‘dragão’, são os que nada veem pela luz do céu, mas somente pela luz do mundo, e os que só por essa luz podem falar dos Divinos e, também raciocinar aguda e vivamente, sendo excitados pelo fogo do amor de si e pelo orgulho daí, mas não podem ver se são ou não veros; dizem ser vero aquilo de que se imbuíram, na infância, de um mestre ou pregador, em seguida pela doutrina e, depois, confirmaram por algumas passagens da Palavra não entendidas interiormente. Esses, como nada veem pela luz do céu, não veem os veros, mas falsos em lugar destes, aos quais chamam veros, pois os veros mesmos não podem ser vistos senão na luz do céu, e não na luz do mundo a menos esta seja iluminada por aquela. Eles, por serem tais, não amam outra vida senão a corpórea e mundana. E como as volúpias e concupiscências dessa vida residem no homem natural, por isso os interiores deles são horrendos e inclinados para males de todo gênero, que fecham todo o caminho para o influxo da luz e do calor do céu. Assim, esses são interiormente diabos e satanases, pois que pareçam serem espirituais e cristãos pela linguagem e por gestos simulados. Esses não são outra coisa senão sensuais, pois exteriormente podem falar das coisas santas da igreja, e, todavia, nada creem interiormente; e os que pensam que creem, creem no histórico e, daí, persuasivo oriundo de um mestre ou da própria inteligência, o falso em si, ao qual a fé serve, todavia, como meio para a reputação, a honra e o ganho. Tais são, em geral, os dragões. Mas há muitos que são significados em particular pelo ‘dragão’, pois há os que se referem à sua cauda, os que se referem ao seu corpo e os que se referem aos seus externos.
[7] (ii.) Os que se referem em particular à cabeça do dragão são os que se confirmaram na fé só, que é a fé separada da caridade, pela doutrina e pela vida. Eles se referem à cabeça do dragão porque a maioria deles é constituída por eruditos e se creem cultos, pois se confirmaram que são salvos somente por pensar nas coisas que a igreja ensina, o que chamam de crer. Mas dir-se-á qual é a doutrina e a vida deles. A doutrina deles é que Deus Pai teve misericórdia de Seu Filho de eternidade nascido no mundo para se tornar homem, para cumprir todas as coisas da Lei, levar as iniquidades de todos e sofrer a cruz; e que por esse meio Deus Pai foi reconciliado e movido pela misericórdia, e que seriam recebidos no céu os que estivessem na fé dessas coisas por confiança, e que a confiança dessa fé, unida ao Senhor, intercederia e salvaria. Por conseguinte, que essa fé é dada a todo o gênero humano separado do Deus Pai, como meio de recepção e salvação, porque o homem, após Adão ter comido da árvore da ciência, não estava mais no estado de fazer o bem por si, pois assim tinha perdido, com a imagem de Deus, o livre arbítrio. E, finalmente, que as coisas acima citadas são o mérito do Senhor, pelo qual unicamente o podem pode ser salvo. Estas são as coisas primárias da fé naqueles que estão na fé só, quanto à doutrina. Que ninguém possa perceber e assim crer coisa alguma dessas, mas somente saber e, daí, falar as coisas tais que são da memória, sem entendimento, de modo que essa doutrina nada tem de inteligência, é o que será exposto e ilustrado em outro lugar, se o Senhor quiser.
[8] Também se dirá quais eles são, quanto à vida. Ensinam que, pela fé só, o homem é conduzido por Deus ao esforço de fazer o bem, e que o bem mesmo no ato nada faz para a salvação, mas a fé só; e que, então, nada de mal o condena, porque está na graça e é justificado. Imaginaram, também, uns graus, aos quais chamam progressões da fé só, até o último da justificação: o primeiro é a informação nas coisas tais que são da fé, principalmente naquelas que foram citadas acima. O segundo é a confirmação pela Palavra ou pela pregação. O terceiro é a indagação mental, se não é assim; e como então influi a dúvida e, daí, a hesitação, que é a tentação, deve haver confirmação pela Palavra [???] a respeito da operação da fé, donde ele tem a confiança, que é a vitória. Acrescentam que deve-se ter cuidado a fim de que o entendimento não vá além das confirmações pela Palavra a respeito da justificação pela fé só; se for além, e se o entendimento não estiver cativo sob a obediência da fé, [o homem] sucumbe. O quarto e último grau é o esforço para fazer o bem, e que este é um influxo de Deus e não do homem, e é o fruto da fé. Dizem que, quando o homem foi assim plenamente justificado, nada do mal o condena depois, e nada do bem o salva, mas a fé só. Por aí se pode ver quais eles são quanto à vida, a saber, vivem para si e não para Deus, e para o mundo e não para o céu, porque isto se segue da fé de que os males não condenam e os bens não salvam. Tampouco sabem que a fé sem a vida de caridade não é fé, e que o homem deve fugir dos males e fazer os bens como por si mesmo, e, todavia, crer que é pelo Senhor, e que de outro modo os males não podem ser dissipados nem os bens ser apropriadores. Mas, a respeito disso, também se dirão muitas coisas em outro lugar.
