. “Que há de apascentar todas as nações com vara de ferro”. Que isto signifique que ela, pelo poder do vero natural oriundo do espiritual, convencerá e acusará aqueles que estão nos falsos e males e, todavia, na igreja onde há a Palavra, vê-se pela significação de ‘apascentar’, que é ensinar (de que se tratou acima, n. 482); aqui, porém, é convencer e contestar, pois se diz que ‘há de apascentar com vara de ferro’; pela significação de ‘todas as nações’, que são os que estão nos falsos e males (de que também se tratou acima, n. 175, 331 e 625); e pela significação de ‘vara de ferro’, que é o poder do vero natural oriundo do espiritual, pois pela ‘vara’ ou ‘cajado’ é significado o poder, e se atribui ao Divino Vero espiritual, e pelo ‘ferro’ é significado o vero no homem natural. Que seja o poder do vero do homem natural oriundo do espiritual que é significado pela ‘vara de ferro’ é porque todo poder que os veros têm no homem natural vem do influxo do vero e do bem do homem espiritual, isto é, do influxo do Divino Vero vindo do Senhor pelo homem espiritual no natural, pois somente o Senhor tem poder, e Ele o exerce pelo Divino Vero que procede d’Ele. Todavia, para que estas coisas sejam mais claramente percebidas, deve ser demonstrado que: (i.) O Senhor tem infinito poder. (ii.) O Senhor tem esse poder por Si mesmo, por meio do Seu Divino Vero. (iii.) Todo poder está reunido nos últimos, e daí o Senhor tem infinito poder desde os primeiros pelos últimos. (iv.) Os anjos e os homens têm poder tanto quanto sejam recepções do Divino Vero vindo do Senhor. (v.) O poder reside nos veros do homem natural na medida em que ele recebe o influxo do Senhor pelo homem espiritual. (vi.) Os veros do homem natural não tenham poder algum sem esse influxo. [2] (i.) Que o Senhor tenha poder infinito pode-se ver pelo fato de Ele ser o Deus do céu e o Deus da terra, ter criado o universo, cheio de estrelas tão inúmeras, que são tantos sóis, e nele tantos sistemas solares, e nos sistemas, terras; esses sistemas e terras excedem em número centenas de milhares; e como Ele os criou, somente ele os conversa e sustenta. Também, assim como os mundos naturais, também criou os mundos espirituais acima deles, e os enche perpetuamente de anjos e espíritos, em número de miríades de miríades. E sob eles encerrou infernos, tantos quantos são também os céus em número; e somente Ele dá a vida a todos e a cada um dos que estão nos mundos da natureza e nos mundos acima da natureza, e como só Ele dá a vida, nenhum anjo, espírito e homem pode mover uma mão nem um pé a não ser por Ele. Qual é o poder infinito que o Senhor tem é evidente principalmente pelo fato de que só Ele recebe e, por milhares de arcanos da Divina Sabedoria, conduz todos os que vêm de tantas terras aos mundos espirituais, os quais são algumas miríades somente de nossa terra a cada semana, e, consequentemente, tantas miríades e tantos milhares de terras no universo, cada um ao lugar de sua vida, os fiéis aos seus lugares nos céus, e os infiéis aos seus lugares nos infernos. E governa tanto singularmente quanto universalmente os pensamentos, intenções e vontades de todos esses, e faz com que todos e cada um nos céus desfrutem de sua felicidade, e todos e cada um nos infernos sejam mantidos em seus vínculos, por mais que os céus e os infernos se multipliquem na eternidade. Estas e muitas outras coisas, que não podem ser enumeradas por causa de sua abundância, não poderiam existir a menos que o Senhor tivesse poder infinito. Que somente o Senhor governe todas as coisas, Ele o ensina em Mateus: “Foi-me dado todo poder no céu e na terra” (Mt. 28:18); e Que Ele é a vida mesma (Jo. 5:26; 11:25, 26; 14:6). [3] (ii.) Que o Senhor tenha poder infinito por Si mesmo, por Seu Divino Vero, é porque o Divino Vero é o Divino procedente, e do Divino que procede do Senhor se fazem todas as coisas que acima foram ditas a respeito do poder infinito do Senhor. O Divino Vero considerado em si mesmo é a Divina Sabedoria, que se estende a toda parte, assim como a luz e o calor do sol em nosso mundo, pois o Senhor, pelo Divino Amor, aparece como Sol no mundo espiritual, onde estão os anjos e os espíritos. Tudo o que procede desse Sol é chamado Divino Vero, e o que