. [Vers. 4] “E adoraram o dragão, que deu autoridade à besta”. Que isto signifique o reconhecimento da salvação e da justificação pela fé só, confirmada e corroborada por esses modos de conjunção inventados e, daí, recebido na doutrina, vê-se pela significação de ‘adorar1, que é reconhecer e adorar como Divino e daí receber na doutrina que é para a igreja, pois os que reconhecem como Divino e cultuam isso pelo reconhecimento, esses adoram e também recebem na doutrina que é para a igreja; pela significação de ‘dragão’, que são aqueles que estão na fé separada da caridade na doutrina e na vida, assim os que reconhecem a salvação e a justificação pela fé só (de que se tratou acima, n. 714); e pela significação da ‘autoridade da besta dada pelo dragão’, que é a confirmação e corroboração desses dogmas por meio de conjunções inventadas da fé com as obras (de que se tratou acima, n. 768]. Daí se pode ver que ‘adoraram o dragão, que deu autoridade à besta’ significa o reconhecimento da salvação e da justificação pela fé só, confirmada e corroborada por modos inventados de conjungí-las com as boas obras e, daí, a recepção na doutrina. Diz-se que o dogma a respeito da salvação e da justificação pela fé, só, é confirmado e corroborado pelos modos inventados de sua conjunção comas boas obras, mas entende-se que esse dogma não é de modo algum confirmado e corroborado por eles, pois este se entende pelo ‘dragão’, e a sua confirmação pelos raciocínios do homem natural é interpretado por essa ‘besta’, e pelo ‘dragão’ e sua ‘besta’ é significado algo que discorda da Palavra e não pode ser conjunto. [2] Para que se evidencia que não pode ser conjunto vou aqui demonstrar que a fé, só, nunca pode produzir bem algum, ou que dá fé, só, nenhum fruto pode existir. Imagina-se que a fé é crer que o Senhor sofreu a cruz por nossos pecados e por esse meio nos redimiu do inferno, e que é principalmente a fé disso que justifica e salva. E, além disso, que a fé é crer que há um Deus Triuno, crer nas coisas que estão na Palavra, crer na vida eterna e na ressurreição no dia do juízo final e as demais coisas que a igreja ensina. E visto que separam da fé a vida de caridade, que é fazer os bens, a maioria das pessoas hoje pensa que pensar em tais coisas e falar delas é a fé que salva, pelo que em nada atentam para querê-las e fazê-las. De fato, sequer sabem o que é que devem querer e fazer. Essas coisas a igreja não ensina, porque a doutrina da igreja é a doutrina da fé só, e não a doutrina de vida. “A doutrina de vida chamam de teologia moral, à qual vilipendiam, porque creem que as virtudes da vida moral, que são em si as boas obras, em nada contribuem para a salvação. [3] Que, porém, saber, pensar e falar as coisas que foram citadas acima não seja a fé, e, se são chamadas fé, não produzem, entretanto, as boas obras, como a árvore o fruto, pode-se ver pelo seguinte. (1.) Todas as coisas que o homem sabe, pensa e fala, quando as entende, ele as chama de veros; e todas as coisas que quer e faz, quando as ama, chama de bens. Assim, os veros pertencem à fé do homem, e os bens pertencem ao seu amor. Por aí é evidente que os veros que pertencem à fé são distintos dos que bens que pertencem ao amor, assim como saber e pensar são distintos de querer e fazer. Que sejam distintos, e em que medida, o homem poder saber pelo fato de que pode saber muitas coisas, pensar e falar nela, e mesmo entendê-las, as quais, porém, ele não quer nem faz, porque não as ama. E, vice versa, cada coisa que o homem e faz pelo amar, isso ele pensa e fala pela fé, se não diante do mundo, pelo menos em si, quando está só e entregue a si mesmo. [4] Disto se segue (2.) que o amor e a vontade do homem entram em todas as coisas da fé e de seu pensamento, mas a fé e o pensamento não podem entrar em seu amor e vontade, pois aquilo que o homem ama, isto também ele ama fazer, ama saber, ama pensar, ama falar e ama entender, como também ama ter nisso sua fé. Semelhantemente, se em lugar do amor se toma a vontade, aquilo que o homem ama, isto ele quer e isto também quer fazer, quer querer, quer pensar, quer falar, quer entender, como também quer nisso sua fé. A razão disso é que o mesmo que se diz da vontade diz-se do amor, porque o amor pertence à vontade, e a vontade é o receptáculo do amor. Daí se segue agora que o amor produz a fé, assim como a vontade produz