. “E adoraram a besta”. Que isto signifique o reconhecimento dos raciocínios, pelos quais a discordância com a Palavra foi aparentemente afastada, pode-se ver pela significação de ‘adorar’, que é reconhecer como certo e daí adorar como Divino (como logo acima, n. 789); e pela significação de ‘besta’, que são os raciocínios do homem natural que confirmam a separação entre a fé e a vida (de que se tratou acima, n. 774). E como essa besta foi vista tendo sete cabeças e dez chifres, e, além disso, semelhante ao leopardo quanto ao corpo, ao urso quanto aos pés e ao leão quanto à boca, e por estes várias coisas são significadas, por isso elas são também significadas juntamente pela ‘besta’, pois por causa delas a adoraram. [2] Uma vez que no artigo logo acima tratou-se do fato de que a fé só, ou separada da caridade, não pode produzir os bens da vida, como a árvore produz os frutos, importa agora dizer de que maneira é adquirida a fé espiritual, que é a fé oriunda da caridade. Mas, como o erudito do mundo até o presente não soube o que é e como é o espiritual em sua essência, e de que modo se distingue do natural, por isso não pode tampouco saber o que é a fé espiritual e de que modo ela é distinta da fé natural. E, no entanto, a fé natural, sem a fé espiritual de que proceda, não é fé alguma, mas somente um conhecimento e, daí, um pensamento de que assim é; e, se é chamada fé, é a fé histórica que, quando confirmada, é a fé persuasiva; essas duas são a fé natural, e a fé meramente natural não salva, mas a fé espiritual. Por isso se dirá agora, na sequência, de que maneira a fé espiritual é formada pelo Senhor. É sabido no mundo que há o homem natural e o homem espiritual, e que o homem natural é mundano e o homem espiritual, celeste. Mas não se sabe o que é a fé espiritual e de que maneira ela difere da fé espiritual. [3] Por isso cumpre saber: (1.) Que cada homem tem duas mentes, uma natural e a outra espiritual; e como é a mente que quer e pensa, cada homem também vontade e pensamento naturais e vontade e pensamento espirituais. A mente natural quer e pensa como homem no mundo, mas a mente natural quer e pensa como anjo no céu. Segue-se daí que a fé, por estar no homem, é, também, natural e espiritual, e que a fé natural é segundo a vontade e o pensamento do homem no mundo, e a fé espiritual é segundo a sua vontade e o seu pensamento no céu. Dizem-se vontade e pensamento porque todas as coisas pelas quais o homem é homem se referem a esses dois, pois pela vontade ele faz e pelo pensamento fala. E como o homem faz e fala ou por si ou por Deus, por isso ele quer e pensa ou por si ou por Deus. Por esse primeiro ponto fica claro que existem a fé natural e a fé espiritual, e que a fé natural sem a espiritual é pensar por si mesmo nas coisas tais que estão na Palavra, e a fé natural oriunda da espiritual é pensar por Deus nas coisas tais que estão na Palavra, ainda que isso pareça ao homem como se fosse por si. [4] (2.) Uma vez que cada homem tem duas mentes, a natural e a espiritual, e mente natural é aberta e formada pelas coisas que há no mundo, enquanto a mente espiritual é aberta e formada pelas coisas que há no céu, e visto que as coisas que há no céu são todas espirituais, por isso é necessário que a mente espiritual do homem seja aberta e formada pelas coisas que há na Palavra, onde todas as coisas são espirituais, porque são Divinas. Na Palavra há veros que devem ser conhecidos e nos quais se deve pensar, e há bens que se devem querer e fazer; assim, por estes e aqueles é abeta e formada a mente espiritual do homem. Disto se segue que, se essa mente não for formada pelos veros e bens da Palavra ela permanece fechada; e, estado esta fechada, a mente natural somente é aberta e formada pelas coisas que há no mundo, pelas quais o homem até tem o lume natural, mas tal que nada sabe a do céu. Por esse segundo ponto fica claro que a fé não é fé enquanto apenas a mente natural foi aberta, mas se se chama fé ao pensamento de que algo assim é, ela é uma fé histórica, que não é outra coisa senão o conhecimento, pelo qual o homem natural pensa. [5] (3.) Para que a mente espiritual seja aberta e formada é necessário que ela tenha um depósito do qual tome [aquilo que lhe convém], pois a menos que tenha esse, o homem está vazio, e a operação Divina não é possível no vazio. Esse