. “Porque foi precipitado o acusador de nossos irmãos”. Que isto signifique depois que foram separados do céu e condenados ao inferno aqueles que tinham combatido a vida da fé, que é a caridade, vê-se pela significação de ‘ser precipitado’, quando se trata do dragão, ou seja, que aqueles que se entendem pelo ‘dragão’ foram separados do céu e condenados ao inferno (de que se tratou acima, n. 739 e 7420; pela significação de ‘acusador de nossos irmãos’, que são os que tinham atacado a vida da fé, que é a caridade, pois ‘acusador’ significa aquele que ataca, censura e repreende, e, também, a mesma palavra na língua original significa adversário e repreendedor. E, o que é de se admirar, aqueles que são dragões, ainda que consideram como nada a vida, mesmo assim acusam no mundo espiritual os fieis, se notam algum mal da ignorância, pois investigam a vida deles, para oprimirem e condenarem o probo. Daí é que são chamados de acusadores.
[2] Pelos ‘irmãos’, aos quais acusam, se entendem todos os que nos céus, e também todos os que nas terras, que estão no bem da caridade. A razão pela qual são chamados ‘irmãos’ é porque todos têm um só Pai, a saber, o Senhor, e os que estão no amor ao Senhor e no bem da caridade para com o próximo são filhos d’Ele e também são chamados ‘filhos de Deus’, ‘filhos do reino’ e ‘herdeiros’. Daí se segue que, como são filhos de um só Pai, também são irmãos. Além disso, o mandamento primário do Senhor, o Pai, é que eles se amem mutuamente; daí vem o amor pelo qual eles são irmãos. Também, o amor é a conjunção espiritual. Daí se originou entre os antigos, nas igrejas em que a caridade foi o essencial, que todos foram chamados irmãos, semelhantemente ao que ocorreu na Igreja Cristã em seu princípio. Assim é, pois, que ‘irmão’, no sentido espiritual, significa a caridade. Que todos os que outrora tinham sido de uma só igreja tenham-se chamado irmãos, e que o Senhor chame de irmãos aqueles que estão na caridade para com o próximo, pode-se ver por muitas passagens na Palavra. Mas, para que seja distintamente percebido o que o termo ‘irmãos’ significa, isto será ilustrado pela Palavra.
[3] (1) Que todos os que foram da Igreja Israelita tenham-se chamado ‘irmãos’ vê-se pelas passagens que se seguem. Em Isaías:
“Então todos os vossos irmãos, de todas as nações, trarão oferta a Jehovah” (Is. 66:20);
em Jeremias:
“Não farão servir a qualquer judeu, seu irmão” (Jr. 34:9);
em Ezequiel:
“Filho do homem, teus irmãos, teu irmãos filhos de teu parentesco, e toda a casa de Israel” (Ez. 11:15);
em Miquéias:
“Até que o restante de seus irmãos retornem aos filhos de Israel” (Mc. 5:3);
em Moisés:
“Moisés saiu a seus irmãos, para ver as suas cargas” (Êx. 2:11);
Disse Moisés a Jetro, seu sogro: Voltarei aos meus irmãos, que estão no Egito” (Êx. 4:18);
“Quando teu irmão se empobrecer” (Lv. 25:25, 35, 47);
“Quanto a vossos irmãos, filhos de Israel, um varão não dominará o seu irmão com rigor” (Lv. 25:46);
“Antes tivéssemos sido mortos, quando nossos irmãos foram mortos diante de Jehovah” (Nm. 20:3);
Eis que “um varão dos filhos de Israel veio e trouxe a seus irmãos uma midianita” (Nm. 25:6);
“Abrirás a tua mão para o teu irmão;... quando te for vendido um irmão teu, hebreu ou hebreia, te servirá por seis anos” (Dt. 15:11, 12);
“Se alguém tiver roubado uma alma de seus irmãos... e obtiver ganho [???] com ele” (Dt. 24:7);
“Por quarenta dias o ferirá, não acrescentará, para que teu irmão não seja tido como vil aos teus olhos” (Dt. 25:3 e outras passagens).