procede também produz. O que procede é também Ele, porque vem d’Ele, pelo que o Senhor nos céus é o Divino Vero. Todavia, para que se saiba que o Senhor tem infinito poder por meio do Divino Vero dir-se-á alguma coisa a respeito de sua essência e existência. Isto não pode ser compreendido pelo homem natural e seu lume a menos que o seja pelas coisas que procedem do sol do mundo, das quais e pelas quais todos têm poder em seu mundo e nas terras que estão sob sua luz e seu calor. Do sol do mundo, como de sua fonte, emanaram auras e atmosferas, que são chamados éteres e ares, pelo que no entorno mais próximo deles há puro éter, e no mais afastado dele há éter menos puro, e, finalmente, ares, mas este e aquele em torno das terras. Esses éteres e ares agindo em conjunto (???) dão o calor, e isoladamente modificados dão a luz. Por elas esse sol exerce todo o seu poder e produz todo o seu efeito fora de si, por conseguinte, por éteres e ares como meio e, ao mesmo tempo, pela luz como meio. [4] Por aí se pode formar alguma ideia a respeito do poder infinito do Senhor por meio do Divino Vero. Dele, como Sol, emanaram semelhantemente auras e atmosferas, mas espirituais, porque vinham do Divino Amor, que fez esse Sol. Que haja tais atmosferas no mundo espiritual pode-se ver pela respiração dos anjos e dos espíritos. Essas auras e atmosferas espirituais, que estão próximas ao Senhor como Sol, são puríssimas, mas as que estão gradativamente remotas são também gradativamente menos puros. Daí é que há três céus: o céu íntimo na aura mais pura, o céu médio na aura menos pura e o céu mais externo na aura ainda menos pura. Essas auras ou atmosferas, que são espirituais, porque surgiram do Senhor como Sol, agindo em comum apresentam o calor, e, individualmente modificadas, apresentam a luz. Esse calor, que em sua essência é o amor, e essa luz, que em sua essência é sabedoria, são chamados particularmente Divino Vero, e eles, juntamente com as auras, que também são espirituais, são chamados Divino procedente. Por estes, então, é que os céus foram criados e também os mundos, pois do mundo espiritual existem e foram produzidas, todas as coisas que há no mundo natural, assim como o efeito por suas causas eficientes. Por aí se pode ver agora, como num espelho natural, a criação do céu e da terra pelo Divino Vero procedente do Senhor como Sol, que está acima dos céus angélicos. E, também, pode-se de algum modo compreender que o Senhor tem infinito poder pelo Divino procedente, que se chama, em geral, Divino Vero. Isto também se entende por essas palavras: “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava em Deus, e Deus era a Palavra; ... todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ela nada do que foi feito se fez;... e o mundo foi feito por Ela” (Jo. 1:1, 3, 10); e, em David: “Pela Palavra de Jehovah foram feitos os céus” (Sl. 33:6); “Palavra” significa o Divino Vero. [5] (iii.) Que todo poder esteja reunido nos últimos, que daí o Senhor tenha poder infinito pelos primeiros por meio dos últimos. Primeiramente se dirá o que se entende pelos últimos. Os primeiros são as coisas que estão no Senhor e que procedem mais proximamente d’Ele; os últimos são as coisas que se acham muito afastadas d’Ele, que estão na Natureza e nos últimos aí. Estas são chamadas últimas porque as espirituais, que são as anteriores, terminam nelas e sobre elas subsistem e repousam como em suas bases; por isso elas são imóveis e são daí chamadas últimas da Ordem Divina. Que todo poder esteja nos últimos é porque os anteriores estão juntamente neles, pois coexistem aí na ordem que se chama ordem simultânea. Com efeito, existe uma conexão de todas as coisas desde o Senhor mesmo pelas coisas que são do céu e do mundo até essas últimas, e como as anteriores, que procedem sucessivamente, estão juntamente nos últimos, como foi dito, segue-se que nos últimos, desde os primeiros, está o poder mesmo. Mas o poder Divino é o poder por meio do Divino procedente, que se chama Divino Vero, como se mostrou no artigo logo acima. [6] Por isso é que o gênero humano é como que uma base de coluna, ou como um alicerce para um palácio, em relação aos céus. Consequentemente, os céus subsistem em ordem sobre as coisas que são