. [Vers. 7]. “E houve uma guerra no céu.” Que isto signifique a luta do falso contra o vero e do vero contra o falso vê-se pela significação de ‘guerra’, que é a guerra espiritual, que é do falso contra o vero e do vero contra o falso (de que se tratará a seguir). Pelo falso, aqui, entende-se o falso do mal, e pelo vero entende-se o vero do bem, pois existem vários gêneros de falsos, mas somente aqueles que vêm do mal é que lutam contra os veros do bem, pelo fato de o mal ser contra o bem, e todo vero pertence ao bem. Todos os que estão no falso do mal são aqueles que em sua vida nada pensaram a respeito do céu e do Senhor, mas somente a respeito de si e do mundo. Pensar a respeito do céu e do Senhor na vida é pensar que assim se deve fazer porque a Palavra ensina e ordena. Os que vivem pela Palavra vivem pelo Senhor e o céu. Mas pensar a respeito de si e do mundo é pensar que assim se deve fazer por causa das leis do reino e por causa da reputação, das honras e dos ganhos. Esses não vivem para o Senhor e o céu, mas para si mesmos e o mundo. São esses que, quanto à vida, estão no mal e, pelo mal, nos falsos. Os que estão nos falsos por essa origem é que lutam contra os veros. Contudo, a luta deles não é contra a Palavra, pois a chamam de santa e Divina, mas é uma luta contra os veros genuínos da Palavra. Com efeito, eles confirmam os seus falsos pela Palavra, mas somente pelo sentido de sua letra, que é tal que em algumas passagens ela pode ser arrastada para confirmar princípios sumamente heréticos. Isto se deve ao fato de que a Palavra, nesse sentido, é segundo a compreensão das crianças e dos simples, dos quais a maioria é sensual, e eles não recebem senão coisas tais que aparecem perante os olhos. E como a Palavra é tal na letra, por isso os que estão nos falsos pelo mal da vida confirmam seus falsos pela Palavra e, assim, falsificam a Palavra. De fato, os que separam a fé da caridade falsificam tanto a Palavra que em toda parte em que se diz ‘fazer’ e se nomeiam ‘feitos’ e ‘obras’, eles explicam essas passagens, que são milhares, como se não se entendessem fazer, nem feito nem obras, mas o crer e a fé. Assim também em relação ao resto. Estas coisas foram ditas para que se saiba quem são os que se entendem por aqueles que estão nos falsos do mal, os que ‘fizeram guerra a Miguel e seus anjos’ e dos quais se tratará no artigo seguinte.
[2] Que a ‘guerra’, na Palavra, signifique a guerra espiritual, que é do falso do mal contra o vero do bem, e vice versa, ou, o que é o mesmo, daqueles que estão nos falsos do mal contra aqueles que estão nos veros do bem, pode-se ver por muitas passagens na Palavra, das quais serão citadas somente [???] as seguintes. Em Isaías:
“Irão muitos povos e dirão: Vinde, e subamos ao monte de Jehovah, à casa do Deus de Jacob, que nos ensinará a respeito de seus caminhos, para que andemos em Suas veredas, pois de Sião sairá a Lei, e a palavra de Jehovah de Jerusalém; de modo que [Ele] julgará entre as nações, e repreenderá os povos... que moerão as suas espadas em enxadas, e suas lanças em podões. Nação não levantará espada contra nação, nem aprenderão mais a guerra. Ó casa de Jacob, vinde, e andaremos na luz de Jehovah” (Is. 2:3-5; Mq. 4:3);
Essas palavras são a respeito do advento do Senhor, e que aqueles que serão de Sua Nova Igreja devem ser instruídos nos veros, pelos quais serão conduzidos ao céu. Pelo ‘monte de Jehovah’ e pela ‘casa de Jacob’ é significada a igreja há onde o amor ao Senhor e o culto por esse amor. A convocação para essa igreja e, assim, para o Senhor é significado por ‘irão muitos povos e dirão: Vinde e subamos’ àquele monte; que devam ser instruídos nos veros, pelos quais serão conduzidos, é significado por ‘nos ensinará a respeito de Seus caminhos, para que andemos em Suas veredas’; ‘caminhos’ são os veros, e ‘veredas’ são os preceitos da vida; que o sejam pela doutrina do bem do amor e pela doutrina do vero desse bem, as quais são para a igreja desde o Senhor por meio do céu, é significado por ‘de Sião sairá a lei, e a palavra de Jerusalém’; ‘lei’ é a doutrina do bem do amor, e ‘palavra’ é o vero desse bem; que então serão dissipados os males da vida e os falsos da doutrina é significado por ‘julgará entre as nações, e repreenderá os povos’; pelas ‘nações’ são significados aqueles que estão nos males, e por ‘povos’ aqueles que estão nos falsos; assim, abstratamente, os males da vida e os falsos da doutrina.