Por aí se pode ver que todos os filhos de Israel se chamavam irmãos entre si. Que tenham sido chamados assim foi, por uma razão próxima, porque todos foram oriundos de Jacob, que foi o pai comum deles; mas, por uma razão remota, foi porque ‘irmão’ significa o bem da caridade, bem esse que, por ser o essencial da igreja, também conjunge espiritualmente a todos. E, também, porque ‘Israel’, no sentido supremo, significa o Senhor, e, daí, os ‘filhos de Israel’ significam a igreja.
[4] (ii.) E também se chamavam ‘varão e irmão’ e ‘companheiro e irmão’, como nas seguintes passagens. Em Isaías:
“A terra de escureceu, e o povo se tornou como comida do fogo; eles não pouparão, um varão ao seu companheiro; ...eles comerão, o varão a carne de seu braço, Manassés a Efraim, e Efraim a Manassés” (Is. 9:19-21);
por ‘varão e irmão’ são significados o vero e o bem, e, no sentido oposto, o falso e o mal; por isso também se diz: ‘Manassés comerá Efraim, e Efraim comerá Manassés’, pois por ‘Manassés’ é significado o bem voluntário, e por ‘Efraim’ o vero intelectual, ambos da igreja externa, mas, no sentido oposto, o mal e o falso. (Essas coisas, porém, veem-se explicadas acima, n. 386, 440, 600 e 617).
[5] No mesmo:
“Misturarei... o Egito com o Egito, para que lutem, um varão contra o seu irmão e um varão contra o seu companheiro; cidade contra cidade, e reino contra reino” (Is. 19:2);
pelo ‘Egito’, aqui, é significado o homem natural separado do espiritual, que, por não estar em luz alguma do vero, discute continuamente a respeito do bem e do mal e a respeito do vero e do falso; essa discussão é significada por ‘misturarei o Egito com o Egito, para que lutem, um varão contra seu irmão, e um varão contra seu companheiro’; por ‘irmão’ e ‘companheiro’ é significado o bem do qual vem o vero e o vero oriundo do bem, e, no sentido oposto, o mal do qual vem o falso e o falso oriundo do mal; por isso também se diz: ‘cidade contra cidade, e reino contra reino’; pela ‘cidade’ é significada a doutrina, e pelo ‘reino’ a igreja oriunda dela, que semelhantemente hão de lutar.
[6] No mesmo:
“Ajudam, um varão ao seu companheiro, e ao seu irmão diz: Fortalece-te” (Is. 41:6);
por ‘companheiro’ e ‘irmão’ aqui são significadas coisas semelhantes às de cima. Em Jeremias:
“Acautelai-vos, um varão de seu companheiro, e em nenhum irmão confiai, porque todo irmão... derruba, e todo companheiro calunia” (Jr. 9:4);
no mesmo:
“Dispersá-los-ei, o varão com o seu irmão” (Jr. 13:14);
no mesmo:
“Assim direis, um varão ao seu companheiro e um varão ao seu irmão: O que Jehovah respondeu? (Jr. 23:35);
no mesmo:
“Não Me obedecestes, para proclamardes a liberdade, um varão ao seu irmão, e um varão ao seu companheiro” (Jr. 34:9, 17);
em Ezequiel:
“A espada de um varão será contra o seu irmão” (Ez, 38:21);
em Joel:
“Não empurram, um varão ao seu irmão” (Jl. 2:8);
em Miquéias:
‘Todos estão assentados em sangues, caçam com rede, um varão ao seu irmão” (Mq. 7:2);
em Zacarias:
“Fazei benignidade e misericórdia, um varão com o seu irmão” (Zc. 7:9);
em Malaquias:
“Por que perfidamente agimos, um varão contra o seu irmão” (Ml. 2:10);
em Moisés:
“Houve escuridão de trevas em toda a terra do Egito... um varão não viu o seu irmão” (Êx. 10:22, 23);
no mesmo:
“Ao fim de sete anos... todo credor remitirá sua mão, quando tiver emprestado algo ao seu companheiro, nem oprima o seu companheiro, nem ao seu irmão” (Dt. 15:1, 2),
e outras passagens. Num sentido próximo, por ‘varão’ entende-se qualquer um e pelo 'irmão' o que é da mesma tribo, porque têm parentesco, e por ‘companheiro’ o que é de outra tribo, porque têm somente afinidade. No sentido espiritual, porém, por ‘varão’ é significado todo aquele que está nos veros, como também o que está nos falsos, e por ‘irmão’ todo aquele que está no bem da caridade e, abstratamente, esse bem mesmo, e por ‘companheiro’ todo aquele que está no vero desse bem e, abstratamente, esse vero mesmo. E, no sentido oposto, o mal oposto ao bem da caridade e o falso oposto ao vero desse bem. Se se dizem ‘irmão’ e ‘companheiro’ é porque há duas coisas que fazem a vida do homem, a vontade e o entendimento. Daí, também, há duas coisas que agem como se fossem uma só, como os dois olhos, os dois ouvidos, as duas narinas, as duas mãos, os dois pés, os dois lóbos dos pulmões, as duas câmaras do coração, os dois hemisférios do cérebro, e assim por diante, dos quais um se refere ao bem do qual vem o vero e o outro ao vero oriundo do bem. Daí é que se dizem ‘irmão’ e ‘companheiro’, e que ‘irmão’ significa o bem e ‘companheiro’ o seu vero.
