. “Miguel e seus anjos lutaram com o dragão, e o dragão lutou, e os seus anjos.” Que isto signifique a luta entre aqueles que são a favor da vida de amor e de caridade e a favor do Divino do Senhor em Seu Humano, contra aqueles que são a favor da fé só, ou separada, e que são contra o Divino do Senhor em Seu Humano vê-se pela significação de ‘Miguel e seus anjos’, que são aqueles que são a favor do Divino do Senhor em seu Humano e a favor da vida do amor e da caridade (de que se tratará a seguir); e pela significação de ‘dragão’, que são aqueles que são a favor da fé só e separada da vida do amor e da caridade e também contra o Divino do Senhor em Seu Humano. Foi mostrado acima (n. 714, 715 e 716) que aqueles que estão na fé separada da caridade – fé essa que se chama fé só – se entendem pelo ‘dragão’. Que esses mesmos também sejam contra o Divino do Senhor em seu Humano, isto é, contra o Divino Humano, é porque a maioria dos que se confirmaram na fé só é meramente natural e sensual, e o homem natural e sensual separado do espiritual não pode ter ideia alguma do Divino no Humano, pois pensa natural e sensualmente a respeito do Humano do Senhor e não ao mesmo tempo por alguma ideia espiritual. Daí é que esses pensam a respeito do Senhor como sendo um homem comum, inteiramente semelhante a eles mesmos, o que eles também ensinam. Daí que na ideia de seus pensamentos eles põem o Divino do Senhor acima do Seu Humano, e assim separam completamente esses dois, a saber, o Divino e o Humano do Senhor. E fazem isso ainda que a doutrina deles, que é a doutrina de Atanásio sobre a trindade, ensina outra coisa, pois ela ensina que o Divino e o Humano é uma Pessoa unida e ambos são um, como a alma e o corpo. Que cada um deles se examine, e perceberá que tem tal ideia a respeito do Senhor. Por aí se pode ver o que se entende por ‘Miguel e seus anjos’, que lutaram contra o dragão, a saber, são aqueles que reconhecem o Humano Divino do Senhor e são a favor da vida do amor e da caridade. Com efeito, os que são a favor dessa vida não podem deixar de reconhecer o Divino Humano do Senhor, pois de outro modo não podem estar em amor algum ao Senhor e, assim, em caridade alguma para com o próximo, pois essa caridade e esse amor vêm unicamente do Divino Humano do Senhor e não do Divino separado de Seu Humano, nem do Humano separado de Seu Divino. É por isso, também, que, depois que ‘o dragão foi lançado na terra com os seus anjos’, uma voz disse do céu: “Agora é chegada [facta est] a salvação, e o poder, e o reino do nosso Deus, e a autoridade de Seu Cristo” (vers. 10). Por aí se pode ver o que se entende por ‘Miguel e seus anjos’. [2] No que concerne particularmente a Miguel, crê-se pelo sentido da letra que ele é um dos arcanjos, mas não existe arcanjo algum nos céus. Há, de fato, anjos superiores e inferiores, e também mais sábios e menos sábios; e, também, nas sociedades dos anjos há governantes ali encarregados dos demais, mas não há, todavia, arcanjos, sob cujo arbítrio os outros estejam, em obediência. Tal governo não existe nos céus, pois todos ali reconhecem de coração nenhum outro acima de si senão o Senhor somente. É o que se entende pelas palavras do Senhor em Mateus: “Vós... não queirais ser chamados mestre [doctor], pois um é o vosso Mestre, Cristo, mas todos vós sois irmãos. E não chameis [a alguém] vosso pai na terra, pois um é vosso Pai, que está nos céus. E não sejais chamados mestre [magister], pois um é vosso Mestre, Cristo. Quem... for o maior dentre vós há de ser vosso servo [minister]” (Mt. 23:8-11). Mas, pelos anjos que são nomeados na Palavra, como ‘Miguel’ e ‘Rafael’, se entendem as administrações e funções e, em geral, partes determinadas e certas administrações e funções de todos os anjos. Por isso, por ‘Miguel’, aqui, entende-se algo da função dos anjos que acima se disse, a saber, a defesa dessa parte da doutrina da Palavra que o Humano do Senhor é Divino, e também que se deve viver a vida do amor ao Senhor e da caridade para com o próximo, para que se receba do Senhor a salvação. Consequentemente, é da função de que se deve lutar contra aqueles que separam o Divino do Humano do Senhor e que fazem separação entre a fé a vida do amor e da caridade, ainda que tragam a caridade na boca e não na vida. [3] Além disso, pelos ‘anjos’, no sentido espiritual da Palavra, não se entendem os anjos, mas os Divinos veros oriundos do Senhor (vide acima, n. 130 e 302), em razão de que os anjos não são anjos por seu proprium, mas pela recepção do Divino Vero do Senhor. Semelhantemente se dá com os anjos, que significam o Divino Vero que foi citado acima. Também, os anjos nos céus não tem nomes como os homens nas terras, mas têm nomes de suas funções, e, em geral, a cada um é dado um nome a partir de sua qualidade. Daí é que o ‘nome’ na Palavra significa a qualidade e o estado da coisa. O nome ‘Miguel’ [Michael], por sua derivação na língua hebraica, significa ‘Quem é como Deus?’ Por isso, ‘Miguel’ significa o Senhor quanto a esse vero que o Senhor é Deus também quanto ao Humano, e que se deve viver por Ele, assim, e no amor a Ele vindo d’Ele, e no amor para com o próximo. Miguel é também nomeado em Daniel 10:13, 21; 12:1, e por ele ali é significado o vero genuíno da Palavra, que será para aqueles que serão da igreja a ser instaurada pelo Senhor, semelhantemente ao que se dá aqui, pois por ‘Miguel’ se entendem os que serão a favor da doutrina da Nova Jerusalém. As duas coisas essenciais dessa doutrina são: que o Humano do Senhor é Divino e que se deve viver a vida do amor e da caridade. [4] Miguel é também nomeado na epístola do apóstolo Judas, nestas palavras: “O arcanjo Miguel, quando, disputando com o diabo, debateu a respeito do corpo de Moisés, não ousou proferir sentença de blasfêmia. Disse: O Senhor te repreenda” (Jd. vers. 9). Essas palavras o apóstolo Judas aduziu de livros antigos, que foram escritos por correspondências, e neles por ‘Moisés’ se entende a Palavra, e por ‘seu corpo’ o sentido da letra da Palavra. E visto que aqueles que se entendem pelo ‘diabo’ – os quais são os se entendem aqui no Apocalipse pelo ‘dragão’ – são também chamados ‘satanás’ e ‘diabo’, é evidente o que é significado pelo fato de ‘Miguel, disputando, debateu com o diabo a respeito do corpo de Moisés’, a saber, que eles tinham falsificado o sentido da letra da Palavra. E visto que a Palavra na letra é tal que pode ser distorcida de seu sentido genuíno pelos maus e, não obstante, recebida pelos bons segundo o seu entendimento, por isso foi dito pelos antigos, dos quais essas palavras de Judas foram tomadas, que ‘Miguel não ousou proferir sentença de blasfêmia’. (Que ‘Moisés’, no sentido espiritual, signifique a Lei, assim, a Palavra, vide nos Arcanos Celestes, n. 4859 ao fim, 5922, 6723, 6752, 6827, 7010, 7014, 7089, 7382, 8787, 8805, 9372, 9414, 9419, 9429, 10234, 10563, 10571, 10607 e 10614.)