depósito está no homem natural e sua memória, na qual se encerra tudo o que é conhecível, e daí é tomado. Para a formação do homem espiritual, nesse depósito devem estar os veros que devem ser cridos e os bens que devem ser feitos, uns e outros oriundos da Palavra, da doutrina e da pregação da Palavra. Estes o homem aprende desde a infância. Contudo, todas essas coisas, por mais abundantes que sejam, mesmo provindo da Palavra, são naturais antes de a mente espiritual ser aberta, pois são somente conhecimento [scientia]. É o pensamento a partir desse depósito que é chamado de fé por aqueles que fazem separação entre a fé e as boas obras na doutrina e na vida. [6] (4.) A mente espiritual é aberta, em primeiro lugar, pelo fato de o homem se abster de fazer os males porque são contra os preceitos Divinos na Palavra. Se o homem se abstém dos males por outro temor que não seja esse, essa mente não é aberta. Há várias razões pelas quais a mente espiritual é aberta por esse meio: a primeira, que no homem os males devem ser removidos primeiro, antes que se lhe possa dar comunicação e conjunção com o céu, porque os males, que estão todos no homem natural, mantêm o céu fechado, e este deve, todavia, ser aberto, porque de outro modo o homem permanece natural. A segunda razão é porque a Palavra vem do Senhor e, assim, Ele está na Palavra, a ponto de Ele ser a Palavra. Com efeito, a Palavra é o Divino Vero, que é todo procedente do Senhor. Disto se segue que, quem se abstém de fazer os males porque são pecados contra os preceitos Divinos na Palavra, abstém-se deles pelo Senhor. A terceira razão é que quanto mais os males são removidos, mais os bens entram. Que isto seja assim o homem pode ver pelo lume natural somente, pois quando é removida a lascívia, a castidade entra; removida a intemperança, entra a temperança; removido o ódio, entra a sinceridade; removidos o ódio e o prazer da vingança, entram o amor e o prazer do amor e da amizade; e assim quanto aos restantes, e isto pelo fato de que o Senhor entra e, com Ele, o céu, na proporção que o homem se abstém pela Palavra de fazer os males, pois então se abstém deles pelo Senhor. [7] (5.) Exemplos ilustrarão, porém, este assunto. Sejam como exemplos estes quatro preceitos do Decálogo: “Não adulterarás”; “não roubarás”; “não matarás”; “não dirás falso testemunho”, os quais são preceitos Divinos, porque estão na Palavra. Quem foge do adultério e tem aversão a isto pelo temor de que é contra o Senhor, contra o céu e conta a vida espiritual segundo a qual há a felicidade eterna, esse ama a castidade e ama o cônjuge, porque o amor verdadeiramente conjugal é a castidade mesma. Quem foge do roubo e tem aversão a isto pelo mesmo temor de que foge do adultério, esse ama a sinceridade e ama o bem do próximo como se fosse o seu bem. Quem foge do assassinato ou do ódio mortal e tem aversão a isto por semelhante temor, esse ama o próximo e está na caridade. Quem foge dos falsos testemunhos por semelhante temor, esse ama a justiça e ama a verdade, e isto pelo Senhor, porque o faz pela Palavra. Por isso, após a morte, quando se torna espírito, ele é semelhante ao anjo do céu, e por isso se torna um anjo do céu. Quem, todavia, não foge do adultério por esse temor santo, mas pelo temor da reputação e, daí, da perda da honra e do ganho, ou pelo temor da lei, ou pelo temor de doenças, ou por uma fraqueza do corpo, esse é, não obstante, incasto, porque teme somente o mundo e a perda de suas vantagens no mundo, e não teme o Senhor e, daí, tampouco teme a perda do céu e da vida eterna. Semelhantemente, o que se abstém dos roubos, dos homicídios ou dos ódios mortais, e dos falsos testemunhos somente pelo temor natural e não pelo temor espiritual, esse se abstém deles por si e não pelo Senhor; e o que o faz por si permanece neles, e deles ninguém pode ser tirado senão pelo Senhor. Por aí se pode ver que a mente espiritual no homem é aberta pelo fato de ele se abster pela Palavra de fazer os males, e que ela á aberta no grau em que se abstém, fugindo deles e tendo aversão a esses males. [8] (6.) Essas coisas são a respeito da abertura da mente espiritual. Agora se dirá a respeito de sua formação. A mente espiritual é formada pelas coisas que estão na memória do homem oriundas da Palavra, memória que é um depósito, a cujo respeito se disse acima. Mas essas