[7] (iii.) Que o Senhor chame de ‘irmãos’ aqueles de Sua igreja que estão no bem da caridade vê-se pelo seguinte, nos Evangelhos:
Jesus, “estendendo Sua mão sobre os Seus discípulos, disse: Eis a Minha mãe e os Meus irmãos; todo aquele... que fizer a vontade Meu Pai... esse é Meu irmão, e irmã e mãe” (Mt. 12:49, 50; Mc. 3:33-35);
pelos ‘discípulos’, sobre os quais o Senhor estendeu a mão, são significados os que são de Sua igreja ; por ‘Seus irmãos’ são significados os que estão no bem da caridade por Ele; por ‘irmãs’, os que estão nos veros desse bem; e por ‘mãe’ é significada a igreja constituída por eles.
[8] Em Mateus:
Jesus disse a Maria Magdalena e à outra Maria: “Não temais. Ide, anunciai aos Meus irmãos, que vão para a Galileia, e lá Me verão” (Mt. 28:10);
por ‘irmãos’, também aqui, entendem-se os discípulos, pelos quais são significados todos os da igreja que estão no bem da caridade. Em João:
Jesus disse a Maria: “Vai ao Meus irmãos, e dize-lhes: Subo para o Meu Pai” (Jo. 20:17);
aqui, semelhantemente, os discípulos são chamados ‘irmãos’, porque pelos ‘discípulos’, igualmente aos ‘irmãos’ são significados todos os de Sua igreja que estão no bem da caridade.
[9] Em Mateus:
“Respondendo, o Rei lhes dirá: Digo-vos, na medida em que fizestes a um desses Meus menores irmãos, a Mim o fizestes” (Mt. 25:40).
Que aqueles que executaram os bens da caridade sejam aqui chamados de ‘irmãos’ pelo Senhor vê-se pelo que precede aí. Cumpre saber, porém, que o Senhor, embora seja o Pai deles, todavia os chama de ‘irmãos’, mas é o Pai deles por causa do Divino amor, e Irmão por causa do Divino que procede d’Ele. A razão disso é que todos nos céus são recepções do Divino que procede d’Ele, e o Divino que procede do Senhor, Divino do qual eles são recepções, é o Senhor no céu e também na igreja, e isto não pertence aos anjos nem aos homens, mas ao Senhor neles. Por isso o Senhor chama de ‘irmão’ ao bem mesmo da caridade neles, que é Seu, por conseguinte, assim também chama os anjos e os homens, porque são sujeitos recipientes desse bem. Em suma, o Divino procedente, que é o Divino do Senhor nos céus, é o Divino nascido do Senhor nos céu; por isso, por causa desse Divino, os anjos, que são suas recepções, são chamados ‘filhos de Deus’, e como eles são irmãos por causa desse Divino recebido em si, é o Senhor neles que é chamado ‘Irmão’, porquanto os anjos não falam por si mesmos, mas pelo Senhor, quando o fazem pelo bem da caridade. Daí é, pois, que o Senhor diz: ‘Na medida em que fizestes a um desses Meus menores irmãos, a Mim o fizestes’. Portanto, são os bens da caridade, que são enumerados nos versículos precedentes, que são irmãos do Senhor, no sentido espiritual, e que, pelo motivo citado, são chamados pelo Senhor de ‘irmãos’. Também pelo ‘Rei’, que assim os chama, é significado o Divino procedente, que numa palavra é chamado Divino Vero, ou Divino espiritual, que em sua essência é o bem da caridade.
