. [Vers. 6] ‘E a mulher fugiu para o deserto”. Que isto signifique a igreja entre uns poucos, porque estará naqueles que não estão no bem, por conseguinte, tampouco nos veros, vê-se pela significação de ‘mulher’, que é a igreja (de que se tratou acima, n. 707); pela significação de ‘deserto’, que é onde não há veros por não haver bem (de que se tratará a seguir); e pela significação de ‘fugir para lá’, que é ficar entre aqueles que não estão nos veros, por não estarem no bem; e como no fim da igreja há poucos que estão nos veros do bem, é significado entre uns poucos. Por aí se pode ver o que essas palavras envolvem, a saber, que a Nova Igreja, que é chamada Santa Jerusalém, que é significada pela ‘mulher’, não pode ainda ser instituída senão entre uns poucos, pelo fato de a igreja anterior ter se tornado um deserto, e a igreja é chamada de ‘deserto’ quando não há mais o bem, e onde não há mais o bem tampouco há aí os veros. Quando a igreja é tal, então os males e falsos reinam, e esses impedem que a doutrina, que é a doutrina do amor ao Senhor e da caridade para com o próximo, com os seus veros, seja recebida; e quando a doutrina não é recebida, não há igreja, pois a igreja vem da doutrina. [2] Dir-se-á primeiramente alguma coisa a respeito disto, que não há veros onde não há bem. Por bem entende-se o bem da vida segundo os veros da doutrina da Palavra. A razão disso é que o Senhor nunca influi imediatamente nos veros no homem, mas mediatamente, por meio do bem do homem, pois o bem pertence à sua vontade e a vontade é o homem mesmo. Da vontade o entendimento é produzido e formado, pois o entendimento é adjunto à vontade, de modo que a vontade ama o que o entendimento vê e também o traz à luz. Por isso, se a vontade não estiver no bem, mas somente no mal, então o influxo do vero vindo do Senhor não tem efeito no entendimento, mas dissipado, pois não é amado e, mesmo, é pervertido, e o vero é falsificado. Disso é evidente por que o Senhor não influi imediatamente no entendimento do homem senão na medida em que a vontade está no bem. O Senhor pode iluminar o entendimento em cada homem e, assim, influir com os Divinos veros, porque a todo homem é concedida a faculdade de entender o vero, e isto por causa de sua reforma, mas não influi, visto que os veros não permanecem senão na medida em que a vontade foi reformada. Também, é perigoso iluminar o entendimento nos veros até o fim, a não ser na medida em que age em comum com a vontade, pois o homem pode então perverter, adulterar e profanar os veros, o que é muito danoso. Além disso, enquanto os veros são conhecidos e compreendidos, e não ao mesmo tempo vividos, não são outra coisa senão veros inanimados, e os veros inanimados são como que estátuas sem vida. Por aí se pode ver de onde procede que não haja veros onde não houver bem, a não ser quanto à forma e não quanto à essência. [3] Que seja tal o homem da igreja em seu fim é porque então ele ama acima de todas as coisas as que são do corpo e as que são do mundo, e com essas são amadas sobre todas as coisas, então as que são do Senhor e as que são do céu não são amadas, pois ninguém pode servir ao mesmo tempo a dois senhores; antes, ama a um tem ódio ao outro, pois são opostos. Com efeito, do amor do corpo, que é o amor de si, e pelo amor do mundo, que é o amor das riquezas, quando esses são amados sobre todas as coisas, profluem todos os males e, dos males, os falsos, que são opostos aos bens e veros, que provêm do amor ao Senhor e do amor para com o próximo. Por essas poucas explicações pode-se ver de onde procede que se diz da mulher que ‘fugiu para o deserto’, isto é, entre uns poucos, porque está naqueles que não estão no bem e, daí, não estão nos veros tampouco. [4] Em muitas passagens na Palavra se diz ‘deserto’ e, também, ‘ermo’ [solitudo] e ‘desolação’ [vastitas], e por estes são significados os estados da igreja, quando não há mais ali vero algum, por não haver o bem. Que esse estado da igreja seja chamado ‘deserto’ é porque no mundo espiritual, no lugar onde moram os que não estão nos veros por não estarem no bem, há como que um deserto, onde não há verdor nas campinas nem seara nos campos, tampouco árvore de fruto nos jardins, mas terra estéril, árida e seca. Além disso, pelo ‘deserto’, na Palavra, é significado o estado da igreja entre os gentios, que estão na ignorância do vero e, todavia, no bem da vida segundo a sua religiosidade, pelo qual desejam os veros. E, também, pelo ‘deserto’, na Palavra, é significado o estado daqueles que estão em tentações, porque nesses os bens e veros são obstruídos pelos males e falsos que emergem e se apresentam à mente. Que estes e aqueles sejam significados na Palavra pelo ‘deserto’ pode-se ver pelas passagens ali, onde se diz ‘deserto’. [5] No que concerne ao primeiro ponto, a saber, que pelo ‘deserto’ se entende o estado da igreja quando aí não há mais vero por não haver bem, vê-se pelo que se segue. Em Isaías: “Não é este o varão que abala a terra, estremece os reinos, faz do mundo um deserto e destrói as suas cidades?” (Is. 14:16, 17). Essas palavras são a respeito de Lúcifer, por quem se entende Babel. Por ‘abalar a terra, estremecer os reinos e fazer do mundo um deserto’ é significado destruir todos os veros e bens da igreja; ‘terra’ é a igreja, ‘reinos’ são os seus veros, ‘mundo’ é os seus bens e ‘deserto’ é quando aqueles não existem; ‘destruir suas cidades’ significa as coisas doutrinais; a ‘cidade’ significa a doutrina. A adulteração da Palavra, pela qual a doutrina e, daí, a igreja é destruída, é aqui significada por ‘Babel’. [6] No mesmo: “Sobre a terra de Meu povo subiu sarça de espinhos, porque sobre todas as casas de alegria, cidade jubilosa; porque o palácio ficará deserto, a multidão da cidade abandonada. O outeiro e a torre de vigia estarão sobre as cavernas na eternidade, regozijo dos jumentos selvagens, pasto dos rebanhos” (Is. 32:13, 14); ‘sobre a terra do Meu povo subiu