. “Agora é chegada a salvação e o poder e o reino de nosso Deus, e a autoridade de Seu Cristo.” Que isto signifique que agora o Senhor tem poder de salvar aqueles que são de Sua igreja, os que de coração e alma recebem o Divino Vero, vê-se pela significação de ‘salvação’ [salutis], que é salvação; pela significação de ‘poder’, que é ser capaz [possit], assim, a possibilidade (de que se tratará a seguir); pela significação de ‘reino’, que é o céu e a igreja (de que se tratou acima, n. 48 e 685); pela significação de ‘nosso Deus’, que é o Senhor quanto ao Seu Divino; e pela significação de ‘poder do Seu Cristo’, que é a eficácia do Divino Vero, assim, por meio do Divino Vero. Que por ‘Cristo’ se entenda o Senhor quanto ao Divino Vero vê-se acima (n. 684 e 685); e que ‘autoridade’, quando se trata do Senhor, signifique a salvação do gênero humano, acima, n. 293; e que o Senhor tenha o poder [potestas] de salvar por Seu Divino Vero, também acima, n. 333 e 726; e como o Senhor só pode salvar aqueles que de alma e coração recebem d’Ele o Divino Vero, por isso este é também significado. Daí se pode ver que ‘agora é chegada a salvação e o poder e o reino de nosso Deus, e a autoridade de seu Cristo’ significa que agora o Senhor tem o poder de salvar por Seu Divino Vero aqueles que são de sua igreja, os que recebem o Divino Vero de coração e alma. [2] Diz-se ‘os que recebem de coração e alma’ e por isto se entende pelo amor e pela fé, assim, com a vontade e o entendimento, pois pela ‘alma’, na Palavra, onde se diz ‘alma e coração’ é significada a fé e também o entendimento, e pelo ‘coração’ é significado o amor e também a vontade, porque aí, pela ‘alma’, no sentido último, entende-se a respiração do homem, a qual também se chama seu espírito, pelo que se diz ‘animar’ em lugar de respirar, e também ‘entregar a alma’ e ‘o espírito’ quando o homem morre. Que a ‘alma’ também signifique a fé, como também o entendimento, e o ‘coração’ signifique o amor, como também a vontade, isto vem da correspondência, pois a fé e o entendimento correspondem à animação ou respiração dos pulmões, e o amor e a vontade correspondente ao movimento e à pulsação do coração. (A respeito dessa correspondência vide acima, n. 167, e nos Arcanos Celestes, n. 2930, 3883-3896 e 9050). [3] Que ‘agora é chegada a salvação e o poder de nosso Deus’ signifique que o Senhor agora pode salvar, de sorte que ‘poder’ aí signifique a capacidade, assim, possibilidade, é porque o Senhor não poderia salvar os que foram de Sua igreja antes que o dragão e os seus anjos fossem expulsos, isto é, separados do céu. Quem não conhece as leis da ordem Divina pode crer que o Senhor pode salvar a qualquer um, tanto os maus como os bens. Daí vem a opinião de alguns de quem no fim também serão salvos todos os que estão no inferno. Todavia, que ninguém pode ser salvo por misericórdia imediata, mas pela mediata, e, não obstante, por pura misericórdia são salvos os que recebem o Senhor de alma e coração, vide na obra O Céu e o Inferno (n. 521-527). [4] Isto também se entende por estas palavras em João: “Os Seus não O receberam; mas a todos quantos O receberam, deu-lhe o poder [potestatem] de serem filhos de Deus, os que creem no Seu nome, que não nasceram dos sangues, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus” (Jo. 1:11-13); pelos ‘Seus’ que não O receberam se entendem os que são da igreja onde há a Palavra e por ela eles poderiam ter conhecido o Senhor. Por isso, são os que eram da Igreja Judaica que aí se entendem pelos ‘Seus’. Que o Senhor ‘tenha dado aos que creem no seu nome o poder de serem filhos de Deus’ significa que deu o céu àqueles que d’Ele receberam os Divinos veros de alma e de coração, ou pela fé e pela vida; ‘crer no Seu nome’ significa receber o Senhor pela fé e pela vida, pois o ‘nome do Senhor’ significa tudo pelo qual ele é adorado; pelos ‘filhos de Deus’ se entendem os que são regenerados pelo Senhor; ‘que não nasceram de sangues’ significa que não falsificaram nem adulteraram a Palavra; ‘que não nasceram da vontade da carne’ significa que não estão nos males oriundos de seu proprium; ‘que não nasceram da vontade do varão’ significa que não estão nos falsos oriundos de seu proprium, pois ‘vontade’ significa o proprium do homem, ‘carne’ significa o mal e ‘varão’ significa o falso; ‘mas nasceram de Deus’ significa que foram regenerados pelos da Palavra e por uma vida segundo os veros. Por aí se pode ver que só podem salvos os que querem ser reformados e regenerados pelo Senhor, o que se faz pela recepção do Divino Vero pela fé e pela vida.