. “Tendo sete cabeças”. Que isto signifique o conhecimento das coisas santas da Palavra, que são falsificados e adulterados, vê-se pela significação de ‘cabeça’, que é a inteligência e a sabedoria, e, no sentido oposto, a insanidade e a estultícia (de que se tratou acima, n. 573 e 577); e como a inteligência e a sabedoria não podem ser atribuídas àqueles que por meio de raciocínios confirmam a separação entre a fé e a vida, os quais se entendem pela ‘besta subindo do mar’, por isso por ‘sua cabeça’ é significado o conhecimento. Que seja o conhecimento das coisas santas da Palavra é porque eram ‘sete cabeças’, e ‘sete’ se atribui às coisas santas (vide acima, n. 257). A razão por que é o conhecimento das coisas santas da Palavra é porque aqueles que se entendem pelo ‘dragão’ não são contra a Palavra, pois a chamam de santa e Divina, visto que dela coligem as confirmações de seus dogmas. Que, porém, as coisas santas da Palavra, das quais têm o conhecimento, sejam falsificadas e adulteradas por eles ver-se-á pelo que se segue e, em geral, pelo fato de que aqueles que separam a fé da vida não podem agir diferentemente, visto que essa separação é contra todas e cada uma das coisas da Palavra. com efeito, em todas e cada uma das coisas da Palavra há um casamento do bem e do vero, que é claramente evidente pelo sentido espiritual da Palavra. Por isso há na maioria das passagens duas expressões que parecem ser como que repetições da mesma coisa, mas uma delas se refere ao bem e a outra ao vero, e, assim, as duas fazem como que um casamento que se chama casamento Divino, casamento celeste e casamento espiritual, que, considerado em si mesmo, é o casamento do bem e do vero. A respeito desse casamento vide acima (n. 238, 288, 484 e 600). Deve haver o mesmo casamento entre a fé e o amor, ou entre a fé e as boas obras, pois a fé pertence ao vero e o vero pertence à fé, e o amor pertence ao bem e o bem pertence ao amor. Disto é evidente que aqueles que separam a fé de sua vida, ou, o que é o mesmo, do amor, não podem deixar de falsificar a Palavra, porque explicam o sentido de sua letra contra o casamento do bem e do vero, que há em todas e cada uma das coisas da Palavra. [2] Foi dito que a ‘cabeça’ significa a sabedoria e a inteligência, e, naqueles que não estão na sabedoria e na inteligência, significa o conhecimento. Daí, naqueles que falsificam e pervertem a Palavra, ela significa a insanidade e a estultícia, como também acima (n. 715), onde foi explicado o que é significado pelas ‘sete cabeças do dragão’. Daí, a mesma coisa é também aqui significada pela ‘cabeça da besta’, pois essa besta é o dragão quanto aos raciocínios pelo homem natural que confirmam a separação entre a fé e a vida. Que as ‘cabeça’ signifique a sabedoria, a inteligência e o conhecimento das verdades, e, no sentido oposto, a estultícia, a insanidade e o conhecimento das falsidades é porque essas coisas residem na cabeça e estão aí em seus princípios. Isto se pode ver claramente pelo fato de que aí estão as origens de todas as fibras, que dali procedem para todos os órgãos sensores e motores da face e de todo o corpo. Aí há substâncias em número infinito que aparecem como esférulas e são chamadas pelos anatomistas de substância cortical e cinerícia. Delas procedem as fibrilas, das quais as primeiras são inconspícuas e, em seguida, enfeixadas [confasciatae], das quais é produzia a substância medular de todo o cérebro, cerebelo e da medula alongada. Dessa substância medular se estendem as fibras conspícuas, que , em conjunto, são chamadas nervos, pelos quais o cérebro, o cerebelo e a medula espinal formam todo o corpo e todas e cada uma de suas coisas, e por este meio ocorre que todas e cada uma das coisas do corpo são regidas pelo cérebros. [3] Por aí se pode ver que o entendimento e a vontade, que são chamadas por uma só palavra, mente, e, por conseguinte, também a inteligência e a sabedoria, residem nos cérebros e aí estão em seus primeiros. E os órgãos que são formados para recebem os sentidos e para fazerem os movimentos são derivações daí, absolutamente como ribeiros de suas fontes, ou como principiados de seus princípios, ou como substanciados de suas substâncias. E essas derivações são tais que os cérebros estão presentes em toda parte, quase como o sol, pelo calor e pela luz, em todas e cada uma das coisas da terra. Segue-se daí que todo o corpo, e todas e cada uma de suas coisas, são formados sob a atenção, o auspício e a obediência da mente, que está no cérebro, assim, construídas ao seu comando, de modo que uma parte em que essa mente não esteja presente, ou à qual a mente não dá sua vida, não é parte da vida do homem. Por aí se pode ver que a mente, quando está em seu pensamento – que pertence ao entendimento – e em sua afeição – que pertence à vontade – tem extensão em cada coisa de todo o corpo, e aí se espalha por meio de suas formas, assim como os pensamentos e as afeições dos anjos nas sociedades de todo o céu. É a mesma coisa, porque todas as coisas do corpo humano correspondem a todas as coisas do céu. Por isso a forma de todo o céu, diante do Senhor, é a forma humana. (Deste assunto se tratou muitas vezes nos Arcanos Celestes e também na obra O Céu e o Inferno). [4] Essas coisas foram ditas para que se saiba de onde procede que pela ‘cabeça’ sejam significadas a sabedoria e a inteligência, e, também, de onde procede que pela ‘cabeça’ sejam significadas a estultícia e a insanidade, pois qual é o homem em seus princípios, tal é no todo, pois o corpo com todas e cada uma de suas coisas é o derivado, como foi dito. Se, pois, a mente estiver na fé do falso e no amor do mal, então todo o seu corpo está num estado semelhante, isto é, todo o homem. Isto também se pode ver claramente no homem quando se torna espírito, bom ou mau; então todo o seu corpo espiritual, da cabeça até o calcanhar, é inteiramente tal como é a sua mente. Se a mente for celeste, todo o espírito será celeste também quanto ao corpo; se a mente for infernal, todo o espírito será infernal também quanto ao corpo, pelo que este espírito aparece numa forma medonha, como um diabo, mas aquele espírito numa forma bela, como um anjo do céu. Sobre este assunto, porém, muito se tratou em outras passagens.