[9] Essa doutrina e essa vida estão naqueles que formam a cabeça do dragão, os quais são, quanto à maior parte, líderes eruditos, mas poucos dentre o vulgo. A razão disso que aqueles as consideram como coisas ocultas da teologia, que não podem ser compreendidas pelo vulgo, por causa dos negócios. Que eles sejam dragões quanto à cabeça é também porque pervertem e falsificam todas as coisas da Palavra que ensinam o amor, a caridade e a vida, pois a Palavra considerada em si mesma é somente a doutrina do amor ao Senhor e da caridade para com o próximo, e de nenhum modo a doutrina da fé separada. Eles as falsificam pelo fato de que as chamarem ou fé ou fruto da fé, o qual não comem, porque nada pensam a respeito de fazer, pelo que não se nutrem desse fruto. Além disso, não admitem esses princípios além da memória e, daí, no pensamento próximo a ela, que é o pensamento sensual, no qual nada há de espiritual, pensamento esse que não examina se algo é um vero ou não. Por isso cuidam para que não entre a visão interior, que é do entendimento, nem querem saber que todas essas coisas ditas acima a respeito da sua fé são contra o entendimento iluminado, visto que são contra o sentido genuíno da Palavra. Daí é, também, que aqueles que constituem a cabeça do dragão não têm vero genuíno algum, pois de um princípio falso, que é a fé só, não podem surgir senão falsos numa série contínua, porque a fé só não existe, já que a fé sem a caridade não é fé. Com efeito, a alma da fé é a caridade; portanto, dizer fé só é dizer que ela está sem a alma, assim, sem a vida, que é morta em si.
[10] (ii.) Que aqueles que pela própria inteligência derivaram para si dogmas da Palavra constituam o corpo do dragão pode-se ver pelo fato de que todos dentre os que examinam a Palavra e estão no amor de si também estão no orgulho da própria inteligência. E todos os que estão nesse orgulho e, ao mesmo tempo, sobressaem em engenhosidade pelo lume natural, esse derivam daí dogmas para si. São desta origem todas as heresias e todas as falsidades no mundo cristão. Deve-se dizer o que é a inteligência vinda do proprium e o que é a inteligência não do proprium. A inteligência vinda do proprium têm todos os que estão no amor de si, pois o amor de si é o proprium mesmo do homem, e estão no amor de si os que leem a Palavra e daí ajuntam dogmas por causa da reputação, da glória e das honras. E como esses não podem ver vero algum, mas somente falsos, por isso estão no corpo do dragão. Com efeito, esses ajuntam e derivam da Palavra coisas tais que favorecem os seus amores e os males que brotam daí. e as coisas contrariam os seus dogmas, as quais são os veros do bem, ou não são vistas ou são pervertidas. Mas a inteligência vinda do Senhor têm todos os que estão na afeição do vero espiritual, isto é, os que amam o vero porque é vero, e por servir para a vida eterna e para a vida das almas dos homens. Diz-se que a inteligência deles não vem do proprium, mas do Senhor, porque eles são elevados de seu proprium quando leem a Palavra, e isto até à luz do céu, e são iluminados. Nessa luz o vero aparece pelo vero mesmo, porque a luz do céu é o Divino Vero. Os que, porém, estão no amor de si e, daí, no orgulho da própria inteligência, não podem ser elevados de seu proprium, porque consideram-se a si mesmos continuamente, portanto, em cada coisa que fazem. Daí é, também, que eles põem na fé de seus dogmas tudo da salvação, assim, no saber e no pensar, e não ao mesmo tempo na vida, assim, não ao mesmo tempo no querer e no fazer. É desses, pois, que é constituído o corpo do dragão. O coração desse corpo é o amor de si, e a alma da respiração, ou seu espírito, é o orgulho da própria inteligência. Por esses dois o dragão é chamado ‘grande vermelho’, e ‘vermelho’, no texto grego original, vem de flamejante, assim, pelo amor e pelo orgulho.
