. “E o dragão lhe deu o seu poder, e o seu trono, e grande autoridade.” Que isto signifique que aqueles que separam da fé a vida afirmam e corroboram os seus doutrinais pelos raciocínios oriundos de falácias, e assim seduzem poderosamente, vê-se pela significação da ‘besta’ à qual o dragão deu a sua força, que são os raciocínios do homem natural que confirmam a separação entre a fé e a vida (de que se tratou acima, n. 774); que esses raciocínios sejam oriundos das falácias dos sentidos é porque essa besta foi vista semelhante a um leopardo e seus pés como de urso, e pelos ‘pés de urso’ são significadas as falácias (de que também se tratou acima, n. 781); e pela significação de ‘dar o poder, o seu trono e grande autoridade’, que é confirmar as coisas doutrinas e assim as corroborar; ‘poder’ significa a eficácia [???], ‘trono’ significa a igreja quanto à doutrina, que vem dos falsos, e ‘grande autoridade’ significa a confirmação e a corroboração daí. Que estas coisas sobrevenham aos raciocínios e às suas falácias mostrou-se acima. [2] Que aqueles que separam a fé da vida, isto é, das boas obras, tenham poder, trono e autoridade, não é porque os falsos em que eles estão tenham em si algum poder, pois os falsos do mal não têm absolutamente poder algum, já que todo poder pertence aos veros do bem. Mas os falsos têm poder nos falsos, porque são semelhantes em semelhantes. Isto se pode ver claramente pelos espíritos infernais entre si, pois exercem o poder por imaginativos e simulacros de correspondências, pelos quais querem se ver poderosíssimos e fortíssimos. No entanto, eles não têm absolutamente poder algum contra os veros, e tão absolutamente que chega a ser nada, o que eu poderia confirmar por muitas experiências se houvesse espaço para se estender até esse ponto nestas explicações sobre o Apocalipse. Mas isto se pode ver apenas pelo fato de que os infernos, nos quais há miríades de miríades, são mantidos em vínculos pelo Divino Vero procedente do Senhor, de modo que nenhum deles ousa sequer erguer um dedo da mão; também pelo fato de que milhares de coortes de maus espíritos podem ser conduzidos, coagidos, vencidos e dispersos por um só anjo, por meio dos Divinos veros do Senhor, e isto somente pela visão da intenção da vontade. Tal poder também me foi dado algumas vezes pelo Senhor. Pode parecer digno de admiração que a igreja em seu fim esteja nos males e nos falsos daí, e nos falsos e nos males daí, e, todavia, os veros do bem têm toda autoridade quae videntur ex Domino per vera ex Verbo posse dari [???]. Mas a razão disso é que os falsos têm autoridade naqueles que estão nos falsos do mal, e, no fim da igreja, esses falsos reinam, e quando reinam, os veros não são recebidos. Por causa disso, os falsos não podem ser dissipados pelos veros. Daí é que então o diabo é chamado ‘poderoso’ e ‘solto das cadeias’, e daí é que o falso infernal na Palavra é chamado ‘leão’, ‘urso’, ‘lobo’, ‘besta’ e ‘fera’ forte e predadora. [3] Daí vem, também, que aqueles que estão nos falsos são chamados ‘poderosos’, ‘vigorosos’ [validi], ‘robustos’, ‘fortes’, ‘heróis’, ‘soberano’, ‘terrível’, ‘temível’ e ‘devastador’, como se pode ver por muitas passagens, como as que se seguem. Em Jeremias: “Eis que trago sobre vós uma nação de longe, ó casa de Israel... uma nação vigorosa... todos [são] fortes” (Jr. 5:15, 16); no mesmo: “Subi, ó cavalos, ... ensandecei, ó carros... saí, ó fortes” (Jr. 46:9); no mesmo: “A espada contra os fortes, para que se espantem” (Jr. 50:36); em Ezequiel: “Entregarei” o faraó “na mão de uma nação forte” (Ez. 31:11, 12); em Oséias: “Confiaste em teu caminho, na multidão de [teus] fortes” (Os. 10:13); em Joel: “Um povo grande e forte... como heróis correm... ultrapassam o muro” (Jl. 2:2, 7); em Amós: “Perece o refúgio do veloz, e o forte não confirmará a sua força, nem o poderoso livrará a alma... o forte em seu coração entre os heróis fugirá nu naquele dia” (Am. 2:14, 16); em David: “Repreende a fera do caniçal, a congregação dos fortes” (Sl. 68:30); no Livro Primeiro de Samuel: “Os arcos dos fortes foram quebrados” (1 Sm. 2:4); no Apocalipse: Todos os “reis... grandes... ricos... quiliarcas e poderosos... esconderam-se nas cavernas e nas rochas” (Ap. 6:15); em Mateus: “Os príncipes das nações dominam... e os grandes têm autoridade” (Mt. 20:25); em Lucas: “Esta é a vossa hora, e a autoridade das trevas” (Lc. 22:53), e em muitas outras passagens. [4] Ao que foi dito acima deve ser acrescentado que os espíritos infernais se creem mais fortes e poderosos do que os outros, mas isto porque prevalecem contra aqueles que estão nos males e nos falsos daí, assim, um espírito infernal contra outro espírito infernal, ou um mal pelo falso contra outro mal pelo falso. Por essa aparência é que se creem poderosos, mas o pode ser comparado ao de inseto [???] contra inseto, de pulga contra pulga, de poeira contra poeira e de palha contra palha, cujo poder é relativo às forças mútuas deles. Acresce que os espírito infernais são de um ânimo soberbo, e pela causa mais banal querem ouvir que são robustos, fortes e heróis. [5] Uma vez que aqui se trata do poder e da grande autoridade que o dragão deu à besta que sobe do mar, e, daí, a respeito do poder dos espíritos infernais entre si, vou desvendar alguns arcanos a respeito das artes de se adquirir poder para si no mundo espiritual. Alguns adquirem poder para si por meio da Palavra, pois conhecem algumas passagens dali e as pronunciam, pelo que se dá a comunicação deles com os bons simples, e, assim, a conjunção com eles quanto aos externos; e quanto mais se acham nessa conjunção, mais prevalecem sobre os outros. a razão disso é que todas as coisas da Palavra são veros, e os veros têm todo poder, e os bons simples estão nos veros, donde vem o poder pela conjunção com eles, mas enquanto estão nessa conjunção, a qual, todavia, não dura continuamente, porque logo são separados pelo Senhor. Alguns adquirem poder para si por meio de afeições simuladas do bem e do vero, e pelas afeições que são do amor do sincero e do justo, pelas quais também os bons simples são atraídos a se sentirem bem a respeito deles e a lhes quererem bem, e são adjuntos; e enquanto essa benevolência existir, como se fosse mutuamente, eles ficam mais poderosos do que os outros. Alguns adquirem poder para si por meio de representativos de vários gêneros, que são abusos das correspondências; outros, de outros modos. E visto que os veros do bem têm todo o poder e residem nos anjos, por isso os maus espíritos nada desejam mais do que atrair os bons espíritos para seus partidos, porque assim os maus prevalecem; contudo, tão logo se separam deles, estão nos falsos de seu mal, e, quando estão nesses, são destituídos de todo poder. [6] Está é, também, a razão por que todos os maus que chegam do mundo são primeiro separados dos bens e veros que souberam somente de memória e trouxeram na boca, e quando são separados destes, os seus interiores aparecem como sendo nada além de amontoados consistindo de falsos do mal; quando estão nesses, como não têm mais poder algum, caem de cabeça no inferno, como pesos no ar caem na terra. Que os bens sejam tirados dos maus é o que se conhece pela Palavra, pois assim o Senhor diz: “Tirai... dele o talento, e dai ao que tem dez talentos; pois a todo aquele que tem será dado, para que tenham em abundância; mas do que não tem, até o que tem lhe será tirado; o servo inútil, porém, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes” (Mt. 25:28-30; Mc. 4:25; Lc. 8:18; 19:26). * * * * * * * j84. Vers. 3: “E vi uma de suas cabeças como que ferida de morte, e sua ferida de morte foi curada; e toda a terra se admirou após a besta.” * * * * * * * 3. “E vi uma de suas cabeças como que ferida de morte” significa a discordância dos seus doutrinais com a Palavra, onde se mencionam tantas vezes ‘amor’, ‘vida’ e ‘obras’, que não concordam absolutamente com aquela religiosidade [n. 785]; “e sua ferida de morte foi curada’ significa a discordância aparentemente afastada por meio de conjunções inventadas das obras com a fé [n. 786]; “e toda a terra se admirou após a besta” significa a aceitação pelos mais eruditos na igreja, e uma recepção mais remota pelos menos eruditos [n. 787]. * * * * * * *