. “E toda a terra se admirou após a besta.” Que isto signifique a aceitação pelos mais eruditos na igreja, e uma recepção mais remota pelos menos eruditos, vê-se pela significação de ‘admirar-se após a besta’, quando se trata da discordância com a Palavra aparentemente afastada por meio de conjunções inventadas das obras com a fé, que é a aceitação pelos mais eruditos e a recepção pelos menos eruditos (de que se tratará a seguir); e pela significação de ‘terra’, que é a igreja (de que se tratou acima, n. 29, 304, 417, 697, 741, 742 e 752). Que ‘a terra se admirar após a besta’ signifique a aceitação e a recepção é porque a admiração atrai, e aqueles são atraídos seguem.
[2] Em algumas passagens na Palavra se mencionam ‘ir’ e ‘andar’ após Deus, após deuses estranhos, após um líder e após muitos, e por aí é significado seguir e reconhecer de coração, como também estar e viver com eles, e ser consociado, como nas passagens que se seguem. No Primeiro Livro dos Reis:
“David guardou os Meus preceitos, e andou após Mim de todo o coração... para fazer... o que é reto aos Meus olhos ( 1 Re. 14:8);
no Primeiro Livro de Samuel:
“Iam os filhos... de Jessé após Saul para a guerra” (2 Sm. 17:13);
em Moisés:
“Não ireis após muitos para os males; não respondereis após muitos numa disputa para perverter” (Êx. 23:2);
em Jeremias:
Não ides “após deuses estranhos que não conhecestes” (Jr. 7:9);
no mesmo:
“Eles foram após deuses estranhos, para os servir” (Jr. 11:10; dt. 8:19);
em Moisés:
“O varão que for após Baalpeor, Jehovah teu Deus [o] destruirá do teu meio” (Dt. 4:3).
Daí é evidente que ‘ir após’ alguém significa segui-lo, obedecê-lo, fazer por ele e viver por ele. Além disso, ‘andar’ significa viver. Por aí se pode ver que ‘admirar-se após a besta’ significa a aceitação e a recepção pela persuasão de que a discordância com a Palavra foi aparentemente afastada.
[3] Que seja significada a aceitação pelos mais eruditos e a recepção remota pelos menos eruditos é porque os eruditos inventaram as conjunções da fé com a sua vida, que são as boas obras, mas os menos eruditos, porque não puderam sondar interiormente as discordâncias, eles receberam, cada um segundo a sua compreensão. Daí foi recebido esse dogma, de que a fé, só, é o meio essencial de salvação, em toda a terra ou Igreja Cristã.
[4] Também se dirá em poucas palavras de que modo a cabeça dessa religião, de que na fé está a salvação e não nas boas obras, é afastada em aparência e daí é recebida pelos eruditos. Com efeito, eles inventaram graus de progressão da fé para as boas obras, aos quais chamam graus de justificação. Eles fazem o primeiro grau a audição de mestres e pregadores; fazem o segundo grau a informação pela Palavra de que assim é; fazem o terceiro grau o reconhecimento; e como nada da igreja pode ser reconhecido de coração a menos que a tentação preceda, por isso eles a adjuntam a esse grau; e se as dúvidas que então se mostram forem dissipadas pela Palavra ou pelo pregador, e assim o homem vence, dizem que o homem tem a confiança, que é a certeza de que assim é e também a segurança de que são salvos pelo mérito do Senhor. Como, porém, as dúvidas que se apresentam na tentação são decorrentes principalmente da Palavra não compreendida, na qual se mencionam tantas vezes ‘feitos’, ‘obras’, ‘fazer’ e ‘agir’, eles dizem que o entendimento deve ser refreado sob a obediência da fé. Daí se segue o quarto grau, que é o esforço de fazer o bem, no qual subsistem, dizendo que o homem, quando chegou a esse grau, está justificado, e então todos os atos de sua vida são aceitos por Deus, e os males da vida não são vistos por Deus, porque foram perdoados. Esta conjunção da fé com as boas obras foi inventada pelos eruditos e também foi aceita por eles. Mas essa conjunção raramente se estende às pessoas comuns, tanto porque transcendem a compreensão de algumas delas como porque estão, em sua maioria, em seus negócios e funções, que desviam a mente de entender os arcanos interiores dessa doutrina.
[5] Todavia, a conjunção da fé com as boas obras e, por ela, a aparente concordância com a Palavra, é recebida diferentemente pelos menos eruditos. Esses nada sabem a respeito dos graus de justificação, mas creem que a fé, só, é o único meio de salvação. E quando veem pela Palavra e ouvem do pregador que os bens devem ser feitos e que o homem deve ser julgado segundo as suas obras, eles pensam que a fé produz as boas obras, pois não sabem outra coisa senão o que pregador ensina, e que a fé é pensar que assim é. E como ela precede, creem que a fé produz as boas obras, as quais chamam de frutos da fé, ignorando que essa fé é somente a fé da memória, que, considerada em si mesma, é a fé histórica, porque vem de outrem, assim, de outrem em si, e tal fé jamais pode produzir algum fruto. Nesse erro caiu a maioria no mundo cristão pelo fato de que a fé, só, foi recebida como o principal e, mesmo, o único meio de salvação. Mas, de que modo a fé e a caridade, ou o crer e o fazer, fazem um, dir-se-á na sequência.
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