[3] Que, então, por causa do consenso de todos, as lutas cessarão é significado por ‘moerão suas espadas em enxadas, e suas lanças em podões’; ‘espadas’ e ‘lanças’ são os falsos do mal que combatem contra os veros do bem, e vice versa; ‘enxadas’ são os bens da igreja que são cultivados pelos veros, pois o ‘campo’, que é cultivado pelas enxadas, é a igreja quanto ao bem da vida; e ‘podões’ são os veros da doutrina, pelo fato de as ‘árvores’ nos jardins significarem as percepções e as cognições do vero. Coisas semelhantes são significadas por ‘nação não levantará espada contra nação, nem aprenderão mais a guerra’; ‘guerra’ significa as lutas em todo o conjunto; que viveriam a vida pela sabedoria é significado por ‘vinde, e andemos na luz de Jehovah’; ‘luz de Jehovah’ é o Divino Vero, e ‘vir’ a ela; que a ‘guerra’ aqui signifique a guerra espiritual, que é a dos falsos contra os veros e bens, e vice-versa, e que as ‘espadas’ e as ‘lanças’, que são armas de guerra, signifiquem tais coisas pelas quais se dão as lutas espirituais, vê-se claramente, pois se trata aí do Senhor e da igreja a ser instaurada por Ele, e da doutrina para essa igreja, e se diz que ‘nos ensinará a respeito de Seus caminhos, para que andemos nas Suas veredas’, e também ‘vinde, e andaremos na luz de Jehovah’.
[4] Em Oséias:
“Farei para eles naquele dia uma aliança com a fera do campo, e com a ave dos céus, e com o réptil da terra; e o arco e a espada e a guerra quebrarei da terra, e os farei deitar seguramente” (Os. 2:18).
O que é significado por ‘ferra do campo’, ‘ave dos céus’ e ‘réptil da terra’, com os quais Jehovah firmará aliança naquele dia, vide acima (n. 388 e 701), onde isto foi explicado, e que por ‘quebrar o arco, a espada e a guerra’ seja significada a cessação de toda luta do falso e do vero. Por isso se acrescenta também ‘e os farei deitar seguramente’, a saber, seguros contra as infestações dos males e falsos que vêm do inferno.
[5] Em Zacarias:
“Cortarei de Efraim o carro, e de Jerusalém o cavalo, e o arco de guerra será cortado; às nações, ao contrário, anunciará a paz” (Zc. 9:10).
Essas palavras também foram explicadas acima (n. 355 e 357), pelo que é evidente que pelo ‘arco de guerra’ é significada a doutrina do vero que luta contra os falsos, pois elas foram ditas a respeito do Senhor. Em David:
Jehovah, “que faz desolações na terra, faz cessar as guerras até o fim da terra, quebra o arco e corta a lança; queima os carros no fogo” (Sl. 46:8, 9).
Também aqui, por Jehovah ‘fazer cessar as guerras até o fim da terra’ é significado que faz cessar as lutas entendidas no sentido espiritual, que são dos falsos contra os veros e bens da igreja (vide acima, n. 357).
[6] No mesmo:
Deus “quebra as centelhas do arco, o escudo e a espada, e a guerra” (Sl. 76:3).
Aqui são significadas coisas semelhantes (vide acima, n. 357 e 365). Em Isaías:
“Diante de espadas andarão errantes, diante da espada estendida e diante do arco estendido... por causa da gravidade da guerra” (Is. 21:15).