sarça de espinhos’ significa o falso do mal na igreja; ‘sarça de espinhos’ é o falso do mal, ‘terra’ é a igreja; ‘sobre todas as casas de alegria, cidade jubilosa’ significa onde os bens e veros da doutrina da Palavra são recebidos com afeição. O que, porém, significa ‘o palácio ficará deserto, a multidão da cidade abandona, o outeiro e a torre de vigia sobre as cavernas, regozijo dos jumentos selvagens, pasto dos rebanhos’ vide acima (n. 410), onde essas palavras foram explicadas. [7] No mesmo: “Por Minha repreensão faço secar o mal, ponho rios no deserto, apodrecerá o seu peixe, por não haver água, e morrerá de sede” (Is. 50:2); ‘pôr rios no deserto’ significa privar o entendido dos veros, assim, privar o homem da inteligência. (As demais coisas se veem explicadas acima, n. 342). Em Jeremias: “Vi, eis que o Carmelo [era] um deserto, e todas as cidades desoladas diante de Jehovah... toda a terra será assolada” (Jr. 4:26, 27); ‘Carmelo’ significa a igreja espiritual, que está nos veros do bem; que ela fosse um’ deserto’ significa que ali não havia veros do bem; pelas ‘cidades’ que estavam ‘desoladas’ são significados os doutrinais sem os veros; por ‘toda a terra’ que será ‘assolada’ é significada a igreja sem o bem e, daí, sem os veros. [8] No mesmo: “Muitos pastores destruíram a Minha vinha, pisotearam o Meu campo, transformaram o campo de Meu desejo em deserto de solidão; ... sobre todas as colinas no deserto vieram os devastadores, porque a espada de Jehovah devora desde o fim da terra até o seu fim” (Jr. 12:10, 12); ‘destruíram a vinha, pisotearam o campo, transformaram o campo de desejo em deserto de solidão’ e ‘sobre todas as colinas do deserto vieram os devastadores, porque a espada de Jehovah devora’ significa que os veros e bens da igreja foram totalmente destruídos pelos falsos do mal’; ‘vinha e campo’ significam a igreja quanto ao vero e ao bem; ‘campo de desejo’ a igreja quanto à doutrina, ‘deserto de solidão’ onde não os há; ‘devastadores no deserto’ significam os males procedentes não de veros; ‘espada de Jehovah que devora’ significa o falso que destrói; ‘desde o fim da terra até o fim da terra’ significa todas as coisas da igreja. [9] Nas Lamentações: “Com perigo de nossas almas obtemos nosso pão, por causa da espada do deserto” (Lm. 5:9); ‘obter o pão com perigo de almas’ significa a dificuldade e o risco de adquirir da Palavra para si os veros da vida; ‘por causa da espada do deserto’ significa por causa do falso do mal que reina na igreja, o qual falsifica os veros e assim os destrói. [10] Em Ezequiel: A vide “agora está plantada no deserto, numa terra de aridez e de sede” (Ez. 19:13); pela ‘vide’ é significada a igreja, que no começo do capítulo é chamada de ‘mãe, que se tornou leoa’; ‘plantada no deserto’ se diz quando nela não há mais vero, por não haver bem; ‘terra de aridez’ é não ter o bem, mas, em seu lugar, o mal; e ‘terra de sede’ é não ter o vero, mas o falso em seu lugar. [11] Em Oséias: “Contendei com vossa mãe... para que remova as suas escortações de suas faces... para que talvez eu não a deixe desnude, e a apresente como no dia de seu parto, e a faça como um deserto, e a disponha como terra de aridez, e a mate de sede” (Os. 2:2, 3). Essas palavras são a respeito da igreja que falsificou os veros da Palavra. ‘Mãe’ é a igreja, e ‘escortações’ são as falsificações do vero. Privá-la de todo vero, tal como foi antes de ser reformada, é significado por ‘deixá-la desnuda’ e ‘apresentá-la como no dia de seu parto’; a igreja sem o bem o significada pelo ‘deserto’ e pela ‘terra de aridez’, e a privação do vero por ‘matar de sede’; ‘sede’ se diz dos veros, porque a ‘água’ de que tem sede é o vero; e ‘aridez’ se diz da carência do bem, porque vem da queimada. [12] No mesmo: “Ele é feroz entre os irmãos; virá o vento oriental de Jehovah, subindo do deserto, e secará o seu manancial, e estancará a sua fonte” (Is. 13:15). Essas palavras são a respeito de Efraim, por quem se entende o entendimento da Palavra. Ele é chamado ‘feroz entre os irmãos’ quando defende animosamente os falsos e por estes luta contra os veros. Pelo ‘vento oriental de Jehovah’ é significado o ardor das cobiças provenientes do amor e do orgulho de destruir os veros; diz-se ‘subir do deserto’ quando do entendimento em que não há veros do bem, mas falsos do mal; esse entendimento é ‘deserto’ porque é vazio e vácuo. Que desse amor e desse orgulho seja destruída toda doutrina e tudo da Palavra é significado por ‘secará o seu manancial e estancará a sua fonte; ‘manancial’ é a doutrina, e ‘fonte’ é a Palavra. [13] Em Joel: “A Ti clamo, ó Jehovah, porque o fogo comeu os habitáculos do deserto, e a chama queimou todas as árvores do campo; porque a besta do campo urrou42 a Ti, porque se secaram os rios de águas, e o fogo comeu os habitáculos do deserto” (Jl. 1:19, 20); ‘o fogo comeu os habitáculos do deserto, e a chama queimou todas as árvores do campo’ significa que o amor de si e o orgulho da própria inteligência consumiram toda percepção do bem e todo entendimento do vero da doutrina do sentido da letra da Palavra; ‘fogo’ significa o amor de si, e ‘chama’ o orgulho da própria inteligência; ‘habitáculos do deserto’ significam os bens da doutrina do sentido da letra da Palavra, e ‘árvores do campo’ as cognições de seu vero; esse sentido é chamado ‘deserto’ quando é entendido apenas naturalmente, assim, segundo as aparências, e não ao mesmo tempo espiritualmente, assim, segundo o sentido genuíno; ‘as bestas do campo urram a Ti’ significa as lamentações daqueles que são natural e, no entanto, desejam os veros; (que as ‘bestas’ signifiquem as afeições do homem natural vê-se acima, n. 650); ‘porque se secaram os rios de águas, e o fogo comeu os habitáculos do deserto’ significa que não há mais veros e bens da vida daí. [14] No mesmo: “Vem o dia de Jehovah... o fogo come antes dele, e após ele a chama queima; como o jardim de Éden a terra antes dele, mas, após