. [Vers. 3:] “E vi uma de suas cabeças como que ferida de morte”. Que isto signifique a discordância dos seus doutrinais com a Palavra, onde se mencionam tantas vezes ‘amor’, ‘vida’ e ‘obras’, com o que aquela religiosidade não concorda absolutamente, vê-se pela significação das ‘cabeças’ dessa besta, que é o conhecimento das coisas santas da Palavra, que são falsificados e adulterados (de que se tratou acima, n. 775); por ‘cabeça’, onde na Palavra se trata da igreja e daqueles que são da igreja, é significada a inteligência e sabedoria e, num sentido universal, o entendimento do vero e a vontade do bem. Como, porém, aqui se trata daqueles que não querem que o entendimento entre nos mistérios da fé, mas que deva estar cativo, sob a obediência dos seus mistérios, e estes são os que se descrevem pelo ‘dragão’ e por essa sua ‘besta’, segue-se que pela ‘cabeça’ dessa besta é significado o conhecimento, pois onde o entendimento não enxerga, não há aí inteligência, mas, em seu lugar, conhecimento. E, além disso, daqueles que estão nos falsos não se pode dizer inteligência, mas conhecimento (assunto a cujo respeito se vê na Doutrina da Nova Jerusalém, n. 33). E vê-se pela significação de ‘ser ferida de morte’, que é discordar da Palavra, pois a doutrina que discorda da Palavra é morta, e é este morto que é significado por ‘ferida de morte’. [2] O que discorda é que eles fazem separação entre a vida do amor, que são as boas obras, e a fé, e a esta, só, fazem justificante e salvante, enquanto tiram da vida do amor ou das boas obras tudo da justificação e da salvação. E visto que se diz em mil passagens na Palavra ‘amar’ e ‘fazer’, e que o homem deve ser julgado segundo os ‘feitos’ e ‘obras’, e com estas coisas aquela religiosidade não concorda, por isso são estas as coisas significadas pela ‘ferida de morte da cabeça dessa besta’. Daí, portanto, se pode ver que ‘vi uma das cabeças da besta como que ferida de morte’ significa a discordância com a Palavra, onde se mencionam tantas vezes ‘amor’, ‘vida’ e ‘obras’, que não concordam com aquela religiosidade. Que não concordem, vê-se claramente pelo fato de que é um dogma dessa religiosidade que só a fé, sem as obras da lei, justifica e salva, e, de fato, que alguém é condenado se puser algo da salvação nas obras, por causa do mérito e por causa do proprium do homem nelas. Por isso, também, eles se abstêm de fazê-las, dizendo de coração: ‘As boas obras não me salvam, e as más não me condenam, porque tenho a fé’. Por este princípio também são declarados salvos aqueles que próximo à hora da morte enunciam com alguma confiança que têm a fé, qualquer que tenha sido a vida deles. Mas, como na Palavra se mencionam em mil passagens os ‘feitos’ e as ‘obras, bem como ‘fazer’ e ‘amar’, e estes discordam com aquela religiosidade, por isso os seus dogmáticos inventaram modos de conjungí-las com a fé. Estas são, pois, as coisas que são significadas por ‘ver-se uma das cabeças da besta como que feridade de morte’ e que ‘a ferida de morte foi curada’ e ‘toda a terra se admirou após a besta. Mas, de que modo essa ferida foi curada, a saber, por modos inventados de conjunção, dir-se-á no artigo seguinte. [3] Aqui serão citadas da Palavra primeiramente as passagens onde são mencionados ‘feitos’, ‘obras’, ‘fazer’ e ‘agir’, para que qualquer um possa ver a discordância que é aqui significada por ‘uma das cabeças ferida de morte’ e também que essa ferida é completamente incurável, a não ser que o homem viva segundo na Palavra, cumprindo-os. Em Mateus: “Quem ouve as Minhas palavras... e as pratica” é semelhante “ao varão prudente;... mas quem ouve as Minhas palavras e não as pratica” é semelhante “ao varão insensato” (Mt. 