O que é significado por essas palavras se vê acima (n. 131 e 357), onde também se vê que a ‘gravidade da guerra’ é por causa do forte ataque das falsidades contra as cognições do bem, que aí são significadas por ‘Arábia’ ou ‘Kedar’. Em David:
Jehovah, “que ensina a guerra às minhas mãos, para que um arco de bronze se curve [???] sobre os seus braços” (Sl. 18:34);
por ‘ensinar a guerra às mãos’ não se entende a guerra contra os adversários no mundo, mas contra os adversários no inferno, o que se faz pelas lutas do vero contra os falsos e contra os males. De fato, até parece que pela ‘guerra’ aí se entende o tipo de guerra que David travou contra os seus adversários e, assim, que Jehovah o ensinou tal guerra e de que maneira curvaria um arco de bronze sobre os seus braços, todavia entende-se a guerra espiritual e também o arco espiritual, que é a doutrina do vero, e o ‘arco de bronze’ a doutrina do bem da vida, e isto porque a Palavra, considerada em sua essência, é espiritual. Sobre isto, porém, vide acima (n. 357).
[7] No mesmo:
“Ó Jehovah, contende com os meus contendedores, luta com os meus opositores [oppugnatoribus]; pega o escudo e o pavês e levanta[-Te] em meu auxílio; mostra a lança, e intercepta [interveni contra] os meus perseguidores; dize à minha alma: Eu [sou] a tua salvação” (Sl. 35:1-3).
Aqui, por ‘lutar’, ‘pegar do escudo e do pavês’ e ‘mostrar a lança’ não significa pegar essas armas bélicas, porque essas coisas se dizem a respeito de Jehovah, mas se diz assim porque todas as armas de guerra significam coisas tais que pertencem à guerra espiritual; o ‘escudo’, por proteger a cabeça, é significada a proteção contra os falsos que destroem o entendimento do vero; pelo ‘pavês’, por proteger o peito, é significada a proteção contra os falsos que destroem a caridade, que pertencem à vontade do bem; e pela ‘lança’, por proteger todas as coisas do corpo, é significada a proteção em geral. Como essas coisas são significadas, por isso se acrescenta: ‘dize à minha alma: Eu [sou] a tua salvação’.
[8] Visto que Jehovah, isto é, o Senhor, protege o homem contra os infernos, isto é, contra os males e falsos que se levantam continuamente dali, por isso o Senhor é chamado ‘Jehovah Zebaoth’, isto é, ‘Jehovah dos Exércitos’, e por ‘exército’ são significados os veros e bens do céu e, daí, da igreja em todo o complexo, pelos quais o Senhor remove os infernos no geral e em cada um em particular. Assim é que se atribui a Jehovah que Ele luta e combate como herói e varão de guerra nas pelejas, como se pode ver nas seguintes passagens. Em Isaías:
“Descerá Jehovah Zebaoth para combater sobre o monte Sião, e sobre as suas colinas” (Is. 31:4);
em Zacarias:
“Jehovah sairá e lutará contra as nações, como no dia de Sua luta no dia da peleja” (Zc. 14:3)
em Isaías:
“Jehovah sairá como herói, como varão de guerras desperta o zelo; sobre os Seus adversários prevalecerá” (Is. 42:13);
em Moisés:
“Guerra de Jehovah contra Amaleque de geração a geração” (Êx. 17:16).
Essas palavras foram ditas porque por “Amaleque’ são significados os falsos do mal que continuamente infestam os veros e bens da igreja.
[9] Além disso, pelas ‘guerras’ nas partes históricas da Palavra, tanto as que são mencionadas nos livros de Moisés quanto as que o são nos livros de Josué, Juízes, Samuel e Reis, também são significadas guerras espirituais, como as guerras contra os ‘assírios’, ‘sírios’, ‘egípcios’, ‘filisteus’ e, no princípio, contra as nações idólatras na terra de Canaan, aquém e além do Jordão. O que, porém, elas significam, vê-se quando se sabe o que são e quais são o falso e o mal que são significados pelos ‘assírios’, ‘babilônicos e caldeus’, ‘egípcios’, ‘sírios’, ‘filisteus’ e os restantes, pois todas essas nações e povos que travaram guerras contra os filhos de Israel representavam os infernos, que quiseram fazer violência à igreja representada pelos filhos de Israel. As guerras aconteceram assim como em realidade foram descritas, mas representavam e, daí, significavam guerras espirituais, visto que nada se diz na Palavra que não seja interiormente espiritual, pois é Divina, e o que procede do Divino é espiritual e tem seu termo no natural.