ele, um deserto de desolação, e nada escapará dele” (Jl. 2:1, 3); pelo ‘dia de Jehovah’ entende-se o fim da igreja, que é chamado consumação do século e, então, o advento do Senhor; que no gim da igreja o amor de si e, daí, o orgulho da própria inteligência consuma todos os bens e veros da igreja é significado por ‘antes dele o fogo come, e após ele a chama queima’; ‘fogo’ significa o amor de si, ‘chama’ o orgulho da própria inteligência (como acima); ‘como jardim de Éden a terra antes dele, mas, após ele, um deserto de desolação’ significa que, no princípio, quando essa igreja foi instaurada entre os antigos, houve entendimento do vero oriundo do bem, mas, no fim, o falso do mal; ‘jardim do Éden’ significa o entendimento do vero do bem e, daí, a sabedoria, e ‘deserto de desolação’ significa nenhum entendimento do vero do bem e, daí, a insanidade pelos falsos do mal; ‘nada escapará dele’ significa que nada há do vero do bem. [15] Em Isaías: “A terra chora, desfalece; o Líbano enrubesceu, murchou; Scharon tornou-se como um deserto, Baschan foi sacudido, e o Carmelo” (Is. 33:9). Por essas palavras também se descreve a devastação do bem e a desolação do vero na igreja. ‘Líbano’ significa a igreja quanto ao entendimento racional do bem e do vero; ‘Scharon’, ‘Baschan’ e ‘Carmelo’ significam a igreja quanto às cognições do bem e do vero do sentido natural da Palavra; a devastação e a desolação delas é significado por ‘chorar’, ‘desfalecer’, ‘murchar’ e ‘tornar-se como um deserto’; ‘deserto é onde não há vero por não haver bem. [16] Em Jeremias: “Como a terra está cheia de adultério, como a terra chora por causa da maldição, secaram-se os pastos do deserto” (Jr. 23:10); pela ‘terra cheia de adultério’ é significada a igreja, na qual os seus bens e veros da Palavra foram adulterados; pela ‘maldição’, pela qual a terra chora, é significado todo mal da vida e falso da doutrina; e pelos ‘pastos do deserto’, que se secaram, são significadas as cognições do bem e do vero da Palavra; ‘pastos’ são essas cognições porque alimentam a mente, e ‘deserto’ é a Palavra quando foi adulterada. [17] Em David: Jehovah “torna os rios em deserto, e saída de águas em sequidão, a terra de fruto em salsugem, por causa das malícias dos que habitam nela” (Sl. 107:33, 34); pelos ‘rios que se tornam em deserto’ é significada a inteligência do entendimento do vero e também a Palavra, quanto ao seu sentido interior, devastada pelos falsos do mal; ‘rios’ são coisas tais que pertencem à inteligência, e ‘deserto’ onde não os há, mas falsos do mal em lugar deles; pela ‘saída de águas’ que ‘tornam-se em sequidão’ é significado que os últimos do entendimento, que se chamam cognições do vero e do bem, são desprovidos de toda luz e da afeição do vero espiritual; ‘águas’ significam os veros, ‘sequidão’ a privação deles e pela falta de luz e de afeição, e ‘saída’ os últimos deles, como são os veros do sentido da letra da Palavra; pela ‘terra de fruto’ que ‘se tornará em salsugem’ é significado o bem do amor e da vida profundamente devastado pelos falsos; ‘salsugem’ é a devastação do vero pelos falsos, e como toda devastação pelos falsos vem do mal da vida, por isso se acrescenta ‘por causa da malícia dos que habitam nela’. [18] Em Jeremias: “Levanta os teus olhos para as colinas, e vê onde [não] foste violentada; sobre os caminhos sentaste como os árabes no deserto; onde profanaste a terra com tuas escortações e tua malícia” (Jr. 3:2). Por essas palavras também se descreve a adulteração e a falsificação da Palavra; ‘violentá-la’ e ‘escortá-la’ significam isso. Assim, ‘levanta os olhos para as colinas e vê onde [não] foste violentada’ significa prestar atenção às cognições do vero e do bem na Palavra, que foram adulteradas; ‘levantar os olhos’ significa prestar atenção; ‘colinas’ significam as cognições, por causa dos bosques e das árvores que há sobre elas, pelas quais as cognições são significadas; também pelas ‘colinas’ são significados os bens da caridade que assim foram destruídos.; ‘sobre os caminhos sentaste como árabes no deserto’ significa estar atento [???] para que nenhum vero se mostra e seja recebido; ‘caminhos’ são os veros da igreja, ‘sentar-se neles’ é estar atento, e ‘árabes no deserto’ é o que mata e saqueia, como um ladrão no deserto; ‘profanaste a terra com escortações e malícias’ significa a falsificação das verdades da Palavra pelos males que se tornaram da vida. [19] No mesmo: “O geração, vede vós a Palavra de Jehovah; não fui um deserto para Israel? terra de trevas? (Jr. 2:31). Que todo bem da vida e vero da doutrina sejam ensinados na Palavra e não o mal da vida e o falso é o que se entende por ‘vede a Palavra de Jehovah, não fui um deserto para Israel, uma terra de trevas? [20] Em Joel: “O Egito será uma desolação, e Edom um deserto de desolação, por causa da violência dos filhos de Judah, dos quais derramarem o sangue em sua terra” (Jl. 3:19); por “Egito’ e por ‘Edom’ é significado o homem natural, que tinha pervertido os veros e bens da Palavra; que ele há de ser destruído, para que não veja senão coisas tais pelas quais confirme é significado por ‘o Egito será uma desolação, e Edom um deserto de desolação’; que isto por causa adulteração de todo bem e vero na Palavra é significado por ‘por causa da violência dos filhos de Judah, dos quais derramaram sangue inocente’; pela ‘violência dos filhos de Judah’ é significada a adulteração da Palavra quanto ao bem, e pelo ‘derramamento de sangue inocente’ é significada a adulteração da Palavra quanto aos seus veros. (Que ‘Judah’ signifique a igreja celeste e também a Palavra vê-se acima, n. 211 e 433; e que ‘derramar sangue inocente’ signifique fazer violência ao Divino Vero, assim, adulterar o vero da Palavra, n. 329). A adulteração da Palavra se faz pelos conhecimentos do homem natural quando eles são aplicados para confirmar os falsos e males, e ele se torna ‘vastidão’ e ‘deserto, quando os seus conhecimentos