coisas são elevadas daí desta maneira: Primeiro, é dada ao homem a afeição do vero, que é chamada afeição do vero espiritual, que consiste em que o homem ame o vero porque é um vero. Que essa afeição do vero então lhe seja dada é porque, sendo removidos os males, o homem está no bem pelo Senhor, e o bem ama o vero e o vero ama o bem, e ambos querem ser conjuntos. Essa afeição é dada somente pelo Senhor, porque o Senhor no céu é o Divino Vero. E é dada pela Palavra, porque o Senhor na igreja é a Palavra. Segundo, as coisas da Palavra que estão no homem no depósito acima citado são aperfeiçoadas e purificadas pelo Senhor, e os veros genuínos são aí separados e discriminados dos falsos, pois a mente espiritual do homem não pode ser formada senão pelos veros genuínos, porquanto o céu não está em outros. Terceiro, esses veros são elevados pelo Senhor de um modo admirável e se tornam espirituais, o que se faz pelo influxo do céu e, daí, dos espirituais correspondentes aos naturais. Esses veros são aí dispostos numa forma celeste (qual é essa forma pode-se ver na obra O Céu e o Inferno, n. 200-212). Quarto, os veros elevados na mente espiritual não estão, todavia, numa forma natural, mas numa espiritual. Os veros numa forma espiritual são tais os que estão no sentido espiritual da Palavra, mas os veros numa forma natural são tais os que estão no sentido natural da Palavra. Que eles sejam distintos e, no entanto, façam um pelas correspondências, foi ilustrado na obra O Céu e o Inferno (n. 87-115). Daí é que o homem, após a morte, quando se torna espírito e sua mente espiritual se abre, não mais pensa e fala naturalmente, mas espiritualmente. Quinto: enquanto vive no mundo, o homem ignora completamente o que pensa na mente espiritual, mas somente o que pensa por ela na natural. Depois da morte, porém, o estado se muda, e então ele pensa pela mente espiritual e não pela natural. Essas coisas são a respeito da abertura da mente espiritual e de sua formação. [9] (7.) Quando a mente espiritual do homem foi aberta e formada, então o Senhor forma a mente natural, pois a mente natural do homem é formada pelo Senhor por meio da mente espiritual. A razão disso é que a mente espiritual do homem está no céu e a sua mente natural está no mundo, pois a mente natural não pode ser formada segundo a ideia de coisas tais que há no céu senão pelo céu, e não antes se fazer a comunicação e a conjunção com o céu. A formação se paz pelo Senhor por meio do influxo da mente espiritual na natural, pelo são dispostas as coisas que estão na mente natural, para que correspondam àquelas que estão na espiritual (desse correspondência tratou-se em muitas passagens nos Arcanos Celestes e, também, na obra O Céu e o Inferno). As coisas da mentes espiritual que estão na natural são chamadas veros racionais, veros morais, veros naturais e, em geral, veros dos conhecimentos; e os bens da mente natural que estão na natural são chamados afeições e desejos por esses veros e, por eles, para pensar neles, falar deles e fazê-los, e, em geral, são chamados usos. Todas essas coisas que da mente espiritual estão na natural vêm sob a intuição e à percepção do homem. [10] (8.) Cumpre saber que essa formação de ambas as mentes no homem dura desde a sua infância até a sua velhice e, depois, na eternidade; às vezes, da meia idade do homem até a sua última ide e, em seguida, na eternidade, mas diferentemente após a vida no mundo e na vida no mundo; e conforme o homem é formado também aperfeiçoado em inteligência e sabedoria, e se torna homem, pois o homem não é homem pela mente natural; por essa mente ele é, antes, uma besta, mas se torna homem pela inteligência e pela sabedoria oriundas do Senhor, e quanto mais sábio e inteligência é, mais é um homem belo e um anjo do céu. Todavia, quanto mais ele sufoca e perverte os veros e bens da Palavra, assim, do céu e da igreja, e daí recusa a inteligência e a sabedoria, mais é um monstro e não um homem, porque mais é um diabo. Por aí se pode ver que o homem não é homem pelos pais, mas pelo Senhor, do qual ele nasce e é criado de novo. Isto é, portanto, a regeneração e a nova criação. [11] (9.) Feitas essas premissas, dir-se-á agora alguma coisa a respeito da vontade e do entendimento do homem criado de novo ou regenerado pelo Senhor, e, em seguida, a respeito da caridade e da fé. No homem