[11] (iv.) Os que examinam a Palavra sem uma doutrina e, ao mesmo tempo, estão no amor de si, constituem os externos do corpo draconiano. Os externos são os que procedem dos interiores e a estes envolvem, encerram e contém, como são as peles, as escamas e as saliências de toda parte. Que esses constituam os externos do corpo do dragão é porque são desprovidos de inteligência das coisas espirituais da Palavra, pois conhecem a Palavra quanto ao seu sentido da letra, que é tal que, se a doutrina não alumia, conduz a erros e falsos de todo gênero. Consequentemente, os que examinam a Palavra sem uma doutrina podem confirmar quantas heresias queiram e também abraçá-las e patrocinar os amores de si e do mundo e os males oriundos daí, pois o sentido da letra da Palavra é o último sentido do Divino Vero, por conseguinte, é para o homem natural e sensual, para a sua compreensão e, frequentemente, em seu favor. Por isso, a menos que seja lido e considerado pela doutrina, como por uma lâmpada, a mente é levada a trevas a respeito de muitas coisas que são do céu e da igreja. E, no entanto, eles creem que sabem mais do que todos, quando, todavia, nada sabem.
[12] (v.) Todos os que constituem o dragão adoram a Deus Pai e vêm o Senhor como um homem semelhante a eles próprios e não como Deus; se O veem como Deus, consideram o Seu Divino acima do Seu Humano e não dentro deste. Disto se tratará na sequência, onde será explicada a luta do dragão contra Miguel.
[13] (vi.) Por aí se pode ver agora que pela ‘cauda do dragão’ se entendem a falsificação e a adulteração da Palavra por aqueles que constituem a sua cabeça, o seu corpo e os seus extremos, porque a cauda, assim como a cauda de qualquer animal, é uma continuação da espinha, que se prolonga dos cérebros, e ela se move, vira e vibra segundo os apetites, as concupiscências e volúpias da cabeça e do corpo, aos quais lisonjeia, por assim dizer. E visto que todos os que constituem o dragão – por serem naturais e sensuais pelo amor de si e, daí, estarem no orgulho da própria inteligência – falsificam e adulteram a Palavra, por isso se diz que ‘o dragão, com sua cauda, arrastou a terça parte das estrelas do céu e as lançou na terra’; pelas ‘estrelas do céu’ são significadas as cognições do vero e do bem da Palavra, daí, os veros e bens daí; e por ‘lançar na terra’ é significado perverter e adulterar, assim, destruir os veros e bens.
[14] Que aqueles que foram citados acima constituam o dragão, e que a adulteração e a destruição das verdades da Palavra se entendam por sua ‘cauda’ é o que me foi dado ver duas ou três vezes no mundo espiritual, porque naquele mundo todas as coisas que aparecem são representativas de coisas espirituais. Quando os tais foram vistos na luz do céu, foram vistos como dragões com uma longa cauda; e quando eram muitos dos tais, a cauda foi vista se estender do meio-dia pelo ocidente até o setentrião. E essa cauda também foi vista arrastar do céu como que estrelas e lançá-las na terra.
[15] Visto que as coisas ditas acima se entendem pelo ‘dragão’, e por sua ‘cauda’ a falsificação e a adulteração da Palavra, por isso pelo ‘habitáculo’ e ‘morada dos dragões’ na Palavra é significado onde há meramente o falso e o mal, como nas seguintes passagens. Em Isaías:
“O lugar árido se tornará um lago, e o sedento um manancial de águas; no habitáculo dos dragões a sua morada, relva em lugar de cana e junco” (Is. 35:7).
Essas palavras são a respeito do advento do Senhor e da instauração por Ele de uma nova igreja entre os gentios, e por elas se entende que haverá veros e bens da igreja onde antes não havia, mesmo onde havia falsos e males. Onde antes havia falsos e males é significado por ‘lugar seco e sedento’, ‘habitáculo dos dragões’ e também ‘cana e junco’. Mas os veros e bens que eles terão são significados por ‘lago’, ‘manancial de águas’, ‘morada onde antes havia dragões’ e também ‘relva’.