se tornam confirmações do falso e do mal; ‘Egito’ significa os conhecimentos, e ‘Edom’ o orgulho que por elas falsifica. [21] Em Malaquias: “Tive ódio de Esaú, e fiz de seus montes uma desolação, e sua herança para os dragões do deserto” (Ml. 1:3); por ‘Esaú’ é significado o amor do homem natural; por ‘seus montes’ são significados os males desse amor; pela ‘herança’ os falsos desses males; e pelos ‘dragões do deserto’ são significadas as meras falsificações de que esses vêm. [22] Visto que na nação judaica todas as coisas da Palavra tinham sido adulteradas e ali não havia mais vero, por não haver bem, por isso João Batista este ‘no deserto’, pelo que era representado o estado daquela igreja, a cujo respeito assim se lê nos Evangelhos: João Batista “esteve no deserto até o dia de sua aparição a Israel” (Lc. 1:80); Que ele pregou no deserto da Judéia (Mt. 3:1-3; Mc. 1:2-4; Lc. 3:2, 4, 5); e em Isaías: “Voz do que clama no deserto: Preparei caminho a Jehovah, aplanai no ermo [solitudine] uma vereda a nosso Deus” (Is. 40:3). Por isso também o Senhor disse a respeito de ‘Jerusalém’, pela qual se entende a igreja quanto à doutrina, que “Vossa casa é deixada deserta” (Lc. 13:35); ‘casa deserta’ significa a igreja sem os veros porque está sem o bem. O que, porém, é significado por estas palavras em Mateus, “Se vos disserem: Eis” o Cristo “está no deserto, não saiais; se nas câmaras, não creiais” (Mt. 24:26), vide a explicação nos Arcanos Celestes (n. 3900), pois por ‘Cristo” se entende o Senhor quanto ao Divino Vero, por conseguinte, quanto à Palavra e quanto à doutrina da Palavra; e pelos ‘falsos Cristos’, de quem essas palavras são ditas, são significados os falsos da doutrina dos veros da Palavra falsificados. Pelas passagens citadas da Palavra pode-se ver que pelo ‘deserto’ entende-se a igreja onde não há veros por não haver o bem, consequentemente, onde há o falso por haver o mal, pois onde não há o vero e o bem há o falso e o mal. Os dois não existem juntamente, o que se entende pelas palavras do Senhor, que ‘ninguém pode servir a dois senhores’. [23] (ii.) Que pelo ‘deserto’ seja também significado o estado da igreja entre os gentios, que estiveram na ignorância do vero e, no entanto, no bem da vida segundo a sua religiosidade, pelo que tinham desejado os veros, pode-se ver também pelas passagens na Palavra onde se trata da igreja a ser instaurada entre os gentios. Em Isaías: “Será derramado sobre vós o espírito do alto; então o deserto será um campo lavrado, e o campo lavrado será considerado uma floresta; [e] o juízo habitará no deserto, e as justiça morará no campo lavrado” (Is. 32:15, 16). Aqui se trata dos que estão no bem natural e são reformados. O influxo do céu neles é significado por ‘ser derramado o espírito do alto’; que então será implantado neles o vero de origem espiritual é significado por ‘o deserto será um campo lavrado’; ‘deserto’ é o homem natural destituído dos veros, e ‘campo lavrada’ ou terra de seara é o homem natural frutificado pelos veros. Que daí ele tenha o conhecimento das cognições do vero e do bem é significado por ‘o campo lavrado será considerado uma floresta’; ‘floresta’ se de do homem natural, assim como o ‘jardim’ se diz do homem espiritual; por isso, pela ‘floresta’ é significado o conhecimento e pelo ‘jardim’ a inteligência. Que daí haja nele o que é reto e justo é significado por ‘habitará no deserto o juízo, e a justiça residirá no campo lavrado’; ‘juízo’ e ‘justiça’ significam, no sentido espiritual, o vero e o bem, mas, no natural, o que é reto e justo. [24] No mesmo: “Abrirei rios sobre os outeiros, e no meio dos vales porei fontes, [farei do] deserto um lago de águas, e da terra seca mananciais de águas. Darei no deserto o cedro schitta, a murta e a árvore de oliveira; porei no ermo o abeto, o pinheiro e o buxo” (Is. 41:18, 19). Essas palavras também são a respeito da reforma e da iluminação dos gentios, e por ‘abrir rios sobre os outeiros, e no meio dos vales pôr fontes’ é significado dar inteligência oriunda dos veros espirituais e dos veros naturais; ‘rios sobre os outeiros’ significam a inteligência oriunda dos veros espirituais, e ‘fontes no meio dos vales’ a inteligência oriunda dos veros naturais; ‘[fazer do] deserto um lago de águas, e da terra seca mananciais de águas’ significa encher de veros o homem espiritual e natural, onde antes não havia quaisquer veros; o homem espiritual em que não havia os veros se entende pelo ‘deserto’, porque antes não havia vero algum ali; e o homem natural em que não havia o vero se entende pela ‘terra seca’, porque antes não havia influxo espiritual nele; os veros em abundância do homem se entendem pelo ‘lago de águas’ e os veros em abundância no homem natural se entende pelos ‘mananciais de águas’; ‘pôr no deserto o cedo schitta, a murta e a árvore de oliveira’ significa dar os veros racionais e a percepção deles; e ‘pôr no ermo o aberto, o pinheiro e o buxo’ significa fazê-lo semelhantemente em relação aos veros naturais, que são os conhecimentos e as cognições, com o entendimento deles; ‘cedro’ é o vero racional superior, ‘murta’ é o vero racional inferior’, ‘árvore de oliveira’ é a percepção do bem e, daí, do vero; ‘abeto’ é o vero natural superior’, ‘pinheiro’ é o vero natural inferior, e ‘buxo’ é o entendimento do bem e do vero aí. [25] Em David: “Faz do deserto um lago de águas, e da terra seca uma saída de águas, e faz ali habitar os famintos, para que ergam uma cidade de para habitação” (Sl. 107:35, 36). Essas palavras tratam, igualmente, da iluminação dos gentios. ‘Fazer do deserto um lago de águas’ são significadas coisas semelhantes às de logo acima; ‘e faz habitar ali os famintos’ significa para aqueles que desejam os veros; esses se entendem na Palavra pelos ‘famintos’ e ‘sedentos’; ‘para que ergam uma cidade para habitação’ significa para que eles façam para si doutrina de vida; ‘cidade’ é a doutrina, e ‘habitar’ é viver. [26] Em