. [Vers. 1] “E vi uma besta subindo do mar”. Que isto signifique os raciocínios do homem natural que confirmam a separação entre a fé e a vida vê-se pela significação da ‘besta subindo do mar’, que são as coisas que pertencem ao homem natural, pois pelas ‘bestas’ são significadas na Palavra, em ambos os sentidos, as afeições do homem natural (vide acima, n. 650), e pelo ‘mar’ são significadas as várias coisas que pertencem ao homem natural, as quais se referem aos seus conhecimentos, tanto os verdadeiros como os falsos, e às cognições e aos raciocínios daí (vide também acima, n. 275, 342, 511, 537, 538 e 600). Por aí se pode ver que a ‘besta subindo do mar’ significa os raciocínios pelo homem natural. Que sejam os raciocínios que confirmam a separação entre a fé e a vida vê-se pelo fato de o ‘dragão’ ser ulteriormente descrito neste capítulo; seus raciocínios pelo homem natural confirmando a separação entre a fé e a vida é descrito pela ‘besta subindo do mar’, e suas confirmações pelo sentido da letra da Palavra e as falsificações desta, pela ‘besta subindo da terra’ (de que se trata do versículo 11 até o fim deste capítulo). [2] Que o dragão seja ulteriormente descrito neste capítulo, e também se entenda pelas ‘duas bestas’, vê-se pelo fato de se dizer que ‘o dragão deu à besta subindo do mar o seu poder e o seu trono, e grande autoridade’; e, além disso, que ‘adoraram o dragão que deu autoridade à besta; depois, que a ‘segunda besta, que subiu da terra, falou como o dragão’ e que ‘exerce a autoridade da besta anterior diante do dragão’. Daí é evidente à proporção que aqueles que separam da fé a vida, que são os que são significados pelo ‘dragão’, confirmam essa separação por meio de raciocínios do homem natural, são descritos pela ‘besta subindo do mar’; e à proporção que confirmam essa separação pelo sentido da letra da Palavra e por aí a falsificam, são descritos pela ‘besta que sobe da terra’. Que isto seja assim pode-se ver plenamente pela descrição de uma e de outra, na sequência. [3] Que os raciocínios pelo homem natural entrem nos dogmas daqueles que fazem da fé o único meio de salvação, portanto, o essencial mesmo da igreja, e assim a separam da vida ou da caridade, a qual não reconhecem como meio de salvação ou como essencial da igreja é o pouco veem e, assim, pouco sabem os seus seguidores e eruditos, pelo fato de fixarem o pensamento em passagens da Palavra pelas quais confirmam. E visto que são falsas as coisas que eles confirmam pelo sentido último da Palavra, que é o sentido da letra da Palavra, é necessário que extraiam seus raciocínios do homem natural, pois sem eles é impossível fazer que os falsos apareçam como veros. Mas seja isto ilustrado por um exemplo. Para que a vida ou a caridade seja separada da fé, eles dizem: (i.) Que pela queda de Adão foi perdido todo livre de se fazer o bem por si mesmo; e (ii.) que daí o homem não pode de modo algum cumprir a lei; e (iii.) sem o cumprimento da lei não há salvação; e (iv.) que o Senhor veio ao mundo para cumprir a lei e, assim, imputar Sua justiça e mérito ao homem, e por essa imputação o homem é liberto do jugo da lei, de modo que nada o condene; e (v.) que o homem recebe a imputação do mérito do Senhor pela fé somente, e não pelas obras. Que essas coisas sejam em sua maioria raciocínios pelo homem natural que confirmam o princípio concebido sobre a fé só e conectam seus princípios pode-se ver pelo exame de cada um dos pontos em sua ordem. [4] (i.) Que pela queda de Adão tenha sido perdido o livre arbítrio, que é o livre de se fazer o bem por si mesmo. Este raciocínio, pois o homem não tem o livre de fazer o bem por si, nem pessoa alguma pode ter, porque o homem é somente um recipiente; portanto, o que o homem recebe não é do homem, mas do Senhor nele. De fato, nem mesmo os anjos têm o bem a não ser pelo Senhor, e quanto mais reconhecem e percebem isso, mais são anjos, isto é, superiores e mais sábios do que os outros. Ainda menos Adão, que ainda não era um anjo, pôde estar no estado de bem por si mesmo. A sua integridade consistia na recepção mais