[16] Em Jeremias:
“Farei de Jerusalém uns montões, habitáculo de dragões. E as cidades de Judah reduzirei à desolação, para que não haja habitante” (Jr. 9:11);
e, no mesmo,
“Uma voz de estrépito, eis que vem da terra do setentrião um grande tumulto, para reduzir as cidades de Judah à desolação, habitáculo de dragões” (Jr. 10:22).
Por ‘Jerusalém’ entende-se a igreja quanto à doutrina, e pelas ‘cidades de Judah’ os doutrinais, que são os veros da Palavra. A falsificação do vero e a adulteração do bem, do que resultam meramente falsos e males, são significadas por ‘fazer de Jerusalém uns montões’ e por ‘reduzir as cidades de Judah à desolação, habitáculo dos dragões’, pois o vero falsificado é meramente o falso, e o bem adulterado é meramente o mal; ‘voz de estrépito’ e ‘grande tumulto da terra do setentrião’ significa os falsos lutando contra os veros e os males contra os bens; a ‘terra do setentrião’ é onde se acham os quer estão nos falsos do mal.
[17] No mesmo:
“Hazor se tornará um habitáculo de dragões, desolação até o século; não habitará ali varão, nem morará ali filho de homem” (Jr. 49:33);
por ‘Hazor’ são significados os tesouros espirituais, que são as cognições do vero e do bem da Palavra; a devastação delas até que não mais existam, mas, em lugar delas, falsos e males, é significada por ‘Hazor se tornará um habitáculo de dragões, desolação até o século’; que não haverá resto algum do vero da igreja é significado por ‘não habitará ali varão, nem morará nela filho de homem’; ‘filho de homem’ é o vero da igreja.
[18] Em Isaías:
“Subirão em seus palácios os espinheiros, os cardos e as sarças [sentis] em suas fortalezas, para que [Edom] se torne habitáculo de dragões, átrio das filhas da coruja” (Is. 34:13).
Essas palavras são a respeito de Edom e dos gentios, pelos quais se entendem os que estão nos falsos e males. Os falsos e males em que eles estão são significados pelo ‘espinheiro’, pelo ‘cardo’ e a pela ‘sarça’; os dogmas que os protegem são significados pelos ‘palácios’ e pelas ‘fortalezas’; a devastação de todo bem e vero é significada pelo ‘domicílio de dragões’ e pelo ‘átrio das filhas da coruja’; ‘coruja’ são os que veem falsos em lugar de feros, e suas ‘filhas’ são as concupiscências de falsificar os veros.
[19] No mesmo:
“Responderam os ijim em seus palácios, e dragões nos templos” (Is. 13:22).
Essas palavras são a respeito de Babel, pela qual são significadas a adulteração e a profanação do bem e do vero; por seus ‘palácios’, em que responderão os ijim, e pelos ‘templos’ em que haverá os dragões, são significados os bens e veros da Palavra e da igreja adulterados e profanados; pelos ‘ijim’ os veros adulterados e profanados, e pelos ‘dragões’ os bens adulterados e profanados.
[20] Em Miquéias:
“Sobre isso prantearei e uivarei, andarei despojado e nu, farei lamentação como dragões, e luto como as filhas da coruja” (Mq. 1:8).
Essas palavras são a respeito da devastação de Samaria, pela qual é significada a igreja espiritual quanto à doutrina, aqui, ela devastada. A devastação quanto ao vero e ao bem é significada por ‘andar despojado e nu’; a lamentação sobre isto é significada por ‘prantear e uivar’; a lamentação sobre o bem devastado, por ‘fazer lamentação como dragões’, e sobre o vero devastado, por ‘fazer luto como as filhas da coruja’. Os ‘dragões’ e as ‘filhas da coruja’ são mencionados representativamente, que eles são semelhantes quanto ao pranto e ao luto, [???] como também ‘andar despojado e nu’; ‘despojado’ significa que está sem os bens, semelhantemente ao que se diz do ‘dragão’; e ‘nu’, que está sem os veros, semelhantemente aos que se diz das ‘filhas da coruja’.
[21] Em Jeremias:
“Nebuchadnezar, rei de Babel, fez-me um vaso vazio, engoliu-me como uma baleia, encheu o ventre de minhas delícias, vomitou-me; ...seja Babel um montão, habitáculo de dragões, um assovio e um espanto, sem habitante” (Jr. 51:34, 37).