o pensamento. Visto que a fé é produzida, tal como o pensamento, e o amor produz, tal como a vontade, segue-se que é uma inversão dizer que a fé produz o amor. Por aí se pode ver pela primeira vez que é contra a ordem acreditar que a fé produz os bens, que se chamam boas obras, assim como a árvore produz o fruto. [5] (3.) Coisas semelhantes às que foram ditas a respeito da fé e do amor também devem ser entendidas a respeito do vero e do bem, pois o vero pertence à fé e a fé ao vero, pois o homem chama de vero aquilo que ele crê; e o bem pertence ao amor e o amor ao bem, pois o homem chama bem aquilo que ele ama. O vero, considerado em si mesmo, não é outra coisa senão o bem na forma, pois o bem pode se apresentar para que seja sentido, mas não para ser visto a não ser em alguma forma, e a forma em que se apresenta para ser visto no pensamento, assim, no entendimento e na percepção, chama-se vero. Disto também se segue que o amor produz a fé, assim como o bem produz o vero; por conseguinte, que a fé não produz o bem do amor, como a árvore o fruto. [6] (4.) Além disso, saber e, daí, pensar e falar, vêm da memória, mas querer e fazer pelo amor vêm da vida. O homem pode pensar e falar pela memória muitas coisas que não são de sua vida, que é o amor. Isto pode todo hipócrita e bajulador, mas, deixado a si mesmo, na pode pensar e falar pela vida que não seja de seu amor, porquanto o amor é a vida de cada um, e qual é o amor, tal é a vida. A memória, porém, é apenas um depósito do qual a vida tira as coisas que pensa e fala, as quais servem de nutrição à vida. Por isso, dizer que a fé produz boas obras assim como a árvore produz frutos é dizer que o pensamento e a linguagem do homem produzem a sua vida, e não a vida que os produz, quando, todavia, os meus, mesmo os piores, podem pensar e falar os veros pela memória, mas somente os bons o podem pela vida. [7] (5.) Que a fé, só, ou a fé separada do bem no ato, que são as boas obras, não seja possível, pode-se ver pela essência da fé, que é a caridade, e a caridade é a afeição de fazer as coisas que são da fé; por isso, a fé sem a caridade é como o pensamento sem a afeição, e o pensamento sem a afeição é um pensamento nulo, assim como a fé sem a caridade. Portanto, dizer fé sem caridade é dizer pensamento sem afeição e, também, vida sem alma, existir sem ser, forma sem o formante, produto sem o produtor e efeito sem causa. Por isso, a fé só é o que não é [non ens], e pelo que não é produzir os bens no ato, que são as boas obras, como a árvore produz bons frutos, é uma contradição, pela qual aquilo que se crê ser alguma coisa não é coisa alguma. [8] (6.) Como a fé sem a caridade não é possível e, todavia, o pensamento e a persuasão de que é assim parecem como se fossem a fé, e também se chamam fé, ela não é a fé salvífica, mas a fé histórica, porque vem da boca de outrem. Com efeito, quem crê por algum outro que considera de fé e recebe isso, encerra-o na memória e daí pensa e fala, sem ver se é um falso ou um vero, tem isso não diferente de algo histórico. Se, todavia, o confirma em si pelas aparências da Palavra e pelos raciocínios, isso se transforma, para ele, de fé histórica numa fé persuasiva, fé essa que é semelhante à visão da coruja, que vê os objetos nas trevas e não na luz. Essa fé persuasiva nasce de toda confirmação do falso, pois todo falso pode ser confirmado a ponto de parecer um vero, e o falso confirma brilha com um lume fátuo. Por isso é também evidente que tal fé não pode produzir bens. [9] (7.) Visto que a fé persuasiva não é outra coisa senão a fé histórica ou persuasiva, segue-se que é uma fé meramente natural, pois a fé espiritual é produza pelo amor espiritual, que é a caridade, assim como a luz vinda do sol; e ela não produz o amor, assim como a luz não produz o sol. Por isso a fé meramente natural é produzida pelo amor meramente natural, que deriva sua alma do amor de si, amor cujo prazer é o amor da carne que se chama volúpia, cobiça e lascívia, de que brotam males de todo gênero e, dos males, falsos. Daí se pode ver que a fé procedente disso não pode produzir os bens, como uma árvore produz frutos bons, e, se produz alguma coisa, são bens do proprium do homem, que em si são males e, ao mesmo tempo, bens meritórios, que em si são iníquos. É diferente com o vero da fé espiritual, de que se trata no artigo agora seguinte.