Isaías: “Eis que Eu faço algo novo, agora brotará;... também porei no deserto um caminho, rios no ermo. A fera do campo Me honrará, os dragões e as filhas da coruja, por Eu lhes ter dado águas no deserto, rios na solidão, para dar de beber ao Meu povo, Meu eleito” (Is. 43:19, 20). Também essas palavras são a respeito de uma nova igreja a ser instaurada pelo Senhor nos gentios, e pelo ‘deserto’ é significado o estado da igreja naqueles que estão na ignorância do vero e, todavia, estão no desejo de conhecê-los. O que, porém, significa cada uma das coisas, vide acima (n. 518), onde elas são explicadas. [27] No mesmo: “Jehovah consolará a Sião, consolará todas as seus desolações, e fará do seu deserto como o Éden, e de sua solidão como o jardim de Jehovah; alegria e prazer se acharão nela, confissão e voz de cântico” (Is. 51:3). Também essas palavras tratam da nova igreja nos gentios, que hão de reconhecer o Senhor. Essa igreja se entende por ‘Sião’, e a sua instauração e a reforma deles se entende por ‘ser consolada’; pelo ‘deserto’, que fará como o Éden, e pela ‘solidão’, que será como o jardim de Jehovah, é significada a sabedoria e a inteligência oriundas do amor ao Senhor, as quais terão aqueles que anteriormente não estiveram entendimento algum do vero e em percepção alguma do bem. (Mas essas coisas se veem explicadas acima, n. 721). [28] Em David: “Destilam os habitáculos do deserto, e as colinas se cingem de exultação; os pratos se revestem de rebanhos, e os vales se cobrem em grão” (Sl. 65:12, 13). Essas, também, são a respeito da igreja nos gentios, e por ‘destilam os habitáculos do deserto’ é significado que as mentes daqueles que antes estiveram na ignorância do vero reconhecem e percebem os veros; ‘destilar’ se diz do influxo, do reconhecimento e da recepção do vero; ‘habitáculos’ se dizem dos interiores do homem, que pertencem à sua mente, e ‘deserto’ se diz do estado de ignorância do vero; ‘as colinas se cingem de exultação’ significa que os bens neles recebem os veros com prazer de coração; que ‘os prados se revistam de rebanhos e os vales se cubram de grão’ significa que ambas as mentes, a espiritual e a natural, recebem os veros adequados a si; ‘prados’ significam as que coisas pertencem à mente espiritual e, daí, racional, e ‘vales’ as coisas que pertencem à mente natural; ‘rebanho’ significa o vero espiritual, e ‘grão’ o vero natural. [29] Em Isaías: “Cantem... louvor extremidades da terra, os que descem ao mar e a sua plenitude, as ilhas e os habitantes delas. Levantem a voz o deserto e as suas cidades, as aldeias que a Arábia habita. Cantem os que habitam na rocha, e clamem dos cumes dos montes” (Is. 42;10, 11). Essas palavras são a respeito da igreja naqueles que estiveram afastados dos veros da igreja, por serem naturais e sensuais. A ignorância do estado deles se entende pelo ‘deserto’, e o prazer deles por causa da pregação e da cognição do vero por ‘cantar louvor e levantar a voz’. (O que as coisas restantes significam é explicado acima, n. 406). [30] Como o estado de ignorância do vero, no qual os gentios estiveram, é significado pelo ‘deserto’, o desejo do vero é significado pela ‘fome’ e a instrução do Senhor é significada pelo ato de ‘alimentar’, por isso aconteceu que o Senhor Se assentava no deserto e aí ensinava a multidão que O buscava e, depois, os alimentava. (Que isto tenha sido feito ‘nos desertos’ pode-se ver em Mateus 14:13-22; 15:32-38; Marcos 6:31-34; 8:1-9; e Lucas 9:12-17). Porque todas as coisas que foram feitas pelo Senhor e, também, que foram feitas com Ele, foram, representativas, porque foram correspondências. Assim também essas, pelas quais, como também pelas passagens acima referidas da Palavra, é evidente que o’ deserto’ significa isso no homem, quando ainda não foi cultivado e habitado, assim, quando ainda não se tornou vital pelo espiritual. Por conseguinte, aplicando-se à igreja, diz-se daquela que ainda não foi vivificada pelos veros, portanto, a religiosidade entre os gentios, que era quase vazia e vácua, porque eles não tiveram a Palavra onde há os veros e, daí, não reconheceram o Senhor, que os ensina. E como eles não tiveram os veros, por isso o bem deles não pôde ser outro senão de acordo com a qualidade do vero neles, pois o bem é semelhante ao seu vero, porque um pertence ao outro. Por aí se pode ver o que é significado pelo ‘deserto’, onde se trata dos gentios, a saber, não há o vero, mas, no entanto, há o desejo de o seu ser vivificado. [31] (iii.) Que pelo ‘deserto’ seja também significado o estado daqueles que estão nas tentações, porque neles os veros e os bens estão obstruídos pelos falsos e males, e emergem e se apresentam à mente, pode-se ver pela perambulação dos filhos de Israel no deserto durante quarenta anos, pela qual foi representado todo estado de tentações, nas quais entram os que são regenerados, dos quais haverá a igreja. Todo homem nasce natural e também vive natural, até se tornar racional, e quando se torna racional, então pode ser conduzido pelo Senhor e tornar-se espiritual. Isto se dá pela implantação das cognições do vero da Palavra e, ao mesmo tempo, pela abertura da mente espiritual, que recebe as coisas que são do céu, e pela evocação e elevação dessas cognições desde o homem natural, e pela conjunção com a afeição espiritual do vero. A abertura mesma e a conjunção não podem ocorrer senão por meio de tentações, porque neles o homem luta interiormente contra os falsos e males que estão no homem natural. Em suma, o homem é introduzido na igreja e se torna uma igreja por meio de tentações. Essas coisas foram representadas pela perambulação e pelos rodeios dos filhos de Israel no deserto. O estado do homem natural, antes de ser regenerado, é representado pela estada deles na terra do Egito, pois a ‘terra do Egito’ significava o homem natural com os conhecimentos e as cognições juntamente com as cobiças e os apetites que nele residem, como se pode ver