Também aqui, por ‘Babel’ e por ‘Nebuchadnezar’ são significadas a adulteração e a profanação do bem e do vero. a dispersão de todo vero e a destruição de todo bem daí são significadas por ‘fez-se um vaso vazio, engoliu-me como baleia, encheu o ventre de minhas delícias, vomitou-me’; pela ‘baleia’ é significado o mesmo que pelo ‘dragão’, sendo a mesma palavra usada para ambos na língua original. a devastação de todo vero e bem pela adulteração e pela profanação deles é significada por ‘Babel será um montão, habitáculo de dragões, um associo e um espanto, sem habitante; ‘não haver habitante’ significa não haver bem em pessoa alguma.
[22] Em Jó:
“Negro antei, sem sol; parei na congregação, clamei; tornei-me irmão de dragões e companheiro das filhas da coruja” (Jó 30:28, 29).
Aqui se trata do seu estado nas tentações, nas quais o homem se considera condenado. Por isso, ‘andar negro sem sol’ significa como um diabo, sem o bem do amor; ‘parar na congregação e clamar’ significa entre os veros e, todavia, nos falsos; ‘tornar-se irmão de dragões e companheiro das filhas da coruja’ significa estar em conjunção e junto com aqueles que estão nos males sem o bem e nos falsos sem os veros; ‘dragões’ são os adulteraram os bens e os perverteram nos males, e ‘filhas da coruja’ são os que estão ao mesmo tempo nos veros.
[23] Em David:
“Não voltou atrás o nosso coração, e nossos passos não se desviaram de Teu caminho, pois nos esmagaste no lugar de dragões, cobriste sobre nós a sombra da morte” (Sl. 44:18, 19).
Essas, também, são a respeito das tentações. Que então separado do influxo do céu, como o homem sensual, ele não percebeu o que é o bem e o que é o vero, é significado por ‘Deus tê-lo esmagado no lugar dos dragões e ter coberto sobre ele a sombra da morte’; ‘lugar de dragões’ é onde estão os que são dragões no inferno, a saber, os que destruíram em si todo bem. O falso, em que esses estão, é chamado ‘sombra da morte’.
[24] No mesmo:
“O leão e a áspide pisarás, pisotearás o leão e o dragão; como Me desejou, regatá-lo-ei e exaltá-lo-ei, porque conheceu o Meu nome” (Sl. 91:13, 14).
Destruir os falsos interiores e exteriores que devastam os veros da igreja é significado por ‘pisar o leão e a áspide”; e destruir os falsos interiores e exteriores que devastam os bens da igreja é significa por ‘pisotear o leão e o dragão’; tirar dos falsos e conduzir aos veros e bens interiores aquele que está na doutrina da Palavra é significado por ‘resgatá-lo, exaltá-lo, porque conheceu o Meu nome’; ‘resgatar’ é tirar dos falsos, ‘exaltar’ é conduzir aos veros interiores, e ‘conhecer o Meu nome’ é estar na doutrina da Palavra.
[25] Em Malaquias:
“Tide ódio de Esaú, e pus os seus montes em desolação, e a sua herança para os dragões do deserto” (Ml. 1:3).
Por ‘Esaú’ se entendem os que estão no bem quanto ao homem natural, aqui, os que estão no mal quanto a ele, pelo que é dito: ‘Tive ódio de Esaú’. ‘Pôr os seus montes em desolação’ significa que os bens do amor do homem natural serão destruídos, e ‘dar a sua herança aos dragões do deserto’ significa que os veros desse bem serão destruídos pelos falsos do homem sensual.
[26] Em Ezequiel:
“Eis contra ti, faraó, rei do Egito, dragão (ou baleia) grande, que se deita no meio dos seus rios, que disse: Meu rio é meu, e eu me fiz” (Ez. 29:3, 4; 32:2).
Aqui se descreve o orgulho da própria inteligência, que o homem natural e sensual tem. ‘Faraó, rei do Egito’, significa o homem natural e sensual; ‘dragão’ ou ‘baleia’ significa o mesmo quanto aos conhecimentos que são falsos ou falsificados pelo orgulho da própria inteligência. (Essas coisas, porém, veem-se explicadas acima, n. 513).
[27] Em Moisés:
“Da videira de Sodoma é a sua videira, e dos campos de Gomorra; suas uvas são uvas de fel, têm cachos de amargor; ??? veneno de dragão é o seu vinho, e fel cruel da áspide” (Dt. 32:33, 33).