da igreja nos homens no mundo, assim, sobre os Divinos veros nos últimos, que são os Divinos veros tais como estão na Palavra, no seu sentido da letra. A qualidade da força que neles se encerra não se pode descrever em poucas palavras. Nesses últimos no homem o Senhor influi de Si, portanto, desde os primeiros, e governa e mantém em ordem e em conexão todas as coisas que estão no mundo espiritual. [7] Ora, visto que o poder Divino mesmo reside nesses últimos, por isso o Senhor mesmo veio ao mundo e Se fez Homem, para que esteve nos últimos ao mesmo tempo em que nos primeiros, a fim de que pelos últimos a partir dos primeiros pudesse governar todas as coisas que se tinham tornado desordenadas, a saber, todas as coisas nos infernos e também nos céus. Esta foi a causa do advento do Senhor, pois pouco tempo antes do advento do Senhor não havia Divino Vero algum nos últimos com os homens no mundo e absolutamente nenhum na igreja, que então estava na nação judaica, a não ser o vero falsificado e pervertido, e, daí, não havia base alguma para os céus. Por isso, se o Senhor não tivesse vindo ao mundo e, assim, Ele assumisse o último, os céus que eram feitos dos habitantes desta terra teriam sido transferidos para outra parte40 , e todo o gênero humano nesta terra pereceria de morte eterna. Todavia, agora o Senhor está em Seu pleno e, assim, em sua onipotência nas terras como está nos céus, porque está nos últimos e nos primeiros. Assim, o Senhor pode salvar todos os que estão nos Divinos veros da Palavra e na vida segundo os veros, pois nestes pode estar presente e habitar nos últimos veros da Palavra, porque os últimos veros também são d’Ele e são Ele mesmo, porque vêm d’Ele, segundo as Suas palavras em João: ‘Quem tem os Meus preceitos e os pratica, esse é o que Me ama... e Meu Pai o amará, e para ele viremos, e morada nele faremos” (Jo. 14:21, 23). [8] (iv.) Que os anjos e os homens tenham poder tanto quanto sejam recepções do Divino Vero vindo do Senhor pode-se ver pelas coisas que foram ditas há pouco, acima, a saber, que o Senhor tem infinito poder e somente Ele tem poder pelo Seu Divino vero, e pelo fato de que os anjos não são outra coisa senão formas recipientes do Divino Vero, semelhantemente aos homens. Daí é que por ‘anjos’ na Palavra são significados os Divinos veros e são chamados ‘deuses’, do que se segue que na quantidade e na qualidade em que recebem do Senhor o Divino Vero eles são no mesmo grau poderes. [9] (v.) Que o poder resida nos veros do homem natural na medida em que ele recebe o influxo do Senhor pelo homem espiritual é consequência das coisas que precederam, a saber, que o Divino Vero tenha todo poder nos últimos pelos primeiros, e o homem natural é receptáculo dos últimos. Mas, há dois caminhos para a mente natural do homem, um do céu e outro do mundo; o caminho do céu vai pela mente espiritual na racional e, por esta, na natural, e o caminho do mundo pela mente sensual, que está próxima ao mundo e se adere ao corpo. Daí se pode ver que o Senhor não influi com o Divino Vero no homem natural senão pelo espiritual e na medida em que o homem natural daí recebe o influxo, e aí tem poder na mesma medida. Por poder aí se entende o poder contra os infernos, que é o poder de resistir aos males e falsos e de removê-los. Na medida em que esses são resistidos e removidos, assim também o homem vem ao poder angélico e também à inteligência e se torna ‘filho do reino’. (Sobre o poder dos anjos vide, na obra O Céu e o Inferno, os n. 228-233; e sobre a inteligência e a sabedoria deles, n. 265-275). [10] (vi.) Que os veros do homem natural não tenham poder algum sem esse influxo é o que se segue como consequência do que foi dito há pouco. Os veros do homem natural sem o influxo pelo homem espiritual nada têm em si do Senhor, daí também, nada de vida; e os veros sem a vida não são veros, e, de fato, são falsos considerados interiormente, e os falsos não têm absolutamente poder algum, porque são opostos aos veros, que têm todo poder. Essas coisas foram agora relatadas para que se saiba o que se entende pelo poder do vero natural oriundo do espiritual, que é significado pela ‘vara de ferro’ com que o ‘filho macho nascido da mulher ‘há de apascentar todas as nações’.