[10] Que os antigos também tenham tido uma Palavra, tanto histórica quanto profética, hoje perdida, vê-se em Moisés (Nm. 21), onde são citados seus livros proféticos, ali chamados ‘Enunciações”, e seus históricos, que são chamados ‘Guerras de Jehovah’. Os históricos são chamados ‘Guerras de Jehovah’ porque por elas são significadas as guerras do Senhor contra os infernos, tal como as ‘guerras’ nos livros históricos de nossa Palavra. Daí vem, pois, que ‘adversários’, ‘inimigos’, ‘opositores’, ‘perseguidores’, ‘insurgentes’ e, além disso, as ‘armas de guerra’, como a ‘lança’, o ‘pavês’, o ‘escudo’, a ‘espada’, o ‘arco’, a ‘flecha’, o ‘carro’, na Palavra, significam coisas tais que pertencem à luta e à proteção contra as coisas infernais.
[11] Em Moisés:
“Quando saíres em guerra contra os adversários... e vires cavalo e carro, povo mais numeroso do que tu, deles não terás temor, porque Jehovah teu Deus é contigo.” … O sacerdote lhes dirá, quando se chegarem à peleja: “Aproximai-vos hoje da peleja contra vossos adversários; não amoleça o vosso coração, nem tenhais temor, nem estremeçais, nem vos atemorizeis diante deles, pois Jehovah vosso Deus vai convosco para lutar por vós contra os vossos adversários, para vos salvar” (Dt. 20:1-4).
Quem não sabe que há um sentido espiritual em cada coisa da Palavra pode crer que por essas palavras não se entende interiormente coisa alguma senão o que se entende na letra. No entanto, pela ‘guerra’, aqui como em outras passagens, é significada a guerra espiritual, e, assim, por ‘cavalo’, ‘carro’ e ‘povo numeroso’ são significados os falsos da religião em que se confia e pelos quais se luta contra os veros da igreja. Pelo ‘cavalo’ se entende o falso do entendimento e os raciocínios daí, pelo ‘carro’ os falsos da doutrina, e pelo ‘povo numeroso’ os falsos em geral. Quer digas falso, quer digas os que estão nos falsos, resulta no mesmo. Não devem ter temor deles nem estremecerem, porque estão nos veros da igreja pelo Senhor e porque o Senhor, estando neles no homem e, assim, por eles a favor do homem, luta contra os infernos, que são os adversários, no sentido espiritual; por isso se diz: ‘porque Jehovah teu Deus é contigo, e vai contido para lutar por vós contra os vossos adversários, para vos salvar. Esses dois sentidos, a saber, o natural e o espiritual, fazem um pelas correspondências, que existe entre todas as coisas do mundo e todas as coisas do céu. Daí há conjunção do céu com o homem por meio da Palavra. Contudo, o sentido espiritual, que se encerra nas partes históricas da Palavra, pode ser visto mais dificilmente do que o que se encerra nas partes proféticas, porque os relatos históricos mantêm a mente presa neles mesmos e, assim, impedem de se pensar em outra coisa senão no que aparece na letra. Entretanto, todos os relatos históricos da Palavra são representativos de coisas celestes, e as palavras são significativas.
[12] Que todos os que estavam nos veros da doutrina deviam lutar e, assim, tornavam-se homens da igreja, e não aqueles que ainda não se tornaram, é significado por estas palavras que se seguem naquele capítulo:
“Os dirigentes falarão ao povo, dizendo: Qual é o varão que edificou uma casa nova e ainda não a inaugurou? Vá e retorne para a sua casa; não suceda que morra na guerra, e outro varão a inaugure. Ou qual é o varão que plantou uma vinha, e não a acabou e vindimou? Vá e retorne à sua casa, não suceda que morra na guerra, e outro varão a acabe e vindime. Ou qual é o varão que desposou uma esposa e ainda não a tomou? Vá e retorne à sua casa; não suceda que morra na guerra e outro varão a tome. Qual é o varão tímido e mole de coração? Vá e retorne à sua casa, e não derreta o coração de seus irmãos como o seu coração” (Dt. 20:5-8).
