. “E sua ferida de morte foi curada”. Que isto signifique a discordância aparentemente afastada por meio de conjunções inventadas das obras com a fé vê-se pela significação de ‘ferida de morte’, que á discordância com a Palavra, pois aqui pela ‘ferida de morte’ é significado o mesmo que logo acima, pela ‘cabeça ferida de morte’; (que as ‘feridas’, na Palavra, signifiquem coisas tais que destroem a igreja e a vida espiritual do homem vê-se acima, n. 584; e como a doutrina da Palavra faz a igreja, por isso, quando a doutrina discorda da Palavra, não há mais a igreja, mas uma religiosidade que imita a igreja); e pela significação de ‘ser curada’, a saber, da ferida, que é essa discordância afastada por meio de conjunções inventadas das obras com a fé. Que isto seja significado por ‘ser curada’, quando a ‘ferida de morte’ significa a discordância com a Palavra, pode-se ver sem amais argumento. Todavia, que essa ferida não seja curada, mas apenas aparentemente afastada, ver-se-á na sequência. Em primeiro lugar, algumas coisas serão citadas de passagem a respeito das conjunções das boas obras com a fé, inventadas por aqueles que se creem mais engenhosos e sagazes do que os outros, e são ao mesmo tempo dotados de tal engenhosidade que pelos raciocínios das falácias podem induzir a todo falso uma aparência de vero. Mas, para que isto seja investigado e apresentado à compreensão e, em seguida, desvendado, desejo aqui descrever as conjunções das boas obras com a fé pelas quais a discordância com a Palavra parece ser afastada, algumas cridas pelos simples e outras inventadas pelos eruditos. [2] (1.) Os que são muito simples não sabem outra coisa senão que a fé é crer nas coisas que estão na Palavra e que a doutrina da igreja daí ensina. (2.) Os menos simples não sabem o que é a fé só, mas que a fé é crer no que se deve fazer; poucos dentre esses distinguem entre crer e fazer. (3.) Outros, porém, supõem que a fé produz boas obras, mas não pensam de que modo as produz. (4.) Outros pensam que em todo caso a fé precede, e que os bens são produzidos por elas ou existem como frutos de uma árvore. (5.) Alguns creem que isto se faz pela cooperação do homem, outros creem que é sem a sua cooperação. (6.) Como, porém, o doutrinal dita que a fé, só, salva, sem as boas obras, por isso alguns têm como nada as boas obras, dizendo de coração que todas as coisas fazem são bens à vista de Deus, e que os males não são vistos por Deus. (7.) Mas, visto que na Palavra se mencionam tantas vezes ‘feitos’ e ‘obras’, como também ‘fazer’ e ‘agir’, por necessidade de se conciliar a Palavra com esse dogma, elaboram conjunções, mas de diversos modos, mas de maneira tal que a fé seja por si e as obras sejam por si, a fim de que a salvação esteja na fé e não nas obras. (8.) Alguns conjuntam a fé com o esforço de fazer o bem naqueles que chegaram ao último grau de justificação, porém com um esforço que nada tira do voluntário do homem, mas comente por influxo ou inspiração, porque o bem do voluntário do homem não é em si bem. (9.) Outros conjuntam a fé com o mérito do Senhor, dizendo que isto opera todas as coisas da vida do homem sem que este o saiba. (10.) Outros conjuntam a fé com o bem moral e com o bem civil, bens que devem ser eitos por causa da vida no mundo e não por causa da vida eterna; e que esses bens se entendem na Palavra pelos ‘feitos’ e ‘obras’ e por ‘fazer’ e ‘agir’; e que, por causa dos usos aí, as boas obras devem ser ensinadas e pregadas diante dos leigos, porque esses não conhecem os arcanos da conjunção da fé e das obras, e alguns não os entendem. (11.) Muitos dentre os eruditos acham que a conjunção de todos está na fé só, a saber, que nela está o amor a Deus, está a caridade para com o próximo, está o bem da vida, estão as obras, está o mérito do Senhor e está Deus. Além disso, que o homem mesmo pensa, quer e faz por si algumas coisas disso. (12.) Cumpre saber que existem ainda muitos modos de conjuntos inventados, e que muitos ainda são inventados pelas mesmas pessoas no mundo espiritual, pois o pensamento espiritual pode se estender a inumeráveis coisas que o pensamento natural não pode. Vi uma pessoa ali imaginar mais de centenas de modos de conjunção, e em cada um deles havia uma progressão da meditação desde o princípio, por intermediários, até o fim. Quando, porém, estava no fim e acreditava que então via a conjunção, era iluminado e percebia que, quando mais interiormente pensava sobre este assunto, mais separava a fé das boas obras que ele conjuntara com a fé. Por aí se pode ver quais são os modos de conjunção que principalmente os eruditos inventaram para que que a discordância desse dogma com a Palavra pareça como que concordante, o que se entende pela ‘ferida de morte da besta ser curada’.