plena do bem e do vero, e, daí, da inteligência e da sabedoria do Senhor, mais do que seus descendentes. Isto era, também, a imagem de Deus, pois torna-se imagem quem recebe o Senhor, e quanto mais recebe, mais imagem se torna. Em suma, o livre é fazer o bem pelo Senhor, e a servidão é fazer o bem por si mesmo. Daí é evidente que esse raciocínio é pelos falsos que fluem das falácias, as quais procedem, todas, do homem natural. Além disso, não é verdadeiro que o mal hereditário de todo o gênero humano tenha sido gerado pela queda de Adão. A origem é de outra parte. [5] (ii.) Que daí o homem não possa de modo algum cumprir a lei é também um raciocínio pelo homem natural. O homem espiritual sabe que praticar a lei e cumpri-la na forma externa não salva, mas que, quanto mais o homem pratica a lei na forma externa pela interna, salva. A forma interna é ou o interno da lei é amar o que é bom, sincero e justo, e o seu externo é praticá-lo. Isto o Senhor ensina assim, em Mateus: “Limpa primeiro o interno do copo e do prato, para que também o externo fique limpo” (Mt. 23:26). Na proporção que o homem pratica a lei a partir do interno, assim ele a cumpre, mas não na proporção em que faz isso desde o externo sem o interno. O interno do homem é seu amor e vontade, mas amar o que é bom, sincero e justo, e querê-los pelo amor, vem do Senhor, somente; por isso, ser conduzido pelo Senhor é cumprir a lei. Mas estas coisas devem ser ilustradas mais plenamente na sequência. [6] (iii.) Que sem o cumprimento da lei não haja salvação implica que, se o homem pudesse cumprir a lei por si, seria salvo, o que, todavia, em si é um falso; e como é um falso, para que apareça como vero, já que é um dogma aceito, deve ser confirmado pelos raciocínios pelo homem natural. Que seja um falso é evidente pelo fato de que o homem não pode fazer bem algum por si, mas que todo bem vem do Senhor, e é impossível existir estado de integridade tal a ponto de que algum bem que em si é um bem exista e seja feito pelo homem, conforme foi dito acima a respeito de Adão. E como esses estado de integridade é impossível, nem jamais existe, segue-se que a lei deve ser cumprida pelo Senhor, segundo as coisas que foram ditas logo acima. Entretanto, muito se engana quem crê de outra maneira senão que o homem deve fazer todas as coisas como por si mesmo, ainda que as faça pelo Senhor. [7] (iv.) Que o Senhor tenha vindo ao mundo para cumprir a lei, e assim imputar Sua justiça e mérito ao homem, e que, por essa imputação, o homem seja liberto do jugo da lei, de sorte que, após a justificação pela fé só, nada o condene, é também um raciocínio pelo homem natural. Não foi por isso que o Senhor veio ao mundo, mas para fazer o juízo e, por este meio, repor em ordem todas as coisas nos céus e nos infernos, e, ao mesmo tempo, glorificar o Seu Humano. Por esse meio foram salvos e são salvos todos os que fizeram e fazem o bem por Ele e não por si mesmos, e, assim, não por alguma imputação do Seu mérito e de Sua justiça, pois o Senhor ensina: “Não vim ao mundo para destruir a Lei e o Profeta; não vim ao mundo para destruir, mas para cumprir. ...Quem destruir... um desses menores preceitos, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus, mas quem pratica e ensina, esse será chamado grande no reino dos céus” (Mt. 5:17, 19 e seq.). [8] (v.) Que o homem receba a imputação do mérito do Senhor pela fé só e não pelas obras é uma conclusão dos raciocínios que precedem. E como esses raciocínios são provenientes do homem natural e não do racional iluminado pelo espiritual, e, por isso, provêm de falsos e não de veros, segue-se que por eles a conclusão cai. Por aí se pode ver que para se confirmar algum princípio em si falso é preciso que haja raciocínios pelo homem natural e confirmações pelo sentido da letra da Palavra, porquanto os raciocínios dão aparência de coerência às passagens tomadas do sentido da letra da Palavra. Por isso é que os raciocínios pelo homem natural são significados pela ‘besta do mar’, e as confirmações pelo sentido da letra da Palavra pela ‘besta subindo da terra’.