Que aqueles ‘que tinham edificado casas novas e ainda não as tinham iniciado’, ‘que tinham plantado vinhas e ainda não as tinham vindimado’ e ‘que tinham desposado esposas e ainda não as tinham tomado’ permanecessem em casa, para que não morressem na guerra e outros varões inaugurassem as casas, vindimassem as vinhas e tomassem as esposas, foi mandado e sancionado por causas no mundo espiritual, as quais ninguém pode ver a menos que saiba o que é significado por ‘edificar casa’, ‘plantar vinha’ e ‘tomar esposa’, e também o que é significado ‘morrer na guerra’. Por ‘edificar casa’ é significado instaurar a igreja; por ‘plantar vinha’, semelhantemente, mas por ‘casa’ é significada a igreja quanto ao bem, e por ‘vinha’ a igreja quanto ao vero, pois um e outro, tanto o bem quanto o vero, devem ser implantados no homem, para que nele haja a igreja. A conjunção de ambos, a saber, do bem e do vero, é significada por ‘desposar esposa e tomá-la’; pela ‘guerra’ é significada a guerra espiritual, que é a luta contra os males e falsos que vêm do inferno; e por ‘morrer na guerra’ é significado sucumbir antes que a igreja seja implantada pelo bem e o vero, o que também se faz por meio de tentações, as quais também são significadas pelas ‘guerras’ na Palavra.
[13] Por aí se pode concluir o que é significado por esses estatutos no sentido espiritual, a saber, que os homens da igreja, isto é, os homens nos quais há a igreja, que são significados pelos ‘filhos de Israel que saíam à guerra’, devem lutar contra os adversários, que são os infernos, e não aqueles que ainda não se tornaram homens da igreja, isto é, homens nos quais há a igreja. Por isso se diz que não saíssem à guerra aqueles ‘que tinham edificado vinhas e ainda não as tinham vindimado’, bem como os ‘que desposaram esposas e ainda não as tinham tomado’, pois por todos eles são significados aqueles em quem a igreja ainda não foi implantada, assim, aqueles que ainda não se tornaram homens da igreja. E se diz que ‘eles fossem e voltassem às suas casas, para que não morressem na guerra’, pelo que se entende para que os adversários não prevalecessem sobre eles, em vez de eles sobre os adversários, porque só prevalecem sobre os adversários espirituais aqueles que estão nos veros do bem, ou aqueles em quem o vero foi conjunto ao bem. Também se diz ‘para que outro varão não inaugurasse a casa’, ‘vindimasse a vinha’ e ‘tomasse esposa’, pelo que é significado que os falsos e males não se conjuntassem ao bem, ou um vero de outro gênero com a afeição do bem; por ‘outro varão’ é significado o falso e também outro vero, por conseguinte, um vero não concordante. Que os ‘tímidos r moles de coração’ também voltassem à casa significava aqueles que ainda não estivessem nos veros e bens da igreja e, por eles, na confiança no Senhor, pois esses têm temor dos males e também fazem com outros tenham temor, o que é significado por ‘não derretam o coração de seus irmãos’. Estas são, pois, causas interiores, ou causas do mundo espiritual, em razão das quais essas coisas foram mandadas.
[14] Que a ‘guerra’ signifique a guerra espiritual, que é contra as coisas infernais, vê-se manifestamente pelo fato de os ofícios e ministérios dos levitas envolvendo a tenda da assembleia serem chamados ‘milícia’, como é evidente por estas palavras em Moisés:
Foi ordenado a Moisés que fossem numerados os levitas, de filho de trinta anos44 até filho de cinquenta anos, para exercerem a milícia, para fazerem a obra na tenda da assembleia (Nm. 4:23, 35, 39, 43, 47).
E, em outra passagem:
“Este é o ofícios dos levitas: de filho de45 vinte anos para cima virá para militar a milícia no ministério da tenda da assembleia. Mas a partir de filho de cinquenta anos deixará a milícia do ministério, não ministrará mais” (Nm. 8:24, 25).
Que as obras e os ministérios dos levitas envolvendo a tenda da assembleia sejam chamados ‘milícia’ é porque os levitas representavam os veros da igreja, e Aarão, a quem os levitas foram dados e atribuídos para servirem, representava o Senhor quanto ao bem do amor e quanto à obra de salvação. E como o Senhor regenera e salva os homens pelo bem do amor por meio dos veros da Palavra e também remove os males e falsos, que vêm do inferno, contra os quais Ele continuamente luta, por isso os ofícios e ministérios dos levitas foram chamados ‘milícia’. Isto é evidente também pelo fato de esses ministérios serem chamados ‘milícia’ embora eles não tenham militado contra os adversários da terra. Por isso é que também hoje a igreja se chama ‘igreja militante’ [ecclesia pugnans].
[15] Em Isaías:
“Voz das multidões nos montes, como de grande povo; voz de tumulto dos reinos das nações congregadas; Jehovah Zebaoth numera o exército da guerra” (Is. 13:4).