pelo que foi dito e mostrado acima, n. 654, a respeito do Egito. Mas o estado espiritual, que p estado da igreja no homem, foi representado pela introdução dos filhos de Israel na terra de Canaan, pois a ‘terra de Canaan’ significava a igreja com seus veros e bens, juntamente com suas afeições e prazeres, que nele residem. Mas a reforma e a regeneração do homem, antes de se tornar espiritual e, assim, uma igreja, eram representadas pelos vagueios e pelas perambulações deles no deserto por quarenta anos. [32] Que isto seja assim, e que esse ‘deserto’ tenha significado o estado de tentações, pode-se ver em Moisés: “Lembrarás de todo caminho pelo qual Jehovah teu Deus te conduziu nesses quarenta anos no deserto, para que te afligisse e te tentasse, e conheceste o que estava em teu coração, se havias de guardas os Seus preceitos, ou não; e te afligiu, e te fez passar fome, e te alimentou com o maná que não conheceras, nem conheceram os teus pais, para que te ensinasse que nem só de pão vive o homem, mas de todo enunciado da boca de Jehovah vive o homem. Tuas vestes não se envelheceram de sobre ti, e teu pé não se inchou nesses quarenta anos” (Dt. 8:2-4); no mesmo: “No deserto, que viste, Jehovah teu Deus te carregou, assim como o varão carrega seu filho; ... foi adiante de vós no caminho, para procurar para vós um lugar em que que acamparíeis, no fogo de noite para mostrar o caminho... e na nuvem de dia” (Dt. 1:31, 33); no mesmo: Jehovah, “Que te conduziu pelo grande e terrível deserto, de serpente, de serpente de fogo, de escorpiões e de sete, onde não havia água; que fez sair para ti águas da rocha de pederneira, e te alimentou com o maná no deserto, para que te afligisse e te tentasse, para de beneficiar na tua descendência” (Dt. 8:15, 16); no mesmo: Jehovah encontrou Jacob “numa terra deserta, no ermo, lamentoso, na solidão; envolveu-o, instruiu-o, guardou-o como a pupila do olho” (Dt. 32:10). Por causa uma das coisas aqui ditas, e também por cada uma das coisas concernentes às jornadas dos filhos de Israel no deserto, desde à saído deles do Egito à entrada na terra de Canaan, relatadas no Livro do Êxodo, descrevem-se as tentações em que estão os fiéis, antes de se tornarem espirituais, assim, antes de serem implantados os bens do amor e da caridade com os veros deles, que fazem a igreja no homem. [33] Quem sabe o que são as tentações espirituais sabe que o homem, quando está nelas, é infestado pelos males e falsos, a ponto de mal saber outra coisa senão que está no inferno; sabe, também, que o Senhor no homem luta contra os males e falsos pelo interior; que, entrementes, sustenta o homem com a comida e a bebida espiritual, que são os bens e veros do céu; que o homem natural tem repugnância por essa comida; que o homem natural deve, no entanto, ser como que domado e morto, por assim dizer, com as suas concupiscências; e que ele seja subjugado ao homem espiritual; e que o homem assim é reformado e regenerado e introduzido na igreja. Estas são as coisas que envolvem todas as coisas que são relatadas a respeito dos filhos de Israel no deserto. Para que se saiba que elas envolvem tais coisas, é lícito expor detalhadamente algumas das coisas citadas. [34] (1.) Que o homem nas tentações seja infestado pelos males e falsos a ponto de mal saber outra coisa senão que está no inferno é o que se entende por ‘Jehovah te ter conduzido por um deserto grande e terrível, de serpente, de serpente de fogo, de escorpião, e de sede, onde não havia água’; pelo ‘deserto grande e terrível’ são significadas as graves tentações; pela ‘serpente, serpente de fogo e escorpião’ são significados os males e falsos, com as persuasões, emergindo do homem sensual e natural; ‘serpentes’ são os males daí, ‘serpentes de fogo’ são os falsos daí, e ‘escorpiões’ são as persuasões; pela ‘sede, onde não há água’ é significada a falta e o bloqueio do vero. Essas coisas também se entendem por ‘Jehovah ter te afligido, e te tentado, para conhecer o que havia no teu coração’. [35] (2.) Que o Senhor lute no homem contra os males e falsos que vêm do inferno é significado por ‘Jehovah ter encontrado Jacob no deserto, na desolação, lamentoso, na solidão, tê-lo guardado como a pupila de seu olho’; que ‘o tenha carregado como um varão carrega o seu filho’, e que ‘ter ido adiante deles no fogo, de noite, e na nuvem, de dia. (3.) Que o Senhor entrementes sustente o homem com a comida e a bebida espirituais, que são os bens e veros do céu, é significado por ‘tê-los alimentado com o maná’, por ‘ter feto sair para eles águas da rocha de pederneira’ e por ‘tê-los conduzido e instruído’; pelo ‘mana’ se entende o bem do amor celeste, e pelas ‘águas da rocha de pederneira’ se entendem os veros desse bem vindos do Senhor. (4.) Que o homem natural, nas tentações, tenha repugnância por essa comida entende-se por eles terem desejado as comidas do Egito; por isso se diz aqui que ‘Jehovah te afligiu, te fez passar fome e te alimentou com o maná’. [36] (5.) Que o homem natural deva, no entanto, ser como que morto, com as suas concupiscências, e sujeito ao homem espiritual, foi representado pelo fato de todos os que saíram do Egito e para lá desejaram voltar, e renunciaram entrar na terra de Canaan, morreram no deserto, e os filhos deles foram introduzidos na terra. Que essas coisas tenham sido representadas e significadas por aquelas é o que não se pode saber e ver senão pelo sentido espiritual. (6.) Que o homem se torne espiritual após as tentações e é introduzido na igreja e, pela igreja, no céu, foi representado pela introdução deles na terra de Canaan, pois a ‘terra de Canaan’ significava a igreja e também o céu. Isto é significado pelo fato de ‘Jehovah te ter afligido, e te ter tentado, para te beneficiar na tua descendência’. A vida espiritual deles é descrita pelo fato de Jehovah lhes ter ensinado que ‘nem só de pão vive o homem, mas de todo enunciado da boca de Jehovah’. Que ‘as vestes deles