[10] Deve-se lembrar, portanto, que o Senhor não os chamou de ‘irmãos’ pelo fato de ter sido um Homem como eles, segundo a opinião aceita no mundo cristão, do que se segue, por consequência, que a nenhum homem é permitido chamar o Senhor de irmão, pois Ele é Deus também quanto ao Humano, e Deus não é irmão, mas Pai. Que o Senhor seja chamado ‘irmão’ nas igrejas nas terras é porque eles não conceberam outra ideia a respeito de seu Humano senão como de um humano como de outro homem, quando, todavia, o Humano do Senhor é Divino.
[11] Visto que os reis outrora representavam o Senhor quanto ao Divino Vero, e o Divino Vero recebido pelos anjos no reino espiritual é o mesmo que o Divino Bem espiritual, e o Bem espiritual é o Bem da caridade, por isso também os reis postos sobre os filhos de Israel chamavam os seus súditos de ‘irmãos’, ainda que aos súditos, por sua vez, não fosse permitido chamar o rei de seu irmão, ainda menos o Senhor, que é o Rei dos reis e Senhor dos senhores. Por exemplo, em Davi:
“Declararei o Teu nome aos meus irmãos, no meio da congregação Te louvarei” (Sl. 22:22);
no mesmo:
“Tornei-me um estrangeiro para os meus irmãos, e um estranho para os filhos de minha mãe” (Sl. 69:8);
no mesmo:
“Por causa dos meus irmãos, e meus companheiros, direi... paz em Ti” (Sl. 122:8).
Essas palavras David falou como a respeito de si, mas por ‘David’ aí, no sentido representativo espiritual, entende-Se o Senhor. Em Moisés:
“Do meio de teus irmãos porás sobre eles um rei; não poderás pôr sobre eles um varão estrangeiro, que não seja teu irmão;... para que seu coração não se exalte acima de seus irmãos” (Dt. 17:15, 20);
pelos ‘irmãos’, dentre os quais seria posto o rei, são significados todos os que são da igreja, pois se diz: ‘não pode pôr sobre eles um varão estrangeiro’; pelo ‘varão estrangeiro’ e por ‘estrangeiro’ é significado o que não é da igreja.
[12] No mesmo:
“Um profeta do meio de ti, dentre os teus irmãos, como a mim, Jehovah teu Deus levantará para ti; a este obedecereis” (Dt. 18:15, 18).
Esta é uma profecia a respeito do Senhor, que Se entende pelo ‘Profeta’ a quem Jehovah Deus levantará dentre os irmãos. Que sejam chamados ‘teus irmãos, isto é, de Moisés, é porque por ‘Moisés, no sentido representativo, entende-Se o Senhor quanto à Palavra, e por ‘profeta’ aquele que ensina a Palavra, assim também a Palavra e a doutrina da Palavra. Daí é que se diz: ‘levantará como a mim’. (Que Moisés tenha representado o Senhor quanto a Lei, assim, quanto à Palavra, vê-se nos Arcanos Celestes, n. 4859 ao fim, 5922, 6723, 6752, 6771, 6827, 7010, 7014, 7089, 7382, 9372 e 10234).
[13] (iv.) Que sejam chamados de ‘irmãos’ pelo Senhor aqueles que O reconhecem e estão por Ele no bem da caridade é o que se segue pelo fato de o Senhor sem o Pai de todos e o Mestre (Doctor) de todos, e d’Ele como Pai vem todo bem da caridade, e d’Ele como Mestre vem todo vero desse bem. Por isso o Senhor diz em Mateus:
“Não queirais ser chamados Mestre, pois um é o vosso Mestre, Cristo, mas todos vós sois irmãos. E [a ninguém] chameis vosso pai na terra, pois um é vosso Pai, que está nos céus” (Mt. 23:8, 9).