Essas palavras se veem explicadas acima (n. 453), onde se vê que por ‘numerar o exército da guerra’ é significado ordenar os veros do bem contra os falsos do mal, que são significados pelos ‘reinos das nações congregadas’. No mesmo:
“Naquele dia Jehovah [Zebaoth] será... por espírito de juízo para o que se senta para juízo, e por fortaleza [para os] que repelem da porta a guerra” (Is. 28:5, 6).
Essas palavras são a respeito dos que estão no orgulho da própria inteligência, que se entendem por ‘coroa de soberba, ébrios de Efraim’ (vers. 1). Dos que não estão nesse orgulho essas palavras são ditas: que do Senhor eles têm inteligência, significada por ‘Jehovah será por espírito de juízo, para o que se senta sobre o juízo’; ‘juízo’ significa o entendimento do vero, assim, a inteligência. Que ‘Jehovah será por fortaleza para os que repelem da porta a guerra’ significa que o Senhor dá poder aos que defendem a Palavra e a doutrina da Palavra, e impedem que a elas se faça violência. A ‘cidade’ é a doutrina, e ‘porta’, que dá entrada à ela, são os veros naturais; daí era que os anciãos faziam julgamentos nas portas da cidade.
[16] Em Jeremias:
“Santificai a guerra contra” a filha de Sião; “levantai-vos e subamos ao meio-dia;... levantai-vos e subamos à noite, e destruamos os seus palácios. ... Ponde tranqueira contra Jerusalém. ... eis que um povo vem da terra do setentrião... ele é cruel, não terão misericórdia; a voz deles é como o mar que ressoa; montam em cavalos, preparado como um varão para a guerra contra ti, ó filha de Sião” (Jr. 6:3-6, 22, 23).
Aí se trata da falsificação da Palavra por aqueles que estão na própria inteligência; eles se entendem pelo ‘povo que vem da terra do setentrião’, pois esses, no mundo espiritual, habitam no setentrião, porque estão nas coisas falsificadas, pelas quais os veros não são vistos. A igreja, porém, que está nos veros genuínos, se entende pela ‘filha de Sião’. O ataque ao vero e a destruição da igreja por eles são significados por ‘santificai a guerra contra a filha de Sião, e ponde tranqueiras contra Jerusalém’; ‘Jerusalém’ é a igreja quanto à doutrina e, daí, a doutrina da igreja. O esforço ostensivo para destruir é significado por ‘levantai-vos, subamos ao meio dia’, e o esforço velado para destruir, por ‘levantai-vos, subamos à noite’. O esforço para destruir o entendimento do vero é significado por ‘destruamos seus palácios’. Que eles não estejam absolutamente no amor do vero, mas no amor do falso, é significado por ‘é um povo cruel, e não terão misericórdia’. Que raciocinem pelos conhecimentos e pela própria inteligência é significado por ‘a voz deles é como o mar que ressoa; montam em cavalos. Que sejam atacantes do vero é significado por eles serem ‘como um varão preparado para a guerra’.
[17] Em David:
“Livra-me... do homem mal, e protege-me do varão de violências, os que pensam males no coração; todo dia se congregam para as guerras, aguçaram a sua língua como serpentes” (Sl. 140:1-3);
por ‘homem mal’ e ‘varão de violências’ são significados os que pervertem os veros da Palavra; chama-se ‘varão de violências’ o que por uma intenção depravada faz violência aos veros da Palavra, pervertendo-os. A intenção depravada é adicionalmente descrita por ‘pensar males no coração’, e perverter os veros da Palavra por ‘todo dia se congregarem para a guerra’; os raciocínios pelos quais prevalecem são significados pelas ‘guerras’, pelo que se acrescenta ‘aguçaram a sua língua como as serpentes’.
[18] Em Zacarias:
“Serão como poderosos que pisam a lama das ruas na guerra, e combaterão, porque Jehovah está neles, e envergonhar-se-ão os que montam em cavalos” (Zc. 10:5).
Aí se trata do advento do Senhor e daqueles que estão nos veros do bem por Ele; deles se diz que ‘serão como poderosos que pisam a lama das ruas na guerra’, pelo que é significado que haverão de dissipar e inteiramente destruir os falsos da doutrina’; ‘lama das ruas’ significa esse falso, porque a ‘cidade’ significa a doutrina, as ‘ruas da cidade’ os seus veros, e a ‘lama’ aí o falso pelo vero falsificado; ‘e combaterão porque Jehovah está com eles’ significa que combaterão e subjugarão esses falsos pelo Senhor; ‘e envergonhar-se-ão os que montam em cavalos’ significa que toda inteligência própria sucumbirá; ‘envergonhar-se’ é sucumbir, porque se diz dos que serão vencidos, e ‘montar em cavalos’ significa confiar na própria inteligência.