não se envelheceram, nem o seu pé inchou’ significa que o homem natural não foi lesado por essas aflições, pois as ‘vestes’ significam os veros do homem natural, e o ‘pé’ o hop natural mesmo. Além disso, por ‘quarenta’, sejam anos, sejam dias, é significada a duração inteira das tentações (vide acima, n. 633). [37] Estas palavras me David envolvem coisas semelhantes: “Perambularam no deserto, [na] solidão do caminho; cidade de habitação não encontraram, famintos e sedentos; quando a alma deles desfalecia no caminho, clamaram a Jehovah, [que] os conduziu num caminho reto, para que fossem à cidade de habitação” (Sl. 107:4-7). Essas palavras foram ditas em geral a respeito dos redimidos, especialmente a respeito dos filhos de Israel no deserto, e por elas se descrevem as tentações daqueles que são regenerados pelo Senhor. Pela ‘cidade de habitação’ que eles não encontraram é significada a doutrina da vida, que faz a igreja no homem. E visto que a igreja é formada no homem pela vida segundo a doutrina, findas as tentações, por isso se diz que Jehovah ‘os trouxe no caminho reto, para que fosse à cidade de habitação’; a falta do vero até o desespero e, no entanto, o desejo por ele, é significado por ‘estarem famintos e sedentos, de modo que a alma deles desfalecia no caminho’. [38] Em Jeremias: “Lembrei-me... de tua juventude, do amor de teus esponsais, quando vieste após Mim no deserto... Não disseram: Onde está Jehovah, que nos fez subir da terra do Egito, que nos conduziu no deserto, numa terra de solidão e de cova, numa terra de sequidão e de densa sombora, numa terra pela qual não passou varão, nem o homem habitou? E [Eu] vos trouxe a uma terra frutífera, para comerdes o seu fruto e o seu bem” (Jr. 2:2, 6, 7); ‘juventude’ e ‘amor dos esponsais’, dos quais Jehovah se lembra, significam o estado de reforma e de regeneração do homem, quando de natural se torna espiritual; como por esse modo o homem é conjunto ao Senhor e, por assim dizer, se desposa com Ele, é sito que se entende pelo ‘amor dos esponsais’; como isto se faz por meio de tentações, diz-se ‘quando vieste após Mim no deserto’. O estado de tentações é descrito por ‘conduziu-me no deserto, numa terra de solidão e de cova, numa terra de sequidão e de densa sombra’; ‘deserto’ significa esse estado, ‘terra de solidão e de cova’ significa esse estado quanto aos males e falsos que emergem; ‘terra de sequidão e de densa sombra’ significa a percepção do bem e o entendimento do vero obscurecido. O estado do homem após as tentações é descrito por ‘conduziu-nos a uma terra frutífera, para comerdes o seu fruto e o seu bem’, pelo que é significado que foram introduzidos na igreja, onde há os veros da doutrina, pelos quais se faz a apropriação do bem do amor e da caridade; ‘terra’ significa a igreja, ‘terra frutífera’ a igreja quanto aos veros da doutrina, ‘comer’ significa apropriar-se, ‘fruto’ significa o bem do amor e ‘bem’ significa o bem da caridade e da vida. [39] Em Ezequiel: “Tirar-vos-ei de entre os povos e vos congregarei das terras... e vos conduzirei no deserto dos povos, e disputarei ali convosco face a face, do mesmo modo como disputei com vossos pais no deserto da terra do Egito;... então vos farei passar sob a vara, e vos farei vir no vínculo da aliança” (Ez. 20:34-37). Também aqui, o ‘deserto’ está em lugar do estado de tentações, estado esse que aqui é chamado ‘deserto dos povos’ e, também, ‘deserto da terra do Egito’, porque se entende o estado natural do homem antes da regeneração que, pelo fato de então não haver aí bem e veros, mas males e falsos, é um deserto e um ermo. Mas, quando em seguida os falsos e males foram exterminados, e os veros e bens implantados em seu lugar, então, de deserto ele se torna Líbano e jardim. ‘Disputar com eles no deserto face a face’ significa mostrar-lhes ao vivo e ao reconhecimento quais eles são, pois nas tentações emergem e aparecem os males e falsos do homem; ‘face a face’ é ao vivo e ao reconhecimento. Que após o homem ter passado duras coisas faça-se a conjunção com o Senhor, conjunção essa que é a reforma, é significado por ‘então vos farei passar sob a vara, e vos farei vir no vínculo da aliança’; ‘fazer passar sob a vara’ é sofrer duras coisas, e ‘vínculo da aliança’ é a conjunção com o Senhor. [40] Em Oséias: “Visitá-la-ei pelos dias dos baalins... nos quais foi após os seus amásios;... por isso, eis... que vos farei sair ao deserto, e depois falarei em seu coração, e lhes darei ali as suas vinhas, e o vale de Achor por entrada de esperança, e responderá ali como nos dias de sua adolescência, e como nos dias de sua subida da terra do Egito; e naquele dia... chamarás: Meu Marido, e não Me chamarás mais: Meu Baal” (Os. 2:13-16); por ‘baalins’ e ‘amásio’, após os quais foi, são significadas as que são do homem natural e são amadas, a saber, as cobiças e as falsidades daí; que elas devem ser removidas por meio de tentações é significado por ‘vos farei sair ao deserto’; que então sejam consolados é significado por ‘em seguida falarei ao seu coração’; que eles então tenham os veros espirituais e naturais é significado por ‘lhes darei ali as suas vinhas, e o vale de Aschor’; que depois haveria o influxo do bem vindo céu e, daí, o prazer como havia naqueles que foram das Igrejas antigas e de naturais se tornaram espirituais é significado por ‘responderá’, ou cantará ‘ali como nos dias de sua adolescência, e como nos dias de sua subida da terra do Egito’; ‘dias de adolescência’ significam os tempos da Igreja Antiga; ‘como nos dias de sua subida do Egito’ significa quando de naturais se tornaram espirituais; a conjunção então com o Senhor pelas afeições do vero, rejeitas as cobiças do homem natural, é significada por ‘naquele dia Me chamarás: Meu Marido, e não Me chamarás mais: Meu Baal’. [41] Como o ‘deserto’ significa o estado de tentações, e ‘quarenta’, sejam anos ou dias, a duração inteira, do princípio ao fim, por isso as tentações do