7:24, 26); em Lucas: “Por que... Me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que digo? Todo aquele que vem a Mim, e ouve as Minhas palavras [sermones], e as pratica... é semelhante ao homem que edifica a casa... sobre a rocha; ...mas quem ouve e não pratica é semelhante ao homem que edifica a casa sobre o humos, sem alicerce” (Lc. 6:46,-49); em Mateus: “Aquele que foi semeado em boa terra, este é aquele que ouve e atende a Palavra, e que daí dá fruto e pratica, um ao cêntuplo, outro a sessenta vezes, outro a trinta vezes” (Mt. 13:23); no mesmo: “Quem quebrar... o menor destes menores e assim ensinar aos homens será chamado menor no reino dos céus; mas quem pratica e ensina, este será chamado grande no reino dos céus” (Mt. 5:19); em João: “Sois Meus amigos se fizerdes tudo o que vos mando” (Jo.15:14); no mesmo: “Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as fizerdes” (Jo. 13:17); no mesmo: “Se Me amais, guardai os Meus mandamentos;... quem tem os Meus preceitos, e os pratica, este é o que Me ama... e Eu o amarei, e manifestarei a Mim mesmo a ele, e para ele virei, e morada nele farei; mas quem não Me ama não guarda as Minhas palavras” (Jo. 14:15, 21-24); em Lucas: Jesus disse: “Minhas mãe e Meus irmãos são aqueles que ouvem a Minha Palavra e a praticam” (Lc. 8:21); em Mateus: “Tive fome, e Me destes de comer; tive sede, e Me destes de beber; fui peregrino, e Me acolhestes; estive nu, e Me vestistes; estive doente, e Me visitastes; estive na prisão, e viestes e Mim”, aos quais o Senhor disse: “Vinde, benditos... possuí como herança o reino preparado para vós desde a fundação do mundo”. E disse aos que não o fizeram: “Apartai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos” (Mt. 25:31 ao fim); em João: “Meu Pai é o Vinhateiro... todo ramo que não dá fruto, [Ele] o tira” (Jo. 15:1, 2); em Lucas: “Dai... frutos dignos de penitência; toda árvore que não dá bom fruto será cortada e lançada no fogo;... pelos frutos os conhecereis” (Lc. 3:8, 9; Mt. 7:19, 20); em João: “Nisto é glorificado Meu Pai, que deis muito fruto e vos torneis Meus discípulos” (Jo. 15:7, 8); em Mateus: “Será tirado” deles “o reino de Deus, e será dado a uma nação que dê seu fruto” (Mt. 21:40-43); em João: “Quem... pratica a verdade vem para a luz, para que suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus” (Jo. 3:21); no mesmo: “Sabemos que aos pecadores Deus não ouve, mas se alguém adora a Deus, e faz a vontade d’Ele, a esse ouve” (Jo. 9:31); em Mateus: “Virá... o Filho do homem na glória de Seu Pai, com os Seus anjos, e então dará a cada um segundo os seus feitos” (Mt. 16:27); em João: “Sairão os que tiverem feito bens para a ressurreição da vida, mas os que tiverem feito males, para a ressurreição do juízo” (Jo. 5:29); no Apocalipse: “Dar-vos-ei a cada um segundo as suas obras;... quem vencer e guardar até o fim as Minhas obras” (Ap. 2:23, 26); “As suas obras os seguem” (Ap. 14:13); “Foram julgados os mortos conforme as coisas que foram escritas nos livros, segundo as suas obras”;... e os mortos “foram julgados, todos, segundo as suas obras” (Ap. 20:12, 13); “Eis que cedo venho, e Minha recompensa comigo, para que Eu dê a cada um segundo a sua obra” (Ap. 22:12); “Bem-aventurados os que praticam os mandamentos d’Ele” (Ap. 22:14); Disse ao anjo da Igreja Efésia: “Tenho contra ti que deixaste a primeira caridade; lembra... de onde caíste... e faz as primeiras obras, mas, se não...” etc. (Ap. 2:4, 5); Foi dito ao anjo da Igreja dos esmirnianos: “Conheço as tuas obras”; ao anjo da Igreja em Pérgamo: “Conheço as tuas obras”; ao anjo da Igreja em Tiatira: “Conheço as tuas obras”; ao anjo da Igreja em Sardes: “Conheço as tuas obras”; e ao anjo da