Por aí se vê claramente que as palavras do Senhor devem ser entendidas espiritualmente, pois quem é que não pode ser chamado ‘mestre’, se for mestre? E quem é que não pode ser chamado pai, se for pai? Mas, como por ‘pai’ é significado o bem, e por ‘Pai nos céus’ o Divino Bem, e como por ‘mestre’ ou ‘rabi’ é significado o vero, e pelo ‘Mestre Cristo’ o Divino Vero, por isso, por causa do sentido espiritual em todas as coisas da Palavra, se diz que ‘a nenhum pai na terra chamassem Pai, nem Mestre algum’, a saber, no sentido espiritual, mas não no natural. No sentido natural podem ser chamados mestres e pais, mas representativamente, os mestres do mundo que de fato ensinam o vero, todavia não por si mesmos, mas pelo Senhor, e os pais do mundo que de fato são bons e conduzem os filhos para o bem, todavia não por si mesmos, mas pelo Senhor. Daí se segue que embora sejam chamados mestres e pais, não são, contudo, mestres e mais, mas o Senhor somente. ‘Chamar’ e ‘chamar pelo nome’ a alguém, também significa na Palavra reconhecer a qualidade de alguém. Visto que todos no céu e na igreja são discípulos e filhos do Senhor como Mestre e como Pai, por isso o Senhor diz: ‘todos vós sois irmãos’, pois o Senhor chama de ‘filhos’ e ‘herdeiros’ a todos no céu e na igreja por causa da consociação pelo amor oriundo d’Ele e, assim, pelo amor mútuo, que é a caridade. Daí é que pelo Senhor eles são ‘irmãos’. Assim é que se deve entender o que se costuma dizer, que todos são irmãos no Senhor.
[14] Por aí se pode ver também que são aqueles que foram chamados ‘irmãos’ pelo Senhor, a saber, todos os que O reconhecem e estão no bem da caridade proveniente d’Ele e, por conseguinte, os que são de sua igreja. Esses foram chamados ‘irmãos’ pelo Senhor também nas seguintes passagens. Em Lucas:
Jesus disse a Pedro: “Tu, quando te converteres, fortalece os teus irmãos” (Lc. 22:32);
Por ‘irmãos’, não se entendem os judeus, mas todos os que reconhecem o Senhor e estão no bem da caridade e da fé, assim todos os que receberiam o evangelho por meio de Pedro, tanto judeus quanto gentios, porque por ‘Pedro’, na Palavra dos evangelistas, entende-se o vero do bem, portanto, também a fé da caridade. Aí, porém, por ‘Pedro’ entende-se a fé separada da caridade, porque pouco antes foi dito a respeito dele:
“Simão, eis que Satanás vos pediu, para vos peneirar como trigo; Eu, porém, orei por ti, para que a tua fé não cesse” [(Lc. 22:31, 32)],
e, em seguida, lhe disse:
“Digo-te, Pedro, não cantará hoje o galo antes de teres negado três vezes que não me conheces” [Lc. 22:34)].
Assim é, também, a fé sem a caridade. Mas por ‘Pedro convertido’ é significado o vero do bem que vem do Senhor, ou a fé da caridade que vem do Senhor, pelo que é dito: ‘tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos’.
[15] Em Mateus:
“Disse Pedro:... Senhor, quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e devo lhe perdoar?” (Mt. 18:21);
no mesmo:
“Assim também vos fará Meu Pai celestial, se não perdoardes de coração, cada um a seu irmão, ... os seus delitos” (Mt. 18:35);
no mesmo:
“Se... teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o, entre ti e ele somente; se te ouvir, ganhaste o teu irmão” (Mt. 18:15).
Aqui, por ‘irmão’ entende-se em geral o próximo, assim, todo homem; mas, em particular, entende-se aquele que está no bem da caridade e, daí, na fé proveniente do Senhor, quem quer que seja, porque nessas passagens se trata do bem da caridade, pois perdoar a alguém que peca contra si pertence à caridade. Assim, ‘se ouvir, ganhaste teu irmão’ significa se reconhecer os seu delitos e se converter.
[16] No mesmo:
“Por que... reparas o argueiro49 que está no olho de teu irmão, mas não atentas para a trave que está no teu olho? Ou, de que maneira dirás a teu irmão: Deixa; tirarei o argueiro de teu olho, quando, todavia, há uma trave no teu olho? Hipócrita! tira primeiro a trave de teu olho, e então verás bem, para tirar o argueiro do olho de teu irmão” (Mt. 7:3-5).