Senhor, que foram mais cruéis que todas as outras, e que ele sustentou desde a meninice até à paixão da cruz, entendem-se pelas tentações por quarenta dias no deserto, a cujo respeito assim se lê nos Evangelhos: “Jesus foi conduzido pelo espírito ao deserto para que fosse tentado pelo diabo, e como jejuasse por quarenta dias e quarenta noites, em seguida teve fome; e aproximou-se d’Ele o tentador” (Mt. 4:1-3; Lc. 4:23); “O espírito, impelindo” a Jesus, “fê-Lo sair ao deserto; e estava... no deserto por dias, tentado... e estava com as bestas” (Mc. 1:12, 13|). Por essas palavras não se entende que o Senhor foi tentado pelo diabo somente por quarenta dias e no final destes, mas que o foi por toda a Sua vida, até os últimos, quando no Gethsemani Ele esteve em cruel ansiedade de coração e, depois, sofreu a medonha paixão da cruz, pois o Senhor, pelas tentações admitidas no Humano vindo da mãe, subjugou todos os infernos e, ao mesmo templo, glorificou o Seu Humano. (Mas, a respeito dessas tentações do Senhor, vide as coisas que foram escritas nos Arcanos Celestes, as quais foram coligidas na obra Doutrina da Nova Jerusalém, n. 201). Todas essas tentações do Senhor são significadas pelas ‘tentações no deserto por quarenta dias e quarenta noites’, porque o ‘deserto’ significa o estado de tentações, e ‘quarenta dias e noites’ toda a duração deles. A razão pela qual muitas coisas não foram escritas nos Evangelhos a respeito delas é porque muitas coisas não foram reveladas a respeito delas, mas elas são amplamente descritas nos Profetas e, principalmente, nos Salmos de David. Pelas ‘bestas’ com que o Senhor foi dito estar são significadas as sociedades infernais, e pelo ‘jejum’ ali é significada a aflição, tal como estive nas lutas de tentações. [42] (iv.) Que pelo ‘deserto’ seja também significado o inferno é porque ‘deserto’ se diz de onde não há plantação nem habitação, portanto, onde há feras, serpentes e dragões, pelos quais é significado onde não há o vero da doutrina e o bem da vida, consequentemente, onde há concupiscências dos maus amores e, daí, falsidades de todo gênero. E visto que essas coisas estão no inferno, e elas se acham no deserto, por isso, pela correspondência, ‘deserto’ também significa o inferno. Além disso, o homem natural em qualquer um, enquanto está separado do espiritual, como é o caso antes da regeneração, é um inferno, pelo fato de todo mal hereditário em que o homem nasce reside em sue homem natural, e não é expulso daí, isto é, removido, senão pelo influxo do Divino Vero do Senhor por meio do céu; e esse influxo não existe no homem natural a não ser pelo espiritual. Com efeito, o homem natural está no mundo e o espiritual no céu; por isso, primeiro o homem espiritual deve ser aberto, antes que o inferno, que está no homem natural, possa ser removido pelo Senhor por meio do céu. [43] De que maneira o inferno é removido é o que foi representado pelo bode chamado Asasel, banido ao deserto, pois o ‘bode’, pela correspondência, significa o homem natural quanto às suas afeições e cognições, e, no sentido oposto, quanto às suas cobiças e falsidades. A respeito desse bode assim se lê em Moisés: Que Aarão tomasse dois bodes e lançasse sorte sobre eles, uma para o bode a ser sacrificado e a outra para o Asasel; e, depois que expiasse a tenda da assembleia e o altar com o sangue do bezerro sacrificado, e do bode sacrificado, impusesse as suas mãos sobre a cabeça do bode Asasel e confessasse sobre ele as iniquidades e os pecados dos filhos de Israel, os quais poderia sobre a cabeça do bode, e, em seguida, o enviasse ao deserto, por mão de um varão designado. “Assim o bode carregará sobre si todas as iniquidades” dos filhos de Israel “na terra de corte” e no deserto; e também no deserto fossem queimados a pele, a carne e o excremento do bezerro e do bode sacrificado. Assim seriam expiados e purificados de todos os pecados. (Lv. 16:5-34). Essas coisas foram mandadas a fim de que por elas fosse representada a expiação, isto é, a purificação dos males e falsos. Que dois bodes tenham sido tomados para que a expiação fosse representada era porque o ‘bode’, pela correspondência, significava o homem natural; ‘o bode que devia ser sacrificado’ era o homem natural quanto à parte purificada, e ‘o bode que devia ser enviado ao deserto’ o homem natural não purificado. E como ele produz todo gênero de cobiças e de imundícies, como foi disto acima, por isso ele “foi expelido dos acampamentos para uma terra de corte e para o deserto’, para que levasse para fora as iniquidades e os pecados de todos naquela igreja; pela ‘terra de corte’ e pelo ‘deserto’ é significado o inferno. A imposição de mãos por Aarão sobre a cabeça do bode e a confissão de pecados representava a comunicação e a translação, pois assim acontece quando o homem é purificado dos pecados ou expiado, porque então os pecados são enviados de volta ao inferno e em lugar deles são implantadas afeições do bem e do vero; essas afeições foram em parte representadas pelas ‘gorduras’ que eram sacrificadas do bezerro e do outro bode e pelo ‘sangue’ deles, mas principalmente pelo ‘holocausto do carneiro’ (de que se trata ali, nos versículos 5 e 24), pois o ‘carneiro’, pela correspondência, significa o homem natural quanto ao bem da caridade. Cumpre saber, porém, que o povo israelita não era de modo algum purificado de pecados por essas representações, mas somente foi assim representada a purificação do homem natural, quando regenerado. Todas as coisas da regeneração do homem eram representadas por essas coisas externas, principalmente pelos sacrifícios, e isto por causa da conjunção do céu com aquela igreja pelos externos do culto, dos quais os internos, que eram representados, foram vistos nos céus. Quem não pode ver que os pecados de toda a assembleia não poderia ser transferidos a um bode e levado por ele ao inferno? Por aí se pode ver o que o ‘deserto’ significa em vários sentidos.