Igreja em Filadélfia: “Conheço as tuas obras” (Ap. 9, 13, 19; 3:1, 8). Nesses dois capítulos essas sete igrejas são examinadas e julgadas quanto ao que elas são e serão, pelas obras e segundo as suas obras. [4] O Senhor também ensina as boas obras e o que elas devem ser, e que daí vem a bem-aventurança celeste, em Mateus, nos capítulos quinto, sexto e sétimo, do começo ao fim desses capítulos; também nas parábolas dos operários na vinha, do agricultor e dos servos aí, dos negociantes, aos quais foram dadas as minas e aos quais foram dados os talentos; da figueira na vinha, que seria cortada se não desse fruto; do ferido pelos ladrões, com quem o samaritano agiu com misericórdia, a cujo respeito o Senhor perguntou ao doutor da lei qual daqueles três seria o próximo, e ele disse: “O que mostrou misericórdia”, a quem Jesus disse: “Vai, tu, e faz semelhantemente”; das dez virgens, das quais cinco tinham óleo nas lâmpadas e cinco não tinham; o ‘óleo nas lâmpadas’ significa a caridade na fé. Além de outras passagens. [5] Também os doze discípulos do Senhor representaram a igreja quanto a todas as coisas da fé e da caridade em conjunto, e dentre eles Pedro, Tiago e João representaram a fé, a caridade e as boas obras, em sua ordem; Pedro, a fé; Tiago, a caridade; e João, as boas obras. Por isso é que o Senhor disse a Pedro, quando Pedro viu que João seguia o Senhor: “Que é para ti”, Pedro? “Tu, segue-Me”, João (pois Pedro dissera a respeito de João “Que é deste?”) (João: 21: 21, 22), significando que seguirão o Senhor os que fazem boas obras. Como João representou a igreja quanto às boas obras, por isso ele se reclinou sobre o peito do Senhor. Que a igreja esteja com aqueles que fazem boas obras é também significado pelas palavras do Senhor desde a cruz a João: Jesus viu Sua mãe e disse ao discípulo a quem amava, que estava presente; e disse à sua mãe: “Mulher, eis o teu filho; e disse àquele discípulos: Eis a tua mãe. E desde aquela hora o discípulo a tomou para si” (Jo. 1: 26, 27), pelo que era significado que a igreja estará onde houver boas obras, pois pela ‘mulher’, do mesmo modo que pela ‘mãe’, é significada a igreja na Palavra. Estas são as passagens do Novo Testamento. Há ainda muitas no Velho, onde São benditos todos os que guardam os estatutos, juízos e preceitos, e malditos os que não os fazem (como em Lv. 18:5; 19:37; 20:8; 22:31-33; 26:3, 4, 14, 15; Nm. 15:39, 40; Dt. 5:9, 10; 6:25; 15:5; 17:19; 27:26; e outras mil passagens). [6] Além dessas passagens na Palavra onde se mencionam ‘feitos’ e ‘fazer’ há muitas outras onde se dizem ‘amor’ e ‘amar’, e por ‘amar’ entende-se o mesmo que por ‘fazer’, pois quem ama faz, já que amar é querer, pois cada um quer aquilo que interiormente ama; e querer é fazer, pois quem quer, faz, quando o pode. Também, o feito não é outra coisa senão a vontade no ato. A respeito do amor o Senhor ensina em muitas passagens (como Mt. 5:43-48; 7:12; Lc. 6:27-39, 43 ao fim; 7:36 ao fim; Jo.13:34, 35; 14:14-23; 15:9-19; 17:22-26; 21:15-23), e, em resumo nestas palavras: “Amarás o Senhor teu Deus em todo o teu coração, e de toda a tua alma;... este é o primeiro e grande mandamento. [O segundo] semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos... dependem a Lei e os Profetas” (Mt. 22:35-38, 40; Lc. 10:27, 28; Dt. 6:5). ‘Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo’ é cumprir os Seus preceitos (Jo. 14:21-24), e ‘Lei e Profetas’ significam a Palavra em todas e cada uma das coisas. Por estas e aquelas passagens citadas da Palavra pode-se ver plenamente que a fé separada das boas obras não salva, mas a fé por elas e com elas, porque quem faz os bens, esse tem fé, mas quem não faz os bens, esse não tem fé.