Aqui, também, como se trata da caridade, se diz ‘irmão’, pois ‘tirar o argueiro do olho do irmão’ significa instruir a respeito do falso e mal, e reformar. Se o Senhor diz ‘argueiro do olho do irmão’ e ‘trave no seu olho’ é porque há um sentido espiritual em cada coisa que o Senhor falou, porque, sem esse sentido, o que seria ver um argueiro no olho do outro e não atentar para a trave no seu olho? E, também, tirar a trave de seu olho antes de tirar o argueiro do olho do outro? Com efeito, pelo ‘argueiro’ é significado um leve falso do mal, mas pela ‘trave’ um grande falso do mal, e pelo ‘olho’ é significado o entendimento e também a fé. Que o ‘argueiro’ e a ‘trave’ signifiquem o falso do mal é porque a ‘madeira’ significa o bem e, daí, pela ‘trave’ é significado o vero do bem e, no sentido oposto, o falso do mal, e pelo ‘olho’ é significado o entendimento e a fé. Daí é evidente o que é significado por ‘ver o argueiro e a trave’ e ‘tirá-los do olho’. (Que a ‘madeira’ signifique o bem e, no sentido oposto, o mal, vê-se nos Arcanos Celestes, n. 643, 3720, 4943, 8354 e 8740; e que o ‘olho’ signifique o entendimento e também a fé, n. 2701, 4403-4421, 4523-4534, 9051 e 10569, ali e também acima, n. 37, 152.) A ‘trave’ também é nomeada em algumas passagens e por ela é significado o falso do mal, como em Gn. 19:8; 2 Re. 6:2, 5, 6; Hb. 2:11; Cn. 1:17).
[17] No mesmo:
“Quem faz e ensina, esse será chamado grande no reino dos céus. Digo-vos... a menos que a vossa justiça exceda a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no reino dos céus. Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; qualquer que matar estará sujeito a juízo. Eu, porém, vos digo, que qualquer que se irar temerariamente contra seu irmão estará sujeito a juízo. Qualquer que disser ao seu irmão: Raka, estará sujeito ao sinédrio; mas qualquer um que disser: Estúpido, estará sujeito à gehenna de fogo. Se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares que teu irmão tem algo contra ti, deixa ali a tua oferta, diante do altar, e vai antes reconciliar com teu irmão, e então, vindo, oferece a tua oferta” (Mt. 5:19, 24).
Em todo esse capítulo se trata da vida interior do homem, que é a de sua alma, por conseguinte, de sua vontade e, daí, de seu pensamento. Assim, trata-se da vida de caridade, que é a vida espiritual moral. Os filhos de Jacob ignoraram anteriormente essa vida, pelo fato de serem homens externos desde os seus pais. Por isso também observavam viver no culto externo segundo os estatutos, que eram externos representando os internos do culto e da igreja. Contudo, nesse capítulo o Senhor ensina que os interiores da igreja não deviam ser representados somente pelos atos externos, mas também que estes deviam ser feito e amados de coração. Por isso, que seria salvo aquele que pela vida interior faz e ensina os externos da igreja, o que é significado por ‘quem faz e ensina, este será chamado grande no reino dos céus’. Que o céu não esteja no homem e, assim, ele não seja recebido no céu a menos que haja a vida interna e, daí, a externa, é significado por ‘a menos que a vossa justiça exceda a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no reino dos céus’; pela ‘justiça’ é significado o bem da vida pelo bem da caridade, e por ‘exceder a dos escribas e dos fariseus’ é significado que deve haver a vida interna, e não a externa sem a interna. Os escribas e fariseus estavam somente nos externos representativos, e não nos internos. A vida externa oriunda da interna é ensina no preceito do Decálogo que diz que ‘não se deve matar’; todavia, eles ignoravam que querer matar um homem é matá-lo, Por isso foi dito primeiro: ‘ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás, e qualquer que matar estará sujeito a juízo’, pois predominava entre os judeus desde o tempo antigo o dogma que era permitido matar, principalmente os gentios, por causa de injúrias que lhe fossem feitas, e que por causa disso eles seriam punidos apenas levemente ou gravemente segundo as circunstâncias quanto ás inimizades, consequentemente, apenas quanto ao corpo e não quanto à alma. é isto que se entende por ‘estará sujeito a juízo’.