natural, a sua vontade é formada pelo Senhor por meio do influxo do calor do céu, pela mente espiritual. O calor do céu em sua essência é o Divino Bem procedente do Divino Amor do Senhor. Já o entendimento no homem natural é formado pelo Senhor por meio do influxo da luz do céu, pelo homem espiritual. A luz do céu em sua essência é o Divino Vero procedente do Divino Amor do Senhor. Daí se segue que a vontade é formada pelos bens, dos quais o homem tem amor e afeição, e o entendimento é formado pelos veros daí, pelos quais o homem tem inteligência e sabedoria. E como os veros não são outra coisa senão formas do bem, segue-se que o entendimento não é outra coisa senão a forma de sua vontade; não há outra diferença senão que o entendimento vê e a vontade sente. Daí é evidente que qual é a vontade do bem do homem, tal é o seu entendimento do vero; ou, o que é o mesmo, qual é o amor do homem, tal é a sua inteligência. Daí se vê que, embora a vontade e o entendimento sejam as duas faculdades da vida, elas agem, no entanto, como uma só, pelo que essas duas faculdades da vida são chamadas uma só mente. Essas coisas no homem natural. No homem espiritual também há vontade e entendimento, mas muito mais perfeitos, que também se chamam uma só mente; esta, portanto, é a mente espiritual, e aquela é a mente natural. Mas elas são assim no homem cuja mente espiritual foi aberta e formada; são, porém, completamente diferentes no homem cuja mente espiritual foi fechada e só a mente natural está aberta. [12] (10.) A mesma coisa que foi dita a respeito da vontade e do entendimento pode-se dizer a respeito da caridade e da fé, porque a vontade é o sujeito e o receptáculo da caridade, assim como é o sujeito e o receptáculo do bem, e o entendimento é o sujeito e o receptáculo da fé, porque é o sujeito e o receptáculo do vero. Com efeito, a caridade deriva do bem tudo o que é seu, e a fé deriva do vero tudo o que é seu, pelo que também se diz ‘bem da caridade’ e ‘vero da fé’. Daí se segue que a caridade e a fé agem como um só, tal como a vontade e o entendimento, e qual é a caridade, tal é a fé. Isto, porém, na mente natural. Na mente espiritual, porém, em lugar da caridade há o amor do bem, e em lugar da fé, a percepção do vero. [13] (11.) Que o amor espiritual, que é a caridade, produza a fé, pode-se ver unicamente por isso: que o homem, após a morte, então chamado espírito, não é outra coisa senão a afeição que é do amor, e o seu pensamento vem daí. Por isso todo o céu angélico foi ordenado em sociedades segundo as variedades das afeições, e cada um no céu, em qualquer sociedade que esteja, pensa por sua afeição. Daí é, pois, que a afeição, que é o amor, produz a fé, e uma fé tal como é a afeição, pois a fé não é outra coisa senão pensar que assim é em verdade. Pela afeição se entende o amor em seu contínuo. Mas o homem no mundo hoje ignora que seu pensamento seja proveniente da afeição e segunda esta. A razão disso é que ele vê seu pensamento, mas não a sua afeição, e como o pensamento é a sua afeição em forma visível, por isso ele não sabe senão que toda a mente do homem é o pensamento. Era diferente outrora, com os antigos onde havia as igrejas. Como eles sabiam que o amor produz todas as coisas do pensamento, por isso tinham como principal meio de salvação a caridade, que é a afeição de conhecer os veros, entendê-los, também querê-los e, assim, tornarem-se sábios. E como essa afeição faz um com a fé, eles ignoravam o que é a fé. [14] Por aí se pode ver não somente de que a modo a fé é formada no homem, mas, também, que a fé nunca pode produzir caridade, mas que a caridade, que é o amor espiritual, a forme à sua imagem e nela apresente uma imagem sua; e que daí é que a fé é conhecida qual é pela caridade e seu bem, que são as boas obras, assim como a árvore é conhecida qual é por seu fruto. Pela ‘árvore’, porém, não se entende a fé, mas entende-se o homem quanto à sua vida; por suas ‘folhas’ são significados os veros pelos quais há a fé; e por seus ‘frutos’ são significados os bens da vida, que são os bens da caridade. Além desses arcanos da formação da fé pelo Senhor por meio da caridade há inúmeros outros, mas todos esses arcanos é o Senhor quem opera, sem que o homem o saiba. O homem não tem necessidade de fazer outra coisa senão aprender os veros da Palavra e viver segundo eles.