[19] Em Oséias:
“Da casa... de Judah terei misericórdia, e os salvarei pelo Deus Jehovah deles; e não os salvarei pelo arco, e pela espada, e pela guerra, e pelos cavalos, e pelos cavaleiros” (Os. 1:7);
pela ‘casa de Judah’ é significada a igreja celeste; por ‘ter misericórdia e os salvar por Jehovah, Deus deles’ é significada a salvação pelo Senhor; ‘não os salvar por arco, espada, guerra, cavalos e cavaleiros’ significa não por coisas tais que são da própria inteligência. O que é significado por ‘arco’, ‘espada’, ‘cavalos’ e cavaleiros’ foi mostrado acima, em seus lugares. A ‘guerra’ significa a luta por esses meios.
[20] Em Ezequiel:
“Não subistes às rupturas, nem cercastes com uma cerca para a casa de Israel, para permanecerdes firmes na guerra no dia de Jehovah” (Ez. 13:5).
Essas palavras tratam dos ‘profetas estultos’, pelos quais são significados os falsos da doutrina por uma Palavra falsificada. Que não pudessem reparar a igreja caída nem corrigir alguma coisa dela é significado por ‘não subistes às rupturas, nem cercastes com uma cerca para a casa de Israel’; as ‘rupturas da casa de Israel’ são a igreja caída, sua ‘cerca’ é aquilo que defende da irrupção do falso e, assim, corrige; ‘não permanecer firmes na guerra no dia de Jehovah’ significa não lutar contra os falsos do mal que vêm do inferno, no dia do juízo final.
[21] Em Jeremias:
“Como não foi abandonada a cidade da glória, a cidade de Meu regozijo? [???] Por isso os seus jovens cairão em suas ruas, e todos os varões de guerra serão cortados naquele dia” (Jr. 49:25, 26; 50:30);
por ‘cidade da glória’ e por ‘cidade do regozijo de Jehovah’ entende-se a doutrina do vero procedente da Palavra; que ela tenha sido convertida em doutrina do falso pelas falsificações do vero é significado pelo fato de ter sido ‘abandonada’ ou deserta; que todo entendimento do vero e, assim, a inteligência, pereceria é significado por ‘por isso cairão os seus jovens em suas ruas’; os ‘jovens’ são o entendimento do vero, e as ‘ruas’ dessa cidade são os falsos da doutrina; que não tenha restado mais vero algum que lute contra os falsos é significado pelo fato de ‘todos os varões de guerra serem cortados’; ‘varões de guerra’ são os que estão nos veros e por eles lutam contra os falsos, e, abstratamente, os veros que lutam contra eles.
[22] Em Isaías:
“Os teus traspassados não são traspassados à espada, nem mortos na guerra” (Is. 22:2).
Essas palavras tratam do ‘vale da visão’, pelo qual é significado o homem sensual que vê todas as coisas pelas falácias dos sentidos. Como ele não entende os veros e, assim, em lugar deles se apossa de falsos, diz-se que os ‘traspassados não são traspassados à espada, nem mortos na guerra’, pelo que é significado que os veros não são destruídos pelos raciocínios oriundos de falsos, nem por quaisquer lutas do falso contra os veros, mas por si mesmos, porque vêm de falácias, pelas quais os veros não aparecem.
[23] No mesmo:
“Misturarei o Egito contra o Egito, para que o varão lute contra o irmão, e o varão contra o seu companheiro, cidade contra cidade, reino contra reino” (Is. 19:2).
Essas palavras são a respeito do homem natural separado do espiritual; ele é significado pelo ‘Egito’. A sua turba de falsos que raciocinam e lutam contra os veros e bens do homem espiritual é significada por ‘misturarei o Egito contra o Egito, para que o varão lute contra o irmão, e o varão contra o seu companheiro’; ‘varão e irmão’ significam o vero e o bem, e, no sentido oposto, o falso e o mal; ‘varão e companheiro’ significam os veros entre si e, no sentido oposto, os falsos entre si. Esse conflito e essa luta acontecem quando os falsos reinam, porque os falsos debatem continuamente com os falsos, mas não os veros com os veros. Que haverá semelhantes contendas das doutrinas entre si, ou das igrejas entre si, é significado pelo fato de ‘cidade lutará contra cidade, e o reino contra reino’; a ‘cidade’ é a doutrina, e o’ reino’ é a igreja daí.