[18] Aquele que, sem um motivo sério, pensa maldosamente a respeito do próximo e se desvia do bem da caridade é castigado levemente quanto à alma; isto é significado por ‘qualquer que se irar temerariamente contra seu irmão estará sujeito a juízo’; ‘irar-se’ significa pensar maldosamente, pois se distingue de ‘dizer raka’ e de ‘dizer estúpido’; ‘irmão’ é o próximo e é também o bem da caridade, e ‘sujeito a juízo’ é ser examinado e castigado segundo as circunstâncias. Aquele que pelo pensamento maldoso faz ultrajes ao próximo, assim aquele que despreza o bem da caridade como algo vil, esse é mais gravemente castigado; isto é significado por ‘qualquer que disser a seu irmão: raka, estará sujeito ao sinédrio’; por ‘dizer raka’ é significado fazer ultrajes ao próximo por um pensamento maldoso, assim, ter como vil o bem da caridade, pois ‘dizer raka’ significa considerar como vazio, portanto, como vil, e ‘irmão’ é o bem da caridade’. Aquele que tem ódio ao próximo, assim, aquele que se desvia inteiramente do bem da caridade, é condenado ao inferno; isto é significado por ‘qualquer que disser: Estúpido, estará sujeito à gehenna de fogo’; ‘dizer estúpido’ é desviar-se completamente, ‘irmão’ é o bem da caridade, e ‘gehenna de fogo’ é o inferno, onde estão aqueles que têm ódio a esse bem e, daí, ao próximo. Três graus de ódio são descritos por essas palavras: o primeiro é do pensamento maldoso, que é ‘irar-se’; o segundo é o da intenção maldosa daí, que é ‘dizer raka’; e o terceiro é o da vontade maldosa, que é ‘dizer estúpido’. Todos esses graus são graus de ódio contra o bem da caridade, pois o ódio é oposto ao bem da caridade. E os três graus de punição são significados por ‘juízo’, ‘sinédrio’ e ‘gehenna de fogo’. As punições pelos males mais leves são significadas por ‘juízo’; as punições pelos males mais graves, por ‘sinédrio’; e as punições pelos males gravíssimos, por ‘gehenna de fogo’.
[19] Visto que todo o céu está no bem da caridade para com o próximo e todo o inferno está na irascibilidade, na inimizade e no ódio contra o próximo, e essas são coisas opostos àquele bem; e visto que o culto do Senhor é o culto pelo céu, porque é interno, e não existe culto se algo seu for proveniente do inferno – e, todavia, do inferno vem o culto externo sem o interno – por isso se diz: ‘se trouxeres a tua oferta ao altar, e ali te lembrares que teu irmão tem algo contra ti, vai reconciliar-te primeiro com teu irmão, e então, vindo, oferece a tua oferta no altar; pela ‘oferta no altar’ é significado o culto do Senhor pelo amor e pela caridade; pelo ‘irmão’ se entende o próximo e abstratamente é significado o bem da caridade; ‘ter algo contra ti’ significa a irascibilidade, a inimizade ou o ódio e por ‘reconciliar-se’ é significada a sua dissipação e a consequente conjunção pelo amor.
[20] Por aí se pode ver que por ‘irmão’ o Senhor deu a entender algo semelhante ao que é significado por ‘próximo’, e pelo ‘próximo’ é significado no sentido espiritual o bem em todo o conjunto, e o bem em todo o conjunto é o bem da caridade. O mesmo se entende no sentido espiritual por ‘irmão’ em muitas passagens no Velho Testamento. Por exemplo, em Moisés:
“Não odiarás a teu irmão em teu coração” (Lv. 19:17);
em David:
“Eis, quão bom e quão prazeroso para os irmãos habitarem unidos” (Sl. 133:1).
Neste sentido, também,
Loth chamou de ‘irmãos’ os habitantes de Sodoma (Gn. 19:7),
e também se entende pela
“Aliança de irmãos” entre os filhos de Israel e de Edom (Am. 1:9),
e pela
“Fraternidade entre Judah e Israel” (Zc. 11:14),
pois pelos ‘filhos de Israel e de Edom’, assim como por ‘Judah e Israel’ não se entendem esses, no sentido espiritual, mas os bens e veros do céu e da igreja, cujas coisas são todas conjuntas entre si.
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