A respeito dessas palavras, vide acima, n. 519, onde elas são explicadas. Ali também se diz que o ‘seu vinho’, que é chamado ‘veneno de dragões’ e ‘fel cruel de áspide’ significa o que o vero da igreja nos descendentes de Jacob era externo, no qual há interiormente males e falsos infernais; ‘dragões’ e ‘áspides’ significam as coisas sensuais, que são os últimos do homem, cheias de males nefandos e falsos que os confirmam. A causa disso é que o natural nada recebe do Senhor por meio da mente espiritual; portanto, recebe o que é proveniente do inferno.
[28] Que pelo ‘dragão’ sejam significadas as coisas tais que são relatadas acima é o que se pode ver mais plenamente pelo que se segue neste capítulo, a saber, por sua inimizade contra a mulher parturiente e que fugiu para o deserto, bem como pela luta [do dragão] contra Miguel. E, além disso, nos capítulos 16:13-15 e 20:2, 7, 8, 10, 14, onde se diz a respeito dele que ‘foi preso por mil anos e, depois de solto, saiu para seduzir as nações e para ajuntar Gog e Magog em contra os santos’, mas que ‘depois foi lançado no lago de fogo e enxofre’. Por tudo isso pode-se ver que pelo ‘dragão’ se entendem aqueles que não possuem bem algum da caridade e do amor, pelo fato de o não terem reconhecido como algum meio que sirva à salvação, mas como algum conhecimento que vem da persuasão a quem chamam fé. E quando o bem da caridade e do amor não é implantado no homem pela vida, o mal está em seu lugar, e onde há o mal, aí está o falso.
[29] Visto que pelas ‘serpentes’ são significadas as coisas sensuais, que são os últimos do homem natural, e elas não são más senão naqueles que são maus, e visto que os dragões são nomeadas na língua hebraica pela mesma palavra que as serpentes não venenosas, daí é que pelos ‘dragões’, quando por eles se entendem tais serpentes, são significadas na Palavra as coisas sensuais não más, ou, aplicado às pessoas, os homens sensuais não maus. Que o mesmo vocábulo na língua hebraica nomeiem os dragões e tais serpentes pode-se ver em Moisés,
Quando da sarça lhe foi ordenado lançar o seu cajado à terra, e, quando este se transformou em serpente, Moispes pegou a sua cauda, pelo que a serpente se transformou de novo no cajado (Êx. 4:3, 4).
Moisés tomou o cajado e o lançou diante do faraó, e o cajado se tornou numa serpente (dragão), e os magos fizeram o mesmo com seus cajados, mas então o cajado de Moisés, então serpente (dragão), engoliu os cajados serpentes (dragões) dos magos. (Êx. 7:9-12).
A serpente na primeira passagem é nomeada na língua hebraica por outra palavra, diferente da palavra da passagem posterior. Na primeira passagem a serpente é nomeada por uma palavra comum que em outras passagens na Palavra é serpente, mas na passagem posterior é nomeada por uma palavra que é dragão, de sorte que também é licite interpretar que o cajado de Moisés lançado diante do faraó se transformou em dragão. Disto se segue que pela ‘dragão’, igualmente pela ‘serpente’ é significado, no bom sentido, o sensual, que é o último do homem natural, não mau ou não malicioso.
[30] Neste sentido mais brando os ‘dragões’ são também nomeados em Isaías:
“A fera do campo Me honrará, os dragões e as filhas da coruja, por [Eu] ter dado águas no deserto, rios no ermo, para dar de beber ao povo, ao Meu escolhido” (Is. 43:20) ;
e, em Jeremias,
“A cerva pariu no campo, mas abandonou, porque não havia relva; e os jumentos selvagens pararam sobre as colinas, sorveram o vento como dragões; foram consumidos diante de seus olhos, por não haver erva” (Jr. 14:5, 6).
Nessas passagens, os ‘dragões’ são nomeados pela mesma palavra que pelas ‘serpentes’ em geral, e também pela mesma palavra são nomeadas as ‘baleias’ no mar, pelas quais também é significado o mesmo, a saber, o homem natural no geral, que é o sensual. Por isso, na passagem posterior também é lícito interpretar “sorveram o vento como baleias’. (É semelhante em Isaías 51:9, em Jeremias 51:34, em Ezequiel 29:3, 4, e em David, salmo 74:13, 14). Também, há homens meramente sensuais que são bons.

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