[24] Por aí se pode ver o que é significado pelas palavras do Senhor nos Evangelhos:
“Muitos... virão em Meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo, e a muitos deduzirão. Mas ouvireis de guerras e rumores de guerras. Vede, não vos perturbeis; ...porque será levantada nação contra nação, e reino contra reino, e haverá fomes, e pestes, e terremotos” (Mt. 24:5-7; Mc. 13:6-8; Lc. 21:8-11).
Essas palavras foram ditas pelo Senhor aos discípulos a respeito da consumação do século; por elas é significado o estado da igreja quanto ao seu último [estado], que é descrito nesses capítulos; por isso se entende também a sucessiva perversão e a falsificação do vero e do bem da Palavra, até que não haja senão o falso e o mal daí. Por aqueles que ‘virão em Seu nome e se chamarão Cristo, e a muitos seduzirão’ é significado que virão os que dirão ser isto o Divino Vero, quando, todavia, é o vero falsificado, que em si é o falso, pois por ‘Cristo’ se entende o Senhor quanto ao Divino Vero e ali, no sentido oposto, o falsificado. Que ‘ouvirão de guerras e rumores de guerras’ significa que haverá contendas e disputas a respeito dos veros e, daí, falsificações; que ‘nação será levantada contra nação, e reino contra reino’ significa que o mal lutará contra o mal e o falso contra o falso, pois os males nunca concordam entre si, nem os falsos entre si, o que é a razão de as igrejas serem divididas entre si e produzirem tantas heresias; ‘nação’ significa os que estão nos males, e ‘reino’ os que estão nos falsos, dos quais há a igreja. Que ‘haverá fomes, e pestes, e terremotos’ significa não haverá mais cognições do vero e do bem, e que, por causos dos falsos que infestarão, o estado da igreja será mudado; ‘fomes’ são a privação das cognições do vero e do bem, ‘pestes’ são as contaminações pelos falsos, e ‘terremotos’ são as mudanças da igreja.
[25] Visto que as ‘guerras’ significam na Palavra as guerras espirituais, que são as lutas do falso contra o vero e do vero contra o falso, por isso essas lutas são descritas pela ‘guerra entre o rei do setentrião e o rei do meio-dia’ e pela ‘guerra do bode das cabras contra o carneiro’ em Daniel. Da guerra entre o rei do setentrião e o rei do meio-dia, cap. 11; e da guerra do bode das cabras contra o carneiro’, cap. 8. Ali, pelo ‘rei do setentrião’ se entendem os que estão nos falsos, e pelo ‘rei do meio-dia’ os que estão nos veros. Pelo ‘bode’ são significados os que estão nos falsos da doutrina, por estarem no mal da vida, e pelo ‘carneiro’ os que estão nos veros da doutrina, por estarem no bem da vida.
[26] Por aí se pode ver o que é significado pela ‘guerra’ em outras passagens no Apocalipse, como nas seguintes:
“Quando” as testemunhas “acabaram os seu testemunho, a besta, que sobe do abismo, fará guerra contra eles, e as vencerá e matará” (Ap. 11:7);
em outra passagem:
“Os espíritos dos demônios que fazem sinais para saírem aos reis da terra e a todos as regiões das terras, para os congregar na guerra daquele grande dia do Deus Onipotente” (Ap. 16:14);
e, em outra passagem:
Satanás “sairá para seduzir as nações Gog e Magog, para os congregar em guerra” (Ap. 20:8).
Também nessas passagens, por ‘guerra’ é significada a guerra espiritual, que é a do falso contra o vero e do vero contra o falso. Diz-se guerra do falso contra o vero e do vero contra o falso, mas cumpre saber que aqueles que estão nos falsos lutam contra os veros, mas não tanto os que estão nos veros contra os falsos, pois os que estão nos falsos sempre agridem, mas aqueles que estão nos veros somente defendem. Mas, quanto ao Senhor, Ele nem mesmo rechaça, mas somente protege os veros. Todavia, dir-se-á a respeito disso em outro lugar.
[DOWNLOAD]
[VERSAO IMPRESSA]
Para estudo mais confortavel, adquira esta obra em formato impresso.