AE 763

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. [Vers. 15]: “E a serpente lançou de sua boca, após a mulher, água como um rio”. Que isto signifique os astutos raciocínios em abundância a respeito da justificação pela fé só, por aqueles que pensam sensualmente e não espiritualmente, vê-se pela significação pela significação de ‘serpente’, que são os sensuais e, abstratamente, é o sensual, que é o último do homem natural (de que se tratou acima, n. 70, 581 e 739); que também os ‘dragões’ sejam sensuais vê-se acima (n. 714); pela significação de ‘mulher’, que é a igreja, que será a Nova Jerusalém (de que se tratou muitas vezes acima, neste capítulo); pela significação de ‘boca’, que é o pensamento, donde vem a linguagem (de que também se tratou acima, n. 580); pela significação de ‘água’, que é o vero da fé e, no sentido oposto, o falso (de que se tratou acima, n. 483, 518, 537 e 538); e pela significação de ‘rio’, que é a inteligência oriunda do entendimento do vero e, no sentido oposto, o raciocínio pelos falsos (de que também se tratou acima, n. 518). Assim, por ‘lançar águas como de um rio’ é significado o raciocínio pelos falsos em abundância. Que sejam os aguçados raciocínios a respeito da justificação pela fé só, por aqueles que pensam sensualmente e não espiritualmente, é porque pelo ‘dragão’ se entendem os que defendem a justificação pela fé só e que são sensuais, e, daí, pensam e raciocinam sensualmente e não espiritualmente; (que pelo ‘dragão’ sejam significados os que defendem a justificação pela fé, só, vê-se acima, n. 714); e porque pelos ‘dragões’ e pelas ‘serpentes’ são significados os sensuais, e como os homens sensuais são mais astutos que os demais e raciocinam penetrantemente pelos falsos e pelas falácias. (Que pelo ‘dragão’ e pela ‘serpente’ no sentido abstrato seja significada a astúcia vê-se acima, n. 715, 739 e 581). Por aí se vê agora o que é significado por ‘o dragão ter lançado de sua boca água como um rio, após a mulher’.
[2] Visto que tais coisas são significadas, dir-se-á também alguma coisa a respeito dos astutos raciocínios deles a respeito da justificação pela fé só. O dogma deles é que o homem é justificado e saldo pela fé só, sem as obras da Lei, que são os bens da caridade. Como, todavia, eles veem que na Palavra de ambos os Testamentos se fala tantas vezes em ‘obras’ e ‘feitos’, como também ‘fazer’ e ‘amar’, eles não podem deixar de afirmar que se deve viver no bem. Mas, como separaram da fé as obras ou feitos, como se não fossem justificantes ou salvíficos, eles os conjuntam astutamente à fé, contudo, de um modo que mais separam do que conjuntam. Como, porém, os seus raciocínios são em tal abundância e com tal astúcia que não podem ser expostos em poucas palavras, por isso serão desvendados num opúsculo específico, Da Fé Espiritual e apresentados à vista até dos mais simples. Crê-se comumente – e também assim creem os que defendem a justificação pela fé só – que se pensa e se raciocina espiritualmente pelo fato de se pensar e raciocinar aguçada e astutamente. Cumpre saber, porém, que ninguém pensa e raciocina espiritual senão quem está na iluminação pelo Senhor e, daí, na afeição do vero espiritual, pois esses estão na luz do vero, e a luz do vero é a luz do céu, pela qual os anjos têm inteligência e sabedoria. É essa luz que se chama espiritual, e, consequentemente, os que estão nessa luz são espirituais. Os que, todavia, estão nos falsos, por mais que pensem e raciocinem aguçadamente, não são espirituais, mas espirituais e, mesmo, sensuais, pois os seus pensamento e os raciocínios daí são em sua maior parte oriundos de falácias dos sentidos, que alguns adornam com a eloquência, harmonizam com floreios e confirmam por aparências só da natureza. Alguns, porém, acrescentam e adaptam conhecimentos aos raciocínios e, os pronunciam pelo fogo do amor de si e, daí, pelo orgulho da própria inteligência, portanto, com um som como se fosse da afeição do vero. Em tais coisas consiste a astúcia deles, que aparece como sabedoria perante aqueles que não podem entrar com algum entendimento nas coisas que são da igreja e da Palavra. Que tais homens possam pensar, falar e agir astutamente é porque todo mal reside no homem sensual, e a malícia nele predomina tanto quanto a inteligência no homem espiritual, como pude ver pela malícia dos infernais, que é tal e tanta que não pode ser descrita, e todos nos infernos são infernais. Isto é o que se entende pelas palavras do Senhor em Lucas:
Que os filhos deste século são mais prudentes que os filhos da luz em sua geração (Lc. 16:8),
e por estas, a respeito da serpente, em Moisés:
“A serpente era mais astuta do que toda fera do campo que Jehovah tinha feito” (Gn. 3:1);
pela